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domingo, 11 de julho de 2021

"Fratelli D'Italia" - Nos Pênaltis, Itália Vence A Inglaterra Em Wembley E É Campeã Europeia

A ótima Eurocopa 2020 chegou ao final. Infelizmente, a partida derradeira passou longe dos melhores momentos proporcionados pela competição. Resultado clássico de um confronto onde ambas as seleções que chegaram à decisão trilharam seus caminhos a partir, prioritariamente, da solidez defensiva. Enquanto a Itália só foi ser finalmente vazada pela primeira vez no torneio durante a prorrogação na fase de oitavas de final, a Inglaterra resistiu ainda mais tempo, tendo sofrido seu primeiro gol somente na fase semifinal.

E, na grande decisão em Wembley, um gol de Luke Shaw logo no segundo minuto de jogo até poderia "abrir" a partida. Só que não. Nem a Inglaterra apresentava um sede de atacar como tampouco a Itália criava o suficiente para ameaçar a vitória parcial inglesa.

Ao falarmos dessa Eurocopa como um todo e dessa final em particular, precisamos lembrar de muitos nomes que realizaram excelentes participações defensivamente. A começar pelo capitão italiano Giorgio Chellini, um gigante que se tornou ainda maior: caso se confirme a aposentadoria da seleção italiana, Chiellini terá terminado de forma memorável, se eternizando com a camisa azul. Outro defensor da Itália que foi fundamental nessa solidez defensiva? Leonardo Bonucci. Em alguns momentos, chega a ser difícil separar Bonucci de Chiellini. Os dois, que esbanjam na seleção o mesmo entrosamento visto na Juventus, formam um verdadeira fortaleza no miolo de zaga. Pelo lado inglês, Harry Maguire foi imenso. Firme em toda e qualquer dividida e quase sempre soberano no jogo aéreo, foi uma figura de suma importância na última linha. Kyle Walker, ora atuando como lateral, ora mais fixo na zaga, foi outro que teve uma regularidade digna de admiração. E o que dizer dos volantes Declan Rice e, principalmente, Kalvin Phillips? Baita Euro de ambos. Phillips é daqueles caras que circulam pelo gramado dando aula silenciosa de posicionamento. É muito provável que haja aí o dedo do mestre Marcelo Bielsa, seu técnico no Leeds United.

Então, com todos esses elementos, não foi surpresa que a final seria econômica na quantidade de gols. Mas aquilo que realmente me causa decepção não é a falta de bola na rede - é pensar que jogadores como o italiano Manuel Locatelli e os ingleses Jack Grealish, Bukayo Saka, Jadon Sancho, Marcus Rashford e Phil Foden (esse nem entrou em campo na final!) tenham sido sub-utilizados de tal forma por seus treinadores. Locatelli fez uma ótima Euro na fase de grupos e estranhamente virou reserva nos confrontos eliminatórios. Na decisão em Wembley, Roberto Mancini só foi colocá-lo no jogo durante a prorrogação. Mesmo caso de Grealish, que entrou três minutos mais tarde. E o que dizer de Rashford e Sancho, lançados ao gramado no décimo quinto minuto do segundo tempo da prorrogação? Um deboche de Gareth Southgate, só pode.

A partida teve um gol para cada lado, ambos após cruzamentos para a área. Pela Inglaterra, logo no início, Luke Shaw completou de primeira a bola levantada por Kieran Trippier, numa bela finalização para abrir a contagem em Londres. Os italianos, por sua vez, só foram empatar aos vinte e um minutos no segundo tempo, quando um bate-rebate após cobrança de escanteio terminou com Bonucci empurrando para a rede.

De grandes jogadas tramadas, com tabelas e ultrapassagens, há muito pouco digno de nota. Raheem Sterling fez possivelmente sua pior atuação na competição. Harry Kane, bastante participativo na criação de jogadas, raras vezes foi visto em condição de finalizar. Mason Mount pouco foi capaz de produzir. E, mesmo com tudo isso, Southgate se recusava a colocar seus jogadores com maior capacidade de construção ofensiva. Lamentável essa postura de um treinador que mostra grande aptidão em dar consistência à sua seleção mas que apresenta um medo danado de soltar o freio de mão de um carro com motor possante.

No lado da Itália, uma atuação bastante interessante de Federico Chiesa, seguramente um dos melhores homens de frente nessa Euro 2020. Jogador que tem uma objetividade admirável, sempre pegando na bola de forma a encaminhar o time mais adiante, aproximando do gol. Às vezes comete erros na execução de passes, cruzamentos e chutes, mas é de fundamental importância para verticalizar as ações e colocar pressão na defesa oponente.

O confronto acabou indo para os pênaltis. Após Domenico Berardi e Harry Kane converterem, Jordan Pickford teve a felicidade de defender a cobrança de Andrea Belotti. Harry Maguire, na sequência, cobrou com força e tirou do ar a câmera localizada no ângulo esquerdo, estufando a rede com gosto.

Mas a vantagem inglesa durou pouco. Durou praticamente nada. Após Bonucci converter sua cobrança, Rashford mandou caprichosamente no pé da trave direita. Lembrou bastante a cobrança de Sergio Busquets na semifinal da Espanha com a própria Itália - tanto pelo chute na trave direita quanto pelo fato de Gianluigi Donnarumma saltar para o lado oposto.

Logo depois, Federico Bernardeschi converteu para a Itália. E o castigo de Southgate teve outro capítulo: Sancho, que entrara junto com Rashford no finalzinho da prorrogação, também desperdiçou a cobrança.

Coube ao ítalo-brasileiro Jorginho, cobrador oficial de pênaltis na Azzurra, se encarregar do que seria a cobrança do título. Seria. Porque Pickford, heroico, foi buscar o chute rasteiro no canto direito. E por falar em heroi, o rótulo definitivo coube a Donnarumma, que defendeu a cobrança de Saka no canto esquerdo e garantiu o troféu à Itália.

Italianos correm para saudar Gianluigi Donnarumma após defesa do pênalti cobrado por Bukayo Saka. Em contraste, Jordan Pickford, que também pegou duas cobranças, observa desolado. Imagem extraída de Notícias de Coimbra.

 

Foi uma final onde nenhum dos treinadores merecia ganhar. Seja pela covardia do Southgate, seja pela escassez de variações do Mancini. Mas, olhando para dentro de campo e vendo personagens como Chiellini e Bonucci, não há como negar que a taça ficou em boas mãos.

Seleção da Eurocopa 2020

Eis os titulares e reservas na concepção de alguém que assistiu todos os jogos na primeira rodada, todos os jogos na segunda rodada, metade das partidas na terceira rodada e todos os confrontos das oitavas de final em diante.

Titulares

Goleiro: Yann Sommer (Suíça)
Lateral direito: Denzel Dumfries (Holanda)
Zagueiro: Leonardo Bonucci (Itália)
Zagueiro: Giorgio Chiellini (Itália)
Lateral esquerdo: Luke Shaw (Inglaterra)
Volante: Kalvin Phillips (Inglaterra)
Meio-campista: Paul Pogba (França)
Meio-campista: Daniel Olmo (Espanha)
Meio-campista: Raheem Sterling (Inglaterra)
Atacante: Federico Chiesa (Itália)
Atacante: Patrik Schick (República Tcheca)
Técnico: Kasper Hjulmand (Dinamarca)

Reservas

Goleiro: Gianluigi Donnarumma (Itália)
Lateral direito: Kyle Walker (Inglaterra)
Zagueiro: Harry Maguire (Inglaterra)
Zagueiro: Simon Kjær (Dinamarca)
Lateral esquerdo: Leonardo Spinazzola (Itália)
Volante: Sergio Busquets (Espanha)
Meio-campista: Georginio Wijnaldum (Holanda)
Meio-campista: Kevin De Bruyne (Bélgica)
Meio-campista: Pedri (Espanha)
Atacante: Harry Kane (Inglaterra)
Atacante: Romelu Lukaku (Bélgica)
Técnico: Franco Foda (Áustria)

Menção honrosa

Goleiro: Kasper Schmeichel (Dinamarca) e Jordan Pickford (Inglaterra)
Lateral direito: Joshua Kimmich (Alemanha) e César Azpilicueta (Espanha)
Zagueiro: John Stones (Inglaterra) e Mats Hummels (Alemanha)
Zagueiro: Andreas Christensen (Dinamarca) e Thomas Vermaelen (Bélgica)
Lateral esquerdo: Joakim Mæhle (Dinamarca) e Robin Gosens (Alemanha)
Volante: Marco Verratti (Itália) e N`Golo Kanté (França)
Meio-campista: Luka Modric (Croácia) e Thomas Delaney (Dinamarca)
Meio-campista: Axel Witsel (Bélgica) e Jorginho (Itália)
Meio-campista: Granit Xhaka (Suíça) e Frenkie De Jong (Holanda)
Atacante: Haris Seferović (Suíça) e Cristiano Ronaldo (Portugal)
Atacante: Kylian Mbappé (França) e Kasper Dolberg (Dinamarca)
Técnico: Luis Enrique (Espanha) e Vladimir Petković (Suíça)


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Com Espanha Melhor No Jogo, Itália Arranca Classificação Nos Pênaltis

Wembley recebeu pela semifinal da Eurocopa 2020 um jogo que decidiu a Euro 2012. E se naquela oportunidade, em Kiev, a Espanha sapecou um quatro a zero sobre a Itália, dessa vez, em Londres, tivemos um confronto muito disputado e definido somente no desempate por pênaltis, com vitória italiana. 

No tempo regulamentar, os gols foram marcados por Federico Chiesa e Álvaro Morata, ambos no segundo tempo de jogo. Já nas penalidades, os espanhóis desperdiçaram duas cobranças enquanto os italianos deixaram de aproveitar somente uma, fechando a série em quatro a dois e garantindo presença na final - que também será disputada em Wembley.

Itália entra em campo praticamente idêntica à que enfrentou a Bélgica enquanto a Espanha surpreende com  Mikel Oyarzabal entre os titulares

A aparição de Emerson Palmieri na lateral-esquerda foi a única mudança em relação à Itália que iniciou a partida de quartas de final diante da Bélgica - Leonardo Spinazzola, titular na posição, rompeu o tendão de Aquiles no segundo tempo daquele jogo.

