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domingo, 18 de janeiro de 2026

Na Alma, Na Raça, No Heroísmo: Senegal Supera Marrocos E Arbitragem Para Reconquistar A Copa Africana De Nações

 Nesse dezeoito de janeiro de dois mil e vinte e seis, o futebol escreveu uma de suas páginas que entram no livro da eternidade.

 Os leitores "das antigas" devem até ter tomado um susto ao se deparar com essa publicação, afinal, a última postagem no presente blógui foi lá no ano de dois mil e vinte e três. A penúltima? Curiosamente, em dois mil e vinte e dois, justamente para falar do título inédito de Senegal naquela edição da Copa Africana de Nações. 

 Cá estamos de volta, com Senegal novamente a fazer história. E ouso dizer que a final de hoje, disputada com Marrocos em plena capital marroquina Rabat, reuniu ingredientes nunca antes catalogados nessa modalidade esportiva.

Que seria um bom jogo de futebol, já poderíamos prever. O talento de jogadores como Hakimi e Mané, além de se tratarem de duas equipes altamente competitivas, já davam o presságio de que viria partida interessante pela frente.

 Mas a realidade superou quaisquer expectativas. E concentrou a carga emotiva justamente no momento mais nevrálgico da decisão: os acréscimos do segundo tempo.

Acréscimos esses que foram longos devido principalmente a uma impactante lesão sofrida por Neil El Aynaoui, que rompeu um supercílio e, banhado pelo próprio sangue, foi enfaixado e trocou de camisa pelo menos duas vezes, pois o branco do uniforme da seleção marroquina foi sendo substituído pelo vermelho característico das hemoglobinas.

Perto do final da partida, no terceiro minuto dos acréscimos, Senegal abriria o placar em lance de cruzamento que terminou dentro da rede adversária. Só que a arbitragem preferiu anular o lance sob alegação de falta de Abdoulaye Seck, que cabeceara a bola na trave na origem do rebote. Um lance passível de marcação de falta, sim, mas que deixa dúvida se o empurrão não poderia ser interpretado como simulação por parte do defensor. Prevaleceu a decisão de campo, sem qualquer intervenção do VAR.

Ainda mais próximo do término regulamentar, o lance capital: Marrocos realiza um cruzamento de escanteio pelo lado esquerdo e a bola é interceptada pelo senegalês El Hadji Malick Diouf, que afastaria o perigo. Só que o que era verdadeiramente perigoso era a arbitragem: uma chamada do VAR sugeriu o que o árbitro não viu: pênalti em cima de Brahim Díaz.

Senhoras e senhores, estava preparado o palco da confusão. Após ver, rever, rever novamente e insistentemente ficar diante das imagens mostradas no monitor, o árbitro tomou a decisão de assinalar uma penalidade máxima daquelas que, se fossem criteriosamente marcadas, aumentariam a média de gols no esporte em pelo menos duzentos por cento.

A revolta tomou conta de toda a delegação de Senegal. Era como se eles percebessem que, superada a colonização francesa, estivessem sendo novamente roubados - só que dessa vez as bombas eram substituídas pelo apito. Particularmente, prefiro não crer que o árbitro seja uma pessoa desonesta ou mal-intencionada. Mas que sua forma de conduzir o jogo foi "caseira" (na pior acepção do termo), isso foi. 

 Revoltado - e com razão -, o técnico Papa Boua Thiaw teve a coragem de solicitar que seu time deixasse o gramado. Uma cena antológica por si só: estava se desenhando um desfecho de Copa Africana de Nações onde uma equipe abandona a partida em nome da dignidade de não aceitar calada a manifesta injustiça contra si cometida. Uma conduta que escreve um capítulo novo na história do futebol de seleções - e no último minuto da grande final continental!

Eis que, minutos mais tarde, câmeras flagram o camisa dez Sadio Mané pedindo que sua seleção retornasse ao campo de jogo. E os senegaleses retornaram. O cenário que os esperava era simplesmente o da bola na marca de cal para selar o título de Marrocos dentro de casa. 

