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quarta-feira, 7 de julho de 2021

Com Espanha Melhor No Jogo, Itália Arranca Classificação Nos Pênaltis

Wembley recebeu pela semifinal da Eurocopa 2020 um jogo que decidiu a Euro 2012. E se naquela oportunidade, em Kiev, a Espanha sapecou um quatro a zero sobre a Itália, dessa vez, em Londres, tivemos um confronto muito disputado e definido somente no desempate por pênaltis, com vitória italiana. 

No tempo regulamentar, os gols foram marcados por Federico Chiesa e Álvaro Morata, ambos no segundo tempo de jogo. Já nas penalidades, os espanhóis desperdiçaram duas cobranças enquanto os italianos deixaram de aproveitar somente uma, fechando a série em quatro a dois e garantindo presença na final - que também será disputada em Wembley.

Itália entra em campo praticamente idêntica à que enfrentou a Bélgica enquanto a Espanha surpreende com  Mikel Oyarzabal entre os titulares

A aparição de Emerson Palmieri na lateral-esquerda foi a única mudança em relação à Itália que iniciou a partida de quartas de final diante da Bélgica - Leonardo Spinazzola, titular na posição, rompeu o tendão de Aquiles no segundo tempo daquele jogo.

Já a Espanha fez três mudanças no comparativo dos onze iniciais que enfrentaram a Suíça na fase de quartas de final. Por questão física, Pablo Sarabia, que havia sido substituído no intervalo daquele jogo, deu lugar a Daniel Olmo, que foi exatamente quem substituiu Sarabia naquela ocasião. Por questões provavelmente de ordem técnica, Pau Torres deu lugar a Eric García (lembrando que Pau Torres foi um dos que falharam no lance do gol de Shaqiri). E, de forma surpreendente, numa escolha que me parece ser fundamentalmente tática, Álvaro Morata foi para o banco, promovendo a entrada de Oyarzabal. Embora Morata faça uma Eurocopa digna de questionamentos, ele vinha sendo sistematicamente conservado entre os titulares. Acredito que Luis Enrique optou pela mudança no ataque, principalmente, por levar em consideração o comportamento tático da seleção italiana - Oyarzabal se mostrava opção interessante para explorar a velocidade e a infiltração vindo mais de trás, se projetando ao espaço vazio ao invés de aguardar mais fixo na área, onde, em teoria, seria mais vulnerável à implacável marcação tanto de Giorgio Chiellini quando de Leonardo Bonucci.

Duas primeiras chances de gol no jogo são espanholas

Excluindo uma chegada italiana que parou na trave aos três - o lance teve apenas efeito moral, já que veio a ser invalidado por marcação de impedimento -, as duas primeiras chances de gol na partida foram da Espanha. Aos doze minutos, Pedri acionou Oyarzabal com ótimo passe rasteiro, mas o jogador recém-promovido aos titulares, em ótima condição para preparar a finalização, não conseguiu realizar o domínio de bola como gostaria e permitiu que Emerson fizesse a recuperação. Dois minutos depois, aos catorze, Ferran Torres driblou Jorginho e chutou à direita.

Espanha se impõe e Itália se limita a (tentar) contra-atacar

Com Sergio Busquets liderando o setor de meio de campo espanhol e Marco Verratti sobressaindo no lado italiano, as ações do jogo se concentravam entre as duas intermediárias. Aos vinte minutos, numa saída rápida da Azzurra, o goleiro Unai Simón deixou a área para intervir. Só que o ítalo-brasileiro Emerson chegou antes, tocou de lado e a defesa espanhola só conseguiu se recuperar no lance após a indecisão de Nicolo Barella.

Na marca de vinte e quatro minutos, tivemos a primeira boa defesa de um goleiro no jogo: Oyarzabal teve o chute travado, Dani Olmo pegou a sobra, foi bloqueado por Bonucci, pegou seu próprio rebote e chutou no canto direito, para defesa de Gianluigi Donnarumma.

Aos trinta e dois, uma nova tentativa de Olmo: ele carergou a bola observado por Chellini e chutou, dessa vez mandando por cima do travessão. Com trinta e oito no relógio, Pedri passou para Jordi Alba, que encontrou Oyarzabal - o chute do camisa vinte e um foi tão longe do gol que talvez os espanhóis pudessem começar a sentir saudade do Morata...

Embora o momento da Espanha fosse de flagrante superioridade, uma das maiores chances de tirar o zero no placar na etapa inicial foi italiana e aconteceu aos quarenta e quatro minutos: Lorenzo Insigne foi lançado pela esquerda e fez o passe na ultrapassagem de Emerson, que descolou chute no travessão.

Segundo tempo inicia confirmando cenário de antes do intervalo, com Espanha mantendo a iniciativa

Sem alterações, as seleções retornaram para a segunda etapa. E a Espanha se manteve no ataque. Aos quatro minutos, Daniel Olmo cruzou da direita e Giovanni Di Lorenzo foi providencial para cortar a bola quando um adversário vinha chegando às suas costas. Ao seis, Busquets recebeu de Oyarzabal e pegou de primeira, mandando a bola perto do travessão. No minuto seguinte, resposta italiana: em rara jogada envolvendo todo o trio de frente, Insigne passou para Ciro Immobile, que deixou com Chiesa, que trouxe para a perna direita diante da marcação de Alba e chutou cruzado, com Simón caindo para segurar à direita. Com doze minutos, Oyarzabal tentou de fora da área e Donnarumma fez a defesa.

Em contra-ataque, Itália marca o primeiro gol na semifinal

O ritmo do jogo era interessante, com a marcação alta italiana tentando recuperar a bola em posição mais avançada possível, enquanto a Espanha procurava verticalizar a troca de passes, visando encontrar os espaços vazios. Aos catorze, porém, quem tratou de encontrar tais espaços vazios foi a Itália. Em rápido contra-ataque iniciado com o goleiro Donnarumma, Immobile dividiu no ataque e a bola sobrou para Chiesa: esbanjando a objetividade que lhe é característica, o filho de Enrico tratou de imediatamente arrumar e chutar cruzado no canto esquerdo. Um a zero Itália, em jogada de aproximadamente quinze segundos desde a saída com Donnarumma até a finalização com Chiesa.

Federico Chiesa chuta cruzado e inaugura o marcador em Wembley. Foto: Facundo Arrizabalaga / Pool / AFP.
 

Equipes mexem no ataque e surgem chances para ambos os lados

Logo após o gol, tanto Roberto Mancini quanto Luis Enrique Martínez mexeram no ataque de suas equipes: na Itália, saiu Immobile para a entrada de Domenico Berardi; na Espanha, Morata entrou no lugar de Ferran Torres.

Aos dezenove minutos,uma chance clara de empate foi desperdiçada: Koke fez ótima enfiada de bola desmontando toda a defesa italiana e Oyarzabal, livre, leve, solto e de frente com Donnarumma, falhou na tentativa de cabeceio.

Aos vinte e um, nova participação de Oyarzabal: ele recebeu, fez a parede diante da marcação de Chiellini, rolou atrás e Dani Olmo chutou de primeira, mandando à esquerda.

No minuto seguinte, resposta da Itália: Chiesa recebeu pela direita, carregou e passou para Berardi, que ficou de frente com Simón, chutou rasteiro e viu o goleiro rebater com a perna.

Após novas alterações nas duas seleções, jogo volta a se agitar e Espanha empata

Com Gerard Moreno no lugar de Oyarzabal e Rodri no lugar de Koke, Luis Enrique procurava alternativas no setor ofensivo. Já Mancini, visando fortalecer a marcação na última linha, trocou Emerson por Rafael Tolói. Também tirou Verratti, colocando Massimo Pessina em seu lugar e renovando o fôlego na proteção à defesa.

Aos trinta e um minutos, Morata teve sua tentativa de cruzamento pela direita travada por Bonucci. Três minutos depois, após recuperação de bola no ataque, Berardi teve nova oportunidade, mas parou novamente em Simón, que segurou no lado direito. E, ainda aos trinta e quatro, saiu o gol de empate espanhol: em ótima tabela entre Morata e Olmo, o atacante tocou e recebeu de volta do meio-campista e, centralizado, nas costas da defesa, chutou com precisão no contrapé de Donnarumma, estufando a rede no canto direito. Um a um no placar, em jogada onde uma rápida tabela arruinou a última linha de defesa adversária.

Álvaro Morata comemora o gol de empate da Espanha diante da Itália. Imagem extraída de Bola Vip.
 

A Espanha ainda teve uma possibilidade de virar o jogo: aos trinta e oito, Morata levou a bola para a linha de fundo e rolou atrás para Moreno, que, da meia-lua, isolou.

No minuto posterior, um total de três substituições: na Itália, saíram Barella e Insigne para as entradas de Manuel Locatelli e Andrea Belotti; na Espanha, entrou Marcos Llorente no lugar de César Azpilicueta.

Prorrogação tem pequeno número de oportunidades de gol e jogo caminha para a decisão por pênaltis

Talvez por falta de gás, talvez por sobra de vantagem do sistema defensivo, talvez por um pouco de cada, o fato é que a prorrogação não teve lá grandes situações de gol. Mas, quando teve, foi espanhola. Aos sete minutos, Olmo cobrou falta da esquerda, Donnarumma rebateu, Morata chutou rasteiro e Cheillini conseguiu bloquear. Aos onze, Moreno levantou da direita e Donnarumma afastou em disputa com Morata e Bonucci.

Daí para a frente, nem as mexidas mudaram o panorama da partida. No intervalo, Luis Enrique trocou Busquets por Thiago Alcântara. Com um minuto no segundo tempo, Chiesa deu lugar Filippo Bernardeschi na Itália. E, aos três, Pau Torres entrou no lugar de Eric García na Espanha. Todas as seis mexidas autorizadas para cada conjunto foram usufruídas e, bastante alteradas em suas composições, as seleções definiriam a classificação nas penalidades.

Nos pênaltis, Locatelli e Olmo desperdiçam logo de cara. No final, Donnarumma pega a cobrança de Morata e Jorginho sela a classificação italiana.

Na primeira cobrança, Unai Simón saltou para o lado direito e defendeu o chute rasteiro de Locatelli.
Dani Olmo, que atuou bem no tempo regulamentar, poderia colocar a Espanha em vantagem. Mas chutou por cima do travessão.