Já a Espanha fez três mudanças no comparativo dos onze iniciais que enfrentaram a Suíça na fase de quartas de final. Por questão física, Pablo Sarabia, que havia sido substituído no intervalo daquele jogo, deu lugar a Daniel Olmo, que foi exatamente quem substituiu Sarabia naquela ocasião. Por questões provavelmente de ordem técnica, Pau Torres deu lugar a Eric García (lembrando que Pau Torres foi um dos que falharam no lance do gol de Shaqiri). E, de forma surpreendente, numa escolha que me parece ser fundamentalmente tática, Álvaro Morata foi para o banco, promovendo a entrada de Oyarzabal. Embora Morata faça uma Eurocopa digna de questionamentos, ele vinha sendo sistematicamente conservado entre os titulares. Acredito que Luis Enrique optou pela mudança no ataque, principalmente, por levar em consideração o comportamento tático da seleção italiana - Oyarzabal se mostrava opção interessante para explorar a velocidade e a infiltração vindo mais de trás, se projetando ao espaço vazio ao invés de aguardar mais fixo na área, onde, em teoria, seria mais vulnerável à implacável marcação tanto de Giorgio Chiellini quando de Leonardo Bonucci.

Duas primeiras chances de gol no jogo são espanholas

Excluindo uma chegada italiana que parou na trave aos três - o lance teve apenas efeito moral, já que veio a ser invalidado por marcação de impedimento -, as duas primeiras chances de gol na partida foram da Espanha. Aos doze minutos, Pedri acionou Oyarzabal com ótimo passe rasteiro, mas o jogador recém-promovido aos titulares, em ótima condição para preparar a finalização, não conseguiu realizar o domínio de bola como gostaria e permitiu que Emerson fizesse a recuperação. Dois minutos depois, aos catorze, Ferran Torres driblou Jorginho e chutou à direita.

Espanha se impõe e Itália se limita a (tentar) contra-atacar

Com Sergio Busquets liderando o setor de meio de campo espanhol e Marco Verratti sobressaindo no lado italiano, as ações do jogo se concentravam entre as duas intermediárias. Aos vinte minutos, numa saída rápida da Azzurra, o goleiro Unai Simón deixou a área para intervir. Só que o ítalo-brasileiro Emerson chegou antes, tocou de lado e a defesa espanhola só conseguiu se recuperar no lance após a indecisão de Nicolo Barella.

Na marca de vinte e quatro minutos, tivemos a primeira boa defesa de um goleiro no jogo: Oyarzabal teve o chute travado, Dani Olmo pegou a sobra, foi bloqueado por Bonucci, pegou seu próprio rebote e chutou no canto direito, para defesa de Gianluigi Donnarumma.

Aos trinta e dois, uma nova tentativa de Olmo: ele carergou a bola observado por Chellini e chutou, dessa vez mandando por cima do travessão. Com trinta e oito no relógio, Pedri passou para Jordi Alba, que encontrou Oyarzabal - o chute do camisa vinte e um foi tão longe do gol que talvez os espanhóis pudessem começar a sentir saudade do Morata...

Embora o momento da Espanha fosse de flagrante superioridade, uma das maiores chances de tirar o zero no placar na etapa inicial foi italiana e aconteceu aos quarenta e quatro minutos: Lorenzo Insigne foi lançado pela esquerda e fez o passe na ultrapassagem de Emerson, que descolou chute no travessão.

Segundo tempo inicia confirmando cenário de antes do intervalo, com Espanha mantendo a iniciativa

Sem alterações, as seleções retornaram para a segunda etapa. E a Espanha se manteve no ataque. Aos quatro minutos, Daniel Olmo cruzou da direita e Giovanni Di Lorenzo foi providencial para cortar a bola quando um adversário vinha chegando às suas costas. Ao seis, Busquets recebeu de Oyarzabal e pegou de primeira, mandando a bola perto do travessão. No minuto seguinte, resposta italiana: em rara jogada envolvendo todo o trio de frente, Insigne passou para Ciro Immobile, que deixou com Chiesa, que trouxe para a perna direita diante da marcação de Alba e chutou cruzado, com Simón caindo para segurar à direita. Com doze minutos, Oyarzabal tentou de fora da área e Donnarumma fez a defesa.

Em contra-ataque, Itália marca o primeiro gol na semifinal

O ritmo do jogo era interessante, com a marcação alta italiana tentando recuperar a bola em posição mais avançada possível, enquanto a Espanha procurava verticalizar a troca de passes, visando encontrar os espaços vazios. Aos catorze, porém, quem tratou de encontrar tais espaços vazios foi a Itália. Em rápido contra-ataque iniciado com o goleiro Donnarumma, Immobile dividiu no ataque e a bola sobrou para Chiesa: esbanjando a objetividade que lhe é característica, o filho de Enrico tratou de imediatamente arrumar e chutar cruzado no canto esquerdo. Um a zero Itália, em jogada de aproximadamente quinze segundos desde a saída com Donnarumma até a finalização com Chiesa.

Federico Chiesa chuta cruzado e inaugura o marcador em Wembley. Foto: Facundo Arrizabalaga / Pool / AFP.
 

Equipes mexem no ataque e surgem chances para ambos os lados

Logo após o gol, tanto Roberto Mancini quanto Luis Enrique Martínez mexeram no ataque de suas equipes: na Itália, saiu Immobile para a entrada de Domenico Berardi; na Espanha, Morata entrou no lugar de Ferran Torres.

Aos dezenove minutos,uma chance clara de empate foi desperdiçada: Koke fez ótima enfiada de bola desmontando toda a defesa italiana e Oyarzabal, livre, leve, solto e de frente com Donnarumma, falhou na tentativa de cabeceio.

Aos vinte e um, nova participação de Oyarzabal: ele recebeu, fez a parede diante da marcação de Chiellini, rolou atrás e Dani Olmo chutou de primeira, mandando à esquerda.

No minuto seguinte, resposta da Itália: Chiesa recebeu pela direita, carregou e passou para Berardi, que ficou de frente com Simón, chutou rasteiro e viu o goleiro rebater com a perna.

Após novas alterações nas duas seleções, jogo volta a se agitar e Espanha empata

Com Gerard Moreno no lugar de Oyarzabal e Rodri no lugar de Koke, Luis Enrique procurava alternativas no setor ofensivo. Já Mancini, visando fortalecer a marcação na última linha, trocou Emerson por Rafael Tolói. Também tirou Verratti, colocando Massimo Pessina em seu lugar e renovando o fôlego na proteção à defesa.

Aos trinta e um minutos, Morata teve sua tentativa de cruzamento pela direita travada por Bonucci. Três minutos depois, após recuperação de bola no ataque, Berardi teve nova oportunidade, mas parou novamente em Simón, que segurou no lado direito. E, ainda aos trinta e quatro, saiu o gol de empate espanhol: em ótima tabela entre Morata e Olmo, o atacante tocou e recebeu de volta do meio-campista e, centralizado, nas costas da defesa, chutou com precisão no contrapé de Donnarumma, estufando a rede no canto direito. Um a um no placar, em jogada onde uma rápida tabela arruinou a última linha de defesa adversária.

Álvaro Morata comemora o gol de empate da Espanha diante da Itália. Imagem extraída de Bola Vip.
 

A Espanha ainda teve uma possibilidade de virar o jogo: aos trinta e oito, Morata levou a bola para a linha de fundo e rolou atrás para Moreno, que, da meia-lua, isolou.

No minuto posterior, um total de três substituições: na Itália, saíram Barella e Insigne para as entradas de Manuel Locatelli e Andrea Belotti; na Espanha, entrou Marcos Llorente no lugar de César Azpilicueta.

Prorrogação tem pequeno número de oportunidades de gol e jogo caminha para a decisão por pênaltis

Talvez por falta de gás, talvez por sobra de vantagem do sistema defensivo, talvez por um pouco de cada, o fato é que a prorrogação não teve lá grandes situações de gol. Mas, quando teve, foi espanhola. Aos sete minutos, Olmo cobrou falta da esquerda, Donnarumma rebateu, Morata chutou rasteiro e Cheillini conseguiu bloquear. Aos onze, Moreno levantou da direita e Donnarumma afastou em disputa com Morata e Bonucci.

Daí para a frente, nem as mexidas mudaram o panorama da partida. No intervalo, Luis Enrique trocou Busquets por Thiago Alcântara. Com um minuto no segundo tempo, Chiesa deu lugar Filippo Bernardeschi na Itália. E, aos três, Pau Torres entrou no lugar de Eric García na Espanha. Todas as seis mexidas autorizadas para cada conjunto foram usufruídas e, bastante alteradas em suas composições, as seleções definiriam a classificação nas penalidades.

Nos pênaltis, Locatelli e Olmo desperdiçam logo de cara. No final, Donnarumma pega a cobrança de Morata e Jorginho sela a classificação italiana.

Na primeira cobrança, Unai Simón saltou para o lado direito e defendeu o chute rasteiro de Locatelli.
Dani Olmo, que atuou bem no tempo regulamentar, poderia colocar a Espanha em vantagem. Mas chutou por cima do travessão.

Na segunda cobrança italiana, Simón novamente acertou o canto, mas o chute de Belotti foi muito bem realizado, firme e próximo à trave, anotando o primeiro gol.
Moreno cobrou alto, à esquerda - Donnarumma acertou o lado, mas não alcançou. Um a um.

Na terceira cobrança, Bonucci foi o primeiro a conseguir colocar a bola no lado oposto à escolha do goleiro, estufando a rede entre o meio do gol e o canto esquerdo.
Thiago Alcântara, com estilo, mandou a bola no canto direito e viu Donnarumma pular o outro lado. Dois a dois.

Na quarta cobrança, Bernardeschi bateu firme, alto, sem chance de defesa para Simón, que acertou a escolha do lado esquerdo. Três a dois Itália.
Morata, que jogou a temporada 2020/1 na italiana Juventus, foi para a cobrança. No gol, o rossonero Donnarumma. Morata escolheu chutar no lado esquerdo do gol. Donnarrumma, também. E a Itália ficava em vantagem.

Coube a Jorginho, batedor oficial da Azzurra - que cobrou cinco penalidades em partidas oficiais com a seleção italiana e converteu todas elas - se encarregar da quinta cobrança. Esbanjando tranquilidade e lucidez, partiu pra bola, mudou o ritmo da passada e, com Simón se deslocando para a direita, não teve dúvidas e mandou no canto esquerdo. Quatro a dois e fim de papo. A Itália está na final da Eurocopa 2020!

Consciente e cheio de frieza: Jorginho converte a cobrança de pênalti derradeira. Foto: Getty Images.

sábado, 3 de julho de 2021

Itália E Bélgica Fazem Grande Jogo E Azzurra Avança À Fase Semifinal

No encontro entre duas seleções invictas no torneio, tivemos um ótimo jogo de futebol em Munique. Uma partida dinâmica, de muita movimentação, explícita objetividade na transição ao ataque e notória capacidade técnica tanto no trato com a bola quanto na realização da marcação.