Quem estava na bola para cobrança era o camisa dez Brahim Díaz, habilidoso jogador do Real Madrid, que havia "sofrido" o pênalti.

Quem estava no gol era o camisa dezesseis Edouard Mendy, que carrega em seu currículo uma CAN com Senegal e uma UCL com o Chelsea.

Sinceramente? Eu teria vergonha de bater aquele pênalti naquelas condições. Acharia mais decente chutar propositalmente a bola para fora e deixar que a prorrogação ou os pênaltis sacramentassem o campeão da África. Mas Brahim Díaz não tem o mesmo caráter que eu e a decisão dele foi partir para a bola e fazer tudo da forma mais cruel possível: converter o pênalti com uma humilhante cavadinha, tirando sarro da tragédia alheia.

Senhoras e senhores, faltou Brahim Díaz combinar com os deuses do futebol. O plano de humilhar o adversário ruiu e inverteu de sentido, em mesmo módulo, tal qual sugere a lei de ação e reação consagrada na Física newtoniana. Mendy agarrou a bola. E Senegal se agarrou ao sonho.

 O resto é prorrogação e história: com um golaço de Pape Gueye aos três minutos, os senegaleses abriram o placar de fato e de direito, sem qualquer anulação dessa vez. E se não emplacaram ainda um segundo gol foi porque o goleiro Bono realizou intervenções decisivas - uma delas particularmente milagrosa.

Senegal é pela segunda vez campeão da Copa Africana de Nações. E ensinou à África e ao mundo que a resistência que se faz na base da raça é capaz de reverter e transformar os mais adversos contextos que a vida seja capaz de impôr.

Um roteiro de absoluto cinema. Uma história para passar adiante. Uma noite para a eternidade em Rabat. 

Pape Gueye, autor do golaço que selou o 1a0, comemora debaixo de chuva com a bandeira senegalesa em Rabat. Foto: Abdel Majid Bizouat / AFP.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo B

Foi realizado anteontem o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Já fizemos uma análise referente ao grupo A. Vamos, agora, tratar do grupo B. É o grupo que vai proporcionar ao amante do futebol uma primeira rodada reunindo as melhores defesas da África e da Ásia e, ainda, o clássico ibérico (simplesmente os dois últimos campeões europeus).

Grupo B: Portugal, Espanha, Marrocos e Irã.

Portugal

Atual campeão europeu, o selecionado português fez uma eliminatória firme: venceu nove dos dez jogos disputados. Sua única derrota foi na primeira rodada, na Basiléia, para a Suíça, por 2a0. Resultado que foi devolvido na jornada derradeira, em Lisboa.

Portugal: 3ª no ranqueamento da FIFA.
Dos 32 gols anotados nas Eliminatórias Européias, 24 saíram da dupla Cristiano Ronaldo (vice-goleador no torneio, com 15 tentos) e André Silva (9 gols marcados). Mas a equipe de Fernando Santos oferece algo mais que esses dois decisivos jogadores. Principalmente no setor de meio-campo: o talento e a juventude de Bernardo Silva (23 anos) e João Mário (24) proporcionam uma transição eficiente ao ataque. A mobilidade e precisão de ambos permitirá mescladas táticas numa interação onde o próprio Cristiano poderia recuar e avançar para promover triangulações.

Na defesa, a experiência dos 34 anos de Pepe traz a certeza de muita combatividade e a dúvida se o ex-defensor do Real Madrid conseguirá manter um autocontrole psicológico para não desferir cenas tão rotineiras em sua carreira.

A partida inaugural dos lusitanos será o clássico ibérico diante da Espanha. São duas seleções que se encontraram nas oitavas-de-final na Copa do Mundo 2010. De lá para cá, entre as diversas mudanças que aconteceram, pelo menos uma coisa conserva similaridade: a rivalidade. Tem tudo para ser um grande jogo. Na seqüência, Portugal enfrenta Marrocos e Irã. Fernando Santos precisará preparar sua equipe para pelo menos dois cenários opostos: o de saber vigiar a posse de bola adversária (provável desenho diante dos espanhóis) e o de saber impôr seu jogo (tudo leva a crer que marroquinos e iranianos tratarão, prioritariamente, de se defender).

