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terça-feira, 29 de junho de 2021

Grealish Entra Bem, Sterling Brilha Novamente E Kane Desencanta: Inglaterra Vence A Alemanha Em Wembley

O mítico estádio de Wembley recebeu na fase oitavas de final nessa Eurocopa 2020 aquele que pode ser considerado um dos maiores clássicos do futebol mundial. Seleções que, num passado não muito distante, atuavam como se estivessem jogando pinball - haja repetição pra ficar uma partida inteira lançando a bola pra longe à espera do cabeceio perfeito. Só que, felizmente, nesse vinte e nove de junho de dois mil e vinte e um, não era pinball - era, de fato e de direito, futebol o que se jogava no gramado londrino.

Alguns até poderão reclamar que faltaram situações de gol no jogo. É uma crítica justa, mas que não traz a devida profundidade para analisar o que foi a partida. Embora seja verdadeiro que não tenha havido muito mais do que três grandes oportunidades para cada lado, é absolutamente incontestável que ingleses e alemães, sob o comando de Gareth Southgate e Joachim Löw, travaram um dos mais interessantes confrontos táticos nessa edição do torneio. E esse dois treinadores merecem todos os créditos por isso. Enquanto Southgate ainda pode conduzir a Inglaterra ao título continental, Löw fez hoje sua despedida da Euro e também da seleção alemã - deixo aqui registrado que já estou com saudades.

Nesse blógui, elogiei por diversas vezes a Alemanha de Löw. Seguem, a título de ilustração, sete sugestões de leitura: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7. Afinal, o número sete traz ótimas recordações aos amantes do futebol arte, mais precisamente por causa de um evento que aconteceu sete anos atrás...

Só que hoje gostaria de falar um pouco mais dessa seleção inglesa.

Se a gente se debruçar sobre a consistência do jogo do English Team, teremos material suficiente para publicar um tutorial de o que fazer e como fazer para dar a uma partida de futebol a cara que se deseja dar a ela. E com um detalhe: tendo sempre a disposição e a organização necessárias para entrar de forma recorrente no campo de defesa do adversário. Porque uma coisa é você se abdicar do jogo e esperar o oponente te atacar. Outra, é fazer o que a Inglaterra faz de forma exemplar: enfrentar uma grande equipe de peito aberto, defesa postada e com bastante movimentação.

Talvez a primeira lição seja a da resistência. Resistir a uma equipe que chegava ao ataque com Kimmich e Gosens pelos flancos, com Havertz centralizado e tendo Werner como referência mais à frente. Claro que a atuação discreta de Müller compromete o jogo coletivo dos comandados de Löw, mas a Alemanha ainda era Alemanha. Aos trinta e um minutos, na primeira situação em que o sistema defensivo inglês não foi capaz de parar o ataque adversário, o goleiro Jordan Pickford agiu muito bem para bloquear Werner após ótimo passe de Havertz, numa jogada de ataque alemão made in England, afinal, eles são companheiros de Chelsea.

De resto, o que se viu foi Walker, Stones e Maguire formando uma trinca intransponível, com Trippier e Shaw reforçando a marcação pelos flancos. Uma formação que, no papel, é excessivamente defensiva. Notadamente pelo fato de que todos esses cinco tratam-se de jogadores fundamentalmente escalados para marcar e fechar espaços. De quebra, há ainda Phillips e Rice logo adiante. Efetivamente dedicados a construir, quebrar linhas, infiltrar e produzir ofensivamente, somente o trio Saka, Sterling e Kane. Mas o futebol não se analisa pelo que está escrito no papel. Ele precisa ser assistido. E, em se tratando de um Inglaterra e Alemanha como esse, apreciado.

No segundo tempo, um chute forte de Havertz logo aos dois minutos obrigou Pickford a fazer a mais bonita defesa de toda a partida. Poderia ser o indício de que a Alemanha chegaria mais forte para a etapa complementar. Poderia, mas não se confirmou. A bem da verdade, os alemães teriam ainda duas boas chances (uma para abrir o placar, com Werner; outra para empatar o jogo, com Müller) e ambas nasceriam de bolas perdidas por Sterling no campo de ataque.

Mas como criticar Sterling num jogo como esse? Entre um erro e outro, aos vinte e nove minutos, foi exatamente o atacante do Manchester City quem iniciou a jogada que abriu o placar em Londres. Aliás, que jogada! Com toques rápidos na bola, Sterling, Kane, Grealish (que entrara no lugar de Saka) e Shaw participaram de um lance que deixou a Alemanha totalmente envolvida pela troca de passes da Inglaterra. Na conclusão da ótima trama ofensiva, Sterling marcou o terceiro gol dele e da Inglaterra na Euro 2020.