Há muito o que se aprender com essas duas seleções. Tanto Bélgica quanto Itália mostraram força ofensiva sem dar indícios de qualquer sinal de fraqueza em seus sistemas defensivos. Se cometaram erros? Sim, cometeram. Alguns deles, inclusive, foram "punidos" com gol. Mas, em se tratando da estrutura de jogo e da proposição tática, temos aí duas fortes seleções a levarmos em conta rumo à Copa do Mundo 2022.

Nesse dois de julho de dois mil e vinte um, vitória italiana. E vitória do futebol. É sempre um prazer assistir jogos como esse.

Logo aos doze minutos, a rede balançaria e os italianos comemorariam: Lorenzo Insigne cobrou falta pela direita, e ambos os zagueiros italianos participaram do lance. Primeiro, Giorgio Chiellini com desvio sutil. Por último, Leonardo Bonucci, mandando pro gol. Só que a comemoração foi frustrada pela revisão tecnológica, que identificou impedimento na posição de Chiellini.

Esse gigante zagueiro de sobrenome Chiellini, que esteve ausente nos jogos anteriores após lesão ainda na primeira fase, voltou e voltou da forma que o conhecemos. Implacável na marcação e acreditando em todos os lances. Foi assim que, aos dezesseis minutos, Kevin De Bruyne viu seu chute forte ser bloqueado num cabeceio de Chiellini. Sim, Chiellini tratou de colocar a cabeça na rota de uma bola chutada com força por De Bruyne, evitando o que poderia ser o primeiro gol do jogo. Na sequência do lance, tanto o italiano quando o belga riram entre si, provavelmente admirando mutuamente o ato de coragem na interceptação. Felizmente, tudo bem com Chiellini.

O jogo era disputado arduamente no setor de meio de campo. Ambos os conjuntos procuravam espaços e tinham, sem a bola, o zelo de intensificar o confronto na zona da bola. Dois cartões amarelos em um intervalo de um minuto ilustraram a relevância da disputa na meiuca. Primeiro, Marco Verratti parou contra-ataque puxado por Youri Tielemans com falta intencional. O árbitro esloveno, Slavko Vinčić, corretamente aplicou o primeiro cartão no jogo. Praticamente na sequência, a reciprocidade: dessa vez, Tielemans cometeu a infração sobre Verratti, recebendo a mesma punição do árbitro.

Aos vinte e um minutos, uma grande arrancada em contra-ataque de De Bruyne tornou o outrora povoado meio-campo em uma avenida de trânsito livre para a Bélgica. E o próprio camisa sete tratou de finalizar, chutando firme no canto direito e com Gianluigi Donnarumma fazendo bonita defesa.

Na marca de vinte e cinco, novamente um contra-ataque para os belgas e novamente ele, De Bruyne, conduziu o time ao ataque: ele arrancou em velocidade e abriu na direita para Romelu Lukaku, que chutou cruzado e viu Donnarumma buscar no canto direito com uma ótima intervenção.

Após essas duas grandes chances de a Bélgica inaugurar o placar, a Itália reagiu. Aos vinte e cinco, Federico Chiesa foi acionado pela esquerda, chutou, a bola desviou em Toby Alderwireld e foi segura por Thibaut Courtois. No minuto seguinte, Insigne tentou de fora da área e a bola viajou perto do ângulo esquerdo. Na marca de trinta, o gol: em erro de saída de bola belga com Jan Vertonghen, Verratti recuperou a bola no ataque e passou para Nicolo Barella, que chutou cruzado no canto esquerdo. Um a zero Itália em Munique.

Nicolo Barella é festejado: a Itália abre o placar diante da Bélgica. Imagem extraída de El Litoral.

 

Se o primeiro tempo terminasse naquele momento, já teria sido ótimo pela qualidade do que foi apresentado. Mas havia mais guardado para ainda antes do intervalo. Aos trinta e nove, após escanteio pela direita, Chiesa pegou a sobra e mandou à esquerda. Aos quarenta e três, saiu o segundo gol italiano. Aliás, um golaço: Insigne carregou pela esquerda, trouxe para dentro driblando Tielemans e chutou bonito, no melhor estilo que o importalizou com a camisa do Napoli, mandando no canto esquerdo de um Courtois que saltou, esticou o corpo de cento e noventa e nove centímetros de estatura, ergues os braços em direção à bola, mas não alcançou. O destino do remate de Insigne era a rede. Dois a zero.

Desfalcada de um de seus principais jogadores - Eden Hazard não foi sequer listado para o banco de reservas -  e com desvantagem de dois gols, a Bélgica não tinha tempo para lamentações. E, numa jogada individual pelo lado esquerdo, o hábil Jeremy Doku foi derrubado dentro da área por Giovanni Di Lorenzo. Pênalti que Lukaku cobrou no meio, com Donnarumma se deslocando para a direita. Era o quinto gol do atacante da Internazionale em cinco jogos diante do goleiro do Milan. A provocação era bônus.

Se o primeiro tempo foi ótimo, o segundo também não decepcionou. Com um minuto, Verratti tinha a bola pelo lado esquerdo e rolou para Chiesa, que chutou à esquerda. Aos seis, Barella avançou e abriu na direita com Chiesa, que cruzou rasteiro com força demais e Ciro Immobile não conseguiu alcançar.

Não é trivial substituir Eden Hazard nos onze iniciais. Na primeira fase, vimos o técnico Roberto Martínez optar por Yannick Ferreira Carrasco, que até teve algumas participações interessantes. Mas se teve uma agradável surpresa nesse Bélgica e Itália foi a escolha de Martínez por Jeremy Doku. Um jovem de dezenove anos de idade, preferencialmente destro e que atua com extrema desenvoltura pelo flanco esquerdo. Tinha sofrido o pênalti convertido por Lukaku no final do primeiro tempo, mas tinha mais a oferecer.

Aos dez minutos, Doku driblou a marcação pela esquerda, foi à linha de fundo e cruzou rasteiro, com Donnarumma abafando em dois tempos e impedindo a saída da bola em escanteio. Na marca de quinze, em rápido de contra-ataque, Doku avançou nas costas de Di Lorenzo e passou para De Bruyne na jogada de ultrapassagem. De Bruyne conseguiu descolar passe para Lukaku que, sem goleiro, completou para o gol. Só que havia um Leonardo Spinazzola no meio do caminho, salvando a pátria italiana.

A Itália via a Bélgica crescer na proporção em que Doku era acionado. Àquela altura, já não se viam jogadas de infiltração no time de Roberto Mancini. Mas os italianos possuem outros recursos. Aos vinte e três, de fora da área, Insigne deu outro belo chute, dessa vez espalmado por Courtois no canto esquerdo.

Martínez trocou Tielemans por Dries Mertens aos vinte e três. E já no minuto seguinte, o meio-campista companheiro de Insigne no Napoli participou de ótima chegada belga: Mertens arrancou, rolou na esquerda para Nacer Chadli (que também acabara de entrar, substituindo Thomas Meunier), Chadli cruzou, a bola foi desviada e por pouco não foi alcançada por Lukaku nem por Thorgan Hazard, com Donnarumma já fora do lance.

Para infelicidade de Chadli, uma lesão não permitiu que ele ficasse mais do que cinco minuto no campo, forçando Martínez a substituí-lo. O técnico optou por Dennis Praet, mesmo tendo Carrasco, Batshuayi e Benteke à disposição.

Com uma Itália totalmente dedicada a se defender, a Bélgica via poucas alternativas para penetração na defesa adversária. Mancini já tinha trocado Verratti por Cristante, Immobile por Belotti e Insigne por Berardi, incrivelmente mexendo em três peças entre meio e ataque sem trazer para jogo Manuel Locatelli, que faz ótima Eurocopa. São coisas assim que dificultam eu criar qualquer admiração por esse treinador, mesmo quando monta equipes funcionais e interessantes como essa italiana. Simplesmente escapa da minha compreensão. Aos trinta e quatro, por motivo de força maior, precisou tirar Spinazzola por motivo de lesão (infelizmente, as notícias posteriores foram de ruptura no tendão de Aquiles daquele que foi possivelmente o melhor lateral esquerdo nessa edição da Euro). Se Roberto Mancini finalmente trouxe Locatelli? Que nada: escolheu Emerson Palmieri.

Aos trinta e oito minutos, a Bélgica apelou para aquele que era o mais insinuante de seus jogadores: Doku. O camisa vinte e cinco recebeu no flanco esquerdo, foi enfileirando marcadores enquanto trazia a bola pro centro e descolou chute forte, que passou perto do travessão.

O pavor da Azzurra com Doku se traduziu na última substituição de Mancini: saiu Chiesa para a entrada de Rafael Tolói. Com os três ítalo-brasileiros em campo e um time praticamente inteiro concentrado na defesa, a Itália já não mais atacava e tinha como dedicação exclusiva fazer o relógio correr mais do que o Doku. Para se ter uma ideia de a que ponto isso chegou, aos quarenta e sete minutos o goleiro Donnarumma ficou aproximadamente dezessete segundos com a bola na mão. Acho que não fui avisado sobre a supressão da "regra dos seis segundos"...

Com o apito final, a Itália avança para a semifinal, quando enfrentará a Espanha. 

A Bélgica, por sua vez, retorna para casa. Foi uma bela campanha, certamente prejudicada pela lesão de Eden Hazard e pela limitação física do valente e dedicado De Bruyne. Mas há uma ótima notícia para os belgas: Jeremy Doku. Olho nesse jovem. Provavelmente será a maior oxigenação dessa geração que já encanta e que, agora, passa a ter um novo elemento para chamar de seu.

Com muita velocidade e habilidade, Jeremy Doku foi um dos destaques na partida. Foto: Reuters.

domingo, 27 de junho de 2021

Itália Passa Aperto, É Finalmente Vazada, Mas Supera A Valente Áustria Na Prorrogação

Num confronto taticamente interessante, a seleção italiana viveu neste sábado, em Londres, o seu maior desafio nessa Eurocopa: a organizada e propositiva seleção austríaca. O resultado de zero a zero durante os noventa minutos deram o tom da dificuldade que uma equipe impunha à outra. Mas, na prorrogação, a Itália conseguiu a vitória por dois a um - com direito a sufoco no final.

No primeiro tempo, Itália tem as melhores chances, mas pára no goleiro - e na trave

Num jogo onde ambas as equipes procuravam manter a bola na grama e encontrar espaços a partir da posse de bola, ficou evidente que o confronto entre Itália e Áustria seria técnico e, também, tático. E os italianos perceberam que as coisas fluiriam melhor pelo seu lado esquerdo de ataque, que tinha em Leonardo Spinazzola e Lorenzo Insigne duas figuras participativas nas ações ofensivas.