Na segunda cobrança italiana, Simón novamente acertou o canto, mas o chute de Belotti foi muito bem realizado, firme e próximo à trave, anotando o primeiro gol.
Moreno cobrou alto, à esquerda - Donnarumma acertou o lado, mas não alcançou. Um a um.

Na terceira cobrança, Bonucci foi o primeiro a conseguir colocar a bola no lado oposto à escolha do goleiro, estufando a rede entre o meio do gol e o canto esquerdo.
Thiago Alcântara, com estilo, mandou a bola no canto direito e viu Donnarumma pular o outro lado. Dois a dois.

Na quarta cobrança, Bernardeschi bateu firme, alto, sem chance de defesa para Simón, que acertou a escolha do lado esquerdo. Três a dois Itália.
Morata, que jogou a temporada 2020/1 na italiana Juventus, foi para a cobrança. No gol, o rossonero Donnarumma. Morata escolheu chutar no lado esquerdo do gol. Donnarrumma, também. E a Itália ficava em vantagem.

Coube a Jorginho, batedor oficial da Azzurra - que cobrou cinco penalidades em partidas oficiais com a seleção italiana e converteu todas elas - se encarregar da quinta cobrança. Esbanjando tranquilidade e lucidez, partiu pra bola, mudou o ritmo da passada e, com Simón se deslocando para a direita, não teve dúvidas e mandou no canto esquerdo. Quatro a dois e fim de papo. A Itália está na final da Eurocopa 2020!

Consciente e cheio de frieza: Jorginho converte a cobrança de pênalti derradeira. Foto: Getty Images.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Yann Sommer Brilha No Jogo E Unai Simón Se Consagra Nos Pênaltis: Espanha Joga Muito E Elimina Suíça

Precisará ser muito criativa a pessoa que quiser criticar a seleção espanhola. Já li e ouvi comentários insanos sobre a Espanha desde a primeira rodada nessa Eurocopa, quando a seleção comandada por Luís Enrique empatou em zero a zero com a Suécia, num jogo de domínio flagrante espanhol pela quase totalidade do jogo. Depois do novo empate - dessa vez por um a um com a Polônia -, mais críticas pesadas ao "rendimento" da seleção. Coloquei "rendimento" entre aspas porque o que essa gente analisa não é o "rendimento", mas o resultado. Teve jornalista esportivo (?) que chegou a declarar que 'a Espanha tem nojo de fazer gol'. Após essa frase totalmente fora da realidade, tivemos uma sapecada de cinco a zero sobre a Eslováquia e um cinco a três sobre a Croácia. Resultado: o ataque mais efetivo na Eurocopa 2020 é o espanhol. Aí passaram a elogiar a Espanha. Como se a Espanha tivesse mudado muito dos dois empates para as duas vitórias. Não, não mudou. Ela permanece soberana na posse de bola. Insinuante no último terço. Com fome - e não nojo - de gol. O que mudou foi, meramente, o resultado.

Mas, não vim aqui para falar de resultado. Vim aqui para analisar o jogo de hoje, pela fase quartas de final, em que a Espanha enfrentou a Suíça na bela cidade russa de São Petersburgo. Foi um jogo em que a Espanha abriu a contagem cedo: já aos sete minutos, após cobrança de escanteio pelo lado direito de ataque, a bola viajou ao encontro de Jordi Alba, que pegou de primeira e contou com desvio em Denis Zakaria para que a bola entrasse no canto direito.

O gol, como era de se esperar, não mudou a forma da Espanha jogar. Porque a Espanha não atua em função de um resultado - ela é movida por uma filosofia de jogo que consiste, fundamentalmente, em atacar a bola e, a partir de seu domínio físico, exercer o domínio territorial que permita atacar o adversário.

Aos dezesseis, Koke cobrou falta perto da quina da área e colocou pouco acima do travessão. Nada de gol de falta nessa Euro até o momento. Aos vinte e quatro, Ferran Torres cruzou da direita e Nico Elvedi cortou antes que a bola pudesse chegar até Álvaro Morata. No Escanteio daí originado, César Azpilicueta deslocou Manuel Akanji com um empurrão e cabeceou, com o goleiro Yann Sommer pegando no alto. Para não dizer que somente a Espanha finalizava, a Suíça teve um escanteio pela direita que Silvan Widmer cabeceou para fora.

Há um detalhe interessante a ser levado em conta: a Espanha, que até aquele momento era a terceira seleção que mais finalizou na Euro 2020, enfrentava uma equipe que era a quarta nesse mesmo quesito. Então, passar o primeiro tempo inteiro sem praticamente ser ameaçada por um conjunto que fez três gols na seleção francesa não é algo meramente trivial. Claro que a capacidade criativa suíça foi abalada pela ausência de Granit Xhaka. A suspensão do meio-campista pelo segundo cartão amarelo no torneio foi um duro golpe no equilíbrio de um time acostumado a ter Xhaka atuando. Para se ter uma ideia, o capitão que veste a camisa dez havia jogado todas as vinte e oito partidas da Suíça desde o término da Copa do Mundo 2018, disputada ali mesmo, na Rússia. Havia ficado de fora de somente dois jogos nos últimos sessenta e um compromissos na Suíça. Então, sua ausência é, de fato, impactante. Mas nada é mais impactante do que a imposição espanhola em deter a posse de bola.

A Espanha voltou do intervalo com Daniel Olmo no lugar de Pablo Sarabia, que havia ainda no primeiro tempo reclamado de uma situação física. Dani Olmo já mostraria serviço com um minuto, só que o chute que parou em defesa de Sommer já estava irregular devido à posição anterior de Morata.

Aos quatro, sem impedimento, Olmo tinha a bola pela esquerda, entortou a marcação e cruzou à meia altura, com Koke cabeceando por cima.

A Suíça tentava ser mais presente no ataque, mas entre ter a bola e criar uma chance de finalizar ia uma longa jornada. Aos seis minutos, Xherdan Shaqiri resolveu literalmente tentar sozinho, cobrando escanteio pela direita de forma a surpreender todo mundo numa tentativa de gol olímpico. A cobrança até foi interessante, mas se direcionou à rede externa. Na marca de dez minutos, novo escanteio para os suíços, dessa vez pelo lado direito: após o levantamento na área, Zakaria cabeceou cruzado e a bola passou perto da trave direita. A Espanha respondeu aos treze, em lance também de bola parada: Sergio Busquets cobrou falta pela direita levantando na área, Ferran Torres ajeitou no peito e chutou uma bola que bateu nas costas de Haris Seferović. Reparou como essa foi a primeira vez que apareceu digitado nessa publicação o nome do maior goleador suíço? Isso dá a dimensão do quanto a Espanha era dominante: o camisa nove, que faz ótima Eurocopa, aparecia mais para ajudar a defesa do que efetivamente para concluir alguma jogada de ataque.

Aos dezoito minutos aconteceu aquela que talvez tenha sido a primeira oportunidade suíça com bola rolando: Ruben Vargas, que havia entrado no lugar de Breel-Donald Embolo ainda no primeiro tempo, carregou pelo lado esquerdo e acionou Steven Zuber com passe entre as pernas de Azpilicueta, que chutou para defesa de Unai Simón no canto direito.

Vladimir Petković tinha planos de mexer na equipe, com Kevin Mbabu e Mario Gavranović se preparando para entrar. Só que, para felicidade do técnico bósnio, um lance aos vinte e dois minutos o fez desistir das substituições naquele momento: após descuido de Pau Torres e Aymeric Laporte, Remo Freuler recuperou a bola em plena área espanhola e tocou para Shaqiri, que mandou um chute devagarzinho, cruzado, tocando na trave direita antes de entrar caprichosamente. Tudo igual no placar em São Petersburgo.

A Espanha, que é movida muito mais por um ideal do que pelas circunstâncias, manteve seu estilo. Aos trinta, em jogada pela esquerda, Olmo recebeu na área e chutou travado por Widmer. No minuto seguinte, um carrinho duro de Freuler em Gerard Moreno (que entrara no lugar de Morata) acabou sendo um duro golpe para a Suíça: o árbitro inglês Michael Oliver não pestanejou e aplicou o cartão vermelho ao agressor.

Se jogar com a Espanha já é difícil em igualdade numérica de jogadores, imagina com o déficit de um homem. Aos trinta e oito minutos, Moreno recebeu perto da área e tratou de chutar de primeira, com a perna esquerda - Sommer defendeu no meio do gol. Dois minutos antes desse lance, Gavranović finalmente entrou em campo, substituindo Seferović. Nos últimos minutos do tempo regulamentar, a Suíça mexeu mais uma vez (Zuber por Christian Fassnacht) e a Espanha outras duas (Ferran Torres por Mikel Oyarzabal e Koke por Marcos Llorente).

A partida foi para a prorrogação e o que se viu nela, principalmente no primeiro tempo, foi uma pressão espanhola daquelas dignas de entrar na galeria das maiores imposições táticas na história das prorrogações em grandes competições. 

Com um minuto, Alba recebeu na esquerda e cruzou para Moreno, que pegou de primeira (só que de canela) e mandou à direita. Aos cinco, Alba chutou forte e Sommer, bem posicionado, esticou o braço para defender no alto. No minuto seguinte, aos seis, Olmo recebeu de Pedri e chutou, mas a bola desviou em Moreno e passou à direita.

A Espanha era intensa e não dava sossego aos suíços, tornando Sommer o protagonista da partida. Aos dez minutos, após bola lançada, Oyarzabal cabeceou, Ricardo Rodríguez cortou parcialmente e Moreno, cara a cara com Sommer, chutou para grande defesa do goleiro. 

Na marca de doze minutos, Oyarzabal recebeu pela direita, chutou cruzado e Sommer espalmou bonito no canto direito. Com quinze, novamente Oyarzabal, novamente pelo lado direito e, adivinhe só, novamente defesa de Sommer - dessa vez encaixando o chute do espanhol.

Não tinha jeito, o destino era o desempate nas penalidades máximas.

A primeira cobrança coube ao capitão espanhol Busquets, que acertou a trave direita quando Sommer saltou para a esquerda. 

Logo na sequência, Gavranović cobrou de forma parecida à sua própria cobrança diante da França: no alto (dessa vez não tão no alto), e no canto direito. Simón foi para a esquerda. Suíça um a zero.