Raheem Sterling comemora o gol: jogador vem se destacando com a camisa da Inglaterra nessa Eurocopa 2020. Foto: Andy Rain / POOL / EPA.

 

Fiel à sua forma de jogar, a seleção inglesa nem recuou nem se tornou mais incisiva. Ela simplesmente, movimento a movimento, observando o comportamento dos jogadores alemães, foi procurando brechas para conseguir chegar ao segundo gol. Aos quarenta minutos, a tal da brecha se tornou uma porta aberta quando Shaw recuperou a posse de bola na altura do meio do campo, avançou, abriu na esquerda com Grealish e o camisa sete, que entrou muito bem no jogo, cruzou à meia altura para Kane. O centroavante, acostumado a marcar gols com a camisa do Tottenham mas sem ter anotado nenhuma vez nessa Eurocopa, poderia bater de voleio - coisa que, por sinal, ele sabe fazer. Mas preferiu usar a cabeça: numa fração de segundo, movimentou o corpo se inclinando na angulação necessária e cabeceando para o chão, marcando dois a zero no jogo e saindo da seca de gols na competição.

Momento exato em que Harry Kane fica duas toneladas mais leve. Foto: Reuters.

 

A Alemanha era toda ataque. E quando digo toda, estou incluindo o goleiro Neuer, que atuava praticamente na linha que divide o gramado. A melhor chance da equipe - diria, inclusive, que a única digna de nota após o prejuízo de dois gols no placar - foi aos quarenta e cinco, numa puxada de Goretzka que Havertz não conseguiu alcançar.

Há que se respeitar o trabalho tático de Southgate na seleção inglesa. A forma como conseguiu conter a Alemanha é reveladora. É possivelmente o time melhor estruturado para inibir o potencial criativo do oponente sem deixar de fazer a transição ao ataque com qualidade. A Inglaterra marca forte e de forma compacta, diminui espaços, dá combate e apresenta bom volume de jogo com a posse de bola. Há formas de fazer essa equipe jogar melhor? Sem a menor dúvida, há. Gostaria de ver, por exemplo, Foden, Grealish, Saka, Kane e Sterling juntos entre os titulares. Isso sem falar em Sancho, jogador bastante querido pelo torcedor e que raramente é aproveitado. Mas, ainda assim, gosto da forma altamente organizada que a equipe atua. Não me enche os olhos como uma Alemanha de Löw, mas é possivelmente a Inglaterra taticamente mais consistente na proposição de jogo que já tive a oportunidade de acompanhar. É fortíssima candidata a levantar o caneco em Wembley. Espero que, se isso acontecer, que seja aproveitando seus jogadores mais talentosos.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Consagração Do Planejamento De LÖWngo Prazo: Alemanha É Tetra No Maracanã

Foto: Juan Mabromata / AFP
"Gott ist Deutsch" quer dizer "Deus é alemão" no idioma de Mario Götze. Ou seria Mario Gottze? O jovem de vinte e dois anos de idade, que é odiado por muitos na cidade de Dortmund graças à opção de trocar o Borussia pelo Bayern de Munique após a temporada 2012-3, fez todo o país vibrar. Entrou em campo aos quarenta e dois minutos no segundo tempo, substituindo ninguém menos que Miroslav Klose, maior goleador na história das Copas do Mundo. Havia feito um gol meio sem querer no empate de 2a2 com Gana (o outro gol alemão naquele jogo foi de Klose, então igualando a marca de Ronaldo). Götze não era elemento dos mais utilizados por Joachim Löw no Mundial. O que poderia fazer diante da excepcional defesa argentina? O camisa dezenove provou que não precisa de muitos minutos nem de muito espaço em campo para fazer a diferença. Precisa de uma oportunidade. E a oportunidade de ouro surgiu aos sete minutos no segundo tempo da prorrogação.

André Schürrle, outro jovem jogador que começou a final no banco, fez linda jogada pelo lado esquerdo. E quando digo "linda jogada" estou me referindo sobretudo ao grau de sucesso levando em consideração o nível de dificuldade da coisa. Schürrle conseguiu, diante da marcação dupla dos gigantes Pablo Zabaleta e Javier Mascherano, acionar Götze num espaço entre outra dupla de gigantes - Martín Demichelis e Ezequiel Garay. Era tudo o que Gott (o Deus) precisava para encaminhar o tetra: Götze (o jogador) em liberdade na área argentina. Uma liberdade condicional, pois logo chegaria o goleiro Sergio Romero para fazer a cobertura. Mas Götze não precisava de nada mais do que o talento que Gott lhe deu: dominou no peito já arrumando para a finalização e completou com a perna esquerda sem sequer deixar a bola encostar na grama. Porque lugar de bola é na rede. Estava feito o gol histórico.
Imagem extraída de DiárioDoPoder.
Após jogada de Schürrle pela esquerda, Götze conclui na pequena área: Alemanha 1a0 Argentina, em momento que será lembrado por gerações.