Aos dez minutos, Spinazzola chutou à direita em jogada com Nicolo Barella e Domenico Berardi. Aos treze, Insigne conduziu pela esquerda, chutou e o goleiro Daniel Bachmann defendeu. 

Barella, que apoiava rotineiramente o ataque, apareceu bem aos dezesseis, quando teve sua bonita finalização de trivela defendida pela perna direita de Bachmann. No minuto seguinte, a Áustria teve uma boa situação: Marcel Sabitzer lançou nas costas da defesa e encontrou Marko Arnautovic, que emendou chute firme para surpreender Gianluigi Donnarumma, mas mandou por cima do travessão.

Na marca de trinta e um minutos, o maior "quase gol" da primeira etapa: Ciro Immobile resolveu arriscar de fora da área e o chute colocado carimbou a trave direita alguns centímetros abaixo do encontro com o travessão - Bachmann apenas assistiu.

Aos quarenta e dois, Spinazzola, mesmo marcado por Stefan Lainer e Aleksandar Dragović, chutou de fora com perigo - dessa vez Bachmann não quis saber de apenas assistir e tratou de espalmar uma bola que nem iria no gol, mas talvez o susto naquele anterior tenha motivado o goleiro a saltar além da trave direita.

Áustria volta melhor do intervalo e as oportunidades aparecem

Aos três minutos, Arnautovic estava cercado de italianos no comando de ataque, mas nem por isso se intimidou: ele carregou, escapou de dois marcadores pela esquerda, mas o chute saiu torto. 

Na marca de seis minutos, David Alaba cobrou falta buscando o ângulo esquerdo, mas a bola fez o movimento descendente depois do travessão, passando perto do alvo.

Alaba, virtuoso no apoio e na marcação, foi fundamental aos dez minutos, quando interveio em passe de Insigne buscando Immobile, mandando para escanteio. Aos dezesseis, Sabitzer chutou, a bola desviou em Leonardo Bonucci e saiu à direita, com o quique encobrindo Donnarumma. Após a cobrança de escanteio dali originada, a bola permaneceu viva na área italiana e chegou até Arnautovic, que chutou e Donnarumma defendeu.

Melhor no jogo, a Áustria continuou pressionado e foi à rede aos dezenove: Alaba foi lançado na esquerda, inverteu de cabeça e Arnautovic cabeceou, com a bola dormindo no gol após tocar no travessão. Os austríacos comemoraram, mas tiveram a euforia frustrada pela anulação por impedimento após revisão do lance com apoio tecnológico.

Substituições melhoram a Itália

Após passar maus bocados na partida e ver o adversário dominar as ações, finalmente Roberto Mancini mexeu na Itália. Foram a campo Manuel Locatelli (que vinha fazendo ótima Euro, estranhamente barrado) e Matteo Pessina; saíram Marco Verratti e Barella (que tinha um cartão amarelo). 

Não demorou muito para tanto Locatelli quanto Pessina participarem ativamente de uma jogada de ataque: aos vinte e seis, Pessina recebeu a bola, rolou para Locatelli, e o camisa cinco conseguiu fugir da marcação, chutando à esquerda. No mesmo minuto, Insigne recebeu de Immobile após saída de jogo mal feita pela Áustria e chutou cruzado, à esquerda.

Os comandados de Franco Foda conseguiram rearrumar a marcação e inibiram as chegadas da Azzurra, que somente teria uma última chance aos trinta e sete - mas a tentativa de voleio de Berardi não deu nada certo. O rumo do jogo era mesmo a prorrogação.

Primeiro tempo da prorrogação para os italianos agradecerem a Deus

Tendo realizado quatro alterações no tempo regulamentar (além das duas já mencionadas, entraram Andrea Belotti e Federico Chiesa nos lugares de Immobile e Berardi), a Itália mostrava novo comportamento no setor ofensivo. Já a Áustria havia mexido uma única vez, e por motivos de força maior: no final do tempo regulamentar, Christoph Baumgartner, sem condições de continuar em campo, deu lugar a Alessandro Schöpf.

Aos três minutos, um ensaio do gol italiano: Chiesa recebeu pela direita e chutou para defesa de Bachmann. No minuto seguinte, o gol saiu exatamente em jogada com Chiesa, novamente pelo lado direito de ataque: ele recebeu ótimo passe de Spinazzola, ajeitou com o rosto, cortou a marcação de Konrad Laimer e chutou cruzado. Vinte e cinco anos e doze dias depois de seu pai, Enrico Chiesa, ter marcado diante da República Tcheca, na Euro 1996. Essa se tornou a primeira vez na história da Eurocopa que pai e filho marcaram gol para uma seleção.

Tal pai, tal filho: vinte e cinco anos depois de Enrico, Federeico Chiesa marca gol em Eurocopa e estabelece marca inédita na história da competição. Imagem extraída de Guatemala Times.

 

Na marca de catorze minutos, quase saiu o primeiro gol de falta nessa edição: Insigne cobrou bem e o goleiro Bachmann foi melhor ainda, indo espalmar próximo ao ângulo direito, mandando para escanteio. Escanteio cobrado, bola parcialmente afastada e quem se manteve na área austríaca foi o zagueiro italiano Francesco Acerbi. Sábia decisão: Spinazzola abriu na esquerda com Insigne, que centralizou o lance encontrando Acerbi, que recebeu na área, fez a proteção e deixou Pessina em ótima situação para marcar o segundo. Era o centésimo gol marcado na Eurocopa 2020.

Schaub entra bem, Áustria reage e jogo tem final eletrizante

Tendo mexido apenas uma vez no tempo regulamentar (aquela mencionada alteração por lesão) e uma outra no primeiro tempo na prorrogação (Arnautovic por Sasa Kalajdzic), Franco Foda tratou de realizar duas mexidas ao mesmo tempo no intervalo: sáiram Florian Grillitsch e Xaver Schlager, entraram Louis Schaub e Michael Gregoritsch). E Schaub foi figura fundamental na reação austríaca.

Logo no primeiro minuto, Schaub descolou excelente chute de fora da área, com força e colocação, parando em defesaça de Donnarumma, que conseguiu esticar o braço esquerdo para evitar o gol.

Em lance isolado aos três minutos, Giovanni Di Lorenzo saiu em disparada desde a defesa italiana e chutou para fora, deixando a dúvida se ele tem apenas dois pulmões em seu organismo multicelular. 

Aos cinco, Gregoritsch cruzou da direita e Sabitzer teve duas chances. Na primeira, pegou mal na bola com a perna direita; na segunda, imediatamente na seqûencia, tentou com a perna e esquerda mas chutou para fora.

Na marca de sete minutos, Schaub emendou de e esquerda e a bola subiu após desviar em Spinazzola. Escanteio para a Áustria. O próprio Schaub se encarregou da cobrança: ele mandou no primeiro poste, Kalajdzic mergulhou rente à grama se antecipando à marcação e, após 1159 minutos (o número é esse mesmo, mil cento e cinquenta e nove), Donnarumma foi finalmente vazado em jogos oficiais pela seleção italiana. Gol da Áustria para dar contornos dramáticos à partida em Wembley.

Aos treze, Gregoritsch chutou de fora, de primeira, e mandou à direita.

Os austríacos se mandaram ao ataque como se não houvesse amanhã. Coube à Itália explorar os espaços deixados na defesa. Aos catorze, Chiesa foi acionado pela esquerda, encobriu Bachmann mas viu Christopher Trimmel evitar o terceiro gol. Novamente aos catorze, novamente explorando a avenida aberta na defesa austríaca, Chiesa arrancou em contra-ataque e trombou com o inesgotável Martin Hinteregger - o árbitro inglês Anthony Taylor mandou seguir. Mas não por muito tempo, pois aos dezesseis, ele apitou pela última vez. Estava encerrado o jogo. Aliás, que jogo! A Itália avança. Mas precisaremos lembrar com carinho dessa performance da Áustria. Sob o comando de Franco Foda, essa equipe jogou um belo futebol e desenvolveu um toque de bola entre os melhores de todo o torneio. Que esse trabalho tenha continuidade. O esporte agradece.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Suécia Desbanca Itália E Confirma Vaga Na Rússia

Roberto Baggio, Alessandro Del Piero, Francesco Totti. Três lendários camisas 10 que a Itália ofertou ao futebol nas últimas décadas. Todos aposentados, com seus nomes eternizados em grandes atuações e diversas conquistas pessoais e coletivas. Fico imaginando o que pode ter passado pela cabeça deles ao assistirem o jogo desta noite de 13.11.2017...

A Azzurra, de tanta tradição e quatro títulos mundiais, precisava de uma vitória por dois gols de diferença diante da Suécia para ir à Copa do Mundo 2018. E, pela primeira vez desde as Eliminatórias para o Mundial de 1958, falhou. Em 1958, nenhum daqueles três era nascido. Em 1958, o Brasil ainda estava para conquistar seu primeiro título de campeão do mundo. Em 1958, o futebol profissional ainda não havia sido apresentado a Mané Garrincha.

Essa Itália de 2017 obriga a voltarmos mais de meio século no tempo. Não havia referência mais recente de um fiasco tão grande no futebol daquele país. Em 2010, uma Copa após o tetra, uma queda na primeira fase causou bastante barulho. Mas o que dizer de agora? Senhoras e senhores de todas as gerações, o agora da Itália é uma vergonha.

Vergonha ser eliminada pela Suécia? Não. Vergonha ser eliminada pela Suécia da forma que foi eliminada pela Suécia. Mesmo diante de um adversário que abdicava de atacar - seja por estratégia covarde, seja por sentir a pressão psicológica do jogo no San Siro -, os italianos foram até o apito derradeiro com três zagueiros em campo. Lorenzo Insigne, o mais cerebral jogador desta geração, sequer entrou no jogo. E o resultado é a vergonha.