Talvez os corneteiros estivessem preparando o texto para criticar a Espanha pela eliminação nas quartas. Só que não foi dessa vez, caros trombeteiros do apocalipse e comentaristas de resultado. Se nas oitavas a Suíça acertou todas as cobranças diante da França, dessa vez o cenário seria bastante diferente. 

Dani Olmo cobrou o segundo pênalti espanhol e marcou, mandando firme no canto direito, com Sommer acertando o lado mas sem conseguir alcançar o ótimo chute. Um a um.

Fabian Schär, que havia entrado durante a prorrogação, tinha sido bem-sucedido na penalidade diante da França, quando cobrou no canto esquerdo de Lloris. Dessa vez, escolheu o lado direito. E parou em defesa de Unai Simón.

A Espanha podia ficar pela primeira vez na frente quando Rodri, que substituiu Pedri nos últimos minutos na prorrogação, era o próximo a bater. Sommer apontou para o canto direito, desafiando o espanhol. E Rodri optou pelo lado esquerdo, mordendo a isca do jogo psicológico do goleiro, que fez a defesa do chute à meia altura.

Mas, após esse momento, tudo viria a dar certo para a Espanha. Primeiro, Unai catou no canto direito a cobrança rasteira de Akanji, numa batida na bola muito parecida à que Akanji realizou nas oitavas, naquela oportunidade com sucesso. Depois, Moreno, que havia jogado na trave direita diante da Polônia, dessa vez escolheu o canto esquerdo e estufou a rede, com Sommer acertando o lado mas não conseguindo alcançar. Na sequência, Vargas chutou por cima do travessão. Coube a Oyarzabal a chance de colocar a Espanha nas quartas - com os olhos vidrados na bola, ele mandou rasteiro no canto esquerdo e foi para a comemoração.

Unai Simón defende a cobrança de Manuel Akanji: nos pênaltis, a Espanha superou a Suíça nas quartas de final na Eurocopa 2020. Imagem extraída de Impala.

 

A Espanha avança às semifinais e não há qualquer razão para duvidar de sua capacidade de conquistar a Eurocopa mais uma vez, podendo ser o tricampeonato num intervalo de quatro edições.

Já a Suíça, que foi gigante diante da França e, com um jogador a menos, resistiu como pôde diante da Espanha, tem muitos motivos para acreditar na possibilidade de fazer ótimas Eliminatórias Europeias visando a classificação para a próxima Copa do Mundo.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Em Jogo Intenso E De Oito Gols, Espanha Supera A Croácia Na Prorrogação

Em sua primeira partida fora do território espanhol nessa Eurocopa 2020 (na primeira fase atuou sempre em Sevilla), a Espanha foi a Copenhagen e conseguiu a classificação à fase quartas de final após um jogão de bola com a atual vice-campeã mundial, a Croácia. Apesar de terem aberto três gols a um no tempo regulamentar, os espanhóis não suportaram a pressão croata, cederam o empate, tomaram sustos, mas acabaram conseguindo triunfar na prorrogação diante de um valente oponente.

Espanha, como sempre, toma a iniciativa - mas lance bizarro coloca a Croácia em vantagem 

Surpreendendo um total de nenhuma pessoa que acompanha a Eurocopa (ou o futebol internacional de dois mil e dez para cá), a Espanha começou o jogo fazendo o que melhor faz: controlando a posse de bola para chegar, via troca de passes, ao ataque.

Aos doze minutos, Álvaro Morata recebeu na área, rolou atrás e Pablo Sarabia chutou à direita. Aos quinze, Pedri deu ótima enfiada de bola para Koke, que praticamente da marca do pênalti chutou para grande defesa do goleiro Dominik Livaković. Na marca de dezoito, Ferran Torres cruzou pela direita, Morata cabeceou e a bola foi amortecida em Domagoj Vida antes de ficar com o goleiro Livaković.

No minuto seguinte, a posse de bola era, adivinhe só, espanhola. Pedri, que nessa Euro tem se destacado pela sua visão de jogo e verticalidade nos passes no último terço de campo, dessa vez recuou para o goleiro Unai Simón. E, para infelicidade de ambos, uma falha na tentativa de dominar com o pé direito permitiu que a bola tomasse o rumo da própria rede. Um a zero Croácia, que até aquele momento - e por todo o primeiro tempo - sequer tinha conseguido dar um chute na direção do gol. Ironicamente, a posse de bola espanhola fez o trabalho por si. Era o nono gol contra nessa edição da Eurocopa, incrivelmente igualando a mesma marca de gols contra em toda a história anterior do torneio que completou sessenta anos.

Mantendo o estilo de jogo inabalável, espanhóis chegam ao empate ainda no primeiro tempo

A Croácia até chegou duas vezes com algum perigo na tentativa de ampliar a vantagem, mas os chutes de Nikola Vlašić, aos vinte e três, e de Mateo Kovačić, aos vinte e cinco minutos, foram para fora.

Aos trinta e seis, José Gayà chutou de fora da área após escanteio pelo lado direito de ataque espanhol, a bola desviou em seu companheiro César Azpilicueta e passou à direita. No minuto seguinte, o empate: em momento de intensa pressão na área croata, com direito a bate-rebate, Gayà chutou cruzado com força, Livaković rebateu e Sarabia chutou à meia-altura, com a bola ainda batendo na cabeça de Livaković antes de entrar. Um a um no placar.

Ainda houve uma última chance para cada lado antes do intervalo. Aos quarenta e quatro, Ante Rebić foi lançado mas teve seus planos frustrados por Unai Simón, que saiu da área para afastar o perigo. Aos quarenta e cinco, foi a vez de Morata fazer o que mais vinha fazendo nessa Euro 2020: chutar para fora. Quase uma redundância em se tratando do camisa sete espanhol...

Segundo tempo agitado tem quatro gols e muita objetividade de ambos os lados

Aos onze minutos, a Espanha chegou à virada: Pedri recuou para o goleiro abriu na esquerda com Ferran Torres, que fez o cruzamento e encontrou Azpilicueta, cabeceando firme na pequena área, sem dar chance para Livaković.

A Croácia, atrás no placar pela primeira vez no jogo, reagiu. Teve uma chance aos vinte minutos, mas o chute de Rebić saiu fraco e Unai segurou sem maiores transtornos. Aos vinte e um, Luka Modrić conduziu pela esquerda e passou para Joško Gvardiol, que parou em grande defesa de Unai. Dois minutos depois, Unai Simón realizaria defesaça novamente cara a cara, mas dessa vez havia sido indicado impedimento no ataque croata.

Com vinte e nove minutos, quem tomou um susto em recuo de bola para o próprio goleiro foi a torcida croata. Mas Livaković se recuperou rapidamente do vacilo e manteve a posse consigo.

Se a Espanha tem como principal característica a troca de passes para, metro a metro, avançar até o momento oportuno de finalizar, aos trinta e um minutos a equipe fez a transição de forma rara: com um lançamento longo a partir do campo de defesa em lance de bola parada, Pau Torres foi preciso na inversão de jogo para o lado esquerdo, encontrando Ferran Torres. Ele escapou da marcação de Gvardiol e chutou rasteiro para marcar o terceiro gol espanhol no jogo.

Com dois gols atrás, os croatas não apenas se lançaram ao ataque: o treinador Zlatko Dalić promoveu substituições que tornaram o time mais ofensivo e, talvez mais importante, aproximou o craque Modrić dos atacantes - o poder que isso tem na dinâmica e capacidade criativa da Croácia é difícil de mensurar. Aos trinta e nove minutos, em jogada de bate-rebate, Modrić, próximo à linha de fundo na pequena área, esbanjou frieza e precisão ao passar redondinho atrás para Ante Budimir - o chute do camisa catorze croata bateu em Azpilicueta e voltou para Mislav Oršić, que chutou e a bola atravessou a linha final por alguns centímetros até bater no goleiro Unai Simón. Gol validado com auxílio tecnológico.

Apenas um gol atrás, a Croácia não teve dúvidas e se manteve no ataque. Aos quarenta e seis, foi premiada: Oršić efetuou cruzamento excepcional a partir da esquerda e encontrou Mario Pašalić gozando liberdade em plena pequena área espanhola. Com um cabeceio certeiro, cruzado, pro chão, ele mandou a bola no canto esquerdo e empatou a partida.

Ritmo é intenso também na prorrogação e Espanha consegue dois gols já no primeiro tempo

Aos quatro minutos, Mikel Oyarzabal cruzou da linha de fundo pelo lado direito buscando Morata, mas Livaković segurou. No minuto seguinte, uma resposta contundente croata: após cruzamento da linha de fundo pelo lado esquerdo, a bola permaneceu viva na zona de perigo e chegou em Andrej Kramarić que, praticamente da risca da pequena área, finalizou à meia altura e viu Unai Simón realizar uma defesa sensacional ao esticar o braço esquerdo.

Aos seis minutos, Daniel Olmo Carvajal teve uma grande oportunidade, chutou, e a bola foi bloqueada no calcanhar de Vida. Na marca de nove minutos, a Espanha desempatou a partida: Daniel Olmo cruzou da direita e encontrou Morata nas costas de Josip Brekalo. Dessa vez, Morata esbanjou oportunismo ao dominar com a perna direita e chutar forte com a esquerda. Com o perdão da cornetada, mas... nem parecia o Morata. Quatro a três Espanha.

Álvaro Morata comemora: com belo chute no alto, a Espanha desempatava a partida na prorrogação. Imagem extraída de Ecuador Comunicación.

 

Aos doze minutos, Kramarić tentou com chute rasteiro, mas Unai Simón defendeu. E, no mesmo minuto, a Espanha explodiu de alegria: em nova jogada de Dani Olmo pelo lado direito de ataque, dessa vez o camisa dezenove optou por cruzar rasteiro. E a bola chegou até Oyarzabal, que chutou de esquerda e, mesmo com Livaković desviando, o rumo da redonda foi o fundo da rede. Cinco a três.

Espanha administra a posse de bola e Croácia sucumbe

Logo no primeiro minuto, a Croácia chegou bem quando Budimir ficou cara a cara com o goleiro, chutou colocado e Unai desviou sutilmente para fora. Tão sutilmente que a arbitragem ignorou o escanteio, dando a posse para a Espanha.

