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terça-feira, 29 de junho de 2021

Grealish Entra Bem, Sterling Brilha Novamente E Kane Desencanta: Inglaterra Vence A Alemanha Em Wembley

O mítico estádio de Wembley recebeu na fase oitavas de final nessa Eurocopa 2020 aquele que pode ser considerado um dos maiores clássicos do futebol mundial. Seleções que, num passado não muito distante, atuavam como se estivessem jogando pinball - haja repetição pra ficar uma partida inteira lançando a bola pra longe à espera do cabeceio perfeito. Só que, felizmente, nesse vinte e nove de junho de dois mil e vinte e um, não era pinball - era, de fato e de direito, futebol o que se jogava no gramado londrino.

Alguns até poderão reclamar que faltaram situações de gol no jogo. É uma crítica justa, mas que não traz a devida profundidade para analisar o que foi a partida. Embora seja verdadeiro que não tenha havido muito mais do que três grandes oportunidades para cada lado, é absolutamente incontestável que ingleses e alemães, sob o comando de Gareth Southgate e Joachim Löw, travaram um dos mais interessantes confrontos táticos nessa edição do torneio. E esse dois treinadores merecem todos os créditos por isso. Enquanto Southgate ainda pode conduzir a Inglaterra ao título continental, Löw fez hoje sua despedida da Euro e também da seleção alemã - deixo aqui registrado que já estou com saudades.

Nesse blógui, elogiei por diversas vezes a Alemanha de Löw. Seguem, a título de ilustração, sete sugestões de leitura: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7. Afinal, o número sete traz ótimas recordações aos amantes do futebol arte, mais precisamente por causa de um evento que aconteceu sete anos atrás...

Só que hoje gostaria de falar um pouco mais dessa seleção inglesa.

Se a gente se debruçar sobre a consistência do jogo do English Team, teremos material suficiente para publicar um tutorial de o que fazer e como fazer para dar a uma partida de futebol a cara que se deseja dar a ela. E com um detalhe: tendo sempre a disposição e a organização necessárias para entrar de forma recorrente no campo de defesa do adversário. Porque uma coisa é você se abdicar do jogo e esperar o oponente te atacar. Outra, é fazer o que a Inglaterra faz de forma exemplar: enfrentar uma grande equipe de peito aberto, defesa postada e com bastante movimentação.

Talvez a primeira lição seja a da resistência. Resistir a uma equipe que chegava ao ataque com Kimmich e Gosens pelos flancos, com Havertz centralizado e tendo Werner como referência mais à frente. Claro que a atuação discreta de Müller compromete o jogo coletivo dos comandados de Löw, mas a Alemanha ainda era Alemanha. Aos trinta e um minutos, na primeira situação em que o sistema defensivo inglês não foi capaz de parar o ataque adversário, o goleiro Jordan Pickford agiu muito bem para bloquear Werner após ótimo passe de Havertz, numa jogada de ataque alemão made in England, afinal, eles são companheiros de Chelsea.

De resto, o que se viu foi Walker, Stones e Maguire formando uma trinca intransponível, com Trippier e Shaw reforçando a marcação pelos flancos. Uma formação que, no papel, é excessivamente defensiva. Notadamente pelo fato de que todos esses cinco tratam-se de jogadores fundamentalmente escalados para marcar e fechar espaços. De quebra, há ainda Phillips e Rice logo adiante. Efetivamente dedicados a construir, quebrar linhas, infiltrar e produzir ofensivamente, somente o trio Saka, Sterling e Kane. Mas o futebol não se analisa pelo que está escrito no papel. Ele precisa ser assistido. E, em se tratando de um Inglaterra e Alemanha como esse, apreciado.

No segundo tempo, um chute forte de Havertz logo aos dois minutos obrigou Pickford a fazer a mais bonita defesa de toda a partida. Poderia ser o indício de que a Alemanha chegaria mais forte para a etapa complementar. Poderia, mas não se confirmou. A bem da verdade, os alemães teriam ainda duas boas chances (uma para abrir o placar, com Werner; outra para empatar o jogo, com Müller) e ambas nasceriam de bolas perdidas por Sterling no campo de ataque.

Mas como criticar Sterling num jogo como esse? Entre um erro e outro, aos vinte e nove minutos, foi exatamente o atacante do Manchester City quem iniciou a jogada que abriu o placar em Londres. Aliás, que jogada! Com toques rápidos na bola, Sterling, Kane, Grealish (que entrara no lugar de Saka) e Shaw participaram de um lance que deixou a Alemanha totalmente envolvida pela troca de passes da Inglaterra. Na conclusão da ótima trama ofensiva, Sterling marcou o terceiro gol dele e da Inglaterra na Euro 2020.

Raheem Sterling comemora o gol: jogador vem se destacando com a camisa da Inglaterra nessa Eurocopa 2020. Foto: Andy Rain / POOL / EPA.

 

Fiel à sua forma de jogar, a seleção inglesa nem recuou nem se tornou mais incisiva. Ela simplesmente, movimento a movimento, observando o comportamento dos jogadores alemães, foi procurando brechas para conseguir chegar ao segundo gol. Aos quarenta minutos, a tal da brecha se tornou uma porta aberta quando Shaw recuperou a posse de bola na altura do meio do campo, avançou, abriu na esquerda com Grealish e o camisa sete, que entrou muito bem no jogo, cruzou à meia altura para Kane. O centroavante, acostumado a marcar gols com a camisa do Tottenham mas sem ter anotado nenhuma vez nessa Eurocopa, poderia bater de voleio - coisa que, por sinal, ele sabe fazer. Mas preferiu usar a cabeça: numa fração de segundo, movimentou o corpo se inclinando na angulação necessária e cabeceando para o chão, marcando dois a zero no jogo e saindo da seca de gols na competição.

Momento exato em que Harry Kane fica duas toneladas mais leve. Foto: Reuters.

 

A Alemanha era toda ataque. E quando digo toda, estou incluindo o goleiro Neuer, que atuava praticamente na linha que divide o gramado. A melhor chance da equipe - diria, inclusive, que a única digna de nota após o prejuízo de dois gols no placar - foi aos quarenta e cinco, numa puxada de Goretzka que Havertz não conseguiu alcançar.

Há que se respeitar o trabalho tático de Southgate na seleção inglesa. A forma como conseguiu conter a Alemanha é reveladora. É possivelmente o time melhor estruturado para inibir o potencial criativo do oponente sem deixar de fazer a transição ao ataque com qualidade. A Inglaterra marca forte e de forma compacta, diminui espaços, dá combate e apresenta bom volume de jogo com a posse de bola. Há formas de fazer essa equipe jogar melhor? Sem a menor dúvida, há. Gostaria de ver, por exemplo, Foden, Grealish, Saka, Kane e Sterling juntos entre os titulares. Isso sem falar em Sancho, jogador bastante querido pelo torcedor e que raramente é aproveitado. Mas, ainda assim, gosto da forma altamente organizada que a equipe atua. Não me enche os olhos como uma Alemanha de Löw, mas é possivelmente a Inglaterra taticamente mais consistente na proposição de jogo que já tive a oportunidade de acompanhar. É fortíssima candidata a levantar o caneco em Wembley. Espero que, se isso acontecer, que seja aproveitando seus jogadores mais talentosos.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

No Sufoco, Alemanha Empata Com A Aplicada Hungria E Consegue A Classificação

Antes de a Eurocopa 2020 ter início, o olhar lançado sobre o grupo F era carregado de certezas: Alemanha, França e Portugal disputariam, entre si, as duas vagas diretas e, possivelmente, um terceiro lugar que também viabilizasse a classificação. No final das contas,  o grupo de fato terminou com franceses, portugueses e alemães classificados. Mas, verdade seja dita, não há como falar desse grupo F sem citar o mérito, a valentia e a organização tática da Hungria.

Nessa quarta-feira, vinte e três de junho de dois mil e vinte e um, em Munique, pela terceira e última rodada na fase de grupos, o selecionado húngaro teve atuação gigante defensivamente. Conseguiu tornar a Alemanha, que esbanjara dinamismo na vitória sobre Portugal na rodada anterior, parecer um time previsível. Mas não se engane: a excepcional seleção comandada por Joachim Löw de previsível não tem nem o acento agudo. Se algo ou alguém fez parecer previsível a seleção alemã, esse algo é a extrema organização, disciplina e comprometimento táticos - e esse alguém é o treinador italiano Marco Rossi, que assina a presente obra.

A Hungria foi a campo precisando da vitória para garantir a classificação. Uma missão inglória, por ter como adversária a poderosa Alemanha de Löw. Mas longe do impossível para aqueles que sustentaram o zero a zero com o atual campeão europeu até os oitenta e três minutos; que arrancaram um empate com a atual campeã mundial; e que iam a campo em Munique dispostos a fazer história.

Aos dez minutos de jogo, essa história ganhava seu primeiro capítulo: após rápido contra-ataque, Roland Sallai cruzou (leia-se "passou via lançamento") e encontrou o voluntarioso centroavante Ádám Szalai, que conseguiu se posicionar entre Matthias Ginter e Mats Hummels para mergulhar com muito estilo e precisão, cabeceando no canto esquerdo do gol. Um a zero para os húngaros em pleno território alemão.

Aos vinte minutos, a sorte sorriu à Hungria em forma de ferro: após escanteio cobrado da direita por Joshua Kimmich, Hummels cabeceou no travessão.

Chovia e chovia forte em Munique. À beira do campo, tanto Löw quanto Rossi vestiam capas. Eles se protegiam das águas que caíam forte do céu. Mas quem melhor se protegia das investidas alemãs era a defesa húngara. Bastante compacta, reduzindo espaço entre linhas e coordenando movimentos laterais e verticais pelo gramado molhado, o selecionado húngaro fazia do sistema de marcação uma espécie de sinfonia, onde todos os instrumentos se mostravam perfeitamente entrosados, sob a batuta do maestro italiano que comandava seus músicos.

