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domingo, 11 de julho de 2021

"Fratelli D'Italia" - Nos Pênaltis, Itália Vence A Inglaterra Em Wembley E É Campeã Europeia

A ótima Eurocopa 2020 chegou ao final. Infelizmente, a partida derradeira passou longe dos melhores momentos proporcionados pela competição. Resultado clássico de um confronto onde ambas as seleções que chegaram à decisão trilharam seus caminhos a partir, prioritariamente, da solidez defensiva. Enquanto a Itália só foi ser finalmente vazada pela primeira vez no torneio durante a prorrogação na fase de oitavas de final, a Inglaterra resistiu ainda mais tempo, tendo sofrido seu primeiro gol somente na fase semifinal.

E, na grande decisão em Wembley, um gol de Luke Shaw logo no segundo minuto de jogo até poderia "abrir" a partida. Só que não. Nem a Inglaterra apresentava um sede de atacar como tampouco a Itália criava o suficiente para ameaçar a vitória parcial inglesa.

Ao falarmos dessa Eurocopa como um todo e dessa final em particular, precisamos lembrar de muitos nomes que realizaram excelentes participações defensivamente. A começar pelo capitão italiano Giorgio Chellini, um gigante que se tornou ainda maior: caso se confirme a aposentadoria da seleção italiana, Chiellini terá terminado de forma memorável, se eternizando com a camisa azul. Outro defensor da Itália que foi fundamental nessa solidez defensiva? Leonardo Bonucci. Em alguns momentos, chega a ser difícil separar Bonucci de Chiellini. Os dois, que esbanjam na seleção o mesmo entrosamento visto na Juventus, formam um verdadeira fortaleza no miolo de zaga. Pelo lado inglês, Harry Maguire foi imenso. Firme em toda e qualquer dividida e quase sempre soberano no jogo aéreo, foi uma figura de suma importância na última linha. Kyle Walker, ora atuando como lateral, ora mais fixo na zaga, foi outro que teve uma regularidade digna de admiração. E o que dizer dos volantes Declan Rice e, principalmente, Kalvin Phillips? Baita Euro de ambos. Phillips é daqueles caras que circulam pelo gramado dando aula silenciosa de posicionamento. É muito provável que haja aí o dedo do mestre Marcelo Bielsa, seu técnico no Leeds United.

Então, com todos esses elementos, não foi surpresa que a final seria econômica na quantidade de gols. Mas aquilo que realmente me causa decepção não é a falta de bola na rede - é pensar que jogadores como o italiano Manuel Locatelli e os ingleses Jack Grealish, Bukayo Saka, Jadon Sancho, Marcus Rashford e Phil Foden (esse nem entrou em campo na final!) tenham sido sub-utilizados de tal forma por seus treinadores. Locatelli fez uma ótima Euro na fase de grupos e estranhamente virou reserva nos confrontos eliminatórios. Na decisão em Wembley, Roberto Mancini só foi colocá-lo no jogo durante a prorrogação. Mesmo caso de Grealish, que entrou três minutos mais tarde. E o que dizer de Rashford e Sancho, lançados ao gramado no décimo quinto minuto do segundo tempo da prorrogação? Um deboche de Gareth Southgate, só pode.

A partida teve um gol para cada lado, ambos após cruzamentos para a área. Pela Inglaterra, logo no início, Luke Shaw completou de primeira a bola levantada por Kieran Trippier, numa bela finalização para abrir a contagem em Londres. Os italianos, por sua vez, só foram empatar aos vinte e um minutos no segundo tempo, quando um bate-rebate após cobrança de escanteio terminou com Bonucci empurrando para a rede.

De grandes jogadas tramadas, com tabelas e ultrapassagens, há muito pouco digno de nota. Raheem Sterling fez possivelmente sua pior atuação na competição. Harry Kane, bastante participativo na criação de jogadas, raras vezes foi visto em condição de finalizar. Mason Mount pouco foi capaz de produzir. E, mesmo com tudo isso, Southgate se recusava a colocar seus jogadores com maior capacidade de construção ofensiva. Lamentável essa postura de um treinador que mostra grande aptidão em dar consistência à sua seleção mas que apresenta um medo danado de soltar o freio de mão de um carro com motor possante.

No lado da Itália, uma atuação bastante interessante de Federico Chiesa, seguramente um dos melhores homens de frente nessa Euro 2020. Jogador que tem uma objetividade admirável, sempre pegando na bola de forma a encaminhar o time mais adiante, aproximando do gol. Às vezes comete erros na execução de passes, cruzamentos e chutes, mas é de fundamental importância para verticalizar as ações e colocar pressão na defesa oponente.

O confronto acabou indo para os pênaltis. Após Domenico Berardi e Harry Kane converterem, Jordan Pickford teve a felicidade de defender a cobrança de Andrea Belotti. Harry Maguire, na sequência, cobrou com força e tirou do ar a câmera localizada no ângulo esquerdo, estufando a rede com gosto.

Mas a vantagem inglesa durou pouco. Durou praticamente nada. Após Bonucci converter sua cobrança, Rashford mandou caprichosamente no pé da trave direita. Lembrou bastante a cobrança de Sergio Busquets na semifinal da Espanha com a própria Itália - tanto pelo chute na trave direita quanto pelo fato de Gianluigi Donnarumma saltar para o lado oposto.

Logo depois, Federico Bernardeschi converteu para a Itália. E o castigo de Southgate teve outro capítulo: Sancho, que entrara junto com Rashford no finalzinho da prorrogação, também desperdiçou a cobrança.

Coube ao ítalo-brasileiro Jorginho, cobrador oficial de pênaltis na Azzurra, se encarregar do que seria a cobrança do título. Seria. Porque Pickford, heroico, foi buscar o chute rasteiro no canto direito. E por falar em heroi, o rótulo definitivo coube a Donnarumma, que defendeu a cobrança de Saka no canto esquerdo e garantiu o troféu à Itália.

Italianos correm para saudar Gianluigi Donnarumma após defesa do pênalti cobrado por Bukayo Saka. Em contraste, Jordan Pickford, que também pegou duas cobranças, observa desolado. Imagem extraída de Notícias de Coimbra.

 

Foi uma final onde nenhum dos treinadores merecia ganhar. Seja pela covardia do Southgate, seja pela escassez de variações do Mancini. Mas, olhando para dentro de campo e vendo personagens como Chiellini e Bonucci, não há como negar que a taça ficou em boas mãos.

Seleção da Eurocopa 2020

Eis os titulares e reservas na concepção de alguém que assistiu todos os jogos na primeira rodada, todos os jogos na segunda rodada, metade das partidas na terceira rodada e todos os confrontos das oitavas de final em diante.

Titulares

Goleiro: Yann Sommer (Suíça)
Lateral direito: Denzel Dumfries (Holanda)
Zagueiro: Leonardo Bonucci (Itália)
Zagueiro: Giorgio Chiellini (Itália)
Lateral esquerdo: Luke Shaw (Inglaterra)
Volante: Kalvin Phillips (Inglaterra)
Meio-campista: Paul Pogba (França)
Meio-campista: Daniel Olmo (Espanha)
Meio-campista: Raheem Sterling (Inglaterra)
Atacante: Federico Chiesa (Itália)
Atacante: Patrik Schick (República Tcheca)
Técnico: Kasper Hjulmand (Dinamarca)

Reservas

Goleiro: Gianluigi Donnarumma (Itália)
Lateral direito: Kyle Walker (Inglaterra)
Zagueiro: Harry Maguire (Inglaterra)
Zagueiro: Simon Kjær (Dinamarca)
Lateral esquerdo: Leonardo Spinazzola (Itália)
Volante: Sergio Busquets (Espanha)
Meio-campista: Georginio Wijnaldum (Holanda)
Meio-campista: Kevin De Bruyne (Bélgica)
Meio-campista: Pedri (Espanha)
Atacante: Harry Kane (Inglaterra)
Atacante: Romelu Lukaku (Bélgica)
Técnico: Franco Foda (Áustria)

Menção honrosa

Goleiro: Kasper Schmeichel (Dinamarca) e Jordan Pickford (Inglaterra)
Lateral direito: Joshua Kimmich (Alemanha) e César Azpilicueta (Espanha)
Zagueiro: John Stones (Inglaterra) e Mats Hummels (Alemanha)
Zagueiro: Andreas Christensen (Dinamarca) e Thomas Vermaelen (Bélgica)
Lateral esquerdo: Joakim Mæhle (Dinamarca) e Robin Gosens (Alemanha)
Volante: Marco Verratti (Itália) e N`Golo Kanté (França)
Meio-campista: Luka Modric (Croácia) e Thomas Delaney (Dinamarca)
Meio-campista: Axel Witsel (Bélgica) e Jorginho (Itália)
Meio-campista: Granit Xhaka (Suíça) e Frenkie De Jong (Holanda)
Atacante: Haris Seferović (Suíça) e Cristiano Ronaldo (Portugal)
Atacante: Kylian Mbappé (França) e Kasper Dolberg (Dinamarca)
Técnico: Luis Enrique (Espanha) e Vladimir Petković (Suíça)


sexta-feira, 9 de julho de 2021

Dinamarca É Valente, Mas Não Resiste À Inglaterra E A Um Pênalti Duvidoso Em Plena Prorrogação

Pela primeira vez na história da Eurocopa, a Inglaterra consegue chegar na final do torneio. Após o empate por um a um com a Dinamarca, a seleção inglesa triunfou na prorrogação ao marcar o segundo gol em num pênalti bastante duvidoso - e, na base da imposição física e do toque de bola, segurar o resultado que a qualificou para tentar o título inédito.

Acho um erro metodológico focar no pênalti bastante duvidoso. É bem verdade que ele mancha a partida e coloca em dúvida o mérito do English Team num confronto que poderia tranquilamente caminhar para o desempate por penalidades. Porém, analisando a totalidade de um confronto que teve mais de duas horas de jogo, foi flagrante a superioridade técnica e tática dos comandados de Gareth Southgate.

A Dinamarca fez uma Eurocopa a ser lembrada com carinho - tanto pela forma como atuou quanto, principalmente, pela capacidade de superar o episódio marcante ocorrido no primeiro tempo do jogo de estreia. Um episódio que tornou o evento esportivo secundário - até porque, uma Eurocopa pode ser disputada a cada quatro anos, mas uma pessoa - uma vida - é única. E o maior "título" possível nesse torneio foi o fato de Christian Eriksen continuar vivo.

Ingleses começam bem, mas Dinamarca mostra qualidade no contra-ataque

A primeira chegada de ataque mais interessante foi da Inglaterra e aconteceu envolvendo seus dois jogadores que atuam como referência no setor ofensivo. Aos cinco minutos, Harry Kane recebeu pela direita, cruzou em diagonal encontrando Raheem Sterling nas costas de Andreas Christensen, mas o camisa dez não conseguiu alcançar para concluir.