Espanha

Seleção outrora rotulada (injustamente) de "amarelona", a Espanha conquistou o respeito dos críticos (e até dos "modinhas") de 2008 para cá, reforçando suas qualidades com a inserção curricular de dois títulos continentais e um mundial. Hoje, mesmo após cair na fase de grupos em 2014, é tida como uma das favoritas ao título na Rússia. E não é por menos: Julen Lopetegui Argote vem se mostrando um ótimo sucessor dos trabalhos implementados e desenvolvidos por José Luis Aragones Suárez Martínez e Vicente del Bosque Junior. A filosofia do toque de bola permanece forte e com algumas adaptações que a colocam bastante encaixadas nas mudanças que o futebol trouxe - algumas dessas mudanças foram desencadeadas exatamente na busca por um antídoto ao imponente e vitorioso jogo espanhol.
Espanha: 6ª colocada no ranqueamento da FIFA.

A exitosa campanha de nove vitórias e um empate (1a1 com a Itália, em Torino) teve os impressionantes números de trinta e seis gols marcados e três concedidos - a Espanha goleou todos os adversários de sua chave pelo menos uma vez.

Isco, Diego Costa, Álvaro Morata e David Silva anotaram cinco gols cada, sendo que este último ainda contribuiu com quatro assistências. Mas o motor, o cérebro, o ponto de equilíbrio dessa seleção chama-se Andrés Iniesta. Aos 33 anos de idade, o exímio meio-campista lidera o Barcelona e a seleção espanhola com sua visão e distribuição de jogo singulares. Teve a felicidade de marcar o gol histórico na final da Copa do Mundo de 2014 e felicita o amante do futebol com sua presença dentro de campo. Para quem não viu Zidane, aproveite cada oportunidade de assistir Iniesta. Não sabemos quando aparecerá outro que faça-nos lembrar esses dois.

A estréia com Portugal, a segunda rodada diante do Irã e a terceira com o Marrocos serão testes dos mais interessantes para a Espanha, pois estará enfrentando três seleções com ótimos números defensivos, cada qual em seu respectivo continente.

Marrocos

Com a credencial de quem não sofreu um único gol na fase final nas Eliminatórias Africanas, a seleção marroquina tem em sua defesa o que pode ser a chave para surpreender nesse grupo B. Nem a Costa do Marfim de Gervinho, nem o Gabão de Aubameyang, nem muito menos a seleção de Mali conseguiu vazá-los. Marrocos chegou ao Mundial com três vitórias e três empates (leia-se 0a0), com onze gols marcados - quatro deles por Khalid Boutaïb, atacante nascido na França que recentemente trocou o futebol francês pelo turco.

Marrocos: 40ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Para servir Boutaïb em particular e os marroquinos em geral estão Nordin Amrabat (atacante do espanhol Leganes) e Mbark Boussoufa (meio-campista holandês de nascimento e que atua no futebol dos Emirados Árabes Unidos) - cada um deles deu três assistências e participaram, portanto, de mais da metade dos gols de Marrocos na fase final.

Mas como explicar tamanho sucesso - principalmente defensivo - da equipe comandada pelo francês Hervé Renard? Um bom exemplo é olhar para o desenho tático na partida decisiva diante da Costa do Marfim de Marc Wilmots, vencida pelos visitantes por 2a0 e tendo permitido que os Elefantes acertassem somente um chute na direção do gol defendido por Munir. Nessa partida, cujos gols foram anotados pelo lateral-direito Dirar e pelo zagueiro Benatia, foi montado um 4-3-3 que espelhava a formação oponente. Hakim Ziyech, meio-campista nascido na Holanda 24 anos atrás, atuou pelo lado direito do ataque mesmo sendo canhoto, similar ao que a Holanda costuma fazer com Arjen Robben. Inclusive, foi dele o passe para o primeiro gol. Auxiliando por aquele setor, o "garçom" Boussoufa (assistente no lance do segundo gol), que coincidentemente é seu compatriota tanto de nascimento quanto de naturalização. Juntos, criaram duas oportunidades e finalizaram quatro vezes. No flanco oposto, Amrabat e Belhanda contribuíram com um total de sete desarmes no jogo, ajudando a conter as investidas de Aurier, Fofana, Cornet e Zaha.