Veja bem: sou um profundo admirados do futebol ofensivo, que valoriza a posse de bola, que roda de pé em pé buscando a melhor opção, que faz uso de dribles, triangulações, ultrapassagens e infiltrações. Mas, uma marcação bem realizada, que consegue inviabilizar todo o sistema de criação de um adversário tecnicamente melhor qualificado, merece ser reverenciada. E não "somente" por isso, mas também pela admirável capacidade de sair com qualidade em contra-ataques, mesmo que de forma bastante esporádica.

As duas equipes voltaram com as mesmas formações para o segundo tempo, num indicativo de que o trabalho vinha sendo bem feito até então. E de fato era, mas se alguém precisava de alguma novidade, de alguma ruptura com a estratégia até então adotada, esse alguém era a Alemanha. Com muitas dificuldades de penetrar na defesa húngara - e entenda aqui a defesa como um setor que comporta a totalidade dos onze jogadores em campo -, os alemães ainda tomariam um susto aos dezesseis minutos: Attila Szalai cobrou falta pela esquerda e a bola carimbou a trave de Manuel Neuer.

Naquela altura dos acontecimentos, Löw já tinha trocado İlkay Gündoğan por Leon Goretzka. E, ainda insatisfeito com o impacto da alteração diante de uma inabalável Hungria, o técnico alemão conversava na beira do gramado com Thomas Müller , num prenúncio de que ele entraria no jogo a qualquer momento. Mas, antes mesmo que Müller entrasse em campo, a sorte sorriu para a Alemanha. E sorriu de forma cruel com o goleiro Péter Gulácsi: aos vinte minutos, o camisa um errou o tempo de bola na tentativa de intervenção em um lançamento, Hummels cabeceou e Kai Havertz, no lugar certo e na hora certa, completou também de cabeça para empatar a partida.

Momento após o gol de empate marcado por Havertz: o capitão Szalai e os torcedores húngaros parecem não acreditar no lance. Foto: Reuters.

Müller finalmente entrava em campo, e com a boa notícia de que o time não mais perdia. Junto com ele, entrou também Timo Werner - saíram Serge Gnabry e Havertz, que acabara de marcar o gol que igualava a contagem. A Hungria, sem tempo para lamentações, tratou de imediatamente reagir. E como reagiu bem! No minuto seguinte, em jogada que teve início com a saída de bola no meio do campo, Ádám Szalai deu uma cavada que desmontou a marcação, mandando nas costas tanto de Leroy Sané (que estava totalmente fora de posição) quanto de Hummels. A enfiada de bola encontrou András Schäfer, que chegou antes de Neuer e mandou para a rede. Se naquele momento não mais chovia sobre o campo de partida, o imediato gol de desempate húngaro era uma ducha de água fria no corpo e na alma da Alemanha. Se havia sido tão difícil marcar um gol sobre o aplicado adversário, o que dizer de ter que correr atrás dessa tarefa novamente, com o tempo reduzido e o cansaço ampliado?

Quem tomou a iniciativa das ações for Toni Kroos. As principais oportunidades tinham em comum, a partir daquele momento, o requisito de passar pelos pés do camisa oito. Aos trinta e três minutos, Kroos levantou, Goretzka não alcaçou e Gulácsi segurou. Aos trinta e quatro, Kroos cruzou pela esquerda e Müller cabeceou por cima. Aos trinta e cinco, Kroos tabelou com Robin Gosens, recebeu de volta em passe de primeira e bateu cruzado, com o lado externo do pé, mandando perto da trave esquerda.

O modo "tudo ou nada" foi definitivamente ativado por Löw nas duas derradeiras substituições, que se deram aos trinta e seis: as saídas de Ginter e de Gosens para as entradas de Kevin Volland e Jamal Musiala reforçaram o contingente ofensivo para tentar transpôr uma barreira que funcionava como uma engrenagem na árdua missão de resistir à pressão. E, aos trinta e oito, saiu o segundo gol alemão: em jogada envolvendo Werner e Musiala e Goretzka (três jogadores que entraram no segundo tempo), coube a Goretzka chutar rasteiro, no canto esquerdo. Melhor que o gol, só a comemoração: fazendo um gesto de coração direcionado para a torcida húngara, Goretzka, crítico de governos de extrema-direita, dava um recado sutil e potente contra a LGBTfobia. Nota: antes de a bola rolar, um ativista conseguiu entrar no gramado durante a cerimônia dos hinos nacionais e abrir a bandeira do arco-íris (a UEFA não mostrou essa cena em sua transmissão oficial). Recentemente, a Hungria aprovou legislação que proíbe "promoção" da homossexualidade para menores, num ato explicitamente homofóbico.

Aos quarenta, tentando dar novos capítulos à sua história na Euro 2020, a Hungria teve uma chance de ficar pela terceira vez na frente no placar: Kevin Varga, que substituíra Ádám Szalai, descolou passe calcanhar na passagem Attila Fiola - Kimmich cortou no momento exato. Cortou o lance e cortou as páginas de um livro que terminava de ser escrito ali. Pelo menos para a quase heroica Hungria. A Alemanha de Löw segue. E novos capítulos de bom futebol hão de ser redigidos por esse timaço.

No outro jogo da chave, França e Portugal empataram em dois a dois. Desta forma, estão definidos os cruzamentos nas oitavas de final.

País de Gales e Dinamarca, em Amsterdã.
Itália e Áustria, em Londres.
Holanda e República Tcheca, em Budapeste.
Bélgica e Portugal, em Sevilla.
Croácia e Espanha, em Copenhaguen.
França e Suíça, em Bucareste.
Inglaterra e Alemanha, em Londres.
Suécia e Ucrânia, em Glasgow.


O primeiro gol do jogo entre Alemanha e Hungria aconteceu antes de a bola rolar: importante mensagem em resposta a uma legislação homofóbica recentemente aprovada na Hungria. Isso a UEFA não mostra. Imagem extraída de Yahoo!.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo F

Vamos analisar o grupo F da Copa do Mundo 2018 (leia o que colocamos sobre os grupos A, B, C, D e E).

Nele, estão quatro seleções que aparecem rotineiramente em mundiais, incluindo a atual campeã e também aquela que surpreendeu nas Eliminatórias ao deixar pelo caminho as tradicionais Holanda e Itália.

Grupo F: Alemanha, México, Suécia e Coréia do Sul.

Alemanha

Alemanha: 1ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Revolucionada desde a chegada de Joachim Löw e rejuvenescida nesses últimos anos, a Alemanha tem muitos ingredientes que sugerem favoritismo ao penta. É bem verdade que a convocação trouxe algumas discordâncias, sendo provavelmente a maior delas a ausência de Sané, jovem promessa/realidade treinada por Josep Guardiola no Manchester City. Mas a realidade é que os alemães têm todos os motivos para confiar em sua seleção na Rússia.

Com uma campanha sólida nas Eliminatórias (com direito a 6a0 sobre a Noruega), com a bem-sucedida estratégia de usar a Copa das Confederações para possibilitar maior rodagem e experiência a atletas menos aproveitados e, principalmente, com um elenco qualificado técnica, tática e mentalmente, só duvida desta Alemanha quem não conhece esta Alemanha.

O radar do futebol arte há de apitar forte quando este time estiver em campo. Começamos a nos acostumar com isso desde 2010. E tivemos o desfrute de uma das maiores aulas no Mineirão, naquela memorável semifinal em 2014 que alguns, equivocadamente, chamam de "apagão". Aqueles 7a1 são o oposto: são luz. Que o ascendente futebol alemão possa continuar iluminando os gramados pelo mundo. Chegou a vez da Rússia.

México

A classificação sem maiores sustos - o oposto do cenário visto para a Copa 2014 - dá ao México maior tranqüilidade na preparação para este Mundial. Só que o recente escândalo envolvendo jogadores e prostitutas colocou a seleção nacional em maus lençóis, virando assunto não-esportivo e alimentando a engrenagem sensacionalista de setores midiáticos.
México: 15ª colocada no ranqueamento da FIFA.

Naquilo que tange ao campo de jogo, Juan Carlos Osorio leva para a Rússia um grupo experiente. Os 3 goleiros somam 104 anos de idade. Na zaga, o imortal Rafael Márquez nos brindará com seu talento e elegância novamente. No meio, o bom futebol está Guardado. No ataque, Peralta e Hernández marcam presença ao lado de Giovani dos Santos e Carlos Vela (aos 29 anos de idade e perto de tantos trintões, podem ser considerados dois meninos).

O único gol marcado nos últimos quatro amistosos levantam suspeitas sobre a efetividade do setor ofensivo da equipe, o que contrapõe uma defesa que foi vazada em apenas duas partidas nos últimos sete compromissos. A estréia com a Alemanha tem pelo menos uma coisa boa: dará aos mexicanos o direito de arriscar, pois uma derrota seria um resultado normal. Pontuando nessa partida, abre caminho para a classificação, que tem tudo para ser decidida somente na rodada derradeira, com a disciplinada seleção sueca. E é sempre bom ter em mente o seguinte: esse grupo cruza com o "do Brasil" e, se tem uma seleção que não tem medo da "Amarelinha", essa seleção é a mexicana...

Suécia

Com a autoconfiança de quem sobreviveu a um grupo com França e Holanda - eliminando a Itália na repescagem - e com a união de um grupo que superou todas as dificuldades sem sua principal estrela, a Suécia chega à Rússia com muitos motivos para acreditar em surpreender.

Suécia: 24ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Os dois amistosos zerados realizados nesse mês (0a0 com Dinamarca e Peru) talvez sugiram ajustes para fortalecer um ataque habituado a marcar poucos gols. A boa notícia é que, em mais de 180 minutos de confronto, os suecos somente precisaram de um único gol para eliminar os italianos.