Aos nove, uma jogada de troca de passes de primeira da Dinamarca deu o tom de como essa equipe é bem treinada. Sim, precisamos reverenciar Kasper Hjulmand pelo que vem desempenhando no comando da seleção nórdica. Quando quatro jogadores trocam passes de primeira, acionando um companheiro em contra-ataque, temos que entender que isso tem o dedo do treinador. Na jogada envolvente, Mikkel Damsgaard por pouco não chegou na bola, com Kyle Walker fazendo a proteção para Jordan Pickford recolher.

Aos doze, Kane passou novamente para Sterling - dessa vez pelo lado esquerdo de ataque. Ele carregou pra direita acompanhado por Christensen e chutou fraco, para defesa de Kasper Schmeichel.

Essas duas chegadas de ataque inglesas, onde Kane agia como uma espécie de garçom de Sterling, deram uma boa síntese do posicionamento do camisa nove na maior parte do tempo de jogo. Ele estava usualmente fora da área, misturado com outros meio-campistas, e se mostrando participativo num setor que mostrava alguma carência na capacidade criativa. Essa carência em muito se deve em parte ao próprio treinador Southgate, que se mostra bastante resistente a usar jogadores como Phil Foden e Jack Grealish entre os titulares. 

Dinamarca cresce, aparece e abre o placar em Wembley com o primeiro gol em cobrança de falta nessa edição

Aos catorze minutos, Pierre-Emile Højbjerg chutou rasteiro e parou em defesa de Pickford. No minuto seguinte, uma saída ruim de Pickford - que logo se desculpou com os companheiros - deu origem a uma chegada perigosa da Dinamarca, transformando-se em escanteio.

Passado o susto, a Inglaterra parecia retomar o controle territorial do setor de meio de campo. Mas a Dinamarca tinha seus recursos: aos vinte e quatro, Jannik Vestergaard tirou a bola de Kane no campo defensivo e deu início a um contra-ataque que que chegou até Damsgaard. Ele chutou cruzado buscando o ângulo esquerdo, mas a bola acabou indo para fora.

Aos vinte e seis minutos, Pickford superava uma marca do lendário goleiro Gordon Banks - ele acabava de completar setecentos e vinte e três minutos sem ser vazado pela seleção inglesa. 

Com o recorde estabelecido, veja o que é o futebol: apenas três minutos depois do feito histórico, a Dinamarca tinha uma cobrança de falta. Damsgaard na bola. O mesmo Damsgaard que ficou no quase duas vezes anteriormente. E Damsgaard foi brilhante: ele conseguiu fazer a bola encobrir uma barreira alta (com Kane pulando e não alcançando) e fazer a bola perder altura rapidamente, surpreendendo Pickford, que até resvalou na redonda mas sem ser capaz de evitar o gol. O primeiro gol sofrido por ele nessa Euro. O primeiro gol em cobrança de falta nessa edição. Um belo gol de Damsgaard. Dinamarca um a zero em pleno estádio de Wembley.

Inglaterra reage e alcança o empate ainda no primeiro tempo

Pela primeira vez atrás no placar em todo o andamento da competição - afinal, sequer havia sofrido um único gol até então -, a Inglaterra não demorou a levantar a cabeça, sacodir a poeira e dar a volta por cima.

Aos trinta e sete minutos, um ensaio do gol de empate: Bukayo Saka tocou para Kane pela direita, o camisa nove cruzou e Sterling, de frente para o gol, teve seu chute defendido em excepcional intervenção de Schmeichel.

No minuto seguinte, o que era ensaio virou o gol de empate propriamente dito. E envolvendo os mesmos personagens da trama anterior: Saka recebeu de Kane pela direita e cruzou buscando Sterling, que simplesmente completaria para a rede. Só que Simon Kjær, de carrinho, evitou que a bola chegasse em Sterling - mas não na rede, marcando contra. Um a um em Londres.

Deitado após o carrinho, Simon Kjær vê a bola no fundo da rede. Foto: AFP.


Segundo tempo tem início com equipes alternando possibilidades de gol

Quando Kasper Dolberg recebeu de Joakim Mæhle e teve seu chute rasteiro espalmado por Pickford no canto direito, já havia impedimento no lance. Porém, aquela chegada aos seis minutos mostrava o ímpeto dinamarquês em retomar a liderança no placar.

A Inglaterra não ficava atrás e tratou de responder três minutos depois: aos nove, após Mæhle cometer falta em Kane, Jason Mount foi para a cobrança, levantou na área, Harry Maguire conseguiu cabecear no canto direito e Schmeichel tratou de salvar, espalmando.

Na marca de treze minutos, uma bonita jogada da Dinamarca: Højbjerg avançou pela direita e rolou a bola na direção de Martin Braithwaite, que fez o corta-luz. Na sequência, Dolberg girou e chutou rasteiro, com Pickford fazendo a defesa.

Aos dezoito, era a vez dos ingleses: Sterling carregou pela esquerda, entregou para Saka, que deixou com Mount - o chute foi defendido com segurança por Schmeichel.

Cansaço começa a bater à porta dinamarquesa e três substituições simultâneas são realizadas

Com vinte e um minutos, Hjulmand mexeu triplamente em sua equipe. Saíram Stryger Larsen, Damsgaard e Dolberg para as entradas de Daniel Wass, Yussuf Poulsen e Christian Nørgaard. São três alterações que remetem ao jogo de quartas de final com a República Tcheca, quando as três primeiras mexidas na equipe foram exatamente envolvendo esses jogadores.

Aos vinte e três, foi a vez de Southgate mexer, promovendo a entrada de Jack Grealish no lugar de Saka. E, tal qual ocorreu na partida de oitavas de final diante da Alemanha (curiosamente no mesmo minuto de jogo), Grealish foi para o lado esquerdo e Sterling passou a aparecer mais rotineiramente pela direita.

Inglaterra assume o controle na partida

Aos vinte e sete minutos, Kane abriu o jogo na direita com Mount, que cruzou fechado, com Schmeichel dando um tapa para escanteio em bola que parecia ter o endereço do gol.

Na marca de trinta e dois minutos, Grealish receberia ótima enfiada de bola. Receberia, no futuro do pretérito, pois Christensen se agigantou esticando a perna e fazendo interceptação quase acrobática. Só que a dita acrobacia acabou contundindo o defensor dinamarquês, que precisou ser substituído - Joachim Andersen entrou em seu lugar.

Aos trinta e quatro, Kalvin Phillips tentou de fora da área e a bola saiu à direita. Três minutos depois, Luke Shaw levantou pela esquerda em lance de bola parada e John Stones cabeceou à esquerda.

A quinta substituição de Hjulmand deu-se aos quarenta e dois minutos, tirando Thomas Delaney - jogador que merece os elogios pela partida e pela Eurocopa que realizou - para a entrada de Mathias Jensen.

A Inglaterra mostrava uma condição física bastante superior à Dinamarca, notadamente por Southgate carregar a equipe até o final dos noventa minutos tendo feito apenas aquela troca de Saka por Grealish. E o English Team teve ainda duas oportunidades de marcar nos acréscimos. Aos quarenta e sete minutos, Sterling tinha a bola pela direita, passou para Kane - recuado, como em quase todo o decorrer do jogo - e o camisa nove rolou atrás para Phillips, que chutou de fora, mandando por cima do travessão. Dois minutos depois, aos quarenta e nove, após lance de bola parada pela direita, Maguire, soberano no jogo aéreo, cabeceou no segundo poste e Schmeichel foi buscar no canto direito.

Mais uma vez nessa Euro, a definição da vaga rumava para a prorrogação

Sobrando fisicamente, Inglaterra consegue se impôr. Mas só chega ao gol em lance para lá de duvidoso

Aos três minutos, Kane recebeu pela direita nas costas de Vestergaard e chutou cruzado, para defesaça de Schmeichel com a mão direita.

Pouco após o lance, Southgate trocou Declan Rice e Mount por Jordan Henderson e Phil Foden. Sim, demorou mais de uma hora e meia para o talentoso Foden finalmente ser mandado a campo.

Aos sete, o camisa sete Grealish chutou firme e Schmeichel rebateu.

Os ingleses tinham a bola mas a Dinamarca se defendia bem. Até que, aos onze minutos, Sterling entrou na área pelo lado direito. Era perseguido por Mæhle. Caiu na grama. Assistindo ao vivo, parecia ter havido um toque. Mas ao olhar o lance de novo, e novamente, e mais uma vez, e por outro ângulo, fica muito difícil assegurar que tenha havido qualquer contato capaz de tombar Sterling. Ainda assim, a penalidade foi confirmada. De forma admirável, a seleção dinamarquesa pouco reclamou. Algo que transcende a competitividade e o calor do jogo. A isso, podemos chamar "educação".

Raheem Sterling cai na área - o árbitro holandês Danny Makkelie, que não aparece na foto, diz que houve pênalti. Imagem extraída do Twitter Sensacionalista.

A cobrança do pênalti - que sabe-se lá se foi realmente pênalti - coube a Harry Kane. Existe uma máxima futebolística que diz que pênalti que não é, não entra. Kasper Schmeichel deu uma mãozinha para o ditado popular e defendeu no canto esquerdo. Só que o rebote ficou com o próprio Kane. E, no jargão, não diz nada sobre rebote de pênalti que não é... Dois a um Inglaterra.

Harry Kane e Phil Foden em êxtase com o gol na prorrogação: a Inglaterra fazia dois a um sobre a Dinamarca. Foto: AFP.

Sem forças para reagir, Dinamarca entra na roda inglesa

No intervalo, uma mexida para cada lado: enquanto a Inglaterra trocava Grealish por Kieran Trippier (sim, senhoras e senhores, mesmo com a flagrante imposição física e superioridade técnica, o treinador Gareth Southgate optou por tirar Grealish de campo, colocar um homem na lateral e centralizar Walker, aumentando o contingente defensivo), o técnico Hjulmand, por sua vez, promoveu a entrada do atacante Jonas Older Wind no lugar do defensor Verstergaard.

Aos oito minutos, uma chegada com Braithwaite que foi frustrada pela boa marcação de Maguire e pela ação de Pickford foi a última ação ofensiva dinamarquesa. A Inglaterra, exercendo domínio territorial e circulando a bola sem qualquer sede de ampliar a vantagem, fazia o tempo passar. E ainda teve, aos quinze, uma situação derradeira, quando Sterling avançou pela direita, deixou Andersen para trás e parou em bloqueio de Schmeichel.

Desta forma, a seleção inglesa chega à sua primeira final de Eurocopa. É a equipe que mais me impressionou pela consistência tática. Tem um jeito de jogar bem definido, sendo sólida na defesa e contando com ótima proteção na dupla Phillips e Rice, gozando de boa qualidade técnica no último terço do gramado. É difícil apontar uma seleção com qualquer espécie de favoritismo na final, mas, analisando friamente, vejo a Inglaterra com maiores possibilidades do que a Itália em Wembley. Aguardemos. Minha maior torcida é para que Southgate não tenha medo de soltar o freio de mão de uma equipe que tem, sim, algo mais a oferecer.