Se esse sistema vai ser repetido e se vai funcionar diante de Irã, Portugal e Espanha, é preciso aguardar. O desempenho da equipe na Copa das Nações Africanas, que começa em janeiro e tem Marrocos no grupo A (com Mauritânia, Guiné e Sudão) poderá esboçar o que será da seleção de Renard na Rússia. Independentemente disso, é prudente, no mínimo, respeitá-los.

Irã

E por falar em defesas... A seleção iraniana "sobrou" nas Eliminatórias Asiáticas. Liderou com folga e garantiu antecipadamente uma vaga no Mundial 2018, mesmo dividindo grupo com a tradicional Coréia do Sul, que teve de se contentar com o segundo lugar. A campanha invicta iraniana foi de seis vitórias e quatro empates, com dez gols marcados e dois concedidos. Mas um detalhe: esses dois gols aconteceram na última rodada, diante da valente Síria, quando o Irã já era inalcançável na liderança.

Irã: 32ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Na campanha, Sardar Azmoun, atacante de 22 anos que conhece de perto o futebol russo (atua no Rubin Kazan e já vestiu também a camisa do Rostov), foi o goleador da equipe, com quatro gols anotados. Inclua-se aí o gol único na vitória por 1a0 sobre a Coréia do Sul, em Teerã, em 11.10.2016. Outro acostumado a balançar as redes é Mehdi Taremi, atacante do Persepolis que marcou três vezes nas Eliminatórias e "escolheu" momentos decisivos para deixar sua contribuição: na vitória por 1a0 sobre o Catar, fora de casa, e no triunfo sobre a China, também com gol solitário (além de sacramentar os três pontos com o segundo gol nos 2a0 sobre o Uzbequistão). Liderando as assistências quem aparece é o experiente Masoud Shojaei Soleimani, que aos 33 anos atua no grego Panionios, após passagens pela liga do Catar e pelo futebol espanhol, onde atuou por longa data no Osasuña antes de ir para o Las Palmas.

Em amistoso realizado com a Rússia, em outubro, Azmoun marcou o gol que abriu o placar em Kazan após assistência de Taremi. O jogo terminou 1a1 e, nessa oportunidade, Soleimani não foi relacionado pelo professor português Carlos Queiroz, moçambicano de nascimento e que já dirigiu os galácticos do Real Madrid e também a seleção portuguesa. Se contra a Rússia o esquema adotado foi o 4-1-4-1, é muito provável que os esquemas diante de espanhóis e portugueses esbanjem cautela. Mas, antes de enfrentá-los, há o jogo-chave diante de Marrocos. Se seguir essa linha sem buscar uma alternativa, temos aí um confronto condenado ao 0a0...

domingo, 27 de janeiro de 2013

Copa Africana De Emoções

Feito o desafio: procure um esporte no mundo, qualquer modalidade que seja, que proporcione mais emoções do que o futebol é capaz.

Hoje, o grupo A na Copa Africana de Nações 2013 justificou isso posto no parágrafo acima. Que desfecho sensacional na chave! Alternâncias na liderança, na dupla de classificados, no choro, na alegria, na lágrima que vem pelo êxtase e que se exala pela frustração. Futebol, você é unico!

Ao mesmo tempo em que Marrocos e África do Sul duelavam em Durban, Cabo Verde e Angola faziam encontro de língua portuguesa na cidade de Porto Elizabeth, extremo sul no continente africano. Aí você pergunta: "tá, e o que de tão interessante poderia sair daí?". Resposta: "tudo". E mais um pouco.