A Suécia tem na experiência de Toivonen, Larsson e Svensson, além do talento de Forsberg, seus principais trunfos no campo de ataque. Mas é a consistência coletiva o diferencial que pode fazer a equipe nórdica incomodar as outras três seleções nessa chave. No pouco que assisti no amistoso diante dos peruanos, foi notória a capacidade de conter o ímpeto de um adversário com vocação ofensiva, conseguindo bloquear os flancos e povoar o centro sem gerar grandes espaços ao adversário, além de ter relativo êxito em sair para o jogo com objetividade.

De destaque, fico com a declaração do treinador Janne Andersson sobre Zlatan Ibrahimovic: "Assim que Zlatan anunciou a aposentadoria depois da Eurocopa, comecei a planejar a seleção sem ele. Comecei a pensar no time sem ele. É um jogador que respeito muito, mas quis priorizar a equipe que classificou a Suécia para a Copa. Tira muito da minha energia esse tanto de perguntas sobre o Zlatan".

Coréia do Sul

Embora classificada de maneira direta com o segundo lugar em seu grupo nas Eliminatórias Asiáticas, a Coréia do Sul suou para chegar à Rússia. O 0a0 na rodada derradeira, no Uzbequistão, selou uma classificação que estaria ameaçada em caso de derrota, pois levaria os sul-coreanos, na melhor das hipóteses, à repescagem.

Coréia do Sul: 57ª colocada no ranqueamento da FIFA.
O atacante Son Heung-Min, há três temporadas no Tottenham, é o jogador que vive momento de maior destaque na seleção. Seu faro goleador na Premiership não é novidade, pois se mantém presente desde os tempos da Bundesliga, onde vestiu as camisas do Hamburgo e do Bayer Leverkusen. No setor de meio-campo, mais um jogador que atua no futebol inglês: Ki Sung-Yeung, do Swansea City. Mas se me perguntar como joga a equipe treinada por Shin Tae-Young, não saberei responder. E, considerando que houve somente uma vitória nos últimos seis jogos oficiais, é possível que o próprio treinador possa estar usando esses dias na Rússia para reformular a formação do time.

Guardo ótimas lembranças da Coréia do Sul na época em que a cultura holandesa de atuar com três atacantes permeou o paradigma futebolísitco do país, que teve Guus Hiddink e Dick Advocaat como alguns de seus técnicos. Vamos ver como a seleção se comporta nesse Mundial. O grupo é difícil, mas uma boa estréia diante da Suécia pode dar esperanças a um país que, entre méritos e apitos, chegou a uma semifinal de Copa do Mundo dezesseis anos atrás, para euforia de seus torcedores.

domingo, 26 de março de 2017

Schü-Schürrle Beleza

A atual campeã mundial foi a campo na cidade de Baku, capital do Azerbaijão, e não decepcionou: goleou a seleção da casa por 4a1 dando alguns lampejos daquele time que venceu a Copa do Mundo de 2014. Tudo bem que quatro não é sete, mas a superioridade alemã na tarde de hoje foi incontestável.

Se a equipe comandada pelo ótimo Joachim Löw não conta mais com Lahm, Schweinsteiger, Podolski, Klose e alguns outros grandes talentos, é fato que o elenco ainda possui muita qualidade. Prova disso é ver jogador da grandeza de Mesut Özil começar relacionado entre os suplentes. E foi exatamente um jogador habitualmente escalado na reserva que, de titular desde o início nesse domingo, foi o grande destaque na partida: André Schürrle. Aquele mesmo, autor dos dois últimos gols alemães naquela fatídica semifinal no Mineirão.

O camisa 9, que a bem da verdade jogava a maior parte do tempo como um segundo atacante - Mario Gómez era a referência mais centralizada -, esbanjou eficiência, visão de jogo e posicionamento para ajudar a construir a vitória dos visitantes. Vitória que começou com gol dele: após boa troca de passes (daquelas que a gente conhece também por causa deles), o participativo lateral-esquerdo Jonas Hector serviu Schürrle, que completou para a rede, aos dezoito.

A torcida do Azerbaijão, que celebrava desde antes de o apito inicial e parecia festejar o simples fato de estar recebendo os atuais campeões da Copa, dividindo o gramado do estádio Tofiq Bəhramov adına Respublika (sim, copiei e colei esse nome exótico), foi ao êxtase quando testemunharam o gol de empate: aos trinta, o versátil Ismaiylov passou para Nazarov, que chutou cruzado sem dar possibilidade de defesa para Leno. 1a1 no placar, uma euforia generalizada nas arquibancadas e um momento histórico: a Alemanha estava a onze horas sem ser vazada, tendo sofrido um gol pela última vez em julgo de 2016. De lá para cá, sete jogos inteiros sem ceder um tento sequer aos adversários. Dá-lhe, Azerbaijão! Aliás, quando alguém chegar até você dizendo que "futebol é apenas um jogo" (ou algo do gênero), mostre para esse indivíduo as imagens da comemoração de jogadores e torcedores do Azerbaijão após marcarem o gol de empate diante da Alemanha. Obrigado.

Cinco minutos depois, no entanto, os alemães retomavam a frente no marcador: após vacilo na saída de bola dos donos da casa - e da festa -, Schürrle passou sob medida para Thomas Müller, que concluiu o lance como manda o figurino: passou pelo goleiro com um drible curto e finalizou com um remate rasteiro. Ainda houve tempo e oportunidade para marcar o terceiro antes do intervalo: Joshua Kimmich cruzou e Mario Gómez anotou de cabeça.

No segundo tempo, a intensidade alemã foi menor. Provavelmente devido aos dois gols de margem no placar e, talvez principalmente, à intermitente dedicação do Azerbaijão em competir por todos os lances, em qualquer centímetro quadrado de gramado. O quarto gol saiu aos trinta e cinco: jogando como um nove de fato e de direito (até porque Löw havia trocado Gómez por Özil), Schürrle voltou a desfrutar de passe de Hector para chegar à rede. Uma linda finalização, por sinal.

A Alemanha é soberana em sua chave nas Eliminatórias Européias, e tudo leva a crer que a classificação ao Mundial-2018 seja mera questão de tempo. O Azerbaijão, autor do primeiro gol sofrido pelos alemães no torneio, conserva o sonho num grupo que tem Irlanda do Norte (próximo adversário, novamente em Baku), Noruega, San Marino e República Tcheca. Mas, verdade seja dita, com ou sem vaga na Copa, esses caras estão de parabéns. Na tarde de hoje, provaram que futebol é muito mais que um jogo.
Schürrle foi o nome do jogo: marcou duas vezes (em duas assistências de Hector) e ainda deu o passe para o gol de Müller. Foto: Kirill Kudryavtesv/AFP.

domingo, 3 de julho de 2016

Resumão Das Quartas Na Eurocopa 2016

As quartas-de-final na UEFA Euro 2016 reservaram fortes emoções aos apaixonados por futebol. De surpresas a confirmações de favoritismo, de jogos definidos nos pênaltis a goleada, bastante coisa aconteceu de interessante entre quinta-feira e domingo. Vamos a alguns pitacos.

[1] Polônia 1(3)a(5)1 Portugal.
[1.1] Saiu o primeiro gol de Robert Lewandowski na Eurocopa 2016. Logo no início da partida, ele aproveitou passe de Grosicki em jogada pela esquerda e completou esbanjando aquele oportunismo habitual que é exibido temporada após temporada na Bundesliga.
[1.2] Renato Sanches, jovem talento que será parceiro de Lewandowski no Bayern de Munique, mostrou que está pronto e preparado para ajudar a seleção portuguesa. Marcou o gol de empate após tabela com Nani e, principalmente, se ofereceu à equipe. Demonstra mais senso de coletividade que alguns astros consagrados (sim, isso foi uma indireta - que com esses parênteses se torna direta - ao Cristiano Ronaldo).
[1.3] Desempate por pênaltis é uma coisa que foge completamente da análise pragmática: na definição da classificação portuguesa, eis que o único polonês a desperdiçar a cobrança foi exatamente aquele jogador que tem uma das melhores pontarias da equipe: Blaszczykowski. Grande defesa do goleiro Rui Patrício.
[1.4] Capricho dos deuses do futebol que a cobrança derradeira tenha cabido a Ricardo Quaresma. O tatuado camisa 20, que veio do banco para novamente contribuir, vem fazendo bela competição e dando uma força ofensiva muito útil para abrir a última linha de defesa adversária, principalmente pelos flancos.

[2] País de Gales 3a1 Bélgica.
[2.1] Considerando a diferença de nível técnico entre as equipes (com todo respeito aos galeses, que têm muitas qualidades) e a circunstância do jogo (leia-se o golaço de Nainggolan aos doze minutos para abrir a contagem), País de Gales conseguiu um resultado histórico ao conseguir virar a partida.
[2.2] Curiosamente, em nenhum dos três gols houve participação direta do sempre participativo Gareth Bale. Coube a Aaron Ramsey conduzir a classificação com duas assistências na partida. Sua suspensão a ser cumprida na semifinal terá, sem dúvida, um impacto no time. Será desafiador jogar sem o cerebral camisa 10.
[2.3] A excepcional geração belga merece os elogios que recebe e o que Marc Wilmots vem fazendo frente a esta seleção é algo que não pode ser jogador fora pura e simplesmente devido a uma ou outra eliminação. Deve, isto sim, ser exaltado o esforço de fazer um elenco talentoso jogar de maneira a evidenciar essa capacidade técnica acima da média. Os desfalques na última linha de defesa pesaram, mas talvez sejam os jovens que não funcionaram nesse jogo aqueles que irão suceder os mais experientes. E Wilmots mostra sensatez ao pedir que os garotos sejam poupados de críticas. Hoje, a Bélgica caminha no sentido certo.