Cabe aos suecos celebrar o feito surpreendente de sobreviver a um grupo com Holanda e França (a Laranja também ficou fora da Copa) e, de quebra, superar uma seleção tetracampeã mundial. Porém, há que se frisar que a atuação de hoje não corresponde ao feito sueco. Há muito o que ser melhorado até junho do ano que vem. Para a Itália, é inescapável uma reformulação intensa. Que deve começar pelo comando técnico mas que, necessariamente, deve passar pela filosofia por trás de cada escolinha de futebol no país até os centros de treinamento dos principais clubes nacionais. A paixão do povo italiano precisa ser respeitada. E hoje, com Insigne no banco, três zagueiros em campo e substituições que tiraram qualquer organização tática na construção das jogadas, o que mais faltou não foi o gol - foi respeito com o futebol. E, naturalmente, com Baggio, Totti e Del Piero.
Suecos festejam a histórica classificação em Milão. Foto: AFP.

domingo, 3 de julho de 2016

Resumão Das Quartas Na Eurocopa 2016

As quartas-de-final na UEFA Euro 2016 reservaram fortes emoções aos apaixonados por futebol. De surpresas a confirmações de favoritismo, de jogos definidos nos pênaltis a goleada, bastante coisa aconteceu de interessante entre quinta-feira e domingo. Vamos a alguns pitacos.

[1] Polônia 1(3)a(5)1 Portugal.
[1.1] Saiu o primeiro gol de Robert Lewandowski na Eurocopa 2016. Logo no início da partida, ele aproveitou passe de Grosicki em jogada pela esquerda e completou esbanjando aquele oportunismo habitual que é exibido temporada após temporada na Bundesliga.
[1.2] Renato Sanches, jovem talento que será parceiro de Lewandowski no Bayern de Munique, mostrou que está pronto e preparado para ajudar a seleção portuguesa. Marcou o gol de empate após tabela com Nani e, principalmente, se ofereceu à equipe. Demonstra mais senso de coletividade que alguns astros consagrados (sim, isso foi uma indireta - que com esses parênteses se torna direta - ao Cristiano Ronaldo).
[1.3] Desempate por pênaltis é uma coisa que foge completamente da análise pragmática: na definição da classificação portuguesa, eis que o único polonês a desperdiçar a cobrança foi exatamente aquele jogador que tem uma das melhores pontarias da equipe: Blaszczykowski. Grande defesa do goleiro Rui Patrício.
[1.4] Capricho dos deuses do futebol que a cobrança derradeira tenha cabido a Ricardo Quaresma. O tatuado camisa 20, que veio do banco para novamente contribuir, vem fazendo bela competição e dando uma força ofensiva muito útil para abrir a última linha de defesa adversária, principalmente pelos flancos.

[2] País de Gales 3a1 Bélgica.
[2.1] Considerando a diferença de nível técnico entre as equipes (com todo respeito aos galeses, que têm muitas qualidades) e a circunstância do jogo (leia-se o golaço de Nainggolan aos doze minutos para abrir a contagem), País de Gales conseguiu um resultado histórico ao conseguir virar a partida.
[2.2] Curiosamente, em nenhum dos três gols houve participação direta do sempre participativo Gareth Bale. Coube a Aaron Ramsey conduzir a classificação com duas assistências na partida. Sua suspensão a ser cumprida na semifinal terá, sem dúvida, um impacto no time. Será desafiador jogar sem o cerebral camisa 10.
[2.3] A excepcional geração belga merece os elogios que recebe e o que Marc Wilmots vem fazendo frente a esta seleção é algo que não pode ser jogador fora pura e simplesmente devido a uma ou outra eliminação. Deve, isto sim, ser exaltado o esforço de fazer um elenco talentoso jogar de maneira a evidenciar essa capacidade técnica acima da média. Os desfalques na última linha de defesa pesaram, mas talvez sejam os jovens que não funcionaram nesse jogo aqueles que irão suceder os mais experientes. E Wilmots mostra sensatez ao pedir que os garotos sejam poupados de críticas. Hoje, a Bélgica caminha no sentido certo.

[3] Alemanha 1(6)a(5)1 Itália.
[3.1] Embora dominante territorialmente e sendo propositiva na maior parte do tempo, a Alemanha esbarrou na estratégia italiana. Uma estratégia que, diferentemente das oitavas diante da Espanha, zelou muito mais pelo anti-jogo do que por qualquer outra coisa. A Azzurra jogou por menos do que "uma bola". Se pudesse definir a classificação no cara-ou-coroa, provavelmente Antonio Conte se prontificaria a fazê-lo.
[3.2] Inegável que haja mais qualidade na equipe alemã, mas não justifica o excesso de defensivismo italiano na partida. De toda forma, fica evidente que os campeões mundiais, com toda a dificuldade que tiveram para obter a classificação, não são um time imbatível. Mas são o time a ser batido. Um time que dá gosto de ver jogar, mesmo quando o jogo é truncado.
[3.3] Seguindo o fluxo ilógico de um esporte onde vemos perderem pênaltis Lionel Messi e Arturo Vidal numa final de Copa América, a Alemanha viu Müller, Özil e Scweinsteiger desperdiçarem cobranças. Buffon estava pronto para sair como herói. Mas Neuer, com a frieza e a competência que lhe caracterizam, conseguiu ajudar os alemães a, finalmente, superarem os italianos em "jogo pra valer".
[3.4] Apenas para não deixar passar em branco: Boateng cometeu o pênalti convertido por Bonucci porque marcava corretamente o Chiellini. Curiosamente, seus braços esticados de modo a não cometer infrações no adversário, acabaram encontrando a bola naquela cobrança de escanteio. Faz grande Eurocopa o defensor alemão, que terá a missão de conduzir novamente o setor, dessa vez sem Hummels ao lado.

[4] França 5a2 Islândia.
[4.1] Possivelmente a melhor atuação de uma seleção nos primeiros quarenta e cinco minutos de partida nessa Euro. 4a0 com autoridade, naturalidade, intensidade. Tudo junto e misturado num liquidificador que triturou completamente a defesa e o sonho islandês em Paris. Deschamps conseguiu o ponto de equilíbrio num time marcado pela leveza e movimentação. Grandes atuações de Payet e Griezmann.
[4.2] A Islândia fez história nessa Eurocopa. Marcando gol em todos os jogos, não se intimidando em nenhum deles, procurando sair para o jogo quando via a possibilidade - conseguiu superar as próprias limitações e proporcionar um nível de competitividade de uma maneira a protagonizar jogos agradáveis de se assistir. Sair com uma goleada nas costas é doloroso. Mas a campanha viking na França é para ser lembrada com carinho por gerações. Sobretudo pela mobilização popular, desde as menos conhecidas cidades islandesas até as arquibancadas dos mais famosos estádios franceses. Engrandeceu o futebol. E merece os nossos aplausos.
Sinergia entre time, torcida e nação: a Islândia deu um espetáculo na França. Foto: Reuters / C. Hartmann.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Gol Brasileiro Dá Vitória À Itália Sobre A Suécia

Itália e Suécia fizeram, em Toulouse, um jogo para destoar do padrão da Eurocopa-2016. Trocas de passes foram quase sempre de caráter defensivo. Jogadas de infiltração, escassas. Finalizações, poucas em quantidade e também aquém em qualidade. Caminhava para um 0a0. Só que, no futebol, é justamente quando um resultado parece óbvio que devemos dele desconfiar. Aos quarenta e dois minutos no segundo tempo, Éder Citadin Martins, cidadão italiano nascido no Brasil, recebeu de Simone Zaza, carregou a bola para a direita e chutou no canto esquerdo do goleiro Andreas Isaksson.

O resultado coloca a Itália com seis pontos e matematicamente classificada às oitavas. Nenhum gol sofrido pelo time que tem Buffon no gol, Barzagli, Bonucci e Chiellini na zaga e que deixa a dúvida se estamos falando da Azzurra ou da Vecchia Signora. Ainda mais porque o treinador é o outrora juventino Antonio Conte. Fato é que a seleção italiana tem no sistema defensivo a sua maior virtude. No entanto, falta talento nas linhas ofensivas. Pensar que a camisa 10, que já foi trajada por Roberto Baggio, Francesco Totti e Alessandro Del Piero, hoje é usada por Thiago Motta... De toda forma, é sem dúvida um plantel com espírito competitivo.

Os suecos, que haviam empatado na primeira partida, permanecem com um ponto. Zlatan Ibrahimovic, embora solícito, pouco produziu. Kim Källstrom (mais centralizado) e Martin Olsson (pelo flanco esquerdo) eram figuras que procuravam dar uma alternância de jogo a uma equipe que, de tão previsível, faz a gente pensar como é que conseguiu chegar a uma competição desse nível. Provavelmente, o fator Ibra. Fator esse que, de tão acostumado a jogar na França, parece que ainda não entendeu que acabou a Ligue 1 e começou a Eurocopa.
Éder escapa da marcação sueca e chuta da meia-lua para marcar o gol único na partida. Imagem extraída de Republica.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Itália Segura A Bélgica E Arranca Vitória Em Grande Estréia

De um lado, o talento de uma geração que levou sua seleção ao topo no ranqueamento da FIFA. De outro, uma camisa que, de tão tradicional, parece ter vida própria. Bélgica e Itália fizeram um dos melhores jogos da Eurocopa 2016 até o presente momento. Foram muitos os ingredientes que colaboraram e talvez o principal deles tenha sido o fato de os italianos jamais abdicarem do ataque, mesmo jogando com uma postura flagrantemente defensiva.

Com uma formação de três zagueiros e dois volantes, Conte tratou de dar permissão para os laterais subirem nos momentos de posse de bola. Os belgas, pouco produtivos, tinham dificuldades de criar as jogadas que caracterizam a equipe de Wilmots - as oportunidades se resumiram basicamente a chutes de fora da área. Sendo a Itália eficiente na árdua tarefa de conter Hazard e De Bruyne, a Azzurra foi coroada com um golaço no primeiro tempo: um tanto pelo domínio e finalização de Giaccherini e mais ainda pelo primoroso lançamento de Bonucci, que do seu próprio campo acionou o companheiro na área adversária. Não vi Gérson jogar, mas imagino que seu repertório fosse da beleza daquele lançamento do zagueiro.

Veio o segundo tempo e, a partir dos primeiros minutos, o jogo que já era bom ficou excepcional. Lukaku teve grande chance de igualar o placar, mas acabou chutando para fora quando esteve de frente com Buffon. Origi, que entrou em seu lugar, também esteve em situação de liberdade, mas cabeceou por cima. Pelo lado italiano, as finalizações, quando tomavam o rumo do gol, paravam em intervenções espetaculares de Courtois. Só que, nos acréscimos, Pellé não desperdiçou: em contra-ataque, elerecebeu de Candreva e voleou para estufar a rede e marcar 2a0 em Lyon.