Não há complexidade de uma final de Copa que caiba em dois parágrafos. E esse texto não ousa comportar em suas humildes linhas todas as variáveis que compuseram tão espetacular decisão de campeonato. O jogo teve um pouco de muita coisa. Um tanto de pouca coisa. E teve algo que não poderia faltar: futebol. Ah, o futebol! Que bênção dos deuses essa final! Reuniu uma seleção com impressionante capacidade de circular a bola com qualidade e outra com incrível aplicação para confrontar de igual para igual um adversário teoricamente superior. A Argentina mostrou-se poderosa. E seu poder estava em algo que não se mede e, se não pode ser medido, também não pode ser contido: a determinação. Determinação desde uma linha de defesa intransponível no seu posicionamento milimétrico até uma linha de ataque ousada em cada tentativa de infiltrar na zaga oponente. Sem esquecer da alma: o meio-campo. Uma alma materializada na camisa catorze de Mascherano. A Alemanha encontrou um adversário à altura. E aqui vão os elogios àquele indivíduo diretamente responsável pela eficiência de cada setor da equipe: o técnico Alejandro Sabella. Conseguiu a proeza de montar a Albiceleste sem criar uma dependência exclusiva do gênio Lionel Messi. Só que se a Argentina, taticamente, era muito mais do que Messi + dez, na prática, os argentinos bem que gostariam de ter um "segundo Messi" no gramado. Poderia ser Ángel di María, que jogou demais nas oitavas (infelizmente ausente na final por contusão). Poderia ser Sergio Agüero, jogador de enorme potencial mas que não fez uma boa Copa (também teve problemas com lesão, só entrando no intervalo na decisão). No primeiro tempo, Ezequiel Lavezzi foi talvez o maior parceiro de Messi. Correndo barbaridade tanto para contra-atacar quanto para recompôr a marcação, o jogador foi um dos destaques nos primeiros quarenta e cinco minutos. Daí meu não entendimento por substituí-lo por Agüero no intervalo. Opção tática ou necessidade clínica? De toda forma, uma alteração corajosa. Alteração de quem tinha mais forte em si o sonho de ganhar o jogo do que o medo de perdê-lo.

A Argentina perdeu muito em combatividade no meio-campo, mas jamais perdeu a consistência. Marcos Rojo, Lucas Biglia e Enzo Pérez se desdobraram para manterem o equilíbrio tático diante da alta rotatividade alemã. Ofensivamente, a Argentina seguia perigosíssima. Esbarrava na excepcional atuação de Jérôme Boateng (era aquilo um zagueiro ou o Muro de Berlim em pleno Rio de Janeiro?). E encaixavam-se as peças de um quebra-cabeça: não foi a Bélgica que tremeu nas quartas, nem a Holanda que teve desempenho pior na semi, tampouco a Alemanha piorou na final. Em todos esses três eventos, foi a Argentina que mostrou-se superior a ponto de inibir qualidades de três grandes adversários.

Para aumentar ainda mais as esperanças no tri, a Argentina tinha Messi com mais uma grande atuação. Passava por Hummels como queria. Invertia o jogo com facilidade. No início do segundo tempo, fez linda jogada individual e finalizou raspando a trave. Era Messi sendo Messi! Tipo o papa rezando a missa! Não importa para que seleção você torça nem que religião você siga, há que se reconhecer o talento onde existe o talento. E Lionel é daqueles para tirarmos o chapéu. Por falta de sorte da Argentina, ele não teve aquela chance de gol frontal que tivera Higuaín. Nem cairia nos pés dele a bola do jogo: na prorrogação, Rodrigo Palacio (que entrou no lugar de Higuaín) recebeu em ótima condição, dominou como manda o figurino e encobriu Manuel Neuer, só que sem conseguir completar/direcionar pro gol.
Foto: Jamie Squire / Getty Images
Rodrigo Palacio tem a bola do jogo na prorrogação: argentino escolheu encobrir o goleiro Neuer e a bola acabou saindo ao lado da trave.