À Dinamarca, meus parabéns. Fez belíssimo papel no torneio. E, graças a Deus, salvaram-se todos. Viva Eriksen!

domingo, 4 de julho de 2021

Inglaterra Passeia Em Roma, Faz Quatro A Zero Na Ucrânia, E Volta A Wembley Com Sede De Título

Se nas outras três partidas dessa fase tivemos três confrontos bastante disputados (Espanha e Suíça decidiram a vaga nos pênaltis, a Itália passou pela Bélgica com vitória por dois a um e a Dinamarca venceu a República Tcheca também por dois a um), a Inglaterra sobrou diante da Ucrânia e aplicou a sua maior goleada na história das Eurocopas: um inapelável quatro a zero, com dois gols de Harry Kane, um de seu xará Harry Maguire e um de Jordan Henderson, que anotou seu primeiro gol com a camisa que vestiu sessenta e duas vezes.

Mesmo com as ótimas atuações de Grealish, Southgate dá titularidade a Sancho

Com uma formação diferente da que venceu a Alemanha por dois a zero nas oitavas, o técnico Gareth Southgate diminuiu a última linha de cinco para quatro homens, com Kieran Trippier indo para o banco de reservas e Kyle Walker assumindo a lateral direita. Outra modificação foi no setor de meio campo, barrando Bukayo Saka e promovendo Jordan Sancho e Mason Mount aos onze iniciais. Um desenho mais ofensivo, sem dúvidas, mas que estranhamente abdicou de utilizar Jack Grealish, um dos destaques na vitória sobre os alemães.

Andriy Shevchenko, por seu turno, alterou o meio campo ucraniano em relação ao preparado na vitória por dois a um sobre a Suécia na prorrogação. E essa solitária mudança de jogadores - qual seja, a saída de Taras Stepanenko para a entrada de Vitaliy Mykolenko - modificou significativamente a forma da equipe jogar, pois Oleksandr Zinchenko, o melhor jogador em campo na partida diante dos suecos na fase de oitavas de final, retornava a uma posição mais centralizada, abandonando a bem-sucedida função de atuar pelo flanco esquerdo do gramado, que é exatamente a que ele está acostumado a fazer no Manchester City de Josep Guardiola.

Parceria entre Sterling e  Kane funciona e English Team abre o placar aos três minutos

Assumindo a iniciativa no uso da posse de bola, a Inglaterra foi ao ataque desde cedo. E logo aos três minutos, conseguiu chegar ao gol: Raheem Sterling conduziu a bola da esquerda para o centro, atraiu a marcação ucraniana e descolou excelente passe para Harry Kane, que só teve o trabalho de esticar a perna e desviar, de bico, antes da chegada do goleiro Heorhii Bushchan. Um gol com a marca de um goleador num lance que merece ser exaltado, mais ainda, pelo passe magistral de Sterling. Um a zero Inglaterra em Roma, na primeira partida da seleção inglesa fora de Wembley nesse Eurocopa.

Harry Kane estica a perna direita e, de bico, empurra para o gol: a Inglaterra abre o placar diante da Ucrânia. Foto: Estadão Conteúdo.

 

Ucrânia procura atacar, mas consistência inglesa inibe a ação ofensiva adversária

Com um plano de jogo inicial que parecia ser o de se fechar atrás e sair em contra-ataques, o gol sofrido aos três minutos foi um balde de água na temperatura ambiente do inverno ucraniano. A vontade de buscar o empate esbarrava nas limitações da equipe e, mais ainda, na muito bem postada defesa inglesa. Andriy Yarmolenko, um dos destaques da Ucrânia no torneio, era figura sumida na partida, sucumbindo em meio ao sólido sistema de marcação da Inglaterra. E se a capacidade criativa ucraniana estava totalmente abafada pelo adversário, a primeira grande oportunidade de empatar o jogo se deu graças a um erro da seleção inglesa: aos dezesseis minutos, Walker tocou curto demais para John Stones, Roman Yaremchuk fez a interceptação, avançou pela esquerda e chutou rasteiro, parando em defesa de Jordan Pickford no canto direito.

Inglaterra domina territorialmente e cria chances de ampliar

Mantendo o adversário fora do último terço do campo, a seleção inglesa foi exercendo um domínio cada vez maior. E, com naturalidade, criou oportunidades de chegar ao segundo gol.

Aos vinte e um minutos, numa jogada entre Sancho e Sterling, Luke Shaw cruzou rasteiro da esquerda mas ninguém apareceu para a finalização. Na marca de vinte e oito, Shaw cobrou falta pela esquerda levantando na área e Kane cabeceou por cima. Com trinta e dois, Declan Rice chutou com muita força uma bola que passou a centímetros (talvez milímetros) de Zinchenko, viajou entre Serhiy Kryvtsov e Mykola Matvienko e, sabe-se lá como, Bushchan conseguiu rebater mesmo com tantos jogadores cobrindo a sua visão do lance.

Por falar em Kryvtsov, o zagueiro central acabou sendo substituído ainda no primeiro tempo, dando lugar a Viktor Tsygankov aos trinta e quatro minutos.

A Inglaterra encontrava mais facilidade pelo lado esquerdo: aos trinta e nove minutos, Sterling passou para Shaw que, em posição duvidosa, tocou atrás para Sancho, que chutou firme e Bushchan voltou a rebater. 

Apesar do deserto de circunstâncias no campo de ataque, até houve uma última finalização ucraniana antes do intervalo, quando, aos quarenta e dois, Mykola Shaparenko pegou sobra de bola de Shaw e mandou para fora, à esquerda.

No segundo tempo, ingleses marcam dois gols nos primeiros quatro minutos

Logo no primeiro minuto na etapa complementar, a Inglaterra tinha uma falta para cobrar pelo lado esquerdo de ataque, quando Serhiy Sydorchuk derrubou Kane. Shaw se encarregou da cobrança, levantou na área, Maguire saltou se apoiando em Matvienko (não houve manifestação do VAR) e cabeceou para a rede. Dois a zero no placar.

O que estava bom para os ingleses ficou ainda melhor apenas três minutos depois: Sancho recuperou a bola na defesa, Mount puxou o contra-ataque arrancando em velocidade, Sterling recebeu e passou com estilo para Shaw, que cruzou na medida para Kane - com um cabeceio protocolar para o chão, o camisa nove colocou entre as pernas de Bushchan, marcando o terceiro da Inglaterra no jogo e seu terceiro gol na competição.

Jordan Henderson sai do banco e marca pela primeira vez com a camisa da seleção

Com o jogo sob controle e o resultado confortável, aos onze minutos o técnico Southgate trocou Rice por Jordan Henderson, experiente meio-campista do Liverpool e veterano na seleção inglesa.  

Cinco minutos após pisar no gramado, Henderson lançou Sterling, a defesa afastou e Kane emendou de primeira, com Bushchan sevitando o quarto gol ao espalmar no canto esquerdo. Veio a cobrança de escanteio: Mount cruzou e ele, Henderson, surgiu no primeiro poste cabeceando firme, marcando seu primeiro gol após sessenta e dois jogos representando o English Team. Interessante observar que, no último amistoso da Inglaterra antes da Eurocopa, Henderson havia desperdiçado um pênalti diante da Romênia.

Jordan Henderson é bastante festejado após marcar seu primeiro gol com a camisa da seleção inglesa, fechando os quatro a zero sobre a Ucrânia no estádio olímpico de Roma. Foto: AFP.
 

Gareth Southgate faz três substituições e a Inglaterra passa a administrar o jogo e o relógio

Imediatamente após marcar quatro a zero no placar, foram realizadas quatro substituições na partida. Primeiro, Shecvhenko trocou Sydorchuk (machucado) por Yevhen Makarenko. Depois, Southgate, já pensando na fase semifinal, tirou de campo Sterling, Shaw e Kalvin Phillips para as entradas de Marcus Rashford, Trippier e Jude Bellingham.

O jogo não ficou frio - ele ficou gélido, congelante. As únicas esparsas emoções daí para o final foram uma saída atrapalhada de Pickford - o goleiro inglês abandonou a área para afastar uma bola lançada nas costas da defesa mas pegou tão mal na redonda que quase piorou as coisas; e um chute forte de fora da área dado por Makarenko, que Pickford rebateu, mantendo sua meta inviolável na Eurocopa 2020.

Para puxar os aplausos no estádio olímpico de Roma, Southgate ainda trocou Kane por Dominic Calvert-Lewin, aos vinte e oito minutos.

Era difícil saber quem estava mais ansioso pelo apito final: os ingleses, já com a mente voltada para o o próximo confronto, ou os ucranianos, para tentar virar a página dessa contundente derrota na sua partida derradeira. Agradando gregos e troianos, digo, ingleses e ucranianos, o árbitro alemão Felix Brych soprou o apito precisamente aos quarenta e cinco.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Grealish Entra Bem, Sterling Brilha Novamente E Kane Desencanta: Inglaterra Vence A Alemanha Em Wembley

O mítico estádio de Wembley recebeu na fase oitavas de final nessa Eurocopa 2020 aquele que pode ser considerado um dos maiores clássicos do futebol mundial. Seleções que, num passado não muito distante, atuavam como se estivessem jogando pinball - haja repetição pra ficar uma partida inteira lançando a bola pra longe à espera do cabeceio perfeito. Só que, felizmente, nesse vinte e nove de junho de dois mil e vinte e um, não era pinball - era, de fato e de direito, futebol o que se jogava no gramado londrino.

Alguns até poderão reclamar que faltaram situações de gol no jogo. É uma crítica justa, mas que não traz a devida profundidade para analisar o que foi a partida. Embora seja verdadeiro que não tenha havido muito mais do que três grandes oportunidades para cada lado, é absolutamente incontestável que ingleses e alemães, sob o comando de Gareth Southgate e Joachim Löw, travaram um dos mais interessantes confrontos táticos nessa edição do torneio. E esse dois treinadores merecem todos os créditos por isso. Enquanto Southgate ainda pode conduzir a Inglaterra ao título continental, Löw fez hoje sua despedida da Euro e também da seleção alemã - deixo aqui registrado que já estou com saudades.

Nesse blógui, elogiei por diversas vezes a Alemanha de Löw. Seguem, a título de ilustração, sete sugestões de leitura: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7. Afinal, o número sete traz ótimas recordações aos amantes do futebol arte, mais precisamente por causa de um evento que aconteceu sete anos atrás...

Só que hoje gostaria de falar um pouco mais dessa seleção inglesa.

Se a gente se debruçar sobre a consistência do jogo do English Team, teremos material suficiente para publicar um tutorial de o que fazer e como fazer para dar a uma partida de futebol a cara que se deseja dar a ela. E com um detalhe: tendo sempre a disposição e a organização necessárias para entrar de forma recorrente no campo de defesa do adversário. Porque uma coisa é você se abdicar do jogo e esperar o oponente te atacar. Outra, é fazer o que a Inglaterra faz de forma exemplar: enfrentar uma grande equipe de peito aberto, defesa postada e com bastante movimentação.