Tendo dois gols de vantagem e meio time cansado pela correria em quase duas horas de jogo, a estratégia espanhola de administrar a posse de bola foi usada de uma maneira mais burocrática, visando deixar o tempo passar e cansar os croatas, que àquela altura moviam as pernas a partir do coração.

O legal de ver essa postura momentânea da Espanha é que isso, sim, é jogo sem objetividade. É toque pelo toque. Todo o resto da Espanha nessa Eurocopa foi marcado por trocas de passe, sim, mas com notável intenção de transformar o domínio em oportunidade, a oportunidade em finalização, a finalização em gol. Esse segundo tempo de prorrogação na fase oitavas de final serviu para traçar o contraste.

Mesmo com um jogo propositalmente cadenciado e concentrado mais em ter a bola do que o ataque, a Espanha é tão competente na troca de passes que novas oportunidades apareceram com relativa naturalidade. Quase como se fosse um "modo automático".

Aos dez minutos, Morata recebeu pela esquerda seguido da marcação de Duje Ćaleta-Car, chutou e Livaković desviou à direita. Aos catorze, Olmo chutou cruzado e acertou a trave direita. Aos quinze, um Morata sendo Morata (foi minha última cornetada nessa postagem, prometo), recebeu pela esquerda acompanhado da marcação de Vida e... chutou na rede... pelo lado de fora.

A Espanha avança e impõe respeito com os dez gols marcados nos últimos dois jogos. Para desespero dos críticos que praguejavam após o zero a zero na estreia, mesmo com tantas oportunidades criadas pela seleção de Luís Enrique também naquele jogo.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo B

Foi realizado anteontem o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Já fizemos uma análise referente ao grupo A. Vamos, agora, tratar do grupo B. É o grupo que vai proporcionar ao amante do futebol uma primeira rodada reunindo as melhores defesas da África e da Ásia e, ainda, o clássico ibérico (simplesmente os dois últimos campeões europeus).

Grupo B: Portugal, Espanha, Marrocos e Irã.

Portugal

Atual campeão europeu, o selecionado português fez uma eliminatória firme: venceu nove dos dez jogos disputados. Sua única derrota foi na primeira rodada, na Basiléia, para a Suíça, por 2a0. Resultado que foi devolvido na jornada derradeira, em Lisboa.

Portugal: 3ª no ranqueamento da FIFA.
Dos 32 gols anotados nas Eliminatórias Européias, 24 saíram da dupla Cristiano Ronaldo (vice-goleador no torneio, com 15 tentos) e André Silva (9 gols marcados). Mas a equipe de Fernando Santos oferece algo mais que esses dois decisivos jogadores. Principalmente no setor de meio-campo: o talento e a juventude de Bernardo Silva (23 anos) e João Mário (24) proporcionam uma transição eficiente ao ataque. A mobilidade e precisão de ambos permitirá mescladas táticas numa interação onde o próprio Cristiano poderia recuar e avançar para promover triangulações.

Na defesa, a experiência dos 34 anos de Pepe traz a certeza de muita combatividade e a dúvida se o ex-defensor do Real Madrid conseguirá manter um autocontrole psicológico para não desferir cenas tão rotineiras em sua carreira.

A partida inaugural dos lusitanos será o clássico ibérico diante da Espanha. São duas seleções que se encontraram nas oitavas-de-final na Copa do Mundo 2010. De lá para cá, entre as diversas mudanças que aconteceram, pelo menos uma coisa conserva similaridade: a rivalidade. Tem tudo para ser um grande jogo. Na seqüência, Portugal enfrenta Marrocos e Irã. Fernando Santos precisará preparar sua equipe para pelo menos dois cenários opostos: o de saber vigiar a posse de bola adversária (provável desenho diante dos espanhóis) e o de saber impôr seu jogo (tudo leva a crer que marroquinos e iranianos tratarão, prioritariamente, de se defender).

Espanha

Seleção outrora rotulada (injustamente) de "amarelona", a Espanha conquistou o respeito dos críticos (e até dos "modinhas") de 2008 para cá, reforçando suas qualidades com a inserção curricular de dois títulos continentais e um mundial. Hoje, mesmo após cair na fase de grupos em 2014, é tida como uma das favoritas ao título na Rússia. E não é por menos: Julen Lopetegui Argote vem se mostrando um ótimo sucessor dos trabalhos implementados e desenvolvidos por José Luis Aragones Suárez Martínez e Vicente del Bosque Junior. A filosofia do toque de bola permanece forte e com algumas adaptações que a colocam bastante encaixadas nas mudanças que o futebol trouxe - algumas dessas mudanças foram desencadeadas exatamente na busca por um antídoto ao imponente e vitorioso jogo espanhol.
Espanha: 6ª colocada no ranqueamento da FIFA.

A exitosa campanha de nove vitórias e um empate (1a1 com a Itália, em Torino) teve os impressionantes números de trinta e seis gols marcados e três concedidos - a Espanha goleou todos os adversários de sua chave pelo menos uma vez.

Isco, Diego Costa, Álvaro Morata e David Silva anotaram cinco gols cada, sendo que este último ainda contribuiu com quatro assistências. Mas o motor, o cérebro, o ponto de equilíbrio dessa seleção chama-se Andrés Iniesta. Aos 33 anos de idade, o exímio meio-campista lidera o Barcelona e a seleção espanhola com sua visão e distribuição de jogo singulares. Teve a felicidade de marcar o gol histórico na final da Copa do Mundo de 2014 e felicita o amante do futebol com sua presença dentro de campo. Para quem não viu Zidane, aproveite cada oportunidade de assistir Iniesta. Não sabemos quando aparecerá outro que faça-nos lembrar esses dois.

A estréia com Portugal, a segunda rodada diante do Irã e a terceira com o Marrocos serão testes dos mais interessantes para a Espanha, pois estará enfrentando três seleções com ótimos números defensivos, cada qual em seu respectivo continente.

Marrocos

Com a credencial de quem não sofreu um único gol na fase final nas Eliminatórias Africanas, a seleção marroquina tem em sua defesa o que pode ser a chave para surpreender nesse grupo B. Nem a Costa do Marfim de Gervinho, nem o Gabão de Aubameyang, nem muito menos a seleção de Mali conseguiu vazá-los. Marrocos chegou ao Mundial com três vitórias e três empates (leia-se 0a0), com onze gols marcados - quatro deles por Khalid Boutaïb, atacante nascido na França que recentemente trocou o futebol francês pelo turco.

Marrocos: 40ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Para servir Boutaïb em particular e os marroquinos em geral estão Nordin Amrabat (atacante do espanhol Leganes) e Mbark Boussoufa (meio-campista holandês de nascimento e que atua no futebol dos Emirados Árabes Unidos) - cada um deles deu três assistências e participaram, portanto, de mais da metade dos gols de Marrocos na fase final.

Mas como explicar tamanho sucesso - principalmente defensivo - da equipe comandada pelo francês Hervé Renard? Um bom exemplo é olhar para o desenho tático na partida decisiva diante da Costa do Marfim de Marc Wilmots, vencida pelos visitantes por 2a0 e tendo permitido que os Elefantes acertassem somente um chute na direção do gol defendido por Munir. Nessa partida, cujos gols foram anotados pelo lateral-direito Dirar e pelo zagueiro Benatia, foi montado um 4-3-3 que espelhava a formação oponente. Hakim Ziyech, meio-campista nascido na Holanda 24 anos atrás, atuou pelo lado direito do ataque mesmo sendo canhoto, similar ao que a Holanda costuma fazer com Arjen Robben. Inclusive, foi dele o passe para o primeiro gol. Auxiliando por aquele setor, o "garçom" Boussoufa (assistente no lance do segundo gol), que coincidentemente é seu compatriota tanto de nascimento quanto de naturalização. Juntos, criaram duas oportunidades e finalizaram quatro vezes. No flanco oposto, Amrabat e Belhanda contribuíram com um total de sete desarmes no jogo, ajudando a conter as investidas de Aurier, Fofana, Cornet e Zaha.

Se esse sistema vai ser repetido e se vai funcionar diante de Irã, Portugal e Espanha, é preciso aguardar. O desempenho da equipe na Copa das Nações Africanas, que começa em janeiro e tem Marrocos no grupo A (com Mauritânia, Guiné e Sudão) poderá esboçar o que será da seleção de Renard na Rússia. Independentemente disso, é prudente, no mínimo, respeitá-los.

Irã

E por falar em defesas... A seleção iraniana "sobrou" nas Eliminatórias Asiáticas. Liderou com folga e garantiu antecipadamente uma vaga no Mundial 2018, mesmo dividindo grupo com a tradicional Coréia do Sul, que teve de se contentar com o segundo lugar. A campanha invicta iraniana foi de seis vitórias e quatro empates, com dez gols marcados e dois concedidos. Mas um detalhe: esses dois gols aconteceram na última rodada, diante da valente Síria, quando o Irã já era inalcançável na liderança.

Irã: 32ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Na campanha, Sardar Azmoun, atacante de 22 anos que conhece de perto o futebol russo (atua no Rubin Kazan e já vestiu também a camisa do Rostov), foi o goleador da equipe, com quatro gols anotados. Inclua-se aí o gol único na vitória por 1a0 sobre a Coréia do Sul, em Teerã, em 11.10.2016. Outro acostumado a balançar as redes é Mehdi Taremi, atacante do Persepolis que marcou três vezes nas Eliminatórias e "escolheu" momentos decisivos para deixar sua contribuição: na vitória por 1a0 sobre o Catar, fora de casa, e no triunfo sobre a China, também com gol solitário (além de sacramentar os três pontos com o segundo gol nos 2a0 sobre o Uzbequistão). Liderando as assistências quem aparece é o experiente Masoud Shojaei Soleimani, que aos 33 anos atua no grego Panionios, após passagens pela liga do Catar e pelo futebol espanhol, onde atuou por longa data no Osasuña antes de ir para o Las Palmas.