A Itália dá um grande passo para a classificação. Mas sua maior conquista foi a motivação conquistada após um resultado maiúsculo diante de uma forte seleção. Até onde pode ir a Itália? Sei não... Mas é prudente, no mínimo, levá-la em consideração...
Após receber lançamento sensacional de Bonucci nas costas de Alderweireld, Giaccherini abre o placar diante de Courtois. Foto: Getty Images.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Godín Marca E Uruguai Elimina Itália Em Confronto Canibal

As duas primeiras campeãs mundiais na história das Copas se enfrentaram em Natal para ver quem seguiria para a fase oitavas-de-final. Só havia lugar para uma delas, pois a gigante Costa Rica já assegurara sua classificação com uma rodada de antecipação, vencendo tanto o Uruguai (3a1) quanto a Itália (1a0). Com a vantagem do empate, os italianos foram a campo com uma formação focada na manutenção da posse de bola, povoando o meio-campo com dois laterais e três volantes - atrás uma trinca de zagueiros e na frente a dupla Immobile e Balotelli. Era o suficiente para conter os uruguaios e manter o domínio da redonda consigo, até porque a equipe sul-americana foi derrotada territorialmente na zona central do gramado, só conseguindo como válvula de escape algumas jogadas pelos flancos, principalmente quando envolviam Álvaro Pereira e Cristian Rodríguez, que atormentaram Darmian, Barzagli e outros italianos que eventualmente faziam a cobertura naquele setor.

A melhor chance no primeiro tempo deu-se em lance de bola parada, com Andrea Pirlo cobrando falta e Fernando Muslera espalmando no alto e para cima. Ciente de que a produtividade uruguaia no primeiro tempo era pequena para quem necessitava vencer, Tabárez voltou com Maximiliano Pereira no lugar de Nicolás Lodeiro. Um contrassenso, por mais que Nico Lodeiro não tivesse ido bem nos primeiros quarenta e cinco minutos. Prandelli também mexeu no intervalo, provavelmente preocupado com o risco de jogar com dez: tirou Mario Balotelli, amarelado e automaticamente suspenso, por Marco Parolo. A preocupação era justa, notadamente levando em consideração que tratava-se de um jogo que tinha ingredientes e temperos suficientes para encaminhá-lo a momentos de tensão. O que o treinador da Azzurra talvez não imaginasse é que Claudio Marchisio fosse perder a cabeça e desferir uma solada em Arévalo Ríos: cartão vermelho direto para o camisa oito italiano.

Em vantagem numérica, Tabárez colocou Christian Stuani no lugar de Álvaro Pereira. Ganhou elementos ofensivos, mas não solucionou o problema da falta de articulação entre meio e ataque. Cavani e Suárez até voltavam para buscar jogo, mas tal retorno esvaziava o ataque da equipe e facilitava o trabalho de marcação da Itália, sempre bem postada na defesa. Aos vinte e cinco, Prandelli fez uma boa mexida, colocando Cassano no lugar do inoperante Immobile. Talvez o que faltasse para o Uruguai fosse exatamente um jogador com as características de Cassano - algo como aquele Forlán de 2010. E se faltava alguma coisa para o jogo pegar fogo no Rio Grande do Norte, passou a não faltar mais a partir do momento em que Luis Suárez perdeu a cabeça, a razão, a estribeira, e qualquer outra coisa que se espera de um desportista leal, ao desferir uma mordida no ombro de Chiellini. Suárez perdeu tudo ali. Só não perdeu o direito de continuar em campo, pois o árbitro mexicano Marco Antonio Rodríguez Moreno justificou seu apelido de Conde Drácula e tolerou o gesto vampiresco de Luisito, mesmo após Chiellini mostrar as marcas da arcada dentária do uruguaio por baixo da camisa.

Os italianos se revoltaram, pois tinham naquele momento a oportunidade de voltarem a jogar em igualdade numérica, tirando de campo a principal ameaça adversária - em todos os sentidos. Exausto, Verratti deu lugar para Thiago Motta, proporcionando uma queda de qualidade na saída de bola italiana. Do lado celeste, Rodríguez, que correu e jogou demais, saiu para a entrada de Gastón Ramírez. Três minutos após essa substituição - que era a última por direito -, saiu o gol uruguaio: escanteio cobrado pela direita pelo próprio Ramírez e subida de Diego Godín. Acredito que Godín nem sabia exatamente para onde havia direcionado a bola naquele momento, mas os deuses do futebol tinham certeza: para o fundo da rede. A partir dali, ouviram-se os sons da maioria uruguaia presente no estádio. A partir dali, a situação italiana virou um drama elevado ao cubo: precisavam do gol, estavam em desvantagem numérica e o cansaço físico e psicológico batiam cada vez mais forte com o avançar do cronômetro.

Uma tabela de Cassano com Thiago Motta foi o melhor lance ofensivo dos europeus. Talvez se fosse entre Cassano e Verratti, o desfecho fosse diferente. Fato é que Motta não conseguiu dar seqüência ao lance. E a Itália quase nada conseguiu criar novamente. Criou, isto sim, um possível trauma: se em 2002 a equipe de Trapattoni foi garfada na Coréia do Sul, doze anos depois o time de Prandelli foi mordido no Brasil. Pela segunda vez consecutiva, os tetracampeões mundiais caem na fase de grupos na Copa do Mundo. E o Uruguai segue em frente. Próxima parada: Maracanã. Quem não tem medo de vampiro, há de ter algum receio de fantasma.

sábado, 21 de junho de 2014

Que Rico, Costa Rica!

Algumas semanas antes de começar a Copa do Mundo 2014, havia um quase consenso sobre pelo menos uma coisa: a chave D era o "Grupo da Morte". Eu discordava, pois se por um lado havia um inédito encontro entre três campeões mundiais, por outro não havia uma quarta força. Quem era mesmo o integrante que se juntava a Itália, Inglaterra e Uruguai? A Austrália? Não, não... Acho que era Honduras! Não... Era outra... Talvez Argélia? Ah, sim! Era a Costa Rica! Enfim, um grupo com três campeões mundiais mais uma seleção sem tradição, candidata a sair da Copa zerada em pontos e com um recorde negativo no saldo de gols, certo?

Errado, errado, errado. Um milhão de vezes errado. A grande força do "Grupo da Morte" (sim, agora concordo com essa afirmação sobre o grupo D no Mundial 2014) é aquela ilha na América Central que faz fronteira com a Nicarágua e com o Panamá, sendo banhada pelos oceanos Atlântico e Pacífico, contando com uma legislação ambiental inspiradora. No futebol, suas glórias não podem ser comparadas às de italianos, ingleses e uruguaios. Diga rápido o nome de um time da liga nacional costarriquenha. Certo, dou-lhe o dia inteiro para trazer-me uma resposta.

Dentro de campo, uma equipe absolutamente sensacional. Disciplinada taticamente, valente, com vocação ofensiva. Envolvente, veloz, bem postada. Atenta, perspicaz, esbanjando forma física. Que sabe reagir (vide virada na estréia diante da Celeste). Que sabe administrar o resultado (vide vitória na segunda rodada diante da Azzurra). Amantes do futebol a grande sensação do torneio denominado Copa do Mundo 2014 é a Costa Rica. Ontem, em Pernambuco, os torcedores presentes foram agraciados por uma atuação maiúscula - tanto pela solidez, quanto pela desenvoltura. Que nem a arbitragem errônea de Enrique Osses foi capaz de estragar ao negar pênalti claro de Chiellini em Campbell. Cerca de um minuto depois do escândalo, um cruzamento que prefiro chamar de passe, ou melhor, assistência, de Júnior Enrique Díaz Campbell (xará de sobrenome do atacante Joel, aquele mesmo que arrebentou na partida inaugural e que instantes antes sofrera o pênalti não marcado), enfim, uma assistência de Díaz encontrou o capitão Bryan Ruiz González. O ótimo camisa dez concluiu de cabeça, conseguindo superar Buffon, arbitragem e tecnologia: a bola entrou, senhoras e senhores. A Costa Rica está na Copa, senhoras e senhores. A Costa Rica está classificada com uma rodada de antecedência, senhoras e senhores. É a equipe que joga com mais vida no "Grupo da Morte". Daquelas que dá vontade de torcer eternamente. Sinceramente? Preciso comprar uma camisa.

Dá-lhe Costa Rica!
 Acima, a festa no gramado após a histórica vitória sobre os italianos e a classificação assegurada num grupo com a presença de três campeões do mundo. Abaixo, celebração com a torcida: a Costa Rica é gigante!

sábado, 14 de junho de 2014

Quando O Futebol Faz O Clima: Um Ótimo Itália E Inglaterra

Itália e Inglaterra sobreviveram a Manaus. O clima, como esperado, era severo - jogar a trinta graus Celsius quando se acostuma a jogar na metade dessa temperatura é praticamente um pesadelo, sobretudo levando-se em consideração a questão da umidade. Para piorar, o estado do gramado deixava em dúvida os rigores dos propagandeados "padrão FIFA". Quer dizer: parece que a entidade é mais exigente com as questões econômicas e financeiras do que com o espetáculo em si.

Mesmo com tudo isso, o confronto entre essas duas campeãs mundiais foi de ótimo nível. Muito, mas muito superior ao encontro entre elas em 2012, na fase quartas-de-final na Eurocopa. Conclusão: há mais fatores determinantes para a qualidade de um jogo do que todos aqueles citados no primeiro parágrafo. Talvez seja essa a magia da Copa do Mundo. Quem foi até a Arena da Amazônia testemunhou uma partida pra lá de interessante. Dinâmica, com domínios alternados, variação de jogadas e composições. Quando jogadores de talento reconhecido brilharam, as coisas ficaram ainda melhores. Por exemplo, o primeiro gol do jogo: Marchisio chutou bonito para superar Hart em jogada onde Pirlo mostrou genialidade ao tirar o corpo da bola para deixar o companheiro em condições de finalizar. A Inglaterra respondeu rapidamente para empatar, em cruzamento preciso do até então sumido Rooney para o participativo Sturridge. 1a1.

O desgaste físico era notório já no primeiro tempo. Gerrard, por exemplo, ofegava antes de cobrar escanteio. Um membro da comissão técnica inglesa deixou o entorno do gramado carregado na maca. Atletas mediam a corrida. Mas, no segundo tempo, ambos os elencos se superaram. A Itália chegou ao segundo gol com Balotelli, perfeito no tempo de bola para concluir de cabeça e recolocar a Azzurra em vantagem. Só que quem pensou que aquilo abateria os ingleses, enganou-se: foram criadas diversas ocasiões que quase recolocaram a igualdade no placar. E se a Itália lamentava a ausência de Buffon, lesionado em treinamento na véspera do jogo, pôde comemorar a atuação inspirada do também ótimo goleiro Sirigu. Suas defesas garantiram o triunfo no Amazonas. E, na próxima rodada, teremos duas situações pouco pensadas no passado recente: Inglaterra e Uruguai se enfrentam em nome da sobrevivência no torneio enquanto Itália e Costa Rica têm confronto direto para a liderança na chave, podendo inclusive render uma classificação antecipada.