[3] Alemanha 1(6)a(5)1 Itália.
[3.1] Embora dominante territorialmente e sendo propositiva na maior parte do tempo, a Alemanha esbarrou na estratégia italiana. Uma estratégia que, diferentemente das oitavas diante da Espanha, zelou muito mais pelo anti-jogo do que por qualquer outra coisa. A Azzurra jogou por menos do que "uma bola". Se pudesse definir a classificação no cara-ou-coroa, provavelmente Antonio Conte se prontificaria a fazê-lo.
[3.2] Inegável que haja mais qualidade na equipe alemã, mas não justifica o excesso de defensivismo italiano na partida. De toda forma, fica evidente que os campeões mundiais, com toda a dificuldade que tiveram para obter a classificação, não são um time imbatível. Mas são o time a ser batido. Um time que dá gosto de ver jogar, mesmo quando o jogo é truncado.
[3.3] Seguindo o fluxo ilógico de um esporte onde vemos perderem pênaltis Lionel Messi e Arturo Vidal numa final de Copa América, a Alemanha viu Müller, Özil e Scweinsteiger desperdiçarem cobranças. Buffon estava pronto para sair como herói. Mas Neuer, com a frieza e a competência que lhe caracterizam, conseguiu ajudar os alemães a, finalmente, superarem os italianos em "jogo pra valer".
[3.4] Apenas para não deixar passar em branco: Boateng cometeu o pênalti convertido por Bonucci porque marcava corretamente o Chiellini. Curiosamente, seus braços esticados de modo a não cometer infrações no adversário, acabaram encontrando a bola naquela cobrança de escanteio. Faz grande Eurocopa o defensor alemão, que terá a missão de conduzir novamente o setor, dessa vez sem Hummels ao lado.

[4] França 5a2 Islândia.
[4.1] Possivelmente a melhor atuação de uma seleção nos primeiros quarenta e cinco minutos de partida nessa Euro. 4a0 com autoridade, naturalidade, intensidade. Tudo junto e misturado num liquidificador que triturou completamente a defesa e o sonho islandês em Paris. Deschamps conseguiu o ponto de equilíbrio num time marcado pela leveza e movimentação. Grandes atuações de Payet e Griezmann.
[4.2] A Islândia fez história nessa Eurocopa. Marcando gol em todos os jogos, não se intimidando em nenhum deles, procurando sair para o jogo quando via a possibilidade - conseguiu superar as próprias limitações e proporcionar um nível de competitividade de uma maneira a protagonizar jogos agradáveis de se assistir. Sair com uma goleada nas costas é doloroso. Mas a campanha viking na França é para ser lembrada com carinho por gerações. Sobretudo pela mobilização popular, desde as menos conhecidas cidades islandesas até as arquibancadas dos mais famosos estádios franceses. Engrandeceu o futebol. E merece os nossos aplausos.
Sinergia entre time, torcida e nação: a Islândia deu um espetáculo na França. Foto: Reuters / C. Hartmann.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Polônia Resiste À Alemanha E Euro-2016 Conhece O Primeiro Zero A Zero

Não pense que tenha sido um jogo de ataque contra defesa, como tinha sido Polônia e Irlanda do Norte. A chance mais evidente de gol na partida, inclusive, foi polonesa. Longe da zona de conforto, a Alemanha teve bastante trabalho diante de um adversário firme na defesa, compacto entre as linhas e hábil em acionar seus homens de frente. Um ótimo teste para Löw buscar alternativas para quando este cenário vier a se repetir. Uma ótima motivação para Nawalka passar a seus jogadores sobre as chances de uma equipe longe de figurar entre as favoritas no torneio. Um jogo agradável de assistir, apesar de o gol não sair.

Alguns breves pitacos.

Grzegorz Krychowiak e Thomas Müller disputam a bola. Foto: Patrik Stollarz / France Press.
[1] Boateng vem se firmando como o maior defensor na competição, conseguindo novamente uma grande
atuação.
[2] Özil, embora irregular, mostra sua relevância para o esquema tático cada vez que dá um passe para os companheiros.
[3] Müller está devendo um futebol que corresponda ao seu nível técnico, mas desfila uma elegância contagiante.
[4] Krychowiak poderia ser chamado de 'balança de alta precisão'. O equilíbrio que esse sujeito dá ao setor de meio-campo é coisa de louco.
[5] Lewandowski é o típico atacante que, mesmo sem marcar gol, é importante para o time. Consciência tática do primeiro ao último minuto.
[6] São duas seleções que não foram vazadas nessa Euro e que somam 3 partidas inteiras com a meta inviolável. Uma boa "desculpa" para o 0a0.

domingo, 12 de junho de 2016

Em Belo Jogo, Alemanha Continua Representando O Futebol Arte

Teve o certificado de campeã do mundo. Com um futebol objetivo, eficiente e altamente competitivo, a Alemanha venceu a muito bem organizada seleção da Ucrânia na estréia dessas equipes na Eurocopa 2016. Se o primeiro gol teve a marca da "Alemanha antiga" (chuveirinho com cabeceio certeiro), o segundo foi o retrato do time comandado brilhantemente por Joachim Löw: um contra-ataque inapelável onde todos os jogadores envolvidos no lance foram precisos em suas funções. Detalhe: lance concluído por Schweinsteiger, que acabara de entrar e era dado por muitos como nome ausente na lista da Euro, por questões físicas. Felizmente, Löw pensa diferente dos críticos. E proporcionou, com sua filosofia de jogo, não apenas uma vitória por dois gols: proporcionou muita beleza na maneira de jogar.

É inegável que a qualidade da apresentação passa por um plantel talentoso. Neuer é um goleiro de mão cheia e fez pelo menos duas defesas daquelas pra estampar capa de publicação esportiva. Boateng, dos melhores zagueiros do mundo, salvou a equipe num lance e colaborou em incontáveis outros. Khedira, que parece ser dois em vez de um, participou ativamente. Müller, um maestro. Özil e Götze qualificaram a posse de bola. E todos, sem exceção, agiram em pró do jogo coletivo. Mas, nem só de talento se faz um time. A seleção brasileira, por exemplo, tem diversos jogadores de alto nível. Só que não há qualquer parâmetro de comparação (viva o 7a1!). Esta Alemanha é uma bênção ao futebol. Vitória na estréia deve ser valorizada também pela atuação do adversário: a Ucrânia foi forte na defesa e ágil na transição. Levou perigo em uma ou outra ocasião - talvez, diante de uma seleção menos potente, pudesse conseguir um resultado interessante. Aliás, com esse futebol, deverá disputar a classificação.

Sobre a apresentação alemã, uma pergunta: estão sentindo um cheiro de tinta? Pintou a campeã...
Mustafi é abraçado por Boateng e cumprimentado por Draxler após o primeiro gol no jogo. Foto: Getty Images.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Consagração Do Planejamento De LÖWngo Prazo: Alemanha É Tetra No Maracanã

Foto: Juan Mabromata / AFP
"Gott ist Deutsch" quer dizer "Deus é alemão" no idioma de Mario Götze. Ou seria Mario Gottze? O jovem de vinte e dois anos de idade, que é odiado por muitos na cidade de Dortmund graças à opção de trocar o Borussia pelo Bayern de Munique após a temporada 2012-3, fez todo o país vibrar. Entrou em campo aos quarenta e dois minutos no segundo tempo, substituindo ninguém menos que Miroslav Klose, maior goleador na história das Copas do Mundo. Havia feito um gol meio sem querer no empate de 2a2 com Gana (o outro gol alemão naquele jogo foi de Klose, então igualando a marca de Ronaldo). Götze não era elemento dos mais utilizados por Joachim Löw no Mundial. O que poderia fazer diante da excepcional defesa argentina? O camisa dezenove provou que não precisa de muitos minutos nem de muito espaço em campo para fazer a diferença. Precisa de uma oportunidade. E a oportunidade de ouro surgiu aos sete minutos no segundo tempo da prorrogação.

André Schürrle, outro jovem jogador que começou a final no banco, fez linda jogada pelo lado esquerdo. E quando digo "linda jogada" estou me referindo sobretudo ao grau de sucesso levando em consideração o nível de dificuldade da coisa. Schürrle conseguiu, diante da marcação dupla dos gigantes Pablo Zabaleta e Javier Mascherano, acionar Götze num espaço entre outra dupla de gigantes - Martín Demichelis e Ezequiel Garay. Era tudo o que Gott (o Deus) precisava para encaminhar o tetra: Götze (o jogador) em liberdade na área argentina. Uma liberdade condicional, pois logo chegaria o goleiro Sergio Romero para fazer a cobertura. Mas Götze não precisava de nada mais do que o talento que Gott lhe deu: dominou no peito já arrumando para a finalização e completou com a perna esquerda sem sequer deixar a bola encostar na grama. Porque lugar de bola é na rede. Estava feito o gol histórico.
Imagem extraída de DiárioDoPoder.
Após jogada de Schürrle pela esquerda, Götze conclui na pequena área: Alemanha 1a0 Argentina, em momento que será lembrado por gerações.

Não há complexidade de uma final de Copa que caiba em dois parágrafos. E esse texto não ousa comportar em suas humildes linhas todas as variáveis que compuseram tão espetacular decisão de campeonato. O jogo teve um pouco de muita coisa. Um tanto de pouca coisa. E teve algo que não poderia faltar: futebol. Ah, o futebol! Que bênção dos deuses essa final! Reuniu uma seleção com impressionante capacidade de circular a bola com qualidade e outra com incrível aplicação para confrontar de igual para igual um adversário teoricamente superior. A Argentina mostrou-se poderosa. E seu poder estava em algo que não se mede e, se não pode ser medido, também não pode ser contido: a determinação. Determinação desde uma linha de defesa intransponível no seu posicionamento milimétrico até uma linha de ataque ousada em cada tentativa de infiltrar na zaga oponente. Sem esquecer da alma: o meio-campo. Uma alma materializada na camisa catorze de Mascherano. A Alemanha encontrou um adversário à altura. E aqui vão os elogios àquele indivíduo diretamente responsável pela eficiência de cada setor da equipe: o técnico Alejandro Sabella. Conseguiu a proeza de montar a Albiceleste sem criar uma dependência exclusiva do gênio Lionel Messi. Só que se a Argentina, taticamente, era muito mais do que Messi + dez, na prática, os argentinos bem que gostariam de ter um "segundo Messi" no gramado. Poderia ser Ángel di María, que jogou demais nas oitavas (infelizmente ausente na final por contusão). Poderia ser Sergio Agüero, jogador de enorme potencial mas que não fez uma boa Copa (também teve problemas com lesão, só entrando no intervalo na decisão). No primeiro tempo, Ezequiel Lavezzi foi talvez o maior parceiro de Messi. Correndo barbaridade tanto para contra-atacar quanto para recompôr a marcação, o jogador foi um dos destaques nos primeiros quarenta e cinco minutos. Daí meu não entendimento por substituí-lo por Agüero no intervalo. Opção tática ou necessidade clínica? De toda forma, uma alteração corajosa. Alteração de quem tinha mais forte em si o sonho de ganhar o jogo do que o medo de perdê-lo.