Em amistoso realizado com a Rússia, em outubro, Azmoun marcou o gol que abriu o placar em Kazan após assistência de Taremi. O jogo terminou 1a1 e, nessa oportunidade, Soleimani não foi relacionado pelo professor português Carlos Queiroz, moçambicano de nascimento e que já dirigiu os galácticos do Real Madrid e também a seleção portuguesa. Se contra a Rússia o esquema adotado foi o 4-1-4-1, é muito provável que os esquemas diante de espanhóis e portugueses esbanjem cautela. Mas, antes de enfrentá-los, há o jogo-chave diante de Marrocos. Se seguir essa linha sem buscar uma alternativa, temos aí um confronto condenado ao 0a0...

sábado, 28 de outubro de 2017

Com Atuação Espetacular, Inglaterra Faz 5 Na Espanha E É Campeã Mundial Sub-17

Senhoras e senhores, meninas e meninos de todas as gerações, neste vinte e oito de outubro de dois mil e dezessete tive o prazer de assistir uma das melhores atuações de uma seleção de futebol.

Gibbs-White e Sessegnon comemoram o empate. Foto: Jan Kruger / FIFA.
A Inglaterra Sub-17, treinada pelo galês Steve Cooper, deu um verdadeiro espetáculo no estádio Salt Lake, em Kalkata, Índia. Se séculos atrás os ingleses iam até a Índia para buscar metais preciosos, dessa vez o seu precioso futebol lhe rendeu o troféu de campeão mundial da categoria.

Sair perdendo para a qualificada seleção espanhola por 2a0 não é simples. Foram dois gols de Sergio Gómez em duas assistências de César. O segundo gol, aliás, uma pintura para Picasso nenhum botar defeito. Mas os ingleses mantiveram a cabeça erguida e impuseram seu jogo. Um jogo de posse de bola. Posse de bola essa tão boa, mas tão boa, que colocou a Espanha na roda. A Espanha, que ficou reconhecida mundialmente por ter a bola nos pés, hoje viu seu adversário envolvê-la.

Sessegnon e Foden formaram uma dupla sensacional pelo flanco direito. Muitas jogadas de qualidade aconteceram envolvendo pelo menos um desses dois jogadores. O primeiro gol inglês, aliás, foi num cabeceio certeiro de Brewster após cruzamento milimétrico de Sessegnon. No segundo tempo, Gibbs-White completou pra rede após passe de quem? Dele, Sessegnon. Mais tarde, Hudson-Odoi fez a assistência e Foden virou a partida. Nos últimos minutos, a Inglaterra tratou de transformar a virada em goleada, com gol de Guehi e mais um de Foden, que teve uma atuação digna do seu nome (perdoem o trocadilho).

Não faço idéia de até onde irá essa geração inglesa. O que posso afirmar com segurança é que esses garotos formaram uma equipe maravilhosa e plenamente merecedora do título mundial.

Em 2014, logo após a partida com a Costa Rica, em que a Inglaterra se despedia da Copa do Mundo no Brasil com um único ponto ganho na fase de grupos, foi dada uma declaração à imprensa dizendo que começaria ali um novo projeto desde a base. Parece que os frutos desse plantio são doces. Sem pressa, vamos ver o que está por vir. Uma Inglaterra campeã mundial nas próximas Copas? Possível. Mas uma coisa é certa: o futebol agradece por cada equipe que jogue com a graça e a elegância que jogou esse selecionado inglês Sub-17. Deu gosto. Parabéns aos envolvidos.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Uma Beleza Chamada Espanha

É ela. Eu juro que é ela.

Tão logo lancei olhares em sua direção, já pude reconhecê-la. Há uma beleza que lhe é típica. Podem até tentar copiá-la, por admiração. Ou evitá-la, por questão de opinião. Mas jamais podem desprezá-la. Depois que ela apareceu, deve ser levada em consideração. Por mais que "gosto não se discuta", ela carrega consigo algo que a torna referência, mesmo que fora do padrão.

Apareceu na década passada, lá pelo ano 2008, no trabalho de um saudoso senhor chamado Luis Aragonés. Naquela época, havia um brasileiro com sobrenome de piloto auxiliando no setor de meio-campo. Além de Marcos Senna, lá estavam Xavi e Iniesta. Além de David Silva, Cesc Fàbregas e tantos outros jogadores de talento. Com o casal vinte no ataque: Torres e Villa.

Já era, desde aquela época, muito bela. A consagração veio num 1a0 sobre a Alemanha. O tempo foi passando e ela parecia conter os segredos da eterna juventude. Em 2010, já com Del Bosque, título mundial. A partir daquela vitória sobre a Laranja, jamais voltou a ser chamada de "amarelona". Em 2012, o bi continental. Já era considerada a maior da história. Porém, repentinamente, dois resultados em 2014 levantaram dúvidas sobre a sua longevidade. Afetou, em muitos, a própria memória. Chegavam a pedir a saída do Vicente. Deprimente.

Hoje, ela está aí. Desfila sua beleza na França. Very nice, diria um anglo-saxão. Foi na cidade de Nice que ela voltou a mostrar um pouco da sua velha forma. Não há mais Senna, mas ela continua em cartaz. Xavi aposentou-se, assim como Villa. Nem a ausência de Torres pode colocar sua grandeza em xeque. Vieram Nolito e Morata, muito bem-vindos. Lá está Busquets, protegendo uma defesa que conta com Ramos, Piqué, Juanfran e Alba. Fosse o goleiro que fosse, já dava para se sentir seguro. Foi com Casillas e Valdés, o é com De Gea. E tudo mais belo fica com Iniesta a se apresentar. Um conselho posso dar? Se você não viu Zidane, mantenha os olhos abertos e saboreie o camisa meia dúzia espanhol. Evite, inclusive, piscar.

Busquets e Fàbregas comemoram com Nolito o 2º gol espanhol. Foto: AFP.
Os 3a0 foram construídos com uma naturalidade característica de quem marca época. Tem oito adversários
marcando cinco? Não tem problema, o lançamento de Nolito há de encontrar Morata na área turca.

O oponente mantém-se recuado para evitar jogadas de infiltração? Pois então eles que nos ajudem a ter a bola, Nolito estará no local exato para em seguida fazermos a comemoração.

E quando Iniesta tem a bola, cabe assistir. Até o auxiliar, possivelmente hipnotizado pela magia que sai dos pés do gênio, não viu impedimento. Como olhar para o último defensor quando se pode simplesmente contemplar Andrés? Alba recebeu e serviu Morata, primeiro jogador a marcar duas vezes num mesmo jogo nessa Euro-2016.

Cabiam mais gols. Só que a Turquia, entregue, e a Espanha, satisfeita, conduziram-se em campo como quem deixa o tempo passar. Bendito seja o tempo, que passa mas que conserva a beleza daquilo que é eternizado pela arte.

É ela, a Espanha, uma bênção para o futebol. Uma alegria. Um caso à parte. Seja qual for o desfecho dessa Euro, já valeu acompanhar pelo simples fato de ver essa seleção jogar. Que me desculpem as feias, mas a Espanha é fundamental.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Quando Um É Bem Maior Que Zero: Espanha Vence República Tcheca

Matematicamente, a diferença entre 1 (um) e 0 (zero ), é sempre igual a um. Futebolisticamente, essa diferença é variável. Hoje, entre Espanha e República Tcheca, em Toulouse, a diferença entre um e zero foi:

(I) mais que o dobro de tempo de posse de bola;
(II) mais que o dobro de finalizações;
(III) mais que o triplo de passes completados.

Com tudo isso, nossa imprensa medíocre ainda reserva "profissionais" como o comentarista Neto, que num determinado momento no segundo tempo, com o placar parcial de zero a zero, afirmou que 'o toque da Espanha enche o saco'.

Caro Neto, o que "enche o saco" é ouvir seus comentários. O toque da Espanha engrandece o futebol. E é por pessoas como você que o futebol brasileiro passa pelo momento atual.

Saudações iniestianas a todos o amantes do futebol arte. E viva o toque de bola espanhol.
Espanhóis comemoram o gol de Piqué, aos quarenta e dois minutos do segundo tempo. Foto: Getty.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Espanha À La Espanha: Uma Despedida Nostálgica Na Copa 2014

Muitos poderão não dar o devido valor a essa data, mas carrego comigo a nítida impressão de que 23.06.2014 trata-se de um momento na história do futebol que trará influências significativas para os anos que virão. Foi precisamente nesse dia, por volta das 15h, em Curitiba, que se encerrou a participação da seleção espanhola na Copa do Mundo 2014. Uma campanha abreviada pelas derrotas para Holanda e Chile, que causaram surpresa entre os analistas em geral e gerou mal-estar no elenco espanhol em particular. Mas tudo isso deve ser esquecido. Em nome do futebol, que fique registrado cada bom momento que a Espanha proporcionou e ainda proporcionará com a sua filosofia de jogo baseada na posse de bola. O momento é de realizar ajustes já pensando na Eurocopa 2016, mas mais do que isso: pensando na perpetuação de um estilo, o que se dará através de renovações e aperfeiçoamentos. Estilo esse que já se mostrou viável e eficiente. Que é maior do que a cultura do resultado. E que percorreu longas, incríveis e vitoriosas jornadas para ser derrubado com dois tropeços.

O jogo com a Austrália foi marcado por momentos de emoção, como quando David Villa foi substituído e flagrado às lágrimas no banco de reservas - era a despedida de um dos ícones de uma era vitoriosa, cujo ápice foi o título mundial em 2010, quando o camisa sete teve participação destacada. Meus mais respeitosos cumprimentos e gratidão ao Villa por ter jogado nessa Espanha, a qual tive o privilégio de assistir.

O jogo com a Austrália foi marcado por momentos de recordação, pois ver a excelência do desempenho de Andrés Iniesta com a performance igualmente encantadora de Villa fez lembrar dois, quatro, seis anos atrás. Villa distribuiu umas cinco jogadas de efeito só no primeiro tempo. Numa delas, recebeu cruzamento de Juanfran e abriu o placar no Paraná com um golaço de letra. Villa se escreve com cinco letras, digamos que cada uma para um grande lance da fera, que já deixa saudade.

O jogo com a Austrália foi marcado por momentos de reflexão sobre o futuro, o que ficou sugerido ao se ver um jovem da qualidade de Koke desempenhando função em campo muito similar a de um tal Xavi Hernández. Possivelmente seja Koke o sucessor de Xavi na seleção espanhola.