Observação: destoando do padrão da competição, tivemos uma arbitragem correta. Parabéns, Kuipers. Mais uma goleada da Holanda.

domingo, 16 de junho de 2013

Campos No Maracanã: De Jogo Para Itália E México, De Guerra Para Os Brasileiros

Itália e México jogaram no Maracanã uma partida que tornou-se irrelevante se comparada à realidade circundante. Enquanto as seleções de Cesare Prandelli e José Manuel De La Torre disputavam algo que valia três pontos para o vencedor, nos arredores do estádio centenas de manifestantes eram reprimidos por policiais agressivos, violentos e fortemente armados. Manifestação pacífica. Então, fica a pergunta: para quem serve a polícia?

Dentro de campo - como se fosse humanamente aceitável olhar para o gramado enquanto nas ruas acontecia o que acontecia -, a Itália criou mais chances e mereceu vencer o jogo diante dos mexicanos. A transmissão televisiva, honrando os dizeres de que a revolução não será televisionada, não prestou uma única palavra sobre a barbárie e o caos que aconteciam a alguns metros de onde a partida se consumava. Mídia golpista é isso.

Guardado, Aquino, Giovani Dos Santos e Hernández participaram menos do jogo do que o amante de futebol gostaria: apesar da qualidade técnica nesse quarteto mexicano, faltava um ou outro elemento para fazer a bola neles chegarem. O meio-campo era italiano. Povoado por De Rossi, Pirlo, Montolivo, Marchisio e Giaccherini, a Azzurra levou a melhor territorialmente no setor. Mas sem jamais encantar. Faltava criatividade.

Chega a ser inconcebível pensar a Itália com Giovinco no banco. Ou mais grave: sem Francesco Totti ao menos relacionado. Mas o pior do dia não foi a falta de transição mexicana ou a escalação italiana. Foi a ação policial no Rio de Janeiro. As tropas das três esferas (Eduardo Paes, Sérgio Cabral e Dilma Rousseff) mostraram-se à postos para servir ao patrimônio privado concedido ao megaempresário Eike Batista. Tudo em detrimento da população. Resultado: derrota do Brasil.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O Haiti É Aqui

Pense no Haiti, reze pelo Haiti, como canta Caetano Veloso na música Haiti. Faça isso por motivos diversos. O país, que sofreu um terremoto avassalador em janeiro de 2010, busca a reconstrução. Reconstrução que já seria complicada caso se limitasse aos assuntos tangíveis aos engenheiros. Mas que é ainda mais dramática ao tratarmos dos traumas deixados por um evento que desencadeou o desencarne de mais de duzentos mil indivíduos, sonhos, famílias. E a gravidade só faz aumentar na medida em que nos deparamos com a profunda probreza que assola a república centro-americana.

Pense no Haiti, reze pelo Haiti e, futebolisticamente falando, inspire-se no Haiti. A seleção haitiana veio ao Rio de Janeiro, enfrentou a tetracampeã mundial Itália (que carrega o peso e a relevância da segunda maior vencedora na história das Copas) e... deu show. Sim, deu show. Um show de superação, de ousadia, de alegria. De jogar futebol. São Januário, estádio do Clube de Regatas Vasco da Gama, sede de tantas partidas válidas pelo calendário oficial brasileiro, recebeu o genuíno jeito de jogar tupiniquim. Ofensivo, valente, alegre. O Haiti empatou (com) a Itália. O Haiti é aqui!

Cesare Prandelli, treinador da Azzurra, disse que o resultado (2a2) foi vergonhoso para os italianos. Penso que não. O empate numa partida beneficente diante de uma seleção inexpressiva no futebol mundial não é uma vergonha. A vergonha reside, isto sim, na maneira de jogar. Por que os comandados de Prandelli não atuaram de maneira mais solta e envolvente? Tudo bem, não era um jogo oficial, etc e tal. Mas se o jogo teve alguma graça esportivamente falando, devemos todas as alegrias da tarde de terça-feira ao desempenho dos haitianos. Torço para que tenha sido deixada, naquele gramado de São Januário, uma semente no fértil solo do futebol brasileiro. Semente que, se Deus quiser, fará brotar em troncos fortes a autenticidade da seleção amarela, cinco vezes campeã mundial, e hoje entregue a indivíduos que não condizem com essa grandiosidade. E, da sombra dessa árvore imponente, que possamos voltar a saborear os frutos do futebol arte.

Obrigado pela bela lição, Haiti. Mostrou a nós algo que alguns dessa geração talvez tenham esquecido que existe: a alegria em se jogar futebol. Como se fosse... por música.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Espanha Para Contar Aos Netos

Digna das reverências de todos os amantes do futebol bem jogado, a Espanha conquistou o bicampeonato europeu consecutivo (o terceiro na história) após uma goleada incontestável de 4a0 pra cima da Itália. Os espanhóis foram tão superiores aos italianos que era difícil imaginar que dividiam o gramado no estádio olímpico de Kiev as duas últimas seleções campeãs mundiais. La Roja fez a Squadra Azzurra parecer time pequeno de modo similar àquilo que foi visto em dezembro, entre Barcelona e Santos, na final do Mundial de Clubes 2011. Duas ocasiões onde o jogar com arte, o ter a bola, o envolver o adversário, o buscar o gol carimbaram não apenas a vitória de um clube azul-grená ou de uma seleção vermelha, mas, sobretudo, representaram um triunfo dessa modalidade esportiva apaixonante denominada futebol. O futebol te ama, Espanha!

O jogo

Vinda de uma surpreendente vitória sobre a Alemanha na fase semifinal, a Itália parecia disposta - e com apenas dois dias de intervalo entre aquela partida e essa - a faturar o título continental. Cesare Prandelli armou a seleção com a mesma formação da partida anterior, contando com o retorno de Ignazio Abate para a lateral-direita. Vale lembrar que, na estréia na Euro 2012, a Itália enfrentou a Espanha com Daniele de Rossi na última linha de defesa, que na ocasião fora composta por Christian Maggio e Emanuele Giaccherini nos extremos e com Leonardo Bonucci e Giorgio Chiellini ao lado de De Rossi. Dessa vez, De Rossi atuou no meio-campo, mais próximo a Andrea Pirlo e mais distante de Gianluigi Buffon. Pirlo que, com um minuto, deu o primeiro chute do jogo, mandando à esquerda da meta uma tentativa de fora da área.

A Espanha montada por Vicente del Bosque para a final era rigorosamente igual à que enfrentou a Itália na partida inaugural nessa edição de Eurocopa, isto é, com Francesc Fàbregas escalado mais centralizado na linha de ataque, acompanhado pelas constantes aproximações de Andrés Iniesta (vindo da esquerda), David Silva (vindo da direita) e Xavi Hernández (vindo de trás). Mas a primeira finalização da equipe não foi de nenhum desses jogadores e nem aconteceu com bola rolando: aos cinco minutos, Sergio Ramos cobrou falta e mandou por cima da meta. O poderoso toque de bola espanhol apareceu com brilho no minuto seguinte: aos seis, Iniesta acionou Jordi Alba com enfiada de bola pela esquerda, o lateral recém-contratado pelo Barcelona cruzou e Chiellini cortou para impedir que a redonda encontrasse Silva, pronto para empurrar para a rede. A intervenção do italiano gerou escanteio que Xavi cobrou pelo lado direito e Ramos, de cabeça, deu a segunda finalização espanhola e pessoal na partida, mandando novamente por cima do travessão.

A imponência do estilo de jogo praticado pelos espanhóis e a identificação gerada entre os jogadores e o povo daquele país é algo tão extraordinário que, naquele início de partida, por volta dos oito minutos, com o placar ainda zerado, ouviam-se gritos de "olé" nas arquibancadas de Kiev, exaltando a filosofia de jogo praticada no épico Barça de Josep Guardiola e na épica Espanha de Del Bosque, dando seqüência ao trabalho de Luis Aragonés na seleção. Aos nove, após ótima trama de trocas de passe, uma tabela entre Cesc Fàbregas e Xavi terminou com uma finalização do camisa oito que, da meia-lua, mandou a bola perto do travessão.

Se é com o toque de bola que a Espanha faz o jogo acontecer, então é com o toque de bola que o placar precisava ser inaugurado na capital ucraniana. Aos treze minutos, Iniesta recebeu de Xavi e descolou enfiada de bola para Fàbregas. O camisa dez recebeu nas costas de Chiellini, foi à linha-de-fundo pelo lado direito e cruzou sob medida para que David Silva completasse para o gol, o que foi feito através de um cabeceio preciso rumo ao ângulo direito. 1a0 Espanha.
David Silva se antecipa a Leonardo Bonucci e cabeceia a bola ao ângulo direito, completando cruzamento de Francesc Fàbregas e abrindo o placar na final da Eurocopa 2012, em Kiev.

Sem os mesmos recursos do adversário, a Itália tentava o empate através de lances de bola parada. Aos quinze, Pirlo parou na barreira em cobrança de falta pelo lado esquerdo. Aos dezessete, ele cobrou escanteio pelo lado direito, Bonucci cabeceou na altura do primeiro poste e Ramos cortou de maneira providencial, impedindo que a bola chegasse em Chiellini. Pobre Chiellini. Nem tanto pela intervenção de Ramos em lance onde poderia marcar o gol de empate, mas principalmente pelo fato de, três minutos depois, uma contusão tê-lo tirado de campo aos vinte, para entrada de Federico Balzaretti. Realmente não é fácil jogar três dias depois de uma semifinal e mais difícil ainda é quando a final é diante da Espanha.

Mesmo encontrando tantas dificuldades, a Itália não poupava esforços na tentativa de superar um sistema defensivo que, em jogos eliminatórios, sofreu gol pela última vez no ano de 2006, gol esse de autoria de um certo Zinedine Yazid Zidane, na fase oitavas-de-final na Copa do Mundo onde a Itália seria tetracampeã. É isso mesmo: de lá para cá, a Espanha de Iker Casillas não foi vazada uma única vez nos duelos eliminatórios (3 jogos na Euro-2008, 4 na Copa-2010 e 3 na Euro-2012, incluindo essa final que aqui estamos analisando). Aos vinte e seis, Casillas deu tapa na bola após cruzamento vindo da esquerda de ataque italiano, impedindo cabeceio de Mario Balotelli - na seqüência, Alba participou bloqueando finalização de De Rossi. Aos vinte e oito, De Rossi recuperou a bola para a seleção italiana, Antonio Cassano recebeu na esquerda de Balotelli, fintou a marcação de Álvaro Arbeloa e chutou rasteiro entre as pernas de Gerard Piqué - Casillas, seguro como o habitual, defendeu sem dar rebote. Aos trinta e dois, Cassano recebeu de Pirlo e chutou firme, dessa vez à meia-altura, novamente parando em Casillas, que rebateu para a esquerda. Aos trinta e sete, Balotelli recebeu na esquerda de De Rossi, fez a tabela e chutou de fora, por cima.