O que a Argentina não conseguiu com Higuaín nem com Palacio, a Alemanha aproveitou com Götze. Está descrito no segundo parágrafo. Estava escrito nas estrelas. Mais precisamente naquela estrela que se junta às outras três, logo acima do escudo alemão. Uma Alemanha que se reinventou com Löw. Que revolucionou sua própria maneira de jogar futebol. Que iniciou o caminho do tetra com um 4a0. E que, desde muito antes de sua ótima passagem pelo Brasil (tanto dentro de campo com uma performance de alto nível quanto fora dele com ótimas relações com a população), mostrava trilhar a direção correta (leia aqui). Parabéns a essa brilhante geração e a esse magnífico técnico de futebol. Diante de todas essas qualidades notáveis na Alemanha e da realidade que foi a final, não resta mais nada senão dar os parabéns, também, à Argentina. Não foi derrotada. Venceu junto com o futebol. E tem todo o direito de sonhar com sua terceira estrela daqui a quatro anos, em Moscou.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Quem Seria O País Do Futebol?

O Brasil de Mano Menezes muito se parece com o Brasil de Dunga. Na partida de ontem, diante da Alemanha, a seleção brasileira voltou a jogar focada em contra-ataques. Contra-atacava bem, mas não tinha nem de longe a mesma qualidade no toque de bola que a apresentada pelos alemães. A julgar pela tradição futebolística dessas duas escolas, a conclusão que chego é que o Brasil de Ricardo Teixeira anda para trás, enquanto a Alemanha, comandada pelo competente e revolucionário Joachim Löw, avança a passos largos e de mãos dadas ao ideal do futebol arte, algo impensável uma década atrás.

Saímos da "Era Dunga", época em que os resultados apareceram mas o futebol, não. Em um ano de "Era Mano", não tivemos nem uma coisa, nem outra. Mudança no comando se faz necessário? Talvez. Mas o que deve ser modificado, sem dúvidas, é a forma de pensar o futebol da seleção brasileira. Figuras como André Santos não combinam com a história de uma camisa que já foi vestida por Nilton Santos. E o que dizer de vestir Fernandinho com a camisa 11, deixando Paulo Henrique Ganso como opção no banco e sequer convocando jogadores qualificados como Kaká e Ronaldinho Gaúcho? Alguma coisa está fora de ordem...

O jogo

A partida teve em seu início - mais precisamente na primeira terça parte do primeiro tempo - um domínio alemão. Domínio esse que invertia aquilo que conhecemos de Alemanha e Brasil: a seleção européia com a bola nos pés, trocando passes e atacando, enquanto o selecionado sul-americano respirava em esporádicos contra-ataques. A qualidade de jogadores como Lúcio, Thiago Silva e Ramires foram relevantes para, diante de cerca de 80% de tempo de posse de bola com os adversários, o Brasil ter conseguido resistir ao 0a0 até os 15 minutos do segundo tempo. A partir dali, o jogo passou a ter no placar uma maior afinidade com os acontecimentos internos às quatro linhas. Após mais uma boa troca de passes, a Alemanha entrou na área brasileira e lá ocorreu um choque entre Lúcio e Toni Kroos, em lance onde a interpretação de pênalti é altamente subjetiva. Para o húngaro Viktor Kassai, houve a penalidade. Para o ótimo Bastian Schweinsteger foi a oportunidade de abrir o placar, que ele aproveitou com uma cobrança bem realizada, no quadrante 11, estufando a rede e sacodindo uma câmera que estava posicionada ali por perto da trave direita.
Bastian Schweinsteiger convertendo o pênalti que abriu o placar em Stuttgart: com atuação fantástica, jogador participou diretamente dos 3 gols alemães no jogo.

Com 21 minutos, Schweinsteiger iniciou magistralmente a jogada que resultou no segundo gol da equipe da casa. Um gol com o "carimbo Joachim Löw de qualidade", isto é, através de toques rápidos e objetivos. O camisa 7 fez "1-2" com Miroslav Klose e serviu Mario Götze com primorosa enfiada de bola. O jovem de 19 anos, campeão alemão com o Borussia Dortmund na última temporada, driblou o goleiro Júlio César e mandou pra rede. 2a0 Alemanha, para agitação de flâmulas listradas horizontalmente em preto, vermelho e amarelo, que davam o colorido nacionalista em Stuttgart.

Quatro minutos depois, um carrinho do capitão alemão Philipp Lahm para desarmar Daniel Alves dentro da área foi interpretado equivocadamente como pênalti por Viktor Kassai. Depois de quatro cobranças desperdiçadas diante dos paraguaios, aquele que seria o quinto a cobrar naquela disputa em La Plata partiu pra bola e... fez o primeiro gol brasileiro: Robinho, mandando no canto direito.

Naquela altura, o Brasil já estava com PH Ganso no lugar de Fernandinho, jogador que apareceu mais cometendo faltas do que criando ocasiões de gol. Talvez inspirado pelo jogador escolhido como titular, uma das primeiras participações de Ganso deu-se com o meia cometendo falta dura, que resultou no primeiro e único cartão amarelo mostrado por Kassai na partida. Na marca de 34 minutos, André Santos, que não apoiava o ataque e nem neutralizava as jogadas