Fernando Torres foi um personagem que juntou quase tudo ao mesmo tempo: trouxe emoção, porque lembrar dele faz lembrarmos de seu companheiro Villa; trouxe recordação, porque vê-lo atuar em grande nível leva a ótimas lembranças de seu auge tanto nos clubes por onde passou quanto pela própria Fúria; e trouxe reflexão sobre o futuro, pois fica aquela dúvida cruel de se o ciclo de El Niño está encerrado ou se ainda seremos agraciados com seu talento por mais alguns anos. O desempenho diante dos australianos é um convite à segunda opção. Sua capacidade técnica, uma intimação.


Foi disparada a melhor atuação da Espanha em solo brasileiro nesse Mundial. Os erros na defesa vistos nas duas rodadas iniciais não se repetiram - a começar pelo seguro goleiro Pepe Reina, que qualificou a saída de bola com os pés. As entradas de Juan Mata, Francesc Fàbregas e David Silva no segundo tempo tornaram a Espanha ainda mais incisiva, sempre com a participação ativa e decisiva do brilhante Iniesta. Foi dele o ótimo passe à la Iniesta para a finalização de Torres à la Torres. Era a Espanha à la Espanha! Após assistência de Fàbregas, Mata fechou o placar. E espero que as portas da seleção espanhola se mantenham abertas para essa proposta. O mesmo público que hoje gritou "eliminado", em provocação hostil, poderá um dia olhar para trás e pensar que poderia ter reagido de maneira diferente quando teve a oportunidade mística e mágica de assistir a Espanha nas arquibancadas de seu país de nascimento numa Copa do Mundo. Se eu estivesse lá no estádio, aplaudiria de pé. Pensar e projetar a Espanha me traz emoção e não tem preço nem nacionalidade essa gratidão. Valeu, Villa! Valeu, Xavi! Valeu, Espanha!

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Saiu Da Copa Mas Já Entrou Na História

Embora não tenha assistido o jogo entre Espanha e Chile (tá, acompanhei por uma tela de telefone celular o segundo tempo, em pleno horário de expediente no serviço público federal, o que sugere um envolvimento muito abaixo do que o jogo merecia), não poderia deixar passar em branco esse momento histórico que está atravessando o futebol mundial.

A vitória chilena por 2a0 combinada aos outros três resultados anteriores nesse grupo B (Holanda 5a1 Espanha, Chile 3a1 Austrália e Holanda 3a2 Austrália) selaram um fato inédito: pela primeira vez na história das Copas, uma atual campeã mundial é eliminada na segunda rodada. E não estamos falando de uma campeã qualquer, mas de uma campeã que antes e depois do título em 2010 ganhou as duas Eurocopas que disputou. De uma campeã que ofertou ao mundo um estilo de jogo encantador. De uma campeã que montou times e elencos com jogadores de altíssimo nível técnico e que traduziam suas aptidões em um volume de jogo como jamais visto na história. De uma campeã no campo e no conceito.

Com todos esses atributos, me recuso a dizer que essa eliminação seja o fim de uma Era. Essa eliminação é muito mais uma perda para a Copa 2014 e para o futebol do que para a própria Espanha. É evidente que a Espanha procurará se reconstruir, mas não há qualquer necessidade de uma reformulação conceitual. Há, sim, o desafio de trazer para o dia seguinte a essa derrota a renovação pontual para promover a proposta de jogo e continuar marcando época. Foi um trabalho de muitos anos até saborearmos 2008, 2010, 2012. E desejo de todo coração que outras gerações possam também assistir a Espanha com a cara dessa Espanha trazida por Aragonés e Del Bosque, em sintonia com Guardiola. Mas isso é assunto para o futuro. No presente, cabem duas colocações: obrigado, Espanha! E parabéns, Chile! Há que se respeitar essa talentosa seleção, que mostrou ótimo gosto ao trazer técnicos como Marcelo Bielsa e Jorge Sampaoli. Podemos estar vendo nascer uma potência na América do Sul. Mas isso é assunto para o futuro. No presente, cabe uma colocação: viva o futebol!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Laranjástico!

Aconteça o que acontecer em todos os futuros jogos, nenhum se comparará ao Espanha e Holanda. As atuais finalistas da Copa do Mundo proporcionaram um belo espetáculo em Salvador que reservou boas jogadas, lindos gols e uma grande surpresa: a goleada impactante da Oranje que jogou de azul diante da Roja que jogou de branco. 5a1 de virada com direito a um atropelamento no segundo tempo. Detalhe: o gol espanhol saiu num pênalti que não houve, mantendo o índice de jogos contaminados com erros capitais de arbitragem em... 100%.

Sensacionalistas plantonistas jornalistas já repetem discurso semelhante àquele que sucedeu a também surpreendente derrota espanhola na estréia diante dos suíços na Copa passada. Naquela ocasião, ouviu-se de tudo um pouco e se você tiver curiosidade de relembrar algumas das declarações apocalípticas, pesquise nesse mesmo blógui sobre os comentários referentes àquela partida de estréia na África do Sul. Clique para ver o resumão da Espanha na Copa do Mundo 2010.

Vejo a Espanha de 2014 com as mesmas possibilidades de título mundial que a Espanha de 2010. Um déficit grande é que Xavi não é mais aquele - embora ainda seja um jogadorzaço. Diego Costa jamais será um David Villa - embora possa ser útil em algumas variações táticas. A zaga se enfraquece sem Puyol. Mas David Silva parece melhor. Iniesta, idem (se é que isso possa ser humanamente possível). E Del Bosque tem uma grande capacidade de se reinventar sem perder o estilo. Em suma: é preciso respeitar a Espanha. Mesmo que as circunstâncias sugiram qualquer coisa diferente disso.

E o que dizer da Holanda? Só restaram sete jogadores vice-campeões mundiais - os outros dezesseis convocados são "novidades". A equipe rejuvenesceu. O ótimo Bert van Marwijk caiu após o mau rendimento na Euro 2012, quando a Laranja foi eliminada logo na primeira fase. Só que aí está a Holanda, senhoras e senhores. Firme, forte, sólida, leve, envolvente, destemida. Com personalidade. A Holanda é mais que um conjunto de bons jogadores: é uma escola de futebol. Uma escola que ensinou ao mundo o quão bonito é jogar com dois pontas, seja quando for, contra quem for. Um sistema que atravessa décadas e permanece novo, pois foge do usual. E quando você tem jogadores do nível de Sneijder, Robben e Van Persie, tudo fica mais fácil. E belo.

Entre algumas das cenas emblemáticas da partida na Bahia, destaco os gritos de "Olé" das eufóricas arquibancadas: os espanhóis, ironicamente, viveram a situação do touro. Ooooooolé!
 
O futebol deve à Holanda um título mundial. Talvez o "país do futebol" seja o lugar ideal para essa dívida ser acertada. Tivemos um bom indício de que ela poderá ser quitada em breve. Obrigado, Oranje! E boa sorte em suas viagens pelo Brasil!

P.S.: a Espanha vive e isso é bom. Principalmente para o futebol.

terça-feira, 26 de março de 2013

Paris Vermelha: Espanha Vence França E Assume Liderança

Paris recebeu o jogo mais aguardado nessa rodada pelas Eliminatórias Européias para a Copa do Mundo 2014. Pelo grupo I, líder e vice-líder em campo. Jogando em casa, a França teve alguns momentos interessantes na partida, e mais no embalo de Ribèry do que da própria torcida, esteve perto de abrir o placar no Stade de France. Não conseguiu aproveitar as oportunidades. Um luxo que, diante da Espanha, pode mandar qualquer chance de sucesso para o lixo. Resultado final: 1a0 para a envolvente seleção hispânico-catalã, que mais uma vez soube impôr seu estilo de jogo e proporcionar momentos de prazer aos amantes de um futebol jogado com toque de bola pelo chão. É a Fúria, nova líder no grupo I e cada vez mais perto do Mundial. Do bimundial.

Em resumo, alguns personagens precisam ser destacados nessa partida. O goleiro Valdés, com pelo menos três belas intervenções, foi fundamental para a manutenção de um zero no placar. Pedro, participativo como quase sempre, responsável direto pelo algarismo diferente de zero no marcador: não apenas completou para a rede como iniciou a jogada que teve a assistência de Nacho Monreal, aos doze minutos do segundo tempo. O gol saiu num momento em que realmente dava pinta de que aconteceria. Pouco antes, havíamos colocado no Tuíter a seguinte publicação


Busquets, Xavi e Iniesta, a trinca barcelonista no meio-campo, também foi de uma relevância tremenda na construção do resultado. Del Bosque, após ver o time em vantagem na contagem de gols, trouxe Navas para o lugar de Villa, aumentando a mobilidade de uma seleção que já era dinâmica. E, após ver o time em vantagem na contagem de jogadores (Pogba foi expulso com dois amarelos sequenciais), manteve o time com postura semelhante a de antes do cartão vermelho. Pelo lado francês, Ribèry atuou muito bem e Matuidi também teve momentos interessantes, além de Lloris, que evitou pelo menos um novo gol espanhol. A troca de Benzema por Sissoko foi acertada por parte de Deschamps. Ou, se não foi, pelo menos os Azuis reagiram bem e por pouco não alcançaram a igualdade.

Daqui para a frente, cada uma dessas seleções tem três partidas por realizar. Analisando a tabela, a vantagem de um ponto da Espanha deve ser o suficiente para confirmar o primeiro lugar aos atuais campeões mundiais, que jogam com Finlândia (fora de casa, jogo que deve ser o mais complicado de todos os restantes), Bielorrússia e Geórgia (ambos em casa). Ja a França, que pega os mesmos adversários que os espanhóis só que invertendo o mando de campo, tem até alguma chance de retomar a liderança, como também é possível que aconteça uma grande surpresa e sequer chegue na repescagem. Mas o cenário mais provável é que os franceses joguem a repescagem mesmo. O que não é nenhuma vergonha, até porque a líder é ninguém menos do que a melhor seleção do planeta.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Equipe E Jogada Da Semana

Estávamos sem publicar esse tópico em função da atenção voltada quase que exclusivamente para a Eurocopa, torneio de seleções que agitou este blógui nas últimas semanas.