A Argentina perdeu muito em combatividade no meio-campo, mas jamais perdeu a consistência. Marcos Rojo, Lucas Biglia e Enzo Pérez se desdobraram para manterem o equilíbrio tático diante da alta rotatividade alemã. Ofensivamente, a Argentina seguia perigosíssima. Esbarrava na excepcional atuação de Jérôme Boateng (era aquilo um zagueiro ou o Muro de Berlim em pleno Rio de Janeiro?). E encaixavam-se as peças de um quebra-cabeça: não foi a Bélgica que tremeu nas quartas, nem a Holanda que teve desempenho pior na semi, tampouco a Alemanha piorou na final. Em todos esses três eventos, foi a Argentina que mostrou-se superior a ponto de inibir qualidades de três grandes adversários.

Para aumentar ainda mais as esperanças no tri, a Argentina tinha Messi com mais uma grande atuação. Passava por Hummels como queria. Invertia o jogo com facilidade. No início do segundo tempo, fez linda jogada individual e finalizou raspando a trave. Era Messi sendo Messi! Tipo o papa rezando a missa! Não importa para que seleção você torça nem que religião você siga, há que se reconhecer o talento onde existe o talento. E Lionel é daqueles para tirarmos o chapéu. Por falta de sorte da Argentina, ele não teve aquela chance de gol frontal que tivera Higuaín. Nem cairia nos pés dele a bola do jogo: na prorrogação, Rodrigo Palacio (que entrou no lugar de Higuaín) recebeu em ótima condição, dominou como manda o figurino e encobriu Manuel Neuer, só que sem conseguir completar/direcionar pro gol.
Foto: Jamie Squire / Getty Images
Rodrigo Palacio tem a bola do jogo na prorrogação: argentino escolheu encobrir o goleiro Neuer e a bola acabou saindo ao lado da trave.

O que a Argentina não conseguiu com Higuaín nem com Palacio, a Alemanha aproveitou com Götze. Está descrito no segundo parágrafo. Estava escrito nas estrelas. Mais precisamente naquela estrela que se junta às outras três, logo acima do escudo alemão. Uma Alemanha que se reinventou com Löw. Que revolucionou sua própria maneira de jogar futebol. Que iniciou o caminho do tetra com um 4a0. E que, desde muito antes de sua ótima passagem pelo Brasil (tanto dentro de campo com uma performance de alto nível quanto fora dele com ótimas relações com a população), mostrava trilhar a direção correta (leia aqui). Parabéns a essa brilhante geração e a esse magnífico técnico de futebol. Diante de todas essas qualidades notáveis na Alemanha e da realidade que foi a final, não resta mais nada senão dar os parabéns, também, à Argentina. Não foi derrotada. Venceu junto com o futebol. E tem todo o direito de sonhar com sua terceira estrela daqui a quatro anos, em Moscou.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Em Nome Do Futebol, Sete Vezes Obrigado!

Foto: Sérgio Barzaghi / Gazetta Press
O Maracanã, em 1950, sediou o último jogo naquela edição de Copa do Mundo. Como tratava-se de um confronto direto pelo título mundial, dá para chamar aquele encontro entre brasileiros e uruguaios pela última rodada de quadrangular final de... final. O Brasil seria campeão com um empate, mas acabou derrotado pelo Uruguai pelo placar de 2a1. Conta a história que, por causa de uma suposta falha individual, o goleiro Barbosa foi escolhido como vilão. Nas imagens que a mim chegaram, não vi qualquer falha que seja digna de responsabilizar um único indivíduo pelo insucesso no jogo. Jogo de placar apertado, que por detalhes poderia ter tido um desfecho diferente. Mas, no final das contas, título uruguaio num episódio até hoje tratado como uma tragédia, com direito a nome próprio: Maracanazo.

Num estádio com público recorde de 199.854 espectadores, o oba-oba pelo título que era dado como certo foi substituído por um silêncio sepulcral. Gigghia, autor do gol da virada, afirmou certa vez: "O silêncio era tão grande que se uma mosca estivesse voando por lá, ouviríamos o seu zumbido".

Passaram-se 64 anos e creio não haver uma única testemunha presente naquele Maracanã que também estivesse nesse Mineirão, em 08.07.2014, para a semifinal entre Brasil e Alemanha. Creio que não e torço para que não. Dessa vez, um público muito menor presente nas arquibancadas, em função do novo modelo de estádios brasileiros. Um formato padronizado que tira quantidade e qualidade dos estádios, pois elimina do local do jogo o povo apaixonado pelo futebol, em função de uma elitização impositiva. Sai a festa da autenticidade, entra o comportamento padrão FIFA. Não leve a mal, são apenas negócios. Não pode consumir o produto futebol? Viva essa paixão assistindo pela televisão.

Dessa vez, ao contrário de 1950, não houve tragédia. Em 2014, houve conseqüência. Conseqüência de um cenário trágico, que assola estruturalmente a instituição que se apropriou do futebol nacional: a Confederação Brasileira de Futebol. O deputado federal Romário, protagonista no tetracampeonato em 1994, alega já ter pedido por diversas vezes uma intervenção política do governo federal no futebol brasileiro. Em 2012, apresentou um pedido de CPI da CBF, "baseado em uma série de escândalos envolvendo a entidade, como o enriquecimento ilícito de dirigentes, corrupção, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e desvio de verba do patrocínio da empresa aérea TAM. O pedido está parado em alguma gaveta em Brasília há dois anos". O presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, julga não ser o momento adequado para instalar a CPI.

Enquanto isso, vamos sendo presididos por José Maria Marín, indivíduo que participou ativamente da ditadura militar, apontado como envolvido em torturas e assassinatos. Enquanto isso, vamos vendo Parreiras, Dungas, Manos e Scolaris assumindo o comando da seleção brasileira de futebol profissional. Ou seja: o futebol arte, no Brasil, está tão engavetado quanto o pedido de instalação de CPI. Só que há muito mais tempo.

Na Alemanha, o fluxo é no sentido contrário: a seleção age no sentido de encontrar, abraçar, casar e constituir família com o futebol que abandonamos em algum momento no passado. Sugiro uma (re)leitura num texto publicado nesse blógui em 13.06.2010: "Amantes Do Futebol Arte, Eu Vos Apresento... A Alemanha!". Outra recomendação é assistir essa Alemanha de Joachim Löw jogar. Simplesmente assistir. Saborear. Apreciar. O oito de julho de dois mil e catorze é uma data a ser lembrada com alegria pelo futebol mundial. Data em que o planejamento que privilegia tática e talento superou, com sobras arrebatadoras, o acaso e a malandragem. Data em que o toque refinado superou a simulação para ludibriar a arbitragem. Data em que o futebol venceu com uma goleada histórica. Com direito a gol de Miroslav Klose, o seu décimo sexto na história das Copas, o que dá ainda mais relevo à data pois torna o camisa onze alemão o maior goleador de todos os tempos na competição.

Vinda de um passado onde jogava algo muito parecido com futebol, mas que não era futebol, a Alemanha há alguns anos atua com graça, beleza, encanto, magia. Atua como uma certa seleção brasileira, que não cheguei a ver jogar, mas cujos relatos me fazem sentir saudade de um tempo que não presenciei. Quer dizer, talvez não neste corpo. Fato é que o Brasil de hoje não parece o Brasil que a história endeusa. Muito pelo contrário. O Brasil de hoje é um desaforo à prática futebolística. É como se tivéssemos parado no tempo. Antes tivéssemos parado no tempo certo, mas escolhemos os anos de Parreiras, Dungas, Manos e Scolaris. Tempos de Ricardo Teixeira e José Maria Marín. Talvez a culpa não seja nossa. Talvez a culpa seja do resto do mundo, que evoluiu e nos deixou para trás. Que o goleiro Barbosa possa, de uma vez por todas, descansar em paz.

Extraído de Soccerway
Extraído de Soccerway
Foto: David Gray / Reuters

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Não Vi Beckenbauer, Mas Vejo Hummels: Alemanha Vence A França E Chega Em Nova Semifinal

Alemanha e França, de confrontos bélicos no passado, jogaram por uma vaga na semifinal. O ex-novo-Maracanã recebia duas seleções com boas campanhas no Mundial, ambas invictas e com três vitórias em quatro jogos. Seleções acostumadas a vencer. A vencer e a abrir o placar.

Aos doze minutos, Kroos cruzou e Hummels conseguiu subir com mais precisão no tempo de bola que Varane, cabeceando de modo a superar Lloris - com direito a um empurrãozinho do travessão. A Alemanha, pela quinta vez em cinco partidas no Mundial, inaugurava o marcador. Foi assim diante de Portugal, Gana, EUA e Argélia. Era assim novamente. Só que para a França, aquilo era um fato inédito, pois jamais havia concedido o primeiro gol numa partida nessa Copa. Até porque só havia levado gols da Suíça, quando já vencia a partida por 5a0.