Talvez a primeira lição seja a da resistência. Resistir a uma equipe que chegava ao ataque com Kimmich e Gosens pelos flancos, com Havertz centralizado e tendo Werner como referência mais à frente. Claro que a atuação discreta de Müller compromete o jogo coletivo dos comandados de Löw, mas a Alemanha ainda era Alemanha. Aos trinta e um minutos, na primeira situação em que o sistema defensivo inglês não foi capaz de parar o ataque adversário, o goleiro Jordan Pickford agiu muito bem para bloquear Werner após ótimo passe de Havertz, numa jogada de ataque alemão made in England, afinal, eles são companheiros de Chelsea.

De resto, o que se viu foi Walker, Stones e Maguire formando uma trinca intransponível, com Trippier e Shaw reforçando a marcação pelos flancos. Uma formação que, no papel, é excessivamente defensiva. Notadamente pelo fato de que todos esses cinco tratam-se de jogadores fundamentalmente escalados para marcar e fechar espaços. De quebra, há ainda Phillips e Rice logo adiante. Efetivamente dedicados a construir, quebrar linhas, infiltrar e produzir ofensivamente, somente o trio Saka, Sterling e Kane. Mas o futebol não se analisa pelo que está escrito no papel. Ele precisa ser assistido. E, em se tratando de um Inglaterra e Alemanha como esse, apreciado.

No segundo tempo, um chute forte de Havertz logo aos dois minutos obrigou Pickford a fazer a mais bonita defesa de toda a partida. Poderia ser o indício de que a Alemanha chegaria mais forte para a etapa complementar. Poderia, mas não se confirmou. A bem da verdade, os alemães teriam ainda duas boas chances (uma para abrir o placar, com Werner; outra para empatar o jogo, com Müller) e ambas nasceriam de bolas perdidas por Sterling no campo de ataque.

Mas como criticar Sterling num jogo como esse? Entre um erro e outro, aos vinte e nove minutos, foi exatamente o atacante do Manchester City quem iniciou a jogada que abriu o placar em Londres. Aliás, que jogada! Com toques rápidos na bola, Sterling, Kane, Grealish (que entrara no lugar de Saka) e Shaw participaram de um lance que deixou a Alemanha totalmente envolvida pela troca de passes da Inglaterra. Na conclusão da ótima trama ofensiva, Sterling marcou o terceiro gol dele e da Inglaterra na Euro 2020.

Raheem Sterling comemora o gol: jogador vem se destacando com a camisa da Inglaterra nessa Eurocopa 2020. Foto: Andy Rain / POOL / EPA.

 

Fiel à sua forma de jogar, a seleção inglesa nem recuou nem se tornou mais incisiva. Ela simplesmente, movimento a movimento, observando o comportamento dos jogadores alemães, foi procurando brechas para conseguir chegar ao segundo gol. Aos quarenta minutos, a tal da brecha se tornou uma porta aberta quando Shaw recuperou a posse de bola na altura do meio do campo, avançou, abriu na esquerda com Grealish e o camisa sete, que entrou muito bem no jogo, cruzou à meia altura para Kane. O centroavante, acostumado a marcar gols com a camisa do Tottenham mas sem ter anotado nenhuma vez nessa Eurocopa, poderia bater de voleio - coisa que, por sinal, ele sabe fazer. Mas preferiu usar a cabeça: numa fração de segundo, movimentou o corpo se inclinando na angulação necessária e cabeceando para o chão, marcando dois a zero no jogo e saindo da seca de gols na competição.

Momento exato em que Harry Kane fica duas toneladas mais leve. Foto: Reuters.

 

A Alemanha era toda ataque. E quando digo toda, estou incluindo o goleiro Neuer, que atuava praticamente na linha que divide o gramado. A melhor chance da equipe - diria, inclusive, que a única digna de nota após o prejuízo de dois gols no placar - foi aos quarenta e cinco, numa puxada de Goretzka que Havertz não conseguiu alcançar.

Há que se respeitar o trabalho tático de Southgate na seleção inglesa. A forma como conseguiu conter a Alemanha é reveladora. É possivelmente o time melhor estruturado para inibir o potencial criativo do oponente sem deixar de fazer a transição ao ataque com qualidade. A Inglaterra marca forte e de forma compacta, diminui espaços, dá combate e apresenta bom volume de jogo com a posse de bola. Há formas de fazer essa equipe jogar melhor? Sem a menor dúvida, há. Gostaria de ver, por exemplo, Foden, Grealish, Saka, Kane e Sterling juntos entre os titulares. Isso sem falar em Sancho, jogador bastante querido pelo torcedor e que raramente é aproveitado. Mas, ainda assim, gosto da forma altamente organizada que a equipe atua. Não me enche os olhos como uma Alemanha de Löw, mas é possivelmente a Inglaterra taticamente mais consistente na proposição de jogo que já tive a oportunidade de acompanhar. É fortíssima candidata a levantar o caneco em Wembley. Espero que, se isso acontecer, que seja aproveitando seus jogadores mais talentosos.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo G

É chegada a hora de analisarmos o grupo G na Copa do Mundo 2018 (leia o que colocamos sobre os grupos A, B, C, D, E e F).

Nesta chave, os europeus são apontados como favoritos para a classificação. Mas como não existe vitória de véspera, é bom belgas e ingleses ficarem atentos, pois panamenhos e tunisianos tentarão surpreender.

Grupo G: Bélgica, Panamá, Tunísia e Inglaterra.

Bélgica

Após uma participação dentro do "programado" no Mundial 2014, quando foi eliminada para a Argentina na fase quartas-de-final, a Bélgica chega na Rússia com mais experiência e mais expectativas.

Bélgica: 3ª colocada no ranqueamento da FIFA.
É difícil cravar se o feito obtido no Brasil - o de figurar entre as oito melhores seleções do mundo - será superado ou mesmo alcançado na Copa 2018. Mas a responsabilidade existe. E, se existe, é porque o talento do time imprime confiança. Atuações como a diante dos Estados Unidos, nas oitavas em 2014, são inspiração para que vejamos belas performances dos comandados de Roberto Martínez, de preferência já a partir do jogo de estréia, diante do Panamá.

O último amistoso dos belgas antes desta Copa deu-se com a também centro-americana Costa Rica, com goleada por 4a1. A formação inicial contou com Witsel, De Bruyne, Mertens e Hazard no meio-campo, o que ajuda a dar a dimensão da qualidade técnica desse elenco - ainda entraram na partida jogadores como Chadli e Dembélé, tendo permanecido no banco atletas como Fellaini e Januzaj. É, definitivamente, um dos melhores setores de meio-campo do planeta. Como se não bastasse, Martínez conta com Courtois no gol, Alderweireld e Vertonghen na defesa, Lukaku e Batshuayi como opções no ataque (geralmente, o treinador escolhe um dos dois).

Torço para que as características desta geração sejam respeitadas. Desta forma, o maior beneficiado será o fã do futebol bem jogado, que poderá assistir, com o mesmo uniforme, alguns dos jogadores mais interessantes na atualidade. Talvez não cheguemos a sentir falta de Nainggolan, que, estranhamente, não foi convocado. Mas eu temo por já sentir falta de Wilmots, o técnico que conduziu o time para e no Brasil...


Panamá

Eis uma seleção que pode ser apontada como "zebra". Não que haja semelhança estética entre o
Panamá: 55ª colocada no ranqueamento da FIFA.
mamífero alvinegro e o uniforme tricolor panamenho. Mas é que está absolutamente fora das expectativas uma classificação dos comandados do colombiano Hernán Darío Gómez Jaramillo nessa Copa do Mundo. Só que tem os seguintes... Lembram da Copa do Mundo 2014? Lembram de uma outra seleção da América Central, chamada Costa Rica? Naquele grupo com as ex-campeãs mundiais Itália, Inglaterra e Uruguai, não lembro de ninguém ousar "classificar" a "zebra". Pois passou, líder e invicta. E treinada também por um colombiano, Jorge Pinto. Isso é o futebol.

É fato que os resultados recentes do Panamá não inspiram confiança. Há uma única vitória (sobre Trinidad e Tobago) nos últimos sete jogos oficiais. E também há que se lembrar que, nas Eliminatórias da CONCACAF, um gol que não aconteceu (acredite, um chute para fora foi validado como gol), ajudou a colocar a seleção panamenha no Mundial. O que vai acontecer na Rússia, não sabemos. Mas uma coisa é certa: se o Panamá passar de fase, será o caso de estudar o que os colombianos são capazes de fazer numa equipe centro-americana em chaves complicadas...

Tunísia

Tunísia: 21ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Desde a invencibilidade nas Eliminatórias numa chave com Congo, Líbia e Guiné até o recenteamistoso em solo russo diante da Espanha, a Tunísia chega ao Mundial com qualidades na defesa que não podem ser desprezadas. Particularmente, o que antes eu via como números (quatro gols cedidos em seis jogos naquela chave africana), hoje valorizo ainda mais após assistir - mesmo que por apenas alguns minutos - o desempenho da equipe diante dos espanhóis. A noção de compactar as linhas e atacar a zona de influência da bola parece estar absolutamente bem treinada por Nabil Maâloul. Não houve facilidade para a (poderosa) equipe adversária, que venceu por 1a0, com gol nos últimos minutos, em lance que foi muito mais exceção do que regra na tônica do jogo. Com um detalhe: ainda no primeiro tempo, houve chance clara dos tunisianos abrirem a contagem em trama bem desenvolvida.

Infelizmente, a Tunísia não contará com Taha Yassine Khenissi e Youssef Msakni, apontados como os dois principais nomes no ataque do país - Msakni foi autor de três gols e duas assistências na campanha nas Eliminatórias Africanas. Talvez a melhor receita para lidar com as ausências seja o fortalecimento do jogo coletivo. O que, defensivamente, já parece bem encaminhado. A missão de criar e converter oportunidades, mais complexa que a de marcar o adversário, deve ser o desafio tunisiano para buscar êxito no Mundial. A julgar pelo mais recente amistoso com os espanhóis, o equilíbrio tático para enfrentar um adversário mais forte já parece ter sido alcançado.

Inglaterra

Inglaterra: 12ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Após a decepção de ser eliminada na fase de grupos na Copa do Mundo 2014, a Inglaterra fez mais do que juntar os cacos: se comprometeu, publicamente, a rever conceitos e iniciar uma reformulação generalizada. Nas divisões de base, êxito notório com uma geração que está unindo bom futebol com bons resultados. Isso dá uma perspectiva positiva para mundiais futuros (2030, 2026 e, possivelmente, já em 2022). Mas o que esperar para Rússia-2018? A Inglaterra chega relativamente quieta ao maior país do planeta e a idéia de não fazer muito barulho talvez seja uma estratégia de surpreender em silêncio, longe das buzinas do (pseudo)favoritismo e no sossego dos treinamentos jogo a jogo, fase a fase.