E a equipe da semana será exatamente uma das participantes na Euro 2012, afinal, não poderíamos deixar de homenagear essa brilhante Espanha, que faturou uma inédita Tríplice Coroa (Eurocopa 2008 + Copa do Mundo 2010 + Eurocopa 2012).

Entre o final-de-semana retrasado e o passado, três partidas eliminatórias foram disputadas pelos espanhóis, que, a exemplo daqueles dois torneios anteriores, não foram vazados uma única vez nesse tipo de confronto. Venceram a França por 2a0, no sábado (23.06.2012), em partida onde dominaram as ações durante praticamente a totalidade do duelo, com o "centenário" Xabi Alonso marcando os dois gols da partida. Passaram por Portugal nos pênaltis, na quarta-feira (27.06.2012), após persistente empate no tempo regulamentar e também na prorrogação, em jogo onde a aplicação tática e disposição física dos portugueses endureceram a situação para a melhor seleção do planeta. E, finalmente, golearam a Itália por inapeláveis 4a0, dando um banho de bola no último domingo (1º.07.2012), em partida onde o jogo coletivo dos comandados de Vicente del Bosque foi, mais uma vez, digno dos aplausos dos amantes do futebol arte. Uma apresentação daquelas para fechar com chave-de-ouro a campanha de uma seleção dourada, e não "amarelona". Uma seleção que tem muito a ensinar para aqueles que tiverem alguma disposição em aprender. Equipe da semana com toda certeza e, possivelmente, da história do futebol mundial. Parabéns e obrigado, Espanha!

Jogada da semana

O Campeonato Brasileiro 2012, em sua sétima jornada, contou com nove partidas (o jogo entre Corinthians e Botafogo foi adiado a pedido dos corinthianos). E foi em um desses nove encontros que saiu a jogada da semana. A partida era entre Grêmio e Atlético Mineiro, no estádio Olímpico, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Em campo, personagens do relevo de Zé Roberto e Ronaldinho Gaúcho. Mas a jogada, acredite, não envolveu nenhum deles (quer dizer, pelo menos não diretamente, já que o lance começou em cobrança de escanteio realizada por Ronaldinho): foi concluída de voleio por Jô e elaborada espetacularmente por Bernard. Foi ou não foi uma baita jogada de efeito?

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Espanha Para Contar Aos Netos

Digna das reverências de todos os amantes do futebol bem jogado, a Espanha conquistou o bicampeonato europeu consecutivo (o terceiro na história) após uma goleada incontestável de 4a0 pra cima da Itália. Os espanhóis foram tão superiores aos italianos que era difícil imaginar que dividiam o gramado no estádio olímpico de Kiev as duas últimas seleções campeãs mundiais. La Roja fez a Squadra Azzurra parecer time pequeno de modo similar àquilo que foi visto em dezembro, entre Barcelona e Santos, na final do Mundial de Clubes 2011. Duas ocasiões onde o jogar com arte, o ter a bola, o envolver o adversário, o buscar o gol carimbaram não apenas a vitória de um clube azul-grená ou de uma seleção vermelha, mas, sobretudo, representaram um triunfo dessa modalidade esportiva apaixonante denominada futebol. O futebol te ama, Espanha!

O jogo

Vinda de uma surpreendente vitória sobre a Alemanha na fase semifinal, a Itália parecia disposta - e com apenas dois dias de intervalo entre aquela partida e essa - a faturar o título continental. Cesare Prandelli armou a seleção com a mesma formação da partida anterior, contando com o retorno de Ignazio Abate para a lateral-direita. Vale lembrar que, na estréia na Euro 2012, a Itália enfrentou a Espanha com Daniele de Rossi na última linha de defesa, que na ocasião fora composta por Christian Maggio e Emanuele Giaccherini nos extremos e com Leonardo Bonucci e Giorgio Chiellini ao lado de De Rossi. Dessa vez, De Rossi atuou no meio-campo, mais próximo a Andrea Pirlo e mais distante de Gianluigi Buffon. Pirlo que, com um minuto, deu o primeiro chute do jogo, mandando à esquerda da meta uma tentativa de fora da área.

A Espanha montada por Vicente del Bosque para a final era rigorosamente igual à que enfrentou a Itália na partida inaugural nessa edição de Eurocopa, isto é, com Francesc Fàbregas escalado mais centralizado na linha de ataque, acompanhado pelas constantes aproximações de Andrés Iniesta (vindo da esquerda), David Silva (vindo da direita) e Xavi Hernández (vindo de trás). Mas a primeira finalização da equipe não foi de nenhum desses jogadores e nem aconteceu com bola rolando: aos cinco minutos, Sergio Ramos cobrou falta e mandou por cima da meta. O poderoso toque de bola espanhol apareceu com brilho no minuto seguinte: aos seis, Iniesta acionou Jordi Alba com enfiada de bola pela esquerda, o lateral recém-contratado pelo Barcelona cruzou e Chiellini cortou para impedir que a redonda encontrasse Silva, pronto para empurrar para a rede. A intervenção do italiano gerou escanteio que Xavi cobrou pelo lado direito e Ramos, de cabeça, deu a segunda finalização espanhola e pessoal na partida, mandando novamente por cima do travessão.

A imponência do estilo de jogo praticado pelos espanhóis e a identificação gerada entre os jogadores e o povo daquele país é algo tão extraordinário que, naquele início de partida, por volta dos oito minutos, com o placar ainda zerado, ouviam-se gritos de "olé" nas arquibancadas de Kiev, exaltando a filosofia de jogo praticada no épico Barça de Josep Guardiola e na épica Espanha de Del Bosque, dando seqüência ao trabalho de Luis Aragonés na seleção. Aos nove, após ótima trama de trocas de passe, uma tabela entre Cesc Fàbregas e Xavi terminou com uma finalização do camisa oito que, da meia-lua, mandou a bola perto do travessão.

Se é com o toque de bola que a Espanha faz o jogo acontecer, então é com o toque de bola que o placar precisava ser inaugurado na capital ucraniana. Aos treze minutos, Iniesta recebeu de Xavi e descolou enfiada de bola para Fàbregas. O camisa dez recebeu nas costas de Chiellini, foi à linha-de-fundo pelo lado direito e cruzou sob medida para que David Silva completasse para o gol, o que foi feito através de um cabeceio preciso rumo ao ângulo direito. 1a0 Espanha.
David Silva se antecipa a Leonardo Bonucci e cabeceia a bola ao ângulo direito, completando cruzamento de Francesc Fàbregas e abrindo o placar na final da Eurocopa 2012, em Kiev.

Sem os mesmos recursos do adversário, a Itália tentava o empate através de lances de bola parada. Aos quinze, Pirlo parou na barreira em cobrança de falta pelo lado esquerdo. Aos dezessete, ele cobrou escanteio pelo lado direito, Bonucci cabeceou na altura do primeiro poste e Ramos cortou de maneira providencial, impedindo que a bola chegasse em Chiellini. Pobre Chiellini. Nem tanto pela intervenção de Ramos em lance onde poderia marcar o gol de empate, mas principalmente pelo fato de, três minutos depois, uma contusão tê-lo tirado de campo aos vinte, para entrada de Federico Balzaretti. Realmente não é fácil jogar três dias depois de uma semifinal e mais difícil ainda é quando a final é diante da Espanha.

Mesmo encontrando tantas dificuldades, a Itália não poupava esforços na tentativa de superar um sistema defensivo que, em jogos eliminatórios, sofreu gol pela última vez no ano de 2006, gol esse de autoria de um certo Zinedine Yazid Zidane, na fase oitavas-de-final na Copa do Mundo onde a Itália seria tetracampeã. É isso mesmo: de lá para cá, a Espanha de Iker Casillas não foi vazada uma única vez nos duelos eliminatórios (3 jogos na Euro-2008, 4 na Copa-2010 e 3 na Euro-2012, incluindo essa final que aqui estamos analisando). Aos vinte e seis, Casillas deu tapa na bola após cruzamento vindo da esquerda de ataque italiano, impedindo cabeceio de Mario Balotelli - na seqüência, Alba participou bloqueando finalização de De Rossi. Aos vinte e oito, De Rossi recuperou a bola para a seleção italiana, Antonio Cassano recebeu na esquerda de Balotelli, fintou a marcação de Álvaro Arbeloa e chutou rasteiro entre as pernas de Gerard Piqué - Casillas, seguro como o habitual, defendeu sem dar rebote. Aos trinta e dois, Cassano recebeu de Pirlo e chutou firme, dessa vez à meia-altura, novamente parando em Casillas, que rebateu para a esquerda. Aos trinta e sete, Balotelli recebeu na esquerda de De Rossi, fez a tabela e chutou de fora, por cima.

Talvez os italianos não fizessem idéia de que aquela seqüência de oportunidades seria o melhor momento da equipe na partida e que outras chances para igualar o placar jamais voltariam a aparecer. Aos quarenta, a Espanha mostrou como é que se faz: Xavi recebeu de Alba no meio-campo, carregou a bola dando a cadência exata para que Alba se apresentasse para receber e, com um tempo perfeito de passe, enfiou rasteiro para deixar o melhor lateral-esquerdo na Euro-2012 cara-a-cara com o goleiro - Alba já dominou preparando para o chute e mandou rasteiro, no canto direito de Buffon. 2a0 Espanha.
 Após receber em velocidade ótimo passe de Xavi Hernández, Jordi Alba conclui a jogada chutando com o pé esquerdo, marcando o segundo gol da partida no canto direito.

Se marcar um gol na Espanha já era tarefa complicada, imagina agora a situação de uma seleção que se via em desvantagem de dois gols no placar. Aos quarenta e três, uma jogada envolvendo Balotelli, Cassano e Riccardo Montolivo terminou em chute forte dado pelo jogador da Fiorentina. Aliás, terminou em nova defesa de Casillas, que rebateu a finalização italiana. Naquele mesmo minuto, um drible desconcertante de Iniesta pra cima de Andrea Barzagli só não deixou o camisa seis na cara do gol porque o italiano cometeu falta, rendendo cartão amarelo aplicado pelo competente árbitro português Pedro Proença. O último remate antes do intervalo foi espanhol e aconteceu aos quarenta e cinco, quando Silva tentou de fora da área e Buffon encaixou, posicionado no centro da baliza.