A França parecia não saber reagir à desvantagem. E não é que tenha se descontrolado emocionalmente, nada disso. Foi exatamente o contrário: a França manteve-se fria. Se por um lado tal frieza é positiva na medida em que as jogadas podem ser calculadas da melhor maneira possível, por outro pode ser nociva, pois não dinamiza um cenário que clama por uma novidade. Valbuena fez mais um bom jogo. Benzema, novamente, mostrou-se a melhor opção no momento de concluir. Pogba teve alguns bons momentos na partida. Matuidi apareceu bem no segundo tempo. Mas faltou algo mais. Talvez fosse um Griezmann para entrar e mudar o rumo dos acontecimentos - dessa vez ele foi titular e participou discretamente. As entradas de Rémy e Giroud pouco ou nada acrescentaram. A Alemanha, muito bem postada na defesa, teve Hummels como grande nome no jogo. Nada nem ninguém em momento algum conseguiu levar vantagem sobre o camisa cinco alemão. Podemos, naturalmente, valorizar a participação de Lahm na lateral-direita. Também merece elogio a presença de Khedira, que atuou os noventa minutos ao lado do ótimo Schweinsteiger. Boateng e Höwedes também contribuíram. Müller foi bastante acionado, Klose se mostrou voluntarioso, Schürrle teve duas oportunidades. Mas o cara que foi lá e fez, foi ele: Hummels.

Löw, que chega a mais uma semifinal como técnico da Alemanha (Euros 2008 e 2012, além da Copa 2010), afirmara na véspera do jogo que Mats Hummels havia contraído uma gripe. Mas nem os vírus têm vez com o zagueirão. Para alegria geral da nação alemã, Hummels foi o imunizador do ataque francês. E, se lá no passado, confrontos sangrentos marcaram conflitos entre alemães e franceses, hoje a "guerra" foi vencida sem nenhum indício de agressão. A Hummels e companhia, minha virtual condecoração.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Após Jogaço De Duas Horas, Alemanha Elimina Argélia

Alemanha e Argélia jogaram a última partida sediada no estádio Beira-Rio nessa Copa do Mundo. E fizeram o melhor jogo de oitavas-de-final até o momento no Mundial. Num confronto tático em todos os setores do campo, dinâmico na posse de bola de ambas as seleções e surpreendente na mútua intensidade apresentada pelas equipes, alemães e argelinos proporcionaram duas horas de bom futebol em Porto Alegre. Para felicidade dos amantes desse esporte. E para aniquiliar aquele papo de que "camisa faz diferença". Não faz nenhuma! Arranque os escudos de ambos os uniformes e duvido que alguém seja capaz de dizer quem era a tricampeã mundial e quem era a equipe que muitos diziam que não passaria da fase de grupos.

Aliás, temos muito a aprender com a representante do norte da África. Sem nenhuma badalação antes da Copa começar, fizeram uma campanha onde jogaram de igual para igual com a elogiada Bélgica, anotaram quatro gols na Coréia do Sul após grande performance no primeiro tempo, foram buscar o empate da classificação diante da disciplinada e competitiva seleção da Rússia e fizeram uma atuação maiúscula do primeiro ao último apito diante da poderosa Alemanha. Cento e vinte minutos marcados por um equilíbrio brutal, conseguindo anular muitas das virtudes de um adversário repleto de qualidades e explorar falhas que não tinham aparecido na fase de grupos - possivelmente porque portugueses, ganeses e estadunidenses não foram capazes de encontrá-las. Ou talvez de "inventá-las".

Manuel Neuer, um dos melhores goleiros do mundo, jamais mostrou tantas vezes com a camisa da seleção alemã o quanto o convívio com Josep Guardiola no Bayern de Munique lhe é proveitoso. Vimos no Rio Grande do Sul um Neuer mais líbero do que nunca, precisando abandonar a grande área diversas vezes para ser aquele jogador alemão a evitar o gol no contra-ataque adversário. E que contra-ataques! Já com dez minutos de jogo, a equipe comandada por Vahid Halihodzic deu duas mostras de que os lances de velocidade seriam um recurso interessante para entrar na defesa da Alemanha: Islam Slimani, sempre atento, conseguia deixar qualquer um para trás quando lançado. Mas Neuer, no melhor estilo goleiro-linha, fazia uma leitura perfeita do lance para realizar a interceptação.

Para criar ainda mais dificuldades a uma defesa vulnerável à velocidade de Slimani, a Argélia tinha também no talento de Sofiane Feghouli uma ótima opção para bagunçar o sistema defensivo alemão. Na marcação individual, não houve quem desse conta de neutralizá-lo. Foram cerca de dezoito minutos de domínio argelino, com direito a gol anulado para manter o placar zerado. E se Feghouli e Slimani apareciam bem no setor ofensivo, há que se destacar também as participações de jogadores como Ghoulam e Mandi, que fechavam os flancos e detinham jogadores como Schweinsteiger, Kroos, Götze e Özil, além de serem ágeis na hora de ligar os contra-ataques. E o goleiro M'Bolhi, que fez uma defesa espetacular no primeiro tempo, viria a aparecer mais tarde como grande nome no jogo.

Joachim Löw mexeu no intervalo: trocou Götze por Schürrle. Uma tentativa de ter maior presença na área e de aumentar a participação de Müller. Válida tentativa. Só que esse tipo de alteração não cria imunidade ao contra-ataque e a Argélia quase abriu o placar em rápida escapada de quatro contra quatro. Não estava nada fácil para Mustafi, Mertesacker, Boateng e Höwedes!

Com dificuldade para entrar numa zaga muito bem postada, a Alemanha tentou de fora da área: aos nove minutos, Lahm acertou lindo chute e somente não abriu o placar porque M'Bolhi fez o que considero ter sido a mais espetacular defesa na Copa do Mundo até o presente momento. Simplesmente sensacional o sutil desvio conseguido pelo goleiro argelino, que saltou em direção ao ângulo direito em lance de uma plasticidade cinematográfica.

Aos vinte e quatro minutos, uma contusão de Mustafi obrigou Löw a tirá-lo do jogo. Mustafi havia aparecido bem em lance pelo alto (defendido por M'Bolhi), mas fora isso, foi elemento pouco participativo quando a Alemanha tinha a posse de bola e facilmente envolvido quando a Argélia atacava. Ou seja, a sua saída acabou não sendo um mau negócio - uma pena, é claro, que por motivo de contusão. Khedira entrou em seu lugar, assumiu a posição de volante ao lado de Schweinsteiger e Lahm passou a ficar mais aberto pela direita.

A Alemanha cresceu. E, junto com ela, se agigantou a defesa da Argélia. Mostefa, Belkalem, Halliche e o incansável Ghoulam eram cada vez mais convidados (leia-se intimados) a agir para salvar a pátria. Importante não esquecer a contribuição de Lacen, uma barreira entre o meio-campo e a defesa. E para assegurar o placar zerado, M'Bolhi não permitia que bola nem pensamento passassem por ele. Halihodzic acrescentou habilidade no setor de meio-campo quando, aos trinta e dois, colocou Brahimi no lugar de Taider. Só que os últimos minutos foram, no geral, de predomínio alemão. E o 0a0 persistiu só para enganar os desavisados - um resultado que em nada refletia o que se tinha em campo.

Veio a prorrogação e, já no segundo minuto, o gol alemão: Müller cruzou da esquerda, Schürrle se antecipou à marcação e estufou a rede argelina, em bonita finalização. Era o vigésimo sexto gol na Copa de alguém vindo do banco de reservas, um recorde na história do torneio. Aos seis minutos, novo golpe na Argélia: o capitão Halliche, de precisão quase impecável no tempo de cada jogada que exigia sua participação, não tinha mais condição de continuar em campo e saiu para a entrada de Bougherra. Três minutos depois, o bósnio Halihodzic trocou Soudani, figura isolada no comando de ataque, por Djabou. E passou a ganhar território no meio-campo. Ainda antes do intervalo, Mostefa quase empatou a partida.

Veio o segundo (leia-se quarto) tempo do ótimo jogo. Se a Argélia tinha conseguido ganhar presença na meiuca quando da entrada de Djabou, a Alemanha sofria um revés: por cansaço, Schweinsteiger precisou ser substituído. Kramer foi o escolhido para entrar em seu lugar, aos 3' (ou 108'). No novo rearranjo de jogadores e nas novas disputas por posse de bola e espaço no gramado, a Alemanha conseguiu conter o ímpeto argelino e ainda levava perigo no ataque. Principalmente porque, naquela altura da partida, surgiam clarões na defesa da Argélia. Num deles, Schürrle e Özil entraram na área como quiseram, a defesa salvou praticamente em cima da linha a finalização de Schürrle mas, no rebote, Özil mandou firme para a rede. Um 2a0 para confirmar a classificação. Certo?

Errado. Era a Argélia, a valente Argélia do outro lado. Mesmo depois de sofrer o segundo gol aos catorze do segundo tempo da prorrogação, o time se lançou ao ataque na base da garra e da determinação. E, também do talento e da organização. Aos dezesseis, Feghouli cruzou da direita e Djabou completou de primeira, descontando e mostrando que nada estava definido. Os alemães queriam o apito final. Os argelinos, movidos pela esperança, ainda tiveram oportunidade em uma bola alçada na área. Slimani cabeceou. E Neuer ficou com ela: a bola. Para a Alemanha ficar com ela: a classificação. E nós, amantes do futebol, ficarmos com ela: a sensação de ter assistido um grande jogo.
Argelinos relembram vitória sobre os alemães no Mundial de 1982: equipe africana mostrou força e por pouco não conseguiu novo triunfo diante dos europeus numa Copa do Mundo. Fica a lembrança de uma grande partida.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Alemanha Vence Estados Unidos E Os Dois Avançam Na Copa

Alemanha e Estados Unidos se enfrentaram em Pernambuco numa partida que levantava suspeitas: como o empate classificaria ambos, uma possibilidade de ambas as seleções se respeitarem além do tolerável poderia tornar o encontro um "jogo de cumpadres". Ainda mais quando se tem dois ex-companheiros de seleção comandando cada uma das equipes (Löw foi auxiliar de Klinsmann na Copa 2006). Só que não houve nada disso. Também não houve a chuva de gols que talvez pudesse se esperar de um confronto que reunia duas seleções que, conjuntamente, marcaram e sofreram um total de quinze gols em quatro partidas. A chuva que rolou em Recife foi aquela promovida por São Pedro mesmo - o único gol no jogo foi marcado por Thomas Müller, que aparece no topo na lista de goleadores, com quatro anotados nos três primeiros compromissos. E o gramado até que se comportou bem ao tanto de água que nele caiu.