Talvez os italianos não fizessem idéia de que aquela seqüência de oportunidades seria o melhor momento da equipe na partida e que outras chances para igualar o placar jamais voltariam a aparecer. Aos quarenta, a Espanha mostrou como é que se faz: Xavi recebeu de Alba no meio-campo, carregou a bola dando a cadência exata para que Alba se apresentasse para receber e, com um tempo perfeito de passe, enfiou rasteiro para deixar o melhor lateral-esquerdo na Euro-2012 cara-a-cara com o goleiro - Alba já dominou preparando para o chute e mandou rasteiro, no canto direito de Buffon. 2a0 Espanha.
 Após receber em velocidade ótimo passe de Xavi Hernández, Jordi Alba conclui a jogada chutando com o pé esquerdo, marcando o segundo gol da partida no canto direito.

Se marcar um gol na Espanha já era tarefa complicada, imagina agora a situação de uma seleção que se via em desvantagem de dois gols no placar. Aos quarenta e três, uma jogada envolvendo Balotelli, Cassano e Riccardo Montolivo terminou em chute forte dado pelo jogador da Fiorentina. Aliás, terminou em nova defesa de Casillas, que rebateu a finalização italiana. Naquele mesmo minuto, um drible desconcertante de Iniesta pra cima de Andrea Barzagli só não deixou o camisa seis na cara do gol porque o italiano cometeu falta, rendendo cartão amarelo aplicado pelo competente árbitro português Pedro Proença. O último remate antes do intervalo foi espanhol e aconteceu aos quarenta e cinco, quando Silva tentou de fora da área e Buffon encaixou, posicionado no centro da baliza.

Curiosamente, aquele primeiro tempo terminava com a posse de bola em 52% para a Itália (a última vez que a Espanha terminou uma partida com menos tempo de bola nos pés que o oponente havia sido na vitória por 1a0 sobre a Alemanha na final de Euro-2008, ou 60 partidas atrás). Esse percentual, porém, não explicitava uma realidade clara: no momento de construir a jogada mais aguda, a busca pela infiltração, a aproximação do gol, é notória a maior qualidade espanhola para trabalhar o lance e encontrar as alternativas. Um fato que também não aparece no dado sobre índice de aproveitamento de passes, que era praticamente igual (76% dos 247 espanhóis para 75% dos 249 italianos).

Mas o segundo tempo viria para "arrumar" essas estatísticas e consagrar a seleção que mais tem e que melhor usa a bola. No intervalo, Prandelli trocou Cassano por Antonio di Natale, colocando em campo aquele que é o único jogador a ter marcado gol na Espanha nessa edição de Eurocopa (a equipe não foi vazada em nenhum dos outros quatro jogos disputados). Logo com quarenta e seis segundos, quase brilhou a estrela de Di Natale: Abate cruzou da direita e o atacante da Udinese cabeceou por cima, perto do travessão, em lance que Casillas acompanhou com o braço esticado na direção da barra horizontal. A resposta espanhol não demorou sequer um minuto: Cesc trouxe para a direita e, da meia-lua, chutou uma bola que passou perto da trave direita. Cesc só faltava comer a bola: aos dois minutos, ele fez jogada individual pela direita, deixou Balzaretti caído na área e Buffon agiu para bloquear e impedir o terceiro gol espanhol. Aos três minutos, Xavi cruzou da direita em cobrança de falta, Ramos cabeceou e Bonucci cortou com o braço esquerdo, que estava aberto no momento da intervenção. Pênalti que Pedro Proença não apitou, apesar dos protestos.

O segundo tempo estava agitado, com chance de gol para os dois lados, penalidade máxima não assinalada e uma Espanha intensa, como se ignorasse a vantagem no placar. Aos cinco minutos, Di Natale recebeu de Pirlo, ficou cara-a-cara com o goleiro mas teve o chute defendido por Casillas - na seqüência, Di Natale tentou mandar por cima (não sei se para o gol ou se para Balotelli) e Casillas agarrou em definitivo. Aos oito, Iniesta serviu Fàbregas para deixá-lo na cara do goleiro, o que fatalmente teria acontecido se o camisa dez não tivesse, sem querer, batido com o calcanhar na bola, impedindo a si mesmo de ficar em condição de finalizar.

Aos onze minutos, Prandelli marcou um gol contra. E gol contra marcado por treinador pode ser mais grave do que os dos jogadores - às vezes, ele representa um dano maior do que o acréscimo unitário no placar. É que o italiano mexeu pela terceira e última vez trocando Montolivo por Thiago Motta, isto é, tirando de campo o jogador de meio-campo que mais se aproximava da dupla de atacante para pôr no gramado um meio-campista de contenção, sem a mesma visão de jogo daquele que saía. Poderia - e deveria - ter feito diferente, ainda mais por se tratar da última substituição por direito. Uma opção era tirar de campo Claudio Marchisio e, mesmo que colocasse Motta, poderia dessa forma dar maior liberdade para Pirlo sem perder Montolivo. Outra solução era colocar alguém com maior cacoete ofensivo, tais como Sebastian Giovinco, Alessandro Diamanti ou Antonio Nocerino - mesmo que fosse para, vá lá, tirar o Montolivo. Enfim, Prandelli ao trocar Montolivo por Motta parecia propôr retrair ainda mais uma equipe que era dominada territorialmente e que precisava de gols.

Aos doze minutos, Ramos cometeu falta em Di Natale e surgiu oportunidade de gol para a Itália via bola parada: Pirlo cruzou da direita, Casillas deu um tapa na bola e Balotelli chutou à esquerda. Aos treze, Del Bosque mexeu pela primeira vez na Espanha: saiu David Silva para a entrada de Pedro Rodríguez (naquele momento, a Espanha estava em campo com jogadores ou de Barcelona ou de Real Madrid). Para piorar ainda mais a situação italiana, Motta teve a infelicidade de, por volta dos quinze minutos, ter sentido uma fisgada que apontava para um estiramento muscular na parte posterior da coxa direita. Resultado: o brasileiro de nascimento deixou o campo na maca e a Itália não tinha o que fazer a não ser continuar a partida com um homem a menos. Era o anúncio da goleada.

Aos vinte e três minutos, Pedro recebeu na esquerda, cruzou e Balzaretti cortou. Aos vinte e oito, Cesc passou para Pedro, recebeu de volta na direita, cruzou e Abate cabeceou uma bola que tinha como endereço Iniesta. Na marca de trinta minutos, ecoou o som dos aplausos para Cesc Fàbregas, que deixava o campo e dava lugar a Fernando Torres, personagem saído do banco que passaria a protagonista nos minutos finais de partida.

Com trinta e um minutos, Ramos recebeu de Pedro na direita, fintou Balzaretti e caiu na área - Pedro Proença não caiu na dele, marcando apenas a saída de bola pela linha final. Aos trinta e três, uma troca de passes da Espanha deixou Pedro livre, só que foi flagrado impedimento do camisa sete, que mesmo assim concluiu com um chute cruzado que passou à direita. Aos trinta e seis, a posse de bola estava igualada percentualmente, o número de chutes igualado em onze e o de escanteios igualado em três. O que era bem diferente era a performance de cada seleção, com a Espanha colocando a Itália na roda e proporcionando espetáculo raro de se ver numa final de campeonato, que o diga numa final de Eurocopa.

Aos trinta e oito, saiu o terceiro gol: após uma tentativa de tabela errada da Itália, os espanhóis interceptaram a bola destinada a Pirlo e partiram em contra-ataque fulminante, que teve assistência de Xavi para Torres e conclusão de Torres para o canto esquerdo - Buffon até conseguiu tocar na bola, mas sem evitar que a redonda tomasse o rumo da rede. 3a0 Espanha.
 Oito minutos depois de entrar em campo, Fernando Torres faz história e se torna o primeiro jogador a marcar gol em duas finais seguidas de Eurocopa - em 2008, a Espanha venceu a Alemanha por 1a0 com gol dele. Prêmio "Chuteira de ouro" para "El Niño", por favor.

Aos quarenta e um, Iniesta, um dos melhores jogadores em campo e o melhor jogador no torneio, deixou o gramado sendo ovacionado pela massa, dando lugar para Juan Manuel Mata. Estavam em campo dois jogadores do atual campeão europeu Chelsea, e foi em jogada entre eles que saiu o quarto gol espanhol: aos quarenta e dois, Torres recebeu em posição legal (Balzaretti dava condição) e, com a parte externa do pé direito, deu passe como quem acariciava a bola com a chuteira, cabendo a Mata a finalização para estufar a rede mais uma vez. 4a0 Espanha.
 No minuto seguinte ao de sua entrada em campo, Juan Manuel Mata conclui para a rede jogada em que recebeu assistência de Fernando Torres - e foi exatamente com "El Niño", companheiro de Chelsea, que Mata foi comemorar o último gol na Eurocopa 2012.

Fernando Torres havia marcado seu terceiro gol na Euro-2012 e poderia ter se isolado no topo de lista de goleadores, igualando a marca de David Villa na Euro-2008. Mas preferiu servir um companheiro melhor posicionado. Aos quarenta e sete, El Niño voltou a participar em nova jogada de ataque, quando cruzou rasteiro da esquerda e Ramos completou de letra, parando em defesa de Buffon. Na marca de quarenta e oito, teve fim o espetáculo. Cabe ao blogueiro parabenizar essa seleção histórica, que faz gramado parecer palco e futebol parecer arte. Aliás, é isso o que ele é. Obrigado, Espanha, por lembrar-nos disso.

Campanha (tri)campeã

1a1 Itália (1ª rodada, grupo C)
4a0 Irlanda (2ª rodada, grupo C)
1a0 Croácia (3ª rodada, grupo C)
2a0 França (quartas-de-final)
0a0 Portugal, 4a2 nos pênaltis (semifinal)
4a0 Itália (final)

Tricampeã de Eurocopa (1964/2008/2012)
Tricampeã consecutiva entre Euro e Mundial (2008/2010/2012)
É a primeira vez que uma seleção ganha duas edições de Eurocopa consecutivamente.
Espanha para contar aos netos.