Curiosamente, aquele primeiro tempo terminava com a posse de bola em 52% para a Itália (a última vez que a Espanha terminou uma partida com menos tempo de bola nos pés que o oponente havia sido na vitória por 1a0 sobre a Alemanha na final de Euro-2008, ou 60 partidas atrás). Esse percentual, porém, não explicitava uma realidade clara: no momento de construir a jogada mais aguda, a busca pela infiltração, a aproximação do gol, é notória a maior qualidade espanhola para trabalhar o lance e encontrar as alternativas. Um fato que também não aparece no dado sobre índice de aproveitamento de passes, que era praticamente igual (76% dos 247 espanhóis para 75% dos 249 italianos).

Mas o segundo tempo viria para "arrumar" essas estatísticas e consagrar a seleção que mais tem e que melhor usa a bola. No intervalo, Prandelli trocou Cassano por Antonio di Natale, colocando em campo aquele que é o único jogador a ter marcado gol na Espanha nessa edição de Eurocopa (a equipe não foi vazada em nenhum dos outros quatro jogos disputados). Logo com quarenta e seis segundos, quase brilhou a estrela de Di Natale: Abate cruzou da direita e o atacante da Udinese cabeceou por cima, perto do travessão, em lance que Casillas acompanhou com o braço esticado na direção da barra horizontal. A resposta espanhol não demorou sequer um minuto: Cesc trouxe para a direita e, da meia-lua, chutou uma bola que passou perto da trave direita. Cesc só faltava comer a bola: aos dois minutos, ele fez jogada individual pela direita, deixou Balzaretti caído na área e Buffon agiu para bloquear e impedir o terceiro gol espanhol. Aos três minutos, Xavi cruzou da direita em cobrança de falta, Ramos cabeceou e Bonucci cortou com o braço esquerdo, que estava aberto no momento da intervenção. Pênalti que Pedro Proença não apitou, apesar dos protestos.

O segundo tempo estava agitado, com chance de gol para os dois lados, penalidade máxima não assinalada e uma Espanha intensa, como se ignorasse a vantagem no placar. Aos cinco minutos, Di Natale recebeu de Pirlo, ficou cara-a-cara com o goleiro mas teve o chute defendido por Casillas - na seqüência, Di Natale tentou mandar por cima (não sei se para o gol ou se para Balotelli) e Casillas agarrou em definitivo. Aos oito, Iniesta serviu Fàbregas para deixá-lo na cara do goleiro, o que fatalmente teria acontecido se o camisa dez não tivesse, sem querer, batido com o calcanhar na bola, impedindo a si mesmo de ficar em condição de finalizar.

Aos onze minutos, Prandelli marcou um gol contra. E gol contra marcado por treinador pode ser mais grave do que os dos jogadores - às vezes, ele representa um dano maior do que o acréscimo unitário no placar. É que o italiano mexeu pela terceira e última vez trocando Montolivo por Thiago Motta, isto é, tirando de campo o jogador de meio-campo que mais se aproximava da dupla de atacante para pôr no gramado um meio-campista de contenção, sem a mesma visão de jogo daquele que saía. Poderia - e deveria - ter feito diferente, ainda mais por se tratar da última substituição por direito. Uma opção era tirar de campo Claudio Marchisio e, mesmo que colocasse Motta, poderia dessa forma dar maior liberdade para Pirlo sem perder Montolivo. Outra solução era colocar alguém com maior cacoete ofensivo, tais como Sebastian Giovinco, Alessandro Diamanti ou Antonio Nocerino - mesmo que fosse para, vá lá, tirar o Montolivo. Enfim, Prandelli ao trocar Montolivo por Motta parecia propôr retrair ainda mais uma equipe que era dominada territorialmente e que precisava de gols.

Aos doze minutos, Ramos cometeu falta em Di Natale e surgiu oportunidade de gol para a Itália via bola parada: Pirlo cruzou da direita, Casillas deu um tapa na bola e Balotelli chutou à esquerda. Aos treze, Del Bosque mexeu pela primeira vez na Espanha: saiu David Silva para a entrada de Pedro Rodríguez (naquele momento, a Espanha estava em campo com jogadores ou de Barcelona ou de Real Madrid). Para piorar ainda mais a situação italiana, Motta teve a infelicidade de, por volta dos quinze minutos, ter sentido uma fisgada que apontava para um estiramento muscular na parte posterior da coxa direita. Resultado: o brasileiro de nascimento deixou o campo na maca e a Itália não tinha o que fazer a não ser continuar a partida com um homem a menos. Era o anúncio da goleada.

Aos vinte e três minutos, Pedro recebeu na esquerda, cruzou e Balzaretti cortou. Aos vinte e oito, Cesc passou para Pedro, recebeu de volta na direita, cruzou e Abate cabeceou uma bola que tinha como endereço Iniesta. Na marca de trinta minutos, ecoou o som dos aplausos para Cesc Fàbregas, que deixava o campo e dava lugar a Fernando Torres, personagem saído do banco que passaria a protagonista nos minutos finais de partida.

Com trinta e um minutos, Ramos recebeu de Pedro na direita, fintou Balzaretti e caiu na área - Pedro Proença não caiu na dele, marcando apenas a saída de bola pela linha final. Aos trinta e três, uma troca de passes da Espanha deixou Pedro livre, só que foi flagrado impedimento do camisa sete, que mesmo assim concluiu com um chute cruzado que passou à direita. Aos trinta e seis, a posse de bola estava igualada percentualmente, o número de chutes igualado em onze e o de escanteios igualado em três. O que era bem diferente era a performance de cada seleção, com a Espanha colocando a Itália na roda e proporcionando espetáculo raro de se ver numa final de campeonato, que o diga numa final de Eurocopa.

Aos trinta e oito, saiu o terceiro gol: após uma tentativa de tabela errada da Itália, os espanhóis interceptaram a bola destinada a Pirlo e partiram em contra-ataque fulminante, que teve assistência de Xavi para Torres e conclusão de Torres para o canto esquerdo - Buffon até conseguiu tocar na bola, mas sem evitar que a redonda tomasse o rumo da rede. 3a0 Espanha.
 Oito minutos depois de entrar em campo, Fernando Torres faz história e se torna o primeiro jogador a marcar gol em duas finais seguidas de Eurocopa - em 2008, a Espanha venceu a Alemanha por 1a0 com gol dele. Prêmio "Chuteira de ouro" para "El Niño", por favor.

Aos quarenta e um, Iniesta, um dos melhores jogadores em campo e o melhor jogador no torneio, deixou o gramado sendo ovacionado pela massa, dando lugar para Juan Manuel Mata. Estavam em campo dois jogadores do atual campeão europeu Chelsea, e foi em jogada entre eles que saiu o quarto gol espanhol: aos quarenta e dois, Torres recebeu em posição legal (Balzaretti dava condição) e, com a parte externa do pé direito, deu passe como quem acariciava a bola com a chuteira, cabendo a Mata a finalização para estufar a rede mais uma vez. 4a0 Espanha.
 No minuto seguinte ao de sua entrada em campo, Juan Manuel Mata conclui para a rede jogada em que recebeu assistência de Fernando Torres - e foi exatamente com "El Niño", companheiro de Chelsea, que Mata foi comemorar o último gol na Eurocopa 2012.

Fernando Torres havia marcado seu terceiro gol na Euro-2012 e poderia ter se isolado no topo de lista de goleadores, igualando a marca de David Villa na Euro-2008. Mas preferiu servir um companheiro melhor posicionado. Aos quarenta e sete, El Niño voltou a participar em nova jogada de ataque, quando cruzou rasteiro da esquerda e Ramos completou de letra, parando em defesa de Buffon. Na marca de quarenta e oito, teve fim o espetáculo. Cabe ao blogueiro parabenizar essa seleção histórica, que faz gramado parecer palco e futebol parecer arte. Aliás, é isso o que ele é. Obrigado, Espanha, por lembrar-nos disso.

Campanha (tri)campeã

1a1 Itália (1ª rodada, grupo C)
4a0 Irlanda (2ª rodada, grupo C)
1a0 Croácia (3ª rodada, grupo C)
2a0 França (quartas-de-final)
0a0 Portugal, 4a2 nos pênaltis (semifinal)
4a0 Itália (final)

Tricampeã de Eurocopa (1964/2008/2012)
Tricampeã consecutiva entre Euro e Mundial (2008/2010/2012)
É a primeira vez que uma seleção ganha duas edições de Eurocopa consecutivamente.
Espanha para contar aos netos.

sábado, 30 de junho de 2012

Estilo Espanhol E Tradição Italiana: O Duelo Final Na Eurocopa 2012

Espanha. Itália.

De um lado, a filosofia de jogo baseada na valorização da posse de bola. De outro lado, a tradição de montar equipes consistentes e competitivas.

De um lado, uma seleção que conquistou a Europa em 2008, o mundo em 2010 e o respeito de todos. De outro lado, uma seleção que faturou o tetracampeonato mundial em 2006 e que, bem ou mal cotada, é sempre respeitada.

Dividindo o campo, duas seleções que se enfrentaram pela última vez há pouco tempo, mais precisamente em 10.06.2012, na estréia de ambas nessa edição de Eurocopa. Houve empate por 1a1 naquela ocasião, e empate é resultado inaceitável no domingo, primeiro de julho de dois mil e doze - terá que sair um vencedor, nem que seja na disputa por pênaltis.

E por falar em disputa por pênaltis, tanto Espanha quanto Itália já viveram essa experiência nessa Euro 2012: uma passou por Portugal na semifinal e outra pela Inglaterra nas quartas, ambas após igualdade em 0a0 nos 120 minutos de jogo.

E agora, caro amante do futebol? O que será que os deuses do futebol reservar-nos-ão para Kiev, capital ucraniana, sede da final continental? Dá Fúria ou dá Azzurra? Vou me limitar a dar um único pitaco: essa partida é imperdível.

Abaixo, a trajetória de cada seleção até a grande decisão.

Fase de grupos
Espanha => 1a1 Itália, 4a0 Irlanda, 1a0 Croácia
Itália => 1a1 Espanha, 1a1 Croácia, 2a0 Irlanda

Quartas-de-final
Espanha => 2a0 França
Itália => 0a0 Inglaterra

Semifinal
Espanha => 0a0 Portugal
Itália => 2a1 Alemanha