Harry Kane vive grande momento e tem tudo para ser um dos goleadores na fase de grupos. As opções Welbeck, Sterling, Rashford e Vardy são interessantes para um ataque que será servido por um setor de meio-campo longe da criatividade dos tempos de Gerrard, Lampard e Beckham, o que torna ainda mais estranha a não-convocação de Wayne Rooney. As apostas de Gareth Southgate talvez estejam concentradas no ótimo entrosamento entre Bamidele Alli e Kane, parceiros de Tottenham há quatro temporadas.

Na defesa, Gary Cahill será a voz mais experiente - longe de exercer uma liderança como a do aposentado Terry, por exemplo. Kyle Walker, que passou a ser treinado por Guardiola no Manchester City numa transferência acima de 50 milhões de euros, é um nome dos mais badalados no setor. E, entre tantas incógnitas, nenhuma supera a da posição de goleiro: alguém confia em Butland, Pickford e Pope? A boa notícia para os ingleses é que Guardiola está num time inglês. Quando esteve no Barça, deu Espanha em 2010. Quando esteve no Bayern, deu Alemanha em 2014. A conferir o tamanho da magia.

sábado, 28 de outubro de 2017

Com Atuação Espetacular, Inglaterra Faz 5 Na Espanha E É Campeã Mundial Sub-17

Senhoras e senhores, meninas e meninos de todas as gerações, neste vinte e oito de outubro de dois mil e dezessete tive o prazer de assistir uma das melhores atuações de uma seleção de futebol.

Gibbs-White e Sessegnon comemoram o empate. Foto: Jan Kruger / FIFA.
A Inglaterra Sub-17, treinada pelo galês Steve Cooper, deu um verdadeiro espetáculo no estádio Salt Lake, em Kalkata, Índia. Se séculos atrás os ingleses iam até a Índia para buscar metais preciosos, dessa vez o seu precioso futebol lhe rendeu o troféu de campeão mundial da categoria.

Sair perdendo para a qualificada seleção espanhola por 2a0 não é simples. Foram dois gols de Sergio Gómez em duas assistências de César. O segundo gol, aliás, uma pintura para Picasso nenhum botar defeito. Mas os ingleses mantiveram a cabeça erguida e impuseram seu jogo. Um jogo de posse de bola. Posse de bola essa tão boa, mas tão boa, que colocou a Espanha na roda. A Espanha, que ficou reconhecida mundialmente por ter a bola nos pés, hoje viu seu adversário envolvê-la.

Sessegnon e Foden formaram uma dupla sensacional pelo flanco direito. Muitas jogadas de qualidade aconteceram envolvendo pelo menos um desses dois jogadores. O primeiro gol inglês, aliás, foi num cabeceio certeiro de Brewster após cruzamento milimétrico de Sessegnon. No segundo tempo, Gibbs-White completou pra rede após passe de quem? Dele, Sessegnon. Mais tarde, Hudson-Odoi fez a assistência e Foden virou a partida. Nos últimos minutos, a Inglaterra tratou de transformar a virada em goleada, com gol de Guehi e mais um de Foden, que teve uma atuação digna do seu nome (perdoem o trocadilho).

Não faço idéia de até onde irá essa geração inglesa. O que posso afirmar com segurança é que esses garotos formaram uma equipe maravilhosa e plenamente merecedora do título mundial.

Em 2014, logo após a partida com a Costa Rica, em que a Inglaterra se despedia da Copa do Mundo no Brasil com um único ponto ganho na fase de grupos, foi dada uma declaração à imprensa dizendo que começaria ali um novo projeto desde a base. Parece que os frutos desse plantio são doces. Sem pressa, vamos ver o que está por vir. Uma Inglaterra campeã mundial nas próximas Copas? Possível. Mas uma coisa é certa: o futebol agradece por cada equipe que jogue com a graça e a elegância que jogou esse selecionado inglês Sub-17. Deu gosto. Parabéns aos envolvidos.

sábado, 10 de junho de 2017

Deus Salve A Rainha!

Como diria o lendário narrador Sílvio Luiz:

- Pelas barbas do profeta!

Foi de uma exclamação metafórica o final de partida entre os britânicos da Escócia e da Inglaterra, em Glasgow. Aquilo que rumava para um 0a0 se transformou em um jogo de quatro gols, todos na segunda metade do segundo tempo, sendo três deles para depois dos quarenta.

Primeiramente, #ForaTemer! (Não resisti hahaha...)

Aos vinte e quatro minutos no segundo tempo, quando os ingleses esbanjavam organização defensiva mas não traziam grandes inspirações no setor de ataque, uma bola recuada "na fogueira" pela defesa escocesa rendeu um arremesso lateral para a Inglaterra no campo de ataque. Seria um lance facilmente marcável, mas Oxlade-Chamberlain, que entrara a cerca de cinco minutos, fez brilhante jogada individual e chutou firme, contando com a contribuição do goleiro Gordon para inaugurar o marcador na Terra da Rainha. Sim, senhoras e senhores, em tempos de BrExit, é bom lembrar que a Escócia também é a Terra da Rainha. E, por aquelas terras, diz-se que a maioria da população é contrária à saída britânica da zona do Euro. Mas voltemos ao futebol.

Com Martin no lugar de Anya, o treinador Gordon Strachan mostrava-se à disposição de abrir o time para tentar pelo menos o empate nos minutos finais. O que ele talvez não esperava era que sua equipe viraria o jogo! Aos quarenta e um, Griffiths cobrou falta com precisão, no lado esquerdo de Joe Hart. Uma explosão de alegria da fanática torcida local. Três minutos depois, nova falta para a Escócia por aquela região. Nenhuma dúvida: era Griffiths novamente na cobrança. Dessa vez, ele escolheu uma cobrança no lado direito do goleiro. E, mais uma vez, festa no gramado e nas arquibancadas.

O êxtase era completo e já dava para imaginar quais seriam os títulos das publicações naquele país. Ainda mais em tempos inflamados na geopolítica mundial como um todo e britânica em particular. Só que no futebol, o improvável, provavelmente, acontece. Nos acréscimos, uma bola lançada caprichosamente por Sterling (outro jogador lançado por Gareth Southgate no segundo tempo), acabou encontrando o goleador Harry Kane, que estufou a rede oponente e foi para os braços de seus compatriotas. Se bem que, ali, eram todos eles compatriotas. Com ou sem saída da zona do Euro.
Finais de jogo como o de Escócia 2a2 Inglaterra fazem o futebol sorrir. Imagem extraída de Blog do Dirceu Rabelo.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

(He)Roy Hodgson: Inglaterra Vence Clássico Britânico Com Virada Nos Acréscimos

Num dos jogos mais aguardados nessa segunda rodada, os britânicos da Inglaterra e do País de Gales proporcionaram a primeira virada nessa edição da Eurocopa. E foi daquelas viradas especiais: com ida ao intervalo em desvantagem, mexidas fundamentais do técnico, gol da vitória nos acréscimos. Ingredientes que mostraram a força e o poder de reação do English Team de Roy Hodgson.

Curiosamente, a Inglaterra havia sofrido um gol nos acréscimos na partida inaugural, cedendo empate à Rússia. E esse não foi o único repeteco da primeira rodada: novamente, Gareth Bale marcou gol de falta para tirar o zero da contagem. Inclusive, há que se dizer que ambas as cobranças têm similaridades entre si e com a maneira que o português Cristiano Ronaldo cobra faltas. Lembrando que esses jogadores são companheiros de Real Madrid.

No segundo tempo, Vardy aproveitou descuido da defesa para empatar e incendiar o jogo. Precisou de dez minutos em campo para fazer o que Kane não conseguiu em duas partidas: um gol. Nos acréscimos, foi a vez de Sturridge ir às redes, mostrando astúcia e oportunismo em lance pela esquerda. Gol que castigou os galeses, que sentiam ainda o gostinho da liderança. Mas que premiou a equipe que mais buscou o gol e, merecidamente, assumiu a liderança na chave. Aplausos para Hodgson.
Daniel Sturridge, que entrou no intervalo, celebra e é celebrado pelo gol que selou a primeira virada na Euro-2016. Imagem extraída de ElDiario.

sábado, 11 de junho de 2016

É Eurocopa, É Futebol: Inglaterra E Rússia Empatam Na França

O futebol deve ser o único esporte já inventado nesse planeta que proporciona situações como as que ocorreram hoje em Marselha. Dá um livro. Como isso é um blógui, dá uma postagem.
Kokorin e Dier (autor do gol inglês) disputam a bola. Foto: EFE.

Capítulo 1. Sobre a paixão.

O estádio estava tomado de ingleses, russos e simpatizantes de outras não sei quantas nações. 62343 pessoas na contagem oficial. Enumerar aqueles que assistiam ao redor do mundo deve ser praticamente impossível. Infelizmente, há em alguns casos um misto de paixão com loucura que confronta os limites da liberdade individual a partir do momento que migra para a violência. Muitas das vezes, uma violência movida a álcool. Lamentável. Faz parte de um mundo onde a vida ainda é tratada como descartável. Duvida? Pense no que você comeu hoje.

Capítulo 2. Sobre aspectos técnicos.

A Inglaterra rejuvenesceu. Roy Hodgson, há quatro anos na função de treinador do English Team, montou uma seleção veloz e com ímpeto ofensivo flagrante. A base é o Tottenham. Mas são figuras como Wayne Rooney que fazem a engrenagem rodar com mais desenvoltura. Já a Rússia, futura sede da Copa do Mundo, tem muitos desafios pela frente até o ano de 2018. Porém, se um bom time começa por um bom goleiro, é fato que os russos já estão um passo a frente - Igor Akinfeev provou novamente as qualidades que o colocam como titular absoluto da seleção nacional desde, desde... sei lá desde quando. Entre os jogadores de linha, muito mais força física e disposição do que habilidade e categoria.

Capítulo 3. Sobre tática e estratégia.

Preparada para impôr velocidade diante de um adversário mais lento, a Inglaterra criou chances o suficiente para chegar ao intervalo com cômoda vantagem. Resultado? Zero a zero. Talvez seja essa uma das razões do capítulo um ser sobre a paixão. O desafio à lógica. Aos fatos. Zero a zero era inconcebível pelo volume de jogo inglês. Mas quase-gol vale, matematicamente, o mesmo que a completa inoperância. Então, o empate era justo.

Capítulo 4. Sobretudo, futebol.

No segundo tempo, já sem conseguir a mesma desenvoltura que nos quarenta e cinco minutos iniciais, eis que surge o gol. A Inglaterra, em cobrança de falta de Dier (que, embora mais bonita, até lembrou a de Bale no jogo entre Gales e Eslováquia), abriu a contagem. A Inglaterra não sabia o que era estrear com vitória em Eurocopa. Eram quatro empates e quatro derrotas em oito eventos. Chegava a hora. Só que não. Nos acréscimos, do jeito mais tradicionalmente inglês possível, a Rússia mandou a bola para a área. Levantamento de Schennikov. Cabeceio de Berezutski. Festa nas arquibancadas em Marselha. E, aposto, em muitos lares e bares em Moscou. O empate de 1a1 deixa o tabu inglês ainda vivo. E os russos, mais vivos ainda.