Com o resultado, a Alemanha confirmou a primeira colocação na chave com uma performance empolgante na estréia, inconstante na segunda rodada e longe do seu melhor na terceira. A chance de engrenar está no confronto de oitavas-de-final: vem aí a Argélia, que surpreendeu os russos e boa parte do mundo ao conquistar a segunda colocação no grupo H, eliminando os futuros anfitriões já na fase de grupos. Os Estados Unidos tiveram a sorte de contarem com uma vitória de Portugal sobre Gana, por 2a1. Se fosse uma goleada por mais de três gols de diferença, adeus Copa. Se Gana tivesse vencido pelos mesmos 2a1, adeus Copa. Mas os EUA sobrevivem e vão enfrentar a Bélgica nas oitavas.

O dilúvio, digo, o jogo começou com a Alemanha em cima, pressionando por todos os lados e não raramente entrando na água, quer dizer, na área estadunidense. Aos poucos, o confronto que se dava quase em cima de Howard foi se deslocando para o meio do campo e os comandados de Klinsmann puderam respirar (embaixo d'água, é verdade). Estáveis na defesa e com maior volume de jogo, faltava aos alemães não apenas retomar aquela pressão inicial como também encontrar alguma maneira de concluir as jogadas. Podolski não conseguia ser esse homem. Então, no intervalo, Löw colocou Klose em seu lugar. Com nove minutos no segundo tempo, bola na rede. Só que não era o 16º gol do maior goleador na história das Copas, mas Müller se tornando maior goleador nessa edição de Mundial: ele aproveitou rebote após bela defesa de Howard e colocou na gaveta.

O bom futebol que os estadunidenses mostraram nas primeiras rodadas pareciam trancados em algum baú e a verdade é que muito disso se deve ao eficiente sistema de marcação alemão. Hummels beirou a perfeição na tarefa de acompanhar Dempsey de perto. Bedoya foi uma alternativa encontrada por Klinsmann (o alemão-californiano o colocou no lugar de Davis pouco depois do gol alemão-alemão). Os EUA não se tornaram superiores territorialmente, mas nos minutos finais estiveram perto de alcançar o empate - o cabeceio de Dempsey que passou próximo ao ângulo esquerdo de Neuer se deu em lance com cara e jeito de gol. Não rolou o empate, mas a classificação se confirmou e garantiu a festa das dezenas de milhares de estadunidenses presentes no estádio. E isso eles estão sabendo fazer no Brasil: festa. Sinal que o futebol está se popularizando na terra da bola laranja e oval. Imagina se chegarem na fase quartas-de-final...

domingo, 22 de junho de 2014

Em Jogaço E Com Direito A Recordes, Alemanha E Gana Empatam No Castelão

Já havíamos elogiado a estréia da Alemanha e também a de Gana no Mundial 2014. Só por essas atuações, a expectativa já era de um grande jogo no encontro entre elas. Além disso, estamos falando de duas equipes com força física (Gana mais), qualidade técnica (Alemanha mais) e velocidade (aqui chega a ser difícil comparar, já que ambas parecem voar). Resultado: um jogaço. Acabou empatado em 2a2, mas independente disso, um jogaço.

Já no primeiro tempo podia-se vislumbrar um confronto pra lá de interessante. A rotatividade ofensiva alemã com Kroos, Götze, Özil e Müller recebendo o apoio de Khedira e Lahm pelo centro, além de Boateng e Höwedes pelos flancos encontrava uma resistência vigorosa na proteção de Muntari e Rabiu à linha composta por Afful, Boye, Mensah e Asamoah. Incompreensíveis as vaias que foram ouvidas nas arquibancadas. Como pode um torcedor pagar pelo ingresso, comparecer ao estádio e hostilizar quem joga bola com qualidade? Será que torcer contra uma equipe por considerá-la "concorrente ao título" justifica esse tipo de comportamento?

Voltando ao gramado, a partida dinâmica foi para o intervalo sem gol. E a Alemanha voltou do intervalo diferente, com Mustafi no lugar de Boateng. Uma mexida na posição, mas não no sistema de jogo. Jogo que, finalmente, teria seu primeiro gol: cruzamento de Müller e cabeceio desajeitado de Götze, que acabou acertando o próprio joelho e marcando um gol meio que não calculado. Quer dizer, se foi calculado, tratou-se de uma equação complexa. De toda forma, bola na rede e 1a0 Alemanha, primeiro gol de Götze em e na Copa.

Appiah imediatamente mexeu no time e trocou Kevin-Prince (que também é Boateng, irmão do alemão) por Jordan Ayew. E, dois minutos após a alteração, justamente o seu irmão marcou o gol de empate de Gana: André Ayew aproveitou cruzamento de Afful e, diferentemente de Götze, cabeceou cheio de estilo, sem qualquer chance para Neuer.

Gana jogava bem demais para se satisfazer com o empate e pressionou os alemães na busca pela virada. Com bastante intensidade quando detinha a posse de bola, o time envolvia a defesa adversária trocando passes e impondo velocidade. Aos dezoito, virou o jogo: Muntari serviu Gyan e o atacante da camisa três se tornou o primeiro jogador nascido no continente africano a marcar gol em três edições de Copa do Mundo. 2a1 Gana em Fortaleza.

Löw via seu time em desvantagem no placar e sendo dominado pelo oponente. Mexeu na equipe para reverter esse cenário duplamente adverso, trocando Götze e Khedira por Klose e Schweinsteiger. E antes que alguém pudesse ousar reclamar da decisão de tirar o autor do gol alemão no jogo, o homem que entrou tratou de igualar o recorde de Ronaldo: após bola cruzada por Höwedes, Klose esticou a perna para empurrar a bola para a rede, anotando o gol de empate. Gol de empate da Alemanha no jogo: 2a2 com Gana. Gol de empate de Klose na história das Copas: 15a15 com Ronaldo.

Na seqüência, Appiah procurou fórmulas de retomar a vantagem no marcador. Primeiro, trocou Atsu por Wakaso Mubarak. Depois, colocou Agyemang-Badu no lugar de Rabiu. E viu seu time ter oportunidades de vencer a forte seleção alemã. Viu também a forte seleção alemã ter oportunidades de vencer seu time. Mas o empate de 2a2 persistiu. No final, houve tempo de um cartão amarelo pra lá de rigoroso suspender Muntari do confronto com Portugal, na última rodada. E, da continuação dessa jogada, surgiu uma imagem chocante: Müller chocou-se contra um adversário na disputa pelo alto e cortou o rosto. O camisa treze poderá dizer, literalmente, que deixou o sangue em campo. E todos que estavam presentes no Castelão poderão dizer que assistiram um dos melhores jogos dos últimos Mundiais. Mesmo os que soltaram vaias.
 
Torcedor consegue a proeza de driblar a segurança do estádio e a censura da transmissão da FIFA: ele entrou no campo e apareceu na televisão, interrompendo o empolgante jogo entre alemães e ganeses. Muito melhor festejar do que vaiar.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O Caminho Do Tetra Começa Com Um 4a0

Gigante.

Esse foi o futebol apresentado pela Alemanha em sua estréia na Copa do Mundo 2014. Sorte dos torcedores que estiveram em Salvador para assistir o baile de Müller e companhia, que não tomaram conhecimento da seleção portuguesa e aplicaram um 4a0 incontestável.

Pepe perdeu a cabeça. Cristiano não se encontrou. Portugal sucumbiu. E a Alemanha deitou e rolou. Joachim Löw conseguiu conciliar a intensidade com a qualidade na posse de bola, mostrando que sua marca como técnico é exatamente essa: buscar o gol com o máximo de objetividade.

Para a qualidade do espetáculo, essa é uma combinação formidável. E de quebra, a fortíssima seleção alemã conserva uma característica do seu passado que já parece acoplada ao seu DNA: a eficiência no jogo aéreo. Isso sem falar na enorme disciplina tática. Não resta dúvidas de que estamos aqui falando de uma das mais sérias candidatas ao título nesse Mundial. O hat-trick de Müller foi a azeitona no topo da empada. Mas os maiores méritos ficam o cozinheiro desse deleite gastronômico: o técnico Joachim Löw.

Até onde irá a Alemanha? Só Deus sabe. Mas uma boa dica aos amantes do futebol arte é: vá com ela onde ela estiver. Boas chances de a última parada ser no Maracanã, dia 13 de julho.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Super Mário É O Balotelli


Após a Espanha passar por Portugal na primeira partida semifinal, faltava a definição do outro finalista na Eurocopa 2012. E, com uma vitória por 2a1 nessa quinta-feira, na capital polonesa Varsóvia, a Itália conseguiu superar a Alemanha e retorna a uma final de Euro após doze anos (em 2000, foi vice-campeã diante da França).

Com os dois gols anotados na semifinal, Mario Balotelli chega aos mesmo três gols marcados pelo alemão Mario Gómez, pelo português Cristiano Ronaldo, pelo russo Alan Dzagoev e pelo croata Mario Mandzukic.