Numa partida bastante movimentada dentro de campo e barulhenta fora dela, sul-africanos, com as bênçãos da torcida vuvuzelante, e marroquinos, fora de casa mas bastante à vontade no gramado, travaram jogo de muitas oportunidades de gol. Marrocos abriu o placar aos nove minutos, quando El Adoua aproveitou cobrança de escanteio de Barrada e indecisão do goleiro Khune para cabecear pra rede. Mas quem ousaria criticar Khune? Ele já havia evitado outro gol adversário minutos antes, barrando tentativa de toque de cobertura de Barrada. Mais tarde, nova intervenção salvadora, dessa vez evitando o que seria um gol de El-Arabi, tendo inclusive abandonado a área para agir como se fosse um líbero.

A África do Sul também teve algumas aproximações do gol, mas não apresentava organização o bastante para ter um volume de jogo capaz de manter Marrocos sob pressão. Mas dos males o menor, pois Angola vencia Cabo Verde por 1a0, placar que colocava, nos intervalos de partidas, Marrocos e África do Sul, nessa ordem, como seleções classificadas. Só que o povo sul-africano em Durban queria festejar com a sua seleção mais do que com o resultado alheio. E pôde festejar aos vinte e cinco minutos do segundo tempo: Rantie deu o passe e Mahlangu, esbanjando categoria, colocou a bola na gaveta esquerda, fazendo do goleiro Lamyaghri mero espectador no lindo lance. Igualdade no placar que fazia os sul-africanos assumirem a liderança na chave, dando aos angolanos o segundo lugar no grupo.

Só que o mundo é dinâmico e o futebol mais ainda. Cabo Verde empatava a partida em Porto Elizabeth, recolocando Marrocos entre os classificados e trazendo Angola para a eliminação conjunta das antigas colônias lusitanas. E a situação marroquina ficou melhor do que nunca aos trinta e seis minutos do segundo tempo, pouco depois do gol cabo-verdiano: Hafidi, que entrou no segundo tempo no lugar de Kaddioui, recebeu cruzamento de Bergdich em liberdade dentro da área. Mais precisamente, dominou a bola na região onde fica a marca do pênalti. E não desperdiçou, recolocando Marrocos em vantagem no placar e na liderança na chave A. Foi linda de ver a imagem do treinador Rachid Taoussi se ajoelhando e beijando o solo, em reverência a Alah - ou seria aos deuses do futebol?

A apreensão passou toda ela para os jogadores - e torcedores - da África do Sul. Com a derrota aqui e o empate lá, bastaria um gol de Cabo Verde para eliminar os anfitriões. De eliminação na primeira fase jogando em casa, bastava aquela no grupo A na Copa do Mundo de 2010, não é verdade? Então, aos quarenta e um minutos, Durban explodiu em alegria: Mahlangu dividiu com a defesa marroquina e a bola chegou limpa até Sangweni, que descolou finalização parecida com a do autor da assistência, chutando cruzado no canto esquerdo, só que rasteiro em vez de pelo alto. Era a África do Sul mais uma vez alcançando o empate e retomando a liderança no grupo.

Só que a maior emoção na rodada estava guardada para os acréscimos. Em Porto Elizabeth, Cabo Verde virou o jogo diante de Angola, assumindo a vice-liderança na chave e ultrapassando Marrocos. Em Durban, o 2a2 se manteve, ratificando a primeira colocação para o país-sede. As vuvuzelas ressoaram e, tenho certeza, a população sul-africana está em festa até agora. Assim como festeja cada um dos quinhentos mil habitantes cabo-verdianos, que em plena primeira participação na Copa da África, arranca uma classificação digna dos grandes heróis. Isso é a vida. Isso é o futebol.
Heldon comemora o gol marcado nos acréscimos: Cabo Verde venceu Angola de virada e avançou às quartas-de-final na Copa Africana de Nações em sua primeira participação no torneio.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Cabo Verde E Marrocos Alternam Domínio E Empatam: 1a1