É ou não é um esporte especial? Ponto final.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Um Autêntico Encontro De Campeões, Com As Bênçãos De Suárez

O Itaquerão sediou nesse feriado de Corpus Christi um jogo daqueles com cara, corpo e alma de Copa do Mundo. Duas seleções que estrearam com derrota no Mundial (o Uruguai sendo surpreendido pela irrepreensível Costa Rica e a Inglaterra caindo em pé no clássico com a Itália) protagonizaram uma partida daquelas pra serem separadas para serem assistidas novamente.

As alterações de Tabárez em relação à estréia deixaram os uruguaios mais incisivos no campo de ataque. Alterações essas que certamente ocorreram no campo tático, técnico e psicológico. Ótimo para o Uruguai, ótimo para a qualidade do jogo diante do ingleses.

A escalação e proposta de jogo de Hodgson possibilitaram à Inglaterra uma atuação tão boa ou melhor que aquela vista diante dos italianos. Modelo de jogo onde a alternância de posições entre Welbeck, Sterling e Sturridge, sob a batuta de Gerrard e o auxílio de Rooney, proporcionou uma intensidade ofensiva muito acima do que nos habituamos a ver dos ingleses. Ótimo para a Inglaterra, ótimo para a qualidade do jogo diante dos uruguaios.

E se futebol muitas das vezes é decidido em detalhes, o detalhe desse jogo tem nome e sobrenome: Luis Suárez. Operado do menisco cerca de um mês atrás e com sua presença na Copa sendo colocada em xeque, Luisito não atuou na estréia mas foi miraculosamente escalado como titular na segunda rodada. Em pleno dia de Corpus Christi, Suárez foi o redentor da seleção uruguaia. Quase marcou um gol olímpico no primeiro tempo e quase marcou um gol olímpico no segundo tempo - em ambos os lances, o goleiro Joe Hart precisou intervir para salvar a meta inglesa. Só que alguém da qualidade e determinação - talvez até predestinação - de Luisito não costuma ficar no quase. Foi ele quem abriu o placar em Itaquera, cabeceando com precisão após excepcional passe de Cavani.

Melhor no jogo, a Inglaterra correu atrás e fez por merecer a conquista do gol de empate, através de Wayne Rooney, que anotou seu primeiro gol em Mundiais. Só que a tarde era do Uruguai. Era de Suárez. Após lançamento do goleiro Fernando Muslera, um cabeceio do companheiro de clube de Luisito (mas não de seleção) Steven Gerrard permitiu que o camisa nove da Celeste avançasse em liberdade. Era tudo e somente o que ele precisava para marcar o segundo e desabar em emoção no gramado. Emoção que contagia quem com ele joga, quem a ele assiste. A Copa já tem um personagem. Valeu, Suárez! Aliás, valeu mais uma vez, pois não esqueceremos do que fizeste na Copa passada, naquela épica quartas-de-final diante de Gana.

P.S.: Necessário também falar de Álvaro Pereira: após ser atingido por uma joelhada na cabeça, cair desacordado no gramado e ver o médico da seleção solicitar sua substituição, o lateral-esquerdo simplesmente se recusou a sair de campo. Atitude que contagia quem com ele joga, quem a ele assiste. Talvez seja coisa de maluco. Mas qual a loucura que não conserva um pingo de razão? Com tamanha alma colocada na ponta das chuteiras, é como se tudo estivesse escrito para que desse certo. Que venha a Itália.

sábado, 14 de junho de 2014

Quando O Futebol Faz O Clima: Um Ótimo Itália E Inglaterra

Itália e Inglaterra sobreviveram a Manaus. O clima, como esperado, era severo - jogar a trinta graus Celsius quando se acostuma a jogar na metade dessa temperatura é praticamente um pesadelo, sobretudo levando-se em consideração a questão da umidade. Para piorar, o estado do gramado deixava em dúvida os rigores dos propagandeados "padrão FIFA". Quer dizer: parece que a entidade é mais exigente com as questões econômicas e financeiras do que com o espetáculo em si.

Mesmo com tudo isso, o confronto entre essas duas campeãs mundiais foi de ótimo nível. Muito, mas muito superior ao encontro entre elas em 2012, na fase quartas-de-final na Eurocopa. Conclusão: há mais fatores determinantes para a qualidade de um jogo do que todos aqueles citados no primeiro parágrafo. Talvez seja essa a magia da Copa do Mundo. Quem foi até a Arena da Amazônia testemunhou uma partida pra lá de interessante. Dinâmica, com domínios alternados, variação de jogadas e composições. Quando jogadores de talento reconhecido brilharam, as coisas ficaram ainda melhores. Por exemplo, o primeiro gol do jogo: Marchisio chutou bonito para superar Hart em jogada onde Pirlo mostrou genialidade ao tirar o corpo da bola para deixar o companheiro em condições de finalizar. A Inglaterra respondeu rapidamente para empatar, em cruzamento preciso do até então sumido Rooney para o participativo Sturridge. 1a1.

O desgaste físico era notório já no primeiro tempo. Gerrard, por exemplo, ofegava antes de cobrar escanteio. Um membro da comissão técnica inglesa deixou o entorno do gramado carregado na maca. Atletas mediam a corrida. Mas, no segundo tempo, ambos os elencos se superaram. A Itália chegou ao segundo gol com Balotelli, perfeito no tempo de bola para concluir de cabeça e recolocar a Azzurra em vantagem. Só que quem pensou que aquilo abateria os ingleses, enganou-se: foram criadas diversas ocasiões que quase recolocaram a igualdade no placar. E se a Itália lamentava a ausência de Buffon, lesionado em treinamento na véspera do jogo, pôde comemorar a atuação inspirada do também ótimo goleiro Sirigu. Suas defesas garantiram o triunfo no Amazonas. E, na próxima rodada, teremos duas situações pouco pensadas no passado recente: Inglaterra e Uruguai se enfrentam em nome da sobrevivência no torneio enquanto Itália e Costa Rica têm confronto direto para a liderança na chave, podendo inclusive render uma classificação antecipada.

Observação: destoando do padrão da competição, tivemos uma arbitragem correta. Parabéns, Kuipers. Mais uma goleada da Holanda.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Itália Domina Inglaterra Mas Só Consegue Classificação Nas Penalidades

O estádio olímpico de Kiev, palco da final na Eurocopa 2012 no próximo domingo, sediou uma partida de quartas-de-final que, a julgar pela qualidade do jogo, poderia tranqüilamente ter sido a grande decisão da competição. Não que o estilo de jogo de Itália e Inglaterra me encante, mas a sucessão de acontecimentos foi deliciosa e fica realmente a sensação de que, com uma semana de antecipação, tivemos um encontro com cara de final de Euro.

Curiosamente, uma partida recheada de emoções, finalizações, jogadas de efeito, correria e entrega marcou o primeiro zero a zero na atual edição do torneio. Se todo zero a zero fosse assim, sinceramente, o gol não faria falta ao futebol.

O jogo

Os quatro primeiros minutos de jogo foram mais expressivos do que partidas inteiras pelo mundo a fora. Pode parecer exagero, mas era como se fosse possível sentir a vibração dos jogadores no desenvolvimento de jogadas muito bem elaboradas e executadas. Com dois minutos, Daniele de Rossi descolou remate maravilhoso, pegando de primeira com a parte externa do pé e encaminhando a bola à trave direita de Joe Hart, que saltou bem mas sem condições de tocá-la. Se entra, cravaria como o mais belo gol da Euro. A Inglaterra respondeu à altura, de um jeito nada parecido com o que os ingleses vinham jogando - o que é ótimo para o espetáculo -, e, após rápida troca de passes pelo chão, Glen Johnson recebeu de frente para o gol, na pequena área, e chutou tirando do goleiro. Mas o goleiro era Ginaluigi Buffon, que conseguiu, sabe Deus como, esticar o braço esquerdo e colocar a mão no percurso da bola, bloqueando o remate e, na seqüência, defendendo em definitivo.

O duelo era bastante movimentado, fazendo valer ao fanático por futebol passar a madrugada em claro a fim de acompanhar o VT desse jogaço (a televisão aberta brasileira cometeu a infração de não transmitir essa partida ao vivo, dando preferência à sexta rodada de um Campeonato Brasileiro longe de engrenar). Os ingleses marcavam presença no campo de ataque e a atuação de Johnson era determinante para envolver a defesa italiana - o lateral-direito apoiava com grande qualidade e encontrava espaços para trabalhar a bola, além de ajudar a defesa quando fosse necessário. Aos catorze, um cruzamento (melhor dizendo, passe pelo alto) dado por Johnson permitiu que Wayne Rooney cabeceasse em ótimas condições, mas a finalização passou por cima.

Diferentemente do que foi visto na fase de grupos, a Itália jogava com De Rossi a frente da linha de defesa, auxiliando a criação de jogadas com Andrea Pirlo, Claudio Marchisio e Riccardo Montolivo, formando um meio-campo voluntarioso e coeso. Desses quatro, Montolivo conseguia se destacar, descolando pelo menos dois passes magistrais no intuito de servir seus companheiros. Aos dezessete, ele pegou de primeira para acionar Antonio Cassano nas costas da defesa inglesa, mas Hart estava atento e conseguiu fazer a interceptação.

As duas linhas de quatro escaladas por Roy Hodgson funcionavam bem, dando uma consistência defensiva que complicava as investidas italianas. Porém, a Azzurra encontrou uma brecha aos vinte e cinco: Mario Balotelli recebeu em posição legal, arrancou em liberdade e, no momento da definição do lance, foi surpreendido pela intervenção providencial de John Terry, que evitou a tentativa do toque de cobertura colocando o corpo na frente da bola. Aos trinta e um, um novo belo passe de Montolivo serviu Balotelli, que pegou de voleio e parou em defesa de Hart.

A Itália ainda levaria perigo por mais duas vezes no primeiro tempo, em ambas com participação de Cassano. Aos trinta e sete, ele chutou de fora da área e Hart defendeu em dois tempos. Aos quarenta, Pirlo lançou, Cassano ajeitou de cabeça e Balotelli completou para fora.

O segundo tempo teve início com uma linda jogada de James Milner pela direita, que terminou em cruzamento afastado por Ignazio Abate. Mas os comandados de Cesare Prandelli logo assumiriam o controle do jogo para, dali em diante, ditar o ritmo dos acontecimentos. Aos dois, De Rossi recebeu de Marchisio e finalizou para fora, desperdiçando ótima oportunidade, livre na pequena área. Aos seis, Hart rebateu remate de Balotelli e Montolivo completou, mandando por cima. Aos catorze, Balotelli voltou a aparecer ao tentar de bicicleta, mas a bola subiu mais do que o atacante gostaria.

Assistindo o English Team ser pressionado, Hodgson tratou de agir e realizou duas substituições simultâneas: aos quinze minutos, saíram James Milner e Danny Welbeck, entraram Theo Walcott e Andy Carroll. E a alteração por muito pouco não deu resultado prático quatro minutos depois de sua ocorrência: Walcott avançou pela direita, cruzou e Carroll quase conseguiu cabecear antes que a bola ultrapassasse a linha final.

Apesar daquele lance de ataque, a Inglaterra foi novamente se vendo dominada territorialmente e atuando basicamente no campo de defesa e sem a posse de bola. A velocidade de Walcott e a presença de área de Carroll quase não tinham mais qualquer serventia a uma equipe arrumada de modo a reduzir os espaços a um adversário que a todo momento esboçava infiltrar em sua defesa. Mas a Itália esbarrava nas geométricas linhas quádruplas inglesas, sem conseguir transpô-las. Faltava inspiração a Pirlo e disposição a Cassano, um herói por conseguir jogar tão intensamente meses após sofrer uma cirurgia no coração. Prandelli, então, mexeu na equipe. Aos trinta e dois, trocou Cassano por Alessandro Diamanti. Dois minutos depois, colocou Antonio Nocerino no lugar de De Rossi, em substiuição inteligente na medida em que aumentava a aproximação do meio para o ataque. Por questões clínicas, Prandelli teve que gastar a terceira substituição nos acréscimos: machucado, Abate, que participou bastante do jogo no segundo tempo, deu lugar para Maggio. Aos quarenta e três, Nocerino recebeu no ataque mas teve o chute travado por Johnson. A Inglaterra, que tanto se defendia, quase marcou no finalzinho: Ashley Cole cruzou, Carroll ajeitou de cabeça e Rooney deu de bicicleta, para fora.

Veio a prorrogação e a Itália conseguiu dar seqüência ao grande volume de jogo visto no tempo regulamentar. Hodgson tinha uma dificuldade a mais, pois Steven Gerrard mal conseguia andar de tantas dores - num determinado momento, chegou a cair no gramado dando sinais de cãimbras. Só que o capitão inglês permaneceu em campo, o que só faz aumentar a admiração por esse atleta, que honra a braçadeira que envolvia seu braço - a última substituição de Hodgson envolveu a saída de Scott Parker para a entrada de Jordan Henderson. Aos dez minutos, teve a vez a maior chance de gol do primeiro tempo da prorrogação: Diamanti colocou na área a partir do lado direito, ninguém desviou e a bola encontrou a trave direita.

Veio o segundo tempo e, de uma vez por todas, o desenho do jogo era nítido como os uniformes monocromáticos das seleções em campo: os de azul atacavam, os de branco defendiam. Aos nove, saiu o gol: Diamanti cruzou da direita e Nocerino cabeceou para a rede. Mas o auxiliar que acompanhava o lance foi preciso ao acusar impedimento no lance, mantendo o placar zerado.

Nos pênaltis, os deuses do futebol confirmaram duas coisas numa tacada só: [1] a "sina" inglesa de não se dar bem nesse tipo de disputa (esse foi a sexta eliminação nessas condições nos últimos vinte e dois anos) e [2] a superioridade italiana ao longo dos mais de 120 minutos (foram cerca de trinta e cinco finalizações para uma equipe e nove para outra, além da grande diferença na posse de bola: 63% a 37%).

As cobranças se sucederam com Balotelli, Gerrard (sim, ele ainda abriu as cobranças inglesas!), Montolivo e Rooney mandando no canto direito - Montolivo acabou mandando pouco além do limite da baliza, desperdiçando. A terceira série foi aberta com a Itália em desvantagem no placar (1a2), mas nem por isso o experiente Pirlo se intimidou, esbanjando frieza e categoria ao dar uma cavadinha no centro da meta. Ashley Young, por sua vez, tinha o semblante tenso ao partir para a bola e acabou enviando a redonda ao travessão. Depois, Nocerino marcou para a Itália e Gianluigi Buffon segurou a cobrança do outro Ashley - Cole, que escolheu o lado esquerdo. Coube a Diamanti a cobrança derradeira, promovendo uma festa no gramado digna de campeões. Aliás, o último título italiano foi na Copa 2006, em disputa de penalidades. Penalidades, palavra que deve causar más recordações aos ingleses, eliminados da Euro 2012 de maneira invicta.

Outros resultados

Quinta-feira, 21.06.2012
República Tcheca 0a1 Portugal

Sexta-feira, 22.06.2012
Alemanha 4a2 Grécia

Sábado, 23.06.2012
Espanha 2a0 França

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Eurocopa 2012: Pitacos Para As Quartas-de-final

Após os vinte e quatro jogos disputados na fase de grupos, os amantes do futebol foram agraciados pelo fato de ter saído gol em todas as partidas. Destaco três gols. Na primeira rodada, no jogo em que a Rússia goleou a República Tcheca, Roman Pavlyuchenko fez linda jogada individual e concluiu com remate que foi parar no ângulo direito de Petr Cech. Na terceira, o gol espanhol na triangulação entre Francesc Fàbregas, Andrés Iniesta e Jesús Navas foi daquelas jogadas que mostram o quão é vistoso o estilo de jogo dessa seleção, que teve muitas dificuldades para vencer a Croácia por 1a0 (esse gol saiu aos 42 minutos no 2º tempo). E, também na terceira rodada, saiu um golaço do sueco Zlatan Ibrahimovic, abrindo caminho para a vitória por 2a0 sobre a França com um lindo voleio no canto direito.

É chegada a hora da fase quartas-de-final. Vamos aos pitacos.

República Tcheca e Portugal
Tchecos e portugueses correram atrás da classificação após estrearem com derrota na Euro 2012 (para russos e alemães, respectivamente). Nas rodadas seguintes, conseguiram duas vitórias para chegarem até aqui. O fato de a República Tcheca não enfrentar as temidas Alemanha (líder no grupo B) e Holanda (lanterna na mesma chave) deve aumentar as esperanças de retornar a uma semifinal de Eurocopa, coisa que aconteceu pela última vez em 2004. Já Portugal, que naquela edição de 2004 chegou até a final, ganha credencial na competição pelo fato de ter sobrevivido ao "grupo da morte". Particularmente, acho que será interessante o duelo pelo flanco direito tcheco e esquero português, que envolverá jogadores como Gebre Selassie, Tomas Rosický, Fabio Coentrão e Cristiano Ronaldo. Quer dizer, Rosický está com uma lesão no tendão de Aquiles e dificilmente atue. Mas fica a torcida de vê-lo em campo. Pitaco: dá República Tcheca.

Alemanha e Grécia
Esse é o duelo da fase quartas-de-final onde há maior grau de favoritismo para um dos lados. A Alemanha, com 100% de aproveitamento no grupo mais difícil da Euro (venceu Portugal, Holanda e Dinamarca), enfrenta a Grécia (empatou com a Polônia, perdeu para a República Tcheca e venceu a Rússia). A tudo isso soma-se o fato de que os gregos não contarão com um jogador importantíssimo, o camisa dez e capitão Giorgios Karagounis, suspenso pelo segundo cartão amarelo (pra variar, amarelo esse recebido em lance polêmico). Os alemães, finalistas na edição passada, querem avançar em direção ao título europeu e coroar um trabalho muito bem realizado por Joachim Löw. Os gregos, campeões históricos duas edições atrás, sonham repetir aquele feito incrível e provar que, quando os deuses desejam, o raio pode cair duas vezes no mesmo lugar. Pitaco: dá Alemanha.

Espanha e França
Atual campeã do continente e do planeta, a Espanha tem diante da França um desafio: vencer pela primeira vez esse adversário em jogos de Eurocopa/Mundial (nos seis encontros anteriores, cinco vitórias francesas e um empate). Vicente del Bosque chegou a declarar que, na derrota por 3a1 nas oitavas-de-final na Copa 2006, os espanhóis teriam subestimado os franceses. A seleção da França está em reconstrução, com muitos jogadores interessantes e desenvolvendo bom toque de bola, principalmente quando a redonda passa por Samir Nasri, Franck Ribèry e Karim Benzema. Mas no assunto toque de bola a Espanha é referência mundial. Promessa de um grande jogo. Pitaco: dá Espanha.

Inglaterra e Itália
Eis um grande clássico do futebol europeu e mundial. São duas seleções onde a tradição não se faz presente apenas na história: o velho estilo de jogo britânico de ligação direta, cruzamentos e cabeceios vem sendo praticado à exaustão nessa Eurocopa, enquanto a Itália segue apostando na solidez defensiva para procurar o resultado positivo. Duas equipes que não me agradam pelo estilo de jogo adotado, mas que, quando bem encaixadas, são difíceis de ser batidas por quem quer que seja. Embora ingleses e italianos tenham elementos que podem decidir a partida num lance individual - notadamente pela precisão de jogadores como Steven Gerrard e Andrea Pirlo -, tudo leva a crer que passará a equipe que estiver mais firme coletivamente. Pitaco: dá Itália.

Na torcida para que tenhamos muito o que falar sobre gols e jogadas de efeito e, se possível, nada a comentar a respeito de arbitragem.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Inglaterra Vence, Passa Em 1º E Ucrânia É Nova Vítima Da Arbitragem

Ucrânia e Inglaterra duelaram na noite dessa terça-feira, em Donetsk, e quem levou a melhor foram os ingleses: com um gol de Wayne Rooney no início do segundo tempo, a equipe comandada por Roy Hodgson venceu a partida pelo placar de 1a0. De quebra, contou com a vitória sueca sobre a França (2a0) para assegurar a primeira colocação no grupo D, escapando de enfrentar a Espanha na fase quartas-de-final - a próxima oponente do English Team será a Itália, segunda colocada no grupo C.

Desta forma, a Eurocopa 2012 segue para as fases eliminatórias sem contar com nenhuma seleção anfitriã, pois Polônia (lanterna no grupo A) e Ucrânia (terceira colocada no D) não conseguiram passar de fase.

Antes de adentrarmos na análise mais detalhada dos acontecimentos vistos nessa partida entre Ucrânia e Inglaterra, cabe colocar duas lamentações. A primeira é o estilo de jogo inglês, de um pragmatismo exaustivo e de poucas variações de jogadas. A segunda é a situação da arbitragem mundial. Em meio a tantas câmeras com imagens que proporcionam linda cobertura daquilo que ocorre no gramado, ainda estamos reféns dos erros humanos: nenhum dos membros da equipe de arbitragem viu - ou indicou ter visto - que a bola chutada por Marko Devic, aos dezesseis minutos do segundo tempo, ultrapassou a linha final, caracterizando o gol de empate ucraniano. Isso faz lembrar a Copa do Mundo 2010, quando um chute do inglês Frank Lampard (que, lesionado, deve ter acompanhado o jogo de seus compatriotas pela televisão), ultrapassou a linha final e o que seria o gol de empate diante dos alemães nas oitavas acabou não sendo assinalado. Até quando, Federação Internacional de Futebol Associado?

O jogo

Wayne Rooney, que cumpriu suspensão nas duas primeiras rodadas, fazia sua estréia pela Inglaterra nessa Eurocopa 2012. Andriy Shevchenko, Andriy Voronin e Sergey Nazarenko, titulares nas rodadas anteriores, foram para o banco de reservas na Ucrânia (ao que me consta, Shevchenko por motivos físicos e os demais por opção tática).

Os primeiros minutos de partida já mostraram o que viria pela frente. Com menos de um minuto, Yevhen Konoplyanka fugiu de Glen Johnson trazendo para a direita e chutou de fora, mas o remate saiu torto, sem colocar em risco a meta defendida por Joe Hart. No minuto seguinte, tanto Andriy Pyatov (ameaçado por Danny Welbeck) quanto Hart (ameaçado por Denis Garmash) viram-se sob pressão, recebendo recuo de bola com o pé e a aproximação oponente. Sinal de que as duas seleções estavam aplicadas em seus objetivos.

A aplicação não era sinônimo de infiltração na defesa adversária e o recurso utilizado para tentar chegar ao gol era basicamente o chute de fora da área. Aos seis minutos, Garmash recebeu de Yevhen Selin, chutou e quase colocou no ângulo esquerdo. Tentando chegar no toque de bola, a Inglaterra teve bom momento aos dez minutos, mas após a seqüência de passes curtos o goleiro Pyatov acabou com a festa e recolheu o cruzamento rasteiro dado por Ashley Cole. Aos doze, Konoplyanka passou para Selin pela esquerda e deste saiu passe rasteiro para trás - Devic chutou firme e a bola carimbou a marcação de Scott Parker.

Selin apoiava bastante e a Ucrânia dava seqüência ao seu ímpeto de chutar em gol: aos catorze minutos, o lateral-esquerdo rolou atrás e Yaroslav Rakitskiy chegou chutando, mandando por cima. Aos dezessete, Konoplyanka trouxe para a direita e chutou à meia-altura, carimbando o peito de Steven Gerrard - a trajetória da bola apontava o gol como destino, o que valoriza a intervenção do capitão.

Nos primeiros dezoito minutos, a posse de bola estava 60% do tempo com os donos da casa, e os remates de fora da área seguiam acontecendo. Aos vinte e um, Rakitskiy lançou do campo de defesa e a bola que parecia que seria interceptada pela marcação chegou até Oleg Husyev, que chutou e mandou perto do ângulo direito. Perceba como a estatística de chutes em gol separava as duas equipes: enquanto os ucranianos deram sete remates, os ingleses não deram nenhum.

Através da bola parada, a Inglaterra assustou: aos vinte e três minutos, Gerrard cobrou falta pela direita, Rooney e Garmash disputaram a bola aérea sem fazer encostarem nela e quem fez o desvio foi o goleiro Pyatov, protegendo a baliza ucraniana. Aos vinte e sete teve fez, finalmente, a primeira finalização inglesa: Gerrard fez lançamento primoroso invertendo o jogo na esquerda, Ashley Young dominou e efetuou belo cruzamento para a área - Rooney posicionou-se bem, usufruindo de liberdade para concluir, mas não leu corretamente o tempo de bola e acabou cabeceando mal, à esquerda. Talvez por falta de ritmo de jogo.

Se a Ucrânia tanto tentava de longa distância, aos vinte e nove minutos a equipe conseguiu entrar na área inglesa: Andriy Yarmolenko recebeu pela direita, entrou na área e chutou colocado, cruzado, tirando da marcação de Cole mas não do goleiro Hart, que defendeu à direita. Aos trinta e um, nova bola parada pra Inglaterra: Gerrard cobrou escanteio pela direita com aquela precisão que acompanha sua carreira e Rooney, livre, cabeceou mal, reforçando os comentários daquele lance aos vinte e sete.

A dificuldade em passar pela última linha de defesa inglesa acompanhava os jogadores ucranianos, que voltaram a arriscar de fora da área aos trinta e cinco minutos, em chute de Garmash que passou à direita. Parker decidiu tentar para a Inglaterra e, também de fora da área, mandou à direita, aos quarenta. No minuto posterior, a Ucrânia se aproximou do gol inaugural através de bela jogada individual: Yarmolenko entrou na área, deixou Parker caído no gramado, passou também por Cole na base do controle de bola mas a cobertura da marcação inglesa conseguiu ceder escanteio, evitando o que poderia ser um golaço.

Veio o intervalo e com ele a esperança ucraniana de que Shevchenko retornasse para o segundo tempo, a fim de levar a equipe à vitória que classificaria a anfitriã. Só que a Ucrânia retornou do vestiário com os mesmos jogadores, a exemplo da Inglaterra. E os ingleses abriram o placar aos dois minutos: pela direita, Gerrard deu drible desconcertante em Devic, cruzou da direita e aí a força do acaso trabalhou a favor dos ingleses. Digo isso porque tanto o desvio em Selin quanto em Yevhen Kacheridi "colaboraram" para que Pyatov falhasse na tentativa de bloquear a bola. E o destino da redonda foi a cabeça de Rooney, que só desperdiçaria a oportunidade se fizesse muito esforço. 1a0 Inglaterra, no 29º gol do Shrek com a camisa da seleção (o primeiro nos seus últimos oitos jogos entre Copa do Mundo e Eurocopa).

O gol inglês abateu mais as arquibancadas do que a seleção ucraniana, que seguiu a partida com a atitude vista enquanto o placar estava zerado. Aos seis minutos, Husyev aparentemente tentou cruzar da direita, mas por muito pouco não marcou o gol ele próprio, com Hart levando a mão até perto do travessão para mandar para fora. Aos oito, a defesa ucraniana ficou escancarada e os ingleses saíram em rápido contra-ataque: Rooney recebeu de Gerrard, avançou acompanhado por Yarmolenko, teve a camisa puxada dentro da área, tocou atrás e James Milner chutou, tendo o remate bloqueado na marcação. No minuto posterior, Konoplyanka voltou a tentar de fora da área, sem mais uma vez conseguir acertar o alvo, mandando por cima.

A Suécia fazia 1a0 na França (golaço de Zlatan Ibrahimovic), aproximando a Inglaterra ainda mais da liderança no grupo (o empate naquele jogo já era suficiente em caso de vitória inglesa). Mas, num jogo tão em aberto quanto o entre ingleses ucranianos, o que menos importava era o resultado alheio. Aos quinze minutos, Konoplyanka cobrou escanteio pela esquerda com passe curto, Yarmolenko cruzou no capricho e encontrou o sumido Artem Milevskiy que, livre e (des)impedido, cabeceou por cima, desperdiçando grande chance de marcar gol ilegal. No minuto seguinte, árbitro e auxiliar errariam de maneira mais grave e influente no resultado da partida: em rápida saída para o ataque, Devic recebeu, fintou a marcação e chutou no contrapé de Hart. O goleiro inglês conseguiu desviar, amortecendo o remate, e a bola tomou o rumo do gol - no percurso, John Terry evitou que a redonda chegasse até a rede, mas não que atravessasse completamente a última linha que demarca o campo. Gol de empate, para agitar de vez a já movimentada partida. Só que nem o árbitro húngaro Viktor Kassai, nem o assistente, nem aquele auxiliar que acompanha o jogo situado próximo à linha-de-fundo sinalizaram aquilo que de fato aconteceu. Não quero aqui desenvolver uma teoria conspiratória contra a arbitragem, que já falha demais por conta própria. Mas e aí? Se três pessoas supostamente não viram o gol, ele deixa de existir?

Por motivo de força maior, o placar seguiu 1a0 para a Inglaterra. Aos vinte e dois minutos, quase saiu o segundo: Milner driblou Selin, cruzou e Pyatov saltou para afastar, evitando cabeceio de Rooney. Na seqüência, Cole recolheu a sobra de bola soltando chute firme, que Pyatov conseguiu espalmar no canto direito. Dois minutos depois, Hodgson e Oleg Blokhin mexeram pela primeira vez: na Inglaterra, Theo Walcott entrou no lugar de Milner; na Ucrânia, Devic deu lugar para o maior goleador na história da seleção, Shevchenko.

Com novo ânimo em campo e nas arquibancadas - a presença de Sheva parece contagiar companheiros e torcedores -, a Ucrânia quase empatou a partida aos vinte e oito minutos: Konoplyanka chutou de fora, a bola fez curva para dentro e Hart, que já havia passado da trajetória da bola, conseguiu levar a mão esquerda até ela e evitar o gol ucraniano. No rebote, Joleon Lescott chegou antes de Milevskiy, aliviando.

A parceria entre Gerrard e Rooney teve novo episódio aos vinte e nove minutos: novamente, o capitão cruzou (dessa vez em cobrança de escanteio pela esquerda) e novamente o goleador cabeceou livre (dessa vez parando em defesa de Pyatov). Aos trinta e um, Shevchenko teve sua primeira participação efetiva no ataque: o camisa sete carregou da direita para o centro, abriu na esquerda e Konoplyanka chutou por cima. Naquele mesmo minuto, Blokhin trocou o pouco acionado Milevskiy por Bohdan Butko. E, no minuto posterior, colocou Nazarenko no lugar de Garmash, mantendo Voronin na condição de suplente.

Se a Inglaterra mostrava através do cartão amarelo recebido por Cole (por retardar a reposição de bola em jogo na cobrança de lateral) qual era sua intenção na partida, a Ucrânia continuava indo para cima. Aos trinta e cinco, Nazarenko tabelou e chutou de fora, por cima. Aos trinta e seis, Hodgson trocou Welbeck por Andrew Carroll, em mexida envolvendo dois jogadores que marcaram gol na Suécia, na rodada anterior. Aos quarenta e um, tirou Rooney para colocar Alex Oxlade-Chamberlain.

Sobrava disposição mas faltava criatividade aos ucranianos na tentativa de superar a barreira inglesa posta em duas linhas de quatro bastante disciplinadas taticamente. Aos quarenta e cinco minutos, um último suspiro: Yarmolenko recebeu e colocou a bola buscando o canto direito e por muito pouco não acertou o ângulo. Mas e se acertasse, será que o gol valeria?

No final, o último gol da primeira fase na Euro 2012 saiu na capital Kiev: foi de Sebastian Larsson, que marcou 2a0 para a Suécia diante da França.

Cruzamentos na fase quartas-de-final

Quinta-feira, 21.06.2012
República Tcheca e Portugal

Sexta-feira, 22.06.2012
Alemanha e Grécia

Sábado, 23.06.2012
Espanha e França

Domingo, 24.06.2012
Inglaterra e Itália

Encerro essa postagem parabenizando Andriy Shevchenko pela bela carreira como futebolista profissional, a qual tive o prazer de acompanhar o período de auge, vestindo a camisa do Milan. Marcou dois gols na estréia ucraniana nessa Euro 2012, proporcionando um dos momentos mais marcantes do torneio e desenhando uma despedida digna para um dos maiores centroavantes da última década. Boa sorte nas futuras empreitadas, Shevchenko!