O jogo

Desfalcada de Christian Maggio (suspenso pelo segundo cartão amarelo) e Ignazio Abate (contundido), Cesare Prandelli improvisou o canhoto Federico Balzaretti na lateral-direita italiana. Já Joachim Löw, por opção tática, voltou a utilizar Toni Kroos, Lukas Podolski e Mario Gómez entre os titulares da seleção alemã, fazendo retornarem ao banco três jogadores que atuaram muito bem diante da Grécia (André Schürrle, Marco Reus e Miroslav Klose). Bem disputada, a partida já mostrava duas equipes dispostas a atacar - a Alemanha por iniciativa própria e a Itália mais baseada em jogar no erro do adversário. Aos três minutos, Manuel Neuer agiu bem para recolher uma tentativa de enfiada de bola de Riccardo Montolivo para Mario Balotelli. No minuto seguinte, quase saiu gol alemão: Bastian Schweinsteiger cobrou escanteio pela esquerda e Mats Hummels completou com a coxa esquerda - a bola passou pelo goleiro Gianluigi Buffon e só não atravessou a linha final porque Andrea Pirlo impediu, usando a coxa esquerda e também o braço esquerdo. Se houve intenção, era lance para marcação de pênalti e expulsão. Se não, jogo que segue. No entendimento do árbitro francês Stéphanne Lannoy, nada a assinalar. No meu, que vejo Pirlo jogar há mais de uma década, duvido que alguém de sua categoria e controle de bola tenha colocado a mão naquela bola de maneira involuntária.

As chances de gol que apareciam continuavam sendo da seleção alemã. Aos onze minutos, Sami Khedira abriu na direita com Jérôme Boateng e deste saiu cruzamento rasteiro, buscando Khedira, numa bola que chegou até Buffon e quase terminou em gol contra de Andrea Barzagli, em raro momento de indecisão entre os companheiros de Juventus e de seleção italiana. No minuto posterior, aos doze, Kroos chutou com força à meia-altura e Buffon, bem posicionado, espalmou com as duas mãos, impulsionando a bola para o lado direito e minimizando os riscos no rebote.

A Itália era pressionada, mas nem por isso abria mão de sair para o jogo. Aos dezesseis minutos, Montolivo chutou de fora da área, a bola quicou de uma forma a dificultar o trabalho do goleiro e, mesmo assim, Neuer não hesitou em encaixar no canto direito. Aos dezessete, o arqueiro alemão voltou a mostrar segurança ao defender novo chute de fora da área, dessa vez dado por Antonio Cassano e no canto esquerdo. Na marca de dezenove minutos, saiu o primeiro gol do jogo: Pirlo lançou Giorgio Chiellini na esquerda e este tocou para Cassano, que limpou o lance escapando com facilidade da marcação de Hummels e cruzou na cabeça de Balotelli, que tirou proveito da liberdade concedida por Holger Badstuber e concluiu no contrapé de Neuer, abrindo o placar.

Com uma linha de defesa bem entrosada e um meio-de-campo bastante combativo, a Azzurra, na medida do possível, conseguia conter as investidas de uma Alemanha detentora do ataque mais positivo na competição e que, pela primeira vez no torneio, via seu oponente inaugurar o marcador. Aos vinte e seis minutos, Gómez fez bem a função de pivô, tocou atrás e Mesut Özil finalizou com um chute da proximidade da meia-lua que Buffon foi buscar no canto direito. Três minutos depois, Kroos recebeu, olhou pro gol e chutou de fora, à direita. Aos trinta e três, Boateng desceu pela direita, foi até a linha-de-fundo, cruzou e Balzaretti conseguiu cortar antes que a bola chegasse até Podolski. No minuto posterior, Khedira ajeitou com o peito e emendou bonito chute com o peito do pé, sem deixar a bola tocar na grama, em novo remate que terminou em defesa do espetacular Buffon, espalmando no canto direito.

E aí você vê como são as coisas no futebol: a Alemanha atacava, atacava, atacava. Chutes que não iam para fora, eram parados pelo melhor goleiro do mundo. E, num contra-ataque, a Itália abriu 2a0: aos trinta e cinco minutos, Montolivo fez excepcional lançamento para Balotelli que, em posição legal (Philipp Lahm dava condição), arrancou e concluiu com remate fortíssimo, sem qualquer possibilidade de defesa, estufando a rede no canto esquerdo. Golaço do Mario italiano, que mostrou sua força não apenas com a potência do chute como também após tirar a camisa, recebendo cartão amarelo pela comemoração.

No intervalo, Löw tratou de buscar reaproximar a Alemanha da fase de grupos da Alemanha da fase quartas-de-final, trocando Podolski e Gómez por Reus e Klose. E o segundo tempo começou com os alemães no ataque: aos dois minutos, Reus passou por Leonardo Bonucci mas o chute saiu mascado, facilitando a defesa de Buffon, que pegou no canto esquerdo. Aos três, Lahm fez a tabela e finalizou com chute colocado que passou perto do ângulo esquerdo.

A torcida alemã cantava lindamente no estádio Naradowy, como se fizesse na Polônia um cenário semelhante àquele visto na Copa do Mundo de seis anos atrás, quando foi anfitriã (e caiu para a própria Itália). Aos doze minutos, Prandelli trocou Cassano (que saiu sob o som dos aplausos) por Alessandro Diamanti. Aos catorze, Balotelli quase alcançou um hat-trick: ele fez jogada individual pela direita e chutou cruzado, mandando à direita da meta. A Alemanha respondeu aos dezesseis, quando Reus cobrou uma falta que ele mesmo havia sofrido de Bonucci e mandou direto para o gol - Buffon saltou e espalmou no alto uma bola que ainda tocou no travessão antes de sair.

Com a troca de Montolivo pelo brasileiro de nascimento Thiago Motta aos dezoito minutos, Prandelli dava claros sinais de que a missão italiana era conter as investidas da seleção alemã. Cada vez mais avançando seus jogadores, a Alemanha dava espaços em sua defesa, que eram explorados em contra-ataques. Aos vinte e um minutos, Pirlo lançou Claudio Marchisio, que tabelou com Diamanti e chutou à esquerda.

As estatísticas mostravam uma Alemanha que chutava mais vezes (9a7, sendo 6a5 em direção ao gol), mas que parecia não encontrar fórmulas de fazer a rede balançar. Com cãimbras, o sujeito que balançou a rede por duas vezes deixava o gramado para a entrada de Antonio di Natale, aos vinte e quatro. Um minuto depois, Boateng deu lugar para Thomas Müller numa Alemanha cada vez mais ofensiva, cada vez mais concentrada no campo de ataque, e cada vez mais prensada pelo avançar do cronômetro.

E o que estava complicado para a seleção alemã por pouco não ficou pior: aos vinte e nove, Daniele de Rossi fez ótimo lançamento para Marchisio, que recebeu pela direita, deixou Badstuber no chão, e chutou cruzado, perto da trave direita. Aos trinta e três, nova chance italiana: De Rossi recebeu enfiada de bola de Pirlo, cruzou e Neuer pegou antes que a redonda chegasse em Di Natale.

Embora a Alemanha tivesse mais a bola consigo e contasse com mais jogadores de natureza ofensiva, o jogo tinha para a Itália um desenho favorável na medida em que o instinto adversário de buscar o gol ia deixando dezenas de metros no gramado sem a presença de ninguém vestindo branco, o que era um tremendo convite ao contra-ataque. Aos trinta e seis, Di Natale foi lançado em liberdade e chutou na rede pelo lado de fora, à esquerda, quase marcando o terceiro. No minuto seguinte, Balzaretti recebeu de Diamani e colocou a bola para dentro, no canto direito - mas foi detectado impedimento no lance.

A partir dali, o jogo passou a acontecer basicamente numa única metade de campo: o de ataque alemão. Aos trinta e nove, uma troca de passes da Alemanha dentro da área italiana foi afastada por Balzaretti, impedindo a conclusão do lance. No escanteio ali originado, Kroos finalizou com chute que passou por cima. A pressão estava consolidada e dessa vez a Itália resistia sem sequer sair em contra-ataques, como quem simplesmente esperasse o apito derradeiro para respirar aliviado. Aos quarenta e quatro, Hummels ficou de frente pro gol, chutou, mas Bonucci conseguiu amortecer, ajudando Buffon a bloquear a finalização.

Lannoy indicou quatro minutos como acréscimo e aos quarenta e cinco, Balzaretti cometeu pênalti duas vezes: uma por puxar Klose na área e outra por bater na bola com o braço. Como bola no braço não parece ser infração para esse árbitro, provavelmente a marcação se deveu ao puxão. A cobrança aconteceu aos quarenta e seis, quando Özil, consciente, colocou a bola no quadrante 10, com as mãos de Buffon indo para aquela direção mas sem conseguir alcançar o objeto esférico, que finalmente a Alemanha conseguiu fazer passar pelo camisa um italiano.

Embora entre a marcação da penalidade máxima e a reposição de bola da Itália no centro do campo tenha se passado mais de um minuto, a arbitragem conservou o acréscimo anterior. Aos quarenta e oito, para desespero de Hummels, Lannoy inverteu uma falta na disputa entre o zagueiro alemão e o italiano Bonucci, dando cartão amarelo para Hummels pela reclamação.

Neuer, no círculo central, era o jogador mais afastado do gol italiano, protagonizando cenas raríssimas e ao mesmo tempo espetaculares, como quando deu de peixinho, recolocando no ataque uma bola afastada pela defesa oponente. Aos 49'16'', com o goleiro alemão na área adversária, Lannoy deu a partida por encerrada. E aqui ficam os aplausos para a Alemanha de Löw, tão focada em tocar a bola de pé em pé que até quando parecia mais óbvio fazer a redonda viajar até a área, o passe e a valorização da posse de bola se faziam presentes. Uma Alemanha que vinha de quinze vitórias consecutivas (recorde no Velho Continente), com 100% de aproveitamento na Euro 2012 (venceu Portugal, Holanda, Dinamarca e Grécia) mas que, numa noite em Varsóvia, esbarrou no goleiro Buffon. E no atacante Balotelli.

Parabenizo a Itália, que por muito pouco não deu adeus à competição ainda na fase de grupos (um gol croata diante da Espanha seria o bastante para isso), mas mostrou qualidades diante dos ingleses e também dos alemães. Mas, sinceramente, estava muito mais animado em ver uma reedição da final de 2008 e assistir a Alemanha na Copa das Confederações 2013 do que em me deparar com o desfecho que se apresenta...