Fortes emoções à vista pelo grupo A na Copa Africana de Nações 2013. Concluída a segunda rodada, a África do Sul lidera com quatro pontos, seguida por Cabo Verde e Marrocos (ambos com dois pontos, um gol pró e um gol contra, isto é, com campanhas idênticas). Até a lanterna Angola (um ponto) irá para a última rodada dependendo apenas de si para se classificar. Os jogos serão entre África do Sul e Marrocos (sul-africanos a um empate da vaga) e Cabo Verde e Angola.

Hoje, a África do Sul venceu Angola por 2a0. Mais tarde, Marrocos e Cabo Verde terminaram empatados por 1a1. E é dessa partida que vamos falar um pouco mais agora.

Primeiramente, há que se dizer que jamais havia visto Cabo Verde jogar. Pra ser sincero, sequer sabia que o arquipélago colonizado pelos portugueses tinha uma seleção de futebol. Não apenas tem como fez belo primeiro tempo na cidade de Durban. Jogadores como Ryan Mendes e Platini tiveram atuação digna de elogios, por muitas vezes ditando o ritmo do jogo e envolvendo a defesa marroquina com tabelas e jogadas individuais.

Não poderia ter sido com personagens melhores que o placar fosse inaugurado: aos 35 minutos, Mendes fez o passe sob medida e Platini, com cavadinha categórica, encobriu o goleiro Nadir Lamyaghri. 1a0. Aliás, se não fosse o arqueiro do Marrocos, a essa altura já poderíamos estar falando do segundo ou terceiro gol cabo-verdiano.

No segundo tempo, porém, as coisas mudaram. E mudaram mesmo. O jogo, que já era faltoso antes do intervalo, ficou ainda mais violento no retorno. Talvez o maior responsável tenha sido o árbitro Janny Sikazwe, de Zâmbia. Para se ter uma idéia, nem quando Youssef El-Arabi colocou a sola da chuteira no rosto de Fernando Neves, houve expulsão. Para o árbitro, lance de amarelo. Uma vergonha. E não foi a única entrada estúpida, pelo contrário.

Com o avançar dos minutos, Marrocos foi crescendo em campo - tanto em rispidez quanto principalmente em volume de jogo. As mexidas de Lúcio Antunes em Cabo Verde recuaram demais o time, que ficou visivelmente enfraquecido nas ausências de Platini e Mendes. O que não sei é se Antunes os tirou de campo numa postura defensivista ou protecionista, pois a impressão que dava é que a qualquer momento poderia pintar alguma lesão.

O fato é que Marrocos chegou ao empate. Aos trinta e dois minutos, El-Arabi (aquele mesmo da solada no rosto), recebeu na área e mostrou porque veste a camisa nove de sua seleção, chutando rasteiro e estufando a rede. Dessa vez, não deu para Vozinha. Vozinha, goleiro de Cabo Verde, que havia realizado algumas boas defesas até aquele momento. Não me perguntem de onde veio o apelido, mas é assim que chamam o goleiro de Cabo Verde: Vozinha.

Com dois gols, 55 faltas e nenhum gravemente ferido, terminou o jogo entre Marrocos e Cabo Verde. Ambos estão a uma vitória da fase quartas-de-final. Se conseguirem, na última rodada, fazer em noventa minutos o que fizeram cada um numa metade de jogo, têm grandes chances de classificação. Mas por favor, confederação africana de futebol, não deixe de dar um cartão para o árbitro dessa partida. Acho que é caso de vermelho.

Ah! Uma coisa legal é que, enquanto o blogueiro narrava/comentava pelo Tuíter, acabou rolando uma espécie de profecia. Veja na imagem abaixo, com as tuitadas dos respectivos gols e, imediatamente abaixo de cada quadro, a "previsão". Merece um daqueles cartazes dizendo "Eu Já Sabia".