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sexta-feira, 9 de julho de 2021

Dinamarca É Valente, Mas Não Resiste À Inglaterra E A Um Pênalti Duvidoso Em Plena Prorrogação

Pela primeira vez na história da Eurocopa, a Inglaterra consegue chegar na final do torneio. Após o empate por um a um com a Dinamarca, a seleção inglesa triunfou na prorrogação ao marcar o segundo gol em num pênalti bastante duvidoso - e, na base da imposição física e do toque de bola, segurar o resultado que a qualificou para tentar o título inédito.

Acho um erro metodológico focar no pênalti bastante duvidoso. É bem verdade que ele mancha a partida e coloca em dúvida o mérito do English Team num confronto que poderia tranquilamente caminhar para o desempate por penalidades. Porém, analisando a totalidade de um confronto que teve mais de duas horas de jogo, foi flagrante a superioridade técnica e tática dos comandados de Gareth Southgate.

A Dinamarca fez uma Eurocopa a ser lembrada com carinho - tanto pela forma como atuou quanto, principalmente, pela capacidade de superar o episódio marcante ocorrido no primeiro tempo do jogo de estreia. Um episódio que tornou o evento esportivo secundário - até porque, uma Eurocopa pode ser disputada a cada quatro anos, mas uma pessoa - uma vida - é única. E o maior "título" possível nesse torneio foi o fato de Christian Eriksen continuar vivo.

Ingleses começam bem, mas Dinamarca mostra qualidade no contra-ataque

A primeira chegada de ataque mais interessante foi da Inglaterra e aconteceu envolvendo seus dois jogadores que atuam como referência no setor ofensivo. Aos cinco minutos, Harry Kane recebeu pela direita, cruzou em diagonal encontrando Raheem Sterling nas costas de Andreas Christensen, mas o camisa dez não conseguiu alcançar para concluir.

Aos nove, uma jogada de troca de passes de primeira da Dinamarca deu o tom de como essa equipe é bem treinada. Sim, precisamos reverenciar Kasper Hjulmand pelo que vem desempenhando no comando da seleção nórdica. Quando quatro jogadores trocam passes de primeira, acionando um companheiro em contra-ataque, temos que entender que isso tem o dedo do treinador. Na jogada envolvente, Mikkel Damsgaard por pouco não chegou na bola, com Kyle Walker fazendo a proteção para Jordan Pickford recolher.

Aos doze, Kane passou novamente para Sterling - dessa vez pelo lado esquerdo de ataque. Ele carregou pra direita acompanhado por Christensen e chutou fraco, para defesa de Kasper Schmeichel.

Essas duas chegadas de ataque inglesas, onde Kane agia como uma espécie de garçom de Sterling, deram uma boa síntese do posicionamento do camisa nove na maior parte do tempo de jogo. Ele estava usualmente fora da área, misturado com outros meio-campistas, e se mostrando participativo num setor que mostrava alguma carência na capacidade criativa. Essa carência em muito se deve em parte ao próprio treinador Southgate, que se mostra bastante resistente a usar jogadores como Phil Foden e Jack Grealish entre os titulares. 

Dinamarca cresce, aparece e abre o placar em Wembley com o primeiro gol em cobrança de falta nessa edição

Aos catorze minutos, Pierre-Emile Højbjerg chutou rasteiro e parou em defesa de Pickford. No minuto seguinte, uma saída ruim de Pickford - que logo se desculpou com os companheiros - deu origem a uma chegada perigosa da Dinamarca, transformando-se em escanteio.

Passado o susto, a Inglaterra parecia retomar o controle territorial do setor de meio de campo. Mas a Dinamarca tinha seus recursos: aos vinte e quatro, Jannik Vestergaard tirou a bola de Kane no campo defensivo e deu início a um contra-ataque que que chegou até Damsgaard. Ele chutou cruzado buscando o ângulo esquerdo, mas a bola acabou indo para fora.

Aos vinte e seis minutos, Pickford superava uma marca do lendário goleiro Gordon Banks - ele acabava de completar setecentos e vinte e três minutos sem ser vazado pela seleção inglesa. 

Com o recorde estabelecido, veja o que é o futebol: apenas três minutos depois do feito histórico, a Dinamarca tinha uma cobrança de falta. Damsgaard na bola. O mesmo Damsgaard que ficou no quase duas vezes anteriormente. E Damsgaard foi brilhante: ele conseguiu fazer a bola encobrir uma barreira alta (com Kane pulando e não alcançando) e fazer a bola perder altura rapidamente, surpreendendo Pickford, que até resvalou na redonda mas sem ser capaz de evitar o gol. O primeiro gol sofrido por ele nessa Euro. O primeiro gol em cobrança de falta nessa edição. Um belo gol de Damsgaard. Dinamarca um a zero em pleno estádio de Wembley.

Inglaterra reage e alcança o empate ainda no primeiro tempo

Pela primeira vez atrás no placar em todo o andamento da competição - afinal, sequer havia sofrido um único gol até então -, a Inglaterra não demorou a levantar a cabeça, sacodir a poeira e dar a volta por cima.

Aos trinta e sete minutos, um ensaio do gol de empate: Bukayo Saka tocou para Kane pela direita, o camisa nove cruzou e Sterling, de frente para o gol, teve seu chute defendido em excepcional intervenção de Schmeichel.

No minuto seguinte, o que era ensaio virou o gol de empate propriamente dito. E envolvendo os mesmos personagens da trama anterior: Saka recebeu de Kane pela direita e cruzou buscando Sterling, que simplesmente completaria para a rede. Só que Simon Kjær, de carrinho, evitou que a bola chegasse em Sterling - mas não na rede, marcando contra. Um a um em Londres.

Deitado após o carrinho, Simon Kjær vê a bola no fundo da rede. Foto: AFP.


Segundo tempo tem início com equipes alternando possibilidades de gol

Quando Kasper Dolberg recebeu de Joakim Mæhle e teve seu chute rasteiro espalmado por Pickford no canto direito, já havia impedimento no lance. Porém, aquela chegada aos seis minutos mostrava o ímpeto dinamarquês em retomar a liderança no placar.

A Inglaterra não ficava atrás e tratou de responder três minutos depois: aos nove, após Mæhle cometer falta em Kane, Jason Mount foi para a cobrança, levantou na área, Harry Maguire conseguiu cabecear no canto direito e Schmeichel tratou de salvar, espalmando.

Na marca de treze minutos, uma bonita jogada da Dinamarca: Højbjerg avançou pela direita e rolou a bola na direção de Martin Braithwaite, que fez o corta-luz. Na sequência, Dolberg girou e chutou rasteiro, com Pickford fazendo a defesa.

Aos dezoito, era a vez dos ingleses: Sterling carregou pela esquerda, entregou para Saka, que deixou com Mount - o chute foi defendido com segurança por Schmeichel.

Cansaço começa a bater à porta dinamarquesa e três substituições simultâneas são realizadas

Com vinte e um minutos, Hjulmand mexeu triplamente em sua equipe. Saíram Stryger Larsen, Damsgaard e Dolberg para as entradas de Daniel Wass, Yussuf Poulsen e Christian Nørgaard. São três alterações que remetem ao jogo de quartas de final com a República Tcheca, quando as três primeiras mexidas na equipe foram exatamente envolvendo esses jogadores.

Aos vinte e três, foi a vez de Southgate mexer, promovendo a entrada de Jack Grealish no lugar de Saka. E, tal qual ocorreu na partida de oitavas de final diante da Alemanha (curiosamente no mesmo minuto de jogo), Grealish foi para o lado esquerdo e Sterling passou a aparecer mais rotineiramente pela direita.

Inglaterra assume o controle na partida

Aos vinte e sete minutos, Kane abriu o jogo na direita com Mount, que cruzou fechado, com Schmeichel dando um tapa para escanteio em bola que parecia ter o endereço do gol.

Na marca de trinta e dois minutos, Grealish receberia ótima enfiada de bola. Receberia, no futuro do pretérito, pois Christensen se agigantou esticando a perna e fazendo interceptação quase acrobática. Só que a dita acrobacia acabou contundindo o defensor dinamarquês, que precisou ser substituído - Joachim Andersen entrou em seu lugar.

Aos trinta e quatro, Kalvin Phillips tentou de fora da área e a bola saiu à direita. Três minutos depois, Luke Shaw levantou pela esquerda em lance de bola parada e John Stones cabeceou à esquerda.

A quinta substituição de Hjulmand deu-se aos quarenta e dois minutos, tirando Thomas Delaney - jogador que merece os elogios pela partida e pela Eurocopa que realizou - para a entrada de Mathias Jensen.

A Inglaterra mostrava uma condição física bastante superior à Dinamarca, notadamente por Southgate carregar a equipe até o final dos noventa minutos tendo feito apenas aquela troca de Saka por Grealish. E o English Team teve ainda duas oportunidades de marcar nos acréscimos. Aos quarenta e sete minutos, Sterling tinha a bola pela direita, passou para Kane - recuado, como em quase todo o decorrer do jogo - e o camisa nove rolou atrás para Phillips, que chutou de fora, mandando por cima do travessão. Dois minutos depois, aos quarenta e nove, após lance de bola parada pela direita, Maguire, soberano no jogo aéreo, cabeceou no segundo poste e Schmeichel foi buscar no canto direito.

Mais uma vez nessa Euro, a definição da vaga rumava para a prorrogação

Sobrando fisicamente, Inglaterra consegue se impôr. Mas só chega ao gol em lance para lá de duvidoso

Aos três minutos, Kane recebeu pela direita nas costas de Vestergaard e chutou cruzado, para defesaça de Schmeichel com a mão direita.

Pouco após o lance, Southgate trocou Declan Rice e Mount por Jordan Henderson e Phil Foden. Sim, demorou mais de uma hora e meia para o talentoso Foden finalmente ser mandado a campo.

Aos sete, o camisa sete Grealish chutou firme e Schmeichel rebateu.

Os ingleses tinham a bola mas a Dinamarca se defendia bem. Até que, aos onze minutos, Sterling entrou na área pelo lado direito. Era perseguido por Mæhle. Caiu na grama. Assistindo ao vivo, parecia ter havido um toque. Mas ao olhar o lance de novo, e novamente, e mais uma vez, e por outro ângulo, fica muito difícil assegurar que tenha havido qualquer contato capaz de tombar Sterling. Ainda assim, a penalidade foi confirmada. De forma admirável, a seleção dinamarquesa pouco reclamou. Algo que transcende a competitividade e o calor do jogo. A isso, podemos chamar "educação".

Raheem Sterling cai na área - o árbitro holandês Danny Makkelie, que não aparece na foto, diz que houve pênalti. Imagem extraída do Twitter Sensacionalista.

A cobrança do pênalti - que sabe-se lá se foi realmente pênalti - coube a Harry Kane. Existe uma máxima futebolística que diz que pênalti que não é, não entra. Kasper Schmeichel deu uma mãozinha para o ditado popular e defendeu no canto esquerdo. Só que o rebote ficou com o próprio Kane. E, no jargão, não diz nada sobre rebote de pênalti que não é... Dois a um Inglaterra.

Harry Kane e Phil Foden em êxtase com o gol na prorrogação: a Inglaterra fazia dois a um sobre a Dinamarca. Foto: AFP.

Sem forças para reagir, Dinamarca entra na roda inglesa

No intervalo, uma mexida para cada lado: enquanto a Inglaterra trocava Grealish por Kieran Trippier (sim, senhoras e senhores, mesmo com a flagrante imposição física e superioridade técnica, o treinador Gareth Southgate optou por tirar Grealish de campo, colocar um homem na lateral e centralizar Walker, aumentando o contingente defensivo), o técnico Hjulmand, por sua vez, promoveu a entrada do atacante Jonas Older Wind no lugar do defensor Verstergaard.

Aos oito minutos, uma chegada com Braithwaite que foi frustrada pela boa marcação de Maguire e pela ação de Pickford foi a última ação ofensiva dinamarquesa. A Inglaterra, exercendo domínio territorial e circulando a bola sem qualquer sede de ampliar a vantagem, fazia o tempo passar. E ainda teve, aos quinze, uma situação derradeira, quando Sterling avançou pela direita, deixou Andersen para trás e parou em bloqueio de Schmeichel.

Desta forma, a seleção inglesa chega à sua primeira final de Eurocopa. É a equipe que mais me impressionou pela consistência tática. Tem um jeito de jogar bem definido, sendo sólida na defesa e contando com ótima proteção na dupla Phillips e Rice, gozando de boa qualidade técnica no último terço do gramado. É difícil apontar uma seleção com qualquer espécie de favoritismo na final, mas, analisando friamente, vejo a Inglaterra com maiores possibilidades do que a Itália em Wembley. Aguardemos. Minha maior torcida é para que Southgate não tenha medo de soltar o freio de mão de uma equipe que tem, sim, algo mais a oferecer.

À Dinamarca, meus parabéns. Fez belíssimo papel no torneio. E, graças a Deus, salvaram-se todos. Viva Eriksen!

domingo, 4 de julho de 2021

Inglaterra Passeia Em Roma, Faz Quatro A Zero Na Ucrânia, E Volta A Wembley Com Sede De Título

Se nas outras três partidas dessa fase tivemos três confrontos bastante disputados (Espanha e Suíça decidiram a vaga nos pênaltis, a Itália passou pela Bélgica com vitória por dois a um e a Dinamarca venceu a República Tcheca também por dois a um), a Inglaterra sobrou diante da Ucrânia e aplicou a sua maior goleada na história das Eurocopas: um inapelável quatro a zero, com dois gols de Harry Kane, um de seu xará Harry Maguire e um de Jordan Henderson, que anotou seu primeiro gol com a camisa que vestiu sessenta e duas vezes.

Mesmo com as ótimas atuações de Grealish, Southgate dá titularidade a Sancho

Com uma formação diferente da que venceu a Alemanha por dois a zero nas oitavas, o técnico Gareth Southgate diminuiu a última linha de cinco para quatro homens, com Kieran Trippier indo para o banco de reservas e Kyle Walker assumindo a lateral direita. Outra modificação foi no setor de meio campo, barrando Bukayo Saka e promovendo Jordan Sancho e Mason Mount aos onze iniciais. Um desenho mais ofensivo, sem dúvidas, mas que estranhamente abdicou de utilizar Jack Grealish, um dos destaques na vitória sobre os alemães.

Andriy Shevchenko, por seu turno, alterou o meio campo ucraniano em relação ao preparado na vitória por dois a um sobre a Suécia na prorrogação. E essa solitária mudança de jogadores - qual seja, a saída de Taras Stepanenko para a entrada de Vitaliy Mykolenko - modificou significativamente a forma da equipe jogar, pois Oleksandr Zinchenko, o melhor jogador em campo na partida diante dos suecos na fase de oitavas de final, retornava a uma posição mais centralizada, abandonando a bem-sucedida função de atuar pelo flanco esquerdo do gramado, que é exatamente a que ele está acostumado a fazer no Manchester City de Josep Guardiola.

Parceria entre Sterling e  Kane funciona e English Team abre o placar aos três minutos

Assumindo a iniciativa no uso da posse de bola, a Inglaterra foi ao ataque desde cedo. E logo aos três minutos, conseguiu chegar ao gol: Raheem Sterling conduziu a bola da esquerda para o centro, atraiu a marcação ucraniana e descolou excelente passe para Harry Kane, que só teve o trabalho de esticar a perna e desviar, de bico, antes da chegada do goleiro Heorhii Bushchan. Um gol com a marca de um goleador num lance que merece ser exaltado, mais ainda, pelo passe magistral de Sterling. Um a zero Inglaterra em Roma, na primeira partida da seleção inglesa fora de Wembley nesse Eurocopa.

Harry Kane estica a perna direita e, de bico, empurra para o gol: a Inglaterra abre o placar diante da Ucrânia. Foto: Estadão Conteúdo.

 

Ucrânia procura atacar, mas consistência inglesa inibe a ação ofensiva adversária

Com um plano de jogo inicial que parecia ser o de se fechar atrás e sair em contra-ataques, o gol sofrido aos três minutos foi um balde de água na temperatura ambiente do inverno ucraniano. A vontade de buscar o empate esbarrava nas limitações da equipe e, mais ainda, na muito bem postada defesa inglesa. Andriy Yarmolenko, um dos destaques da Ucrânia no torneio, era figura sumida na partida, sucumbindo em meio ao sólido sistema de marcação da Inglaterra. E se a capacidade criativa ucraniana estava totalmente abafada pelo adversário, a primeira grande oportunidade de empatar o jogo se deu graças a um erro da seleção inglesa: aos dezesseis minutos, Walker tocou curto demais para John Stones, Roman Yaremchuk fez a interceptação, avançou pela esquerda e chutou rasteiro, parando em defesa de Jordan Pickford no canto direito.

Inglaterra domina territorialmente e cria chances de ampliar

Mantendo o adversário fora do último terço do campo, a seleção inglesa foi exercendo um domínio cada vez maior. E, com naturalidade, criou oportunidades de chegar ao segundo gol.

Aos vinte e um minutos, numa jogada entre Sancho e Sterling, Luke Shaw cruzou rasteiro da esquerda mas ninguém apareceu para a finalização. Na marca de vinte e oito, Shaw cobrou falta pela esquerda levantando na área e Kane cabeceou por cima. Com trinta e dois, Declan Rice chutou com muita força uma bola que passou a centímetros (talvez milímetros) de Zinchenko, viajou entre Serhiy Kryvtsov e Mykola Matvienko e, sabe-se lá como, Bushchan conseguiu rebater mesmo com tantos jogadores cobrindo a sua visão do lance.

Por falar em Kryvtsov, o zagueiro central acabou sendo substituído ainda no primeiro tempo, dando lugar a Viktor Tsygankov aos trinta e quatro minutos.

A Inglaterra encontrava mais facilidade pelo lado esquerdo: aos trinta e nove minutos, Sterling passou para Shaw que, em posição duvidosa, tocou atrás para Sancho, que chutou firme e Bushchan voltou a rebater. 

Apesar do deserto de circunstâncias no campo de ataque, até houve uma última finalização ucraniana antes do intervalo, quando, aos quarenta e dois, Mykola Shaparenko pegou sobra de bola de Shaw e mandou para fora, à esquerda.

No segundo tempo, ingleses marcam dois gols nos primeiros quatro minutos

Logo no primeiro minuto na etapa complementar, a Inglaterra tinha uma falta para cobrar pelo lado esquerdo de ataque, quando Serhiy Sydorchuk derrubou Kane. Shaw se encarregou da cobrança, levantou na área, Maguire saltou se apoiando em Matvienko (não houve manifestação do VAR) e cabeceou para a rede. Dois a zero no placar.

O que estava bom para os ingleses ficou ainda melhor apenas três minutos depois: Sancho recuperou a bola na defesa, Mount puxou o contra-ataque arrancando em velocidade, Sterling recebeu e passou com estilo para Shaw, que cruzou na medida para Kane - com um cabeceio protocolar para o chão, o camisa nove colocou entre as pernas de Bushchan, marcando o terceiro da Inglaterra no jogo e seu terceiro gol na competição.

Jordan Henderson sai do banco e marca pela primeira vez com a camisa da seleção

Com o jogo sob controle e o resultado confortável, aos onze minutos o técnico Southgate trocou Rice por Jordan Henderson, experiente meio-campista do Liverpool e veterano na seleção inglesa.  

Cinco minutos após pisar no gramado, Henderson lançou Sterling, a defesa afastou e Kane emendou de primeira, com Bushchan sevitando o quarto gol ao espalmar no canto esquerdo. Veio a cobrança de escanteio: Mount cruzou e ele, Henderson, surgiu no primeiro poste cabeceando firme, marcando seu primeiro gol após sessenta e dois jogos representando o English Team. Interessante observar que, no último amistoso da Inglaterra antes da Eurocopa, Henderson havia desperdiçado um pênalti diante da Romênia.

Jordan Henderson é bastante festejado após marcar seu primeiro gol com a camisa da seleção inglesa, fechando os quatro a zero sobre a Ucrânia no estádio olímpico de Roma. Foto: AFP.
 

Gareth Southgate faz três substituições e a Inglaterra passa a administrar o jogo e o relógio

Imediatamente após marcar quatro a zero no placar, foram realizadas quatro substituições na partida. Primeiro, Shecvhenko trocou Sydorchuk (machucado) por Yevhen Makarenko. Depois, Southgate, já pensando na fase semifinal, tirou de campo Sterling, Shaw e Kalvin Phillips para as entradas de Marcus Rashford, Trippier e Jude Bellingham.

O jogo não ficou frio - ele ficou gélido, congelante. As únicas esparsas emoções daí para o final foram uma saída atrapalhada de Pickford - o goleiro inglês abandonou a área para afastar uma bola lançada nas costas da defesa mas pegou tão mal na redonda que quase piorou as coisas; e um chute forte de fora da área dado por Makarenko, que Pickford rebateu, mantendo sua meta inviolável na Eurocopa 2020.

Para puxar os aplausos no estádio olímpico de Roma, Southgate ainda trocou Kane por Dominic Calvert-Lewin, aos vinte e oito minutos.

Era difícil saber quem estava mais ansioso pelo apito final: os ingleses, já com a mente voltada para o o próximo confronto, ou os ucranianos, para tentar virar a página dessa contundente derrota na sua partida derradeira. Agradando gregos e troianos, digo, ingleses e ucranianos, o árbitro alemão Felix Brych soprou o apito precisamente aos quarenta e cinco.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Grealish Entra Bem, Sterling Brilha Novamente E Kane Desencanta: Inglaterra Vence A Alemanha Em Wembley

O mítico estádio de Wembley recebeu na fase oitavas de final nessa Eurocopa 2020 aquele que pode ser considerado um dos maiores clássicos do futebol mundial. Seleções que, num passado não muito distante, atuavam como se estivessem jogando pinball - haja repetição pra ficar uma partida inteira lançando a bola pra longe à espera do cabeceio perfeito. Só que, felizmente, nesse vinte e nove de junho de dois mil e vinte e um, não era pinball - era, de fato e de direito, futebol o que se jogava no gramado londrino.

Alguns até poderão reclamar que faltaram situações de gol no jogo. É uma crítica justa, mas que não traz a devida profundidade para analisar o que foi a partida. Embora seja verdadeiro que não tenha havido muito mais do que três grandes oportunidades para cada lado, é absolutamente incontestável que ingleses e alemães, sob o comando de Gareth Southgate e Joachim Löw, travaram um dos mais interessantes confrontos táticos nessa edição do torneio. E esse dois treinadores merecem todos os créditos por isso. Enquanto Southgate ainda pode conduzir a Inglaterra ao título continental, Löw fez hoje sua despedida da Euro e também da seleção alemã - deixo aqui registrado que já estou com saudades.

Nesse blógui, elogiei por diversas vezes a Alemanha de Löw. Seguem, a título de ilustração, sete sugestões de leitura: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7. Afinal, o número sete traz ótimas recordações aos amantes do futebol arte, mais precisamente por causa de um evento que aconteceu sete anos atrás...

Só que hoje gostaria de falar um pouco mais dessa seleção inglesa.

Se a gente se debruçar sobre a consistência do jogo do English Team, teremos material suficiente para publicar um tutorial de o que fazer e como fazer para dar a uma partida de futebol a cara que se deseja dar a ela. E com um detalhe: tendo sempre a disposição e a organização necessárias para entrar de forma recorrente no campo de defesa do adversário. Porque uma coisa é você se abdicar do jogo e esperar o oponente te atacar. Outra, é fazer o que a Inglaterra faz de forma exemplar: enfrentar uma grande equipe de peito aberto, defesa postada e com bastante movimentação.

Talvez a primeira lição seja a da resistência. Resistir a uma equipe que chegava ao ataque com Kimmich e Gosens pelos flancos, com Havertz centralizado e tendo Werner como referência mais à frente. Claro que a atuação discreta de Müller compromete o jogo coletivo dos comandados de Löw, mas a Alemanha ainda era Alemanha. Aos trinta e um minutos, na primeira situação em que o sistema defensivo inglês não foi capaz de parar o ataque adversário, o goleiro Jordan Pickford agiu muito bem para bloquear Werner após ótimo passe de Havertz, numa jogada de ataque alemão made in England, afinal, eles são companheiros de Chelsea.

De resto, o que se viu foi Walker, Stones e Maguire formando uma trinca intransponível, com Trippier e Shaw reforçando a marcação pelos flancos. Uma formação que, no papel, é excessivamente defensiva. Notadamente pelo fato de que todos esses cinco tratam-se de jogadores fundamentalmente escalados para marcar e fechar espaços. De quebra, há ainda Phillips e Rice logo adiante. Efetivamente dedicados a construir, quebrar linhas, infiltrar e produzir ofensivamente, somente o trio Saka, Sterling e Kane. Mas o futebol não se analisa pelo que está escrito no papel. Ele precisa ser assistido. E, em se tratando de um Inglaterra e Alemanha como esse, apreciado.

No segundo tempo, um chute forte de Havertz logo aos dois minutos obrigou Pickford a fazer a mais bonita defesa de toda a partida. Poderia ser o indício de que a Alemanha chegaria mais forte para a etapa complementar. Poderia, mas não se confirmou. A bem da verdade, os alemães teriam ainda duas boas chances (uma para abrir o placar, com Werner; outra para empatar o jogo, com Müller) e ambas nasceriam de bolas perdidas por Sterling no campo de ataque.

Mas como criticar Sterling num jogo como esse? Entre um erro e outro, aos vinte e nove minutos, foi exatamente o atacante do Manchester City quem iniciou a jogada que abriu o placar em Londres. Aliás, que jogada! Com toques rápidos na bola, Sterling, Kane, Grealish (que entrara no lugar de Saka) e Shaw participaram de um lance que deixou a Alemanha totalmente envolvida pela troca de passes da Inglaterra. Na conclusão da ótima trama ofensiva, Sterling marcou o terceiro gol dele e da Inglaterra na Euro 2020.

Raheem Sterling comemora o gol: jogador vem se destacando com a camisa da Inglaterra nessa Eurocopa 2020. Foto: Andy Rain / POOL / EPA.

 

Fiel à sua forma de jogar, a seleção inglesa nem recuou nem se tornou mais incisiva. Ela simplesmente, movimento a movimento, observando o comportamento dos jogadores alemães, foi procurando brechas para conseguir chegar ao segundo gol. Aos quarenta minutos, a tal da brecha se tornou uma porta aberta quando Shaw recuperou a posse de bola na altura do meio do campo, avançou, abriu na esquerda com Grealish e o camisa sete, que entrou muito bem no jogo, cruzou à meia altura para Kane. O centroavante, acostumado a marcar gols com a camisa do Tottenham mas sem ter anotado nenhuma vez nessa Eurocopa, poderia bater de voleio - coisa que, por sinal, ele sabe fazer. Mas preferiu usar a cabeça: numa fração de segundo, movimentou o corpo se inclinando na angulação necessária e cabeceando para o chão, marcando dois a zero no jogo e saindo da seca de gols na competição.

Momento exato em que Harry Kane fica duas toneladas mais leve. Foto: Reuters.

 

A Alemanha era toda ataque. E quando digo toda, estou incluindo o goleiro Neuer, que atuava praticamente na linha que divide o gramado. A melhor chance da equipe - diria, inclusive, que a única digna de nota após o prejuízo de dois gols no placar - foi aos quarenta e cinco, numa puxada de Goretzka que Havertz não conseguiu alcançar.

Há que se respeitar o trabalho tático de Southgate na seleção inglesa. A forma como conseguiu conter a Alemanha é reveladora. É possivelmente o time melhor estruturado para inibir o potencial criativo do oponente sem deixar de fazer a transição ao ataque com qualidade. A Inglaterra marca forte e de forma compacta, diminui espaços, dá combate e apresenta bom volume de jogo com a posse de bola. Há formas de fazer essa equipe jogar melhor? Sem a menor dúvida, há. Gostaria de ver, por exemplo, Foden, Grealish, Saka, Kane e Sterling juntos entre os titulares. Isso sem falar em Sancho, jogador bastante querido pelo torcedor e que raramente é aproveitado. Mas, ainda assim, gosto da forma altamente organizada que a equipe atua. Não me enche os olhos como uma Alemanha de Löw, mas é possivelmente a Inglaterra taticamente mais consistente na proposição de jogo que já tive a oportunidade de acompanhar. É fortíssima candidata a levantar o caneco em Wembley. Espero que, se isso acontecer, que seja aproveitando seus jogadores mais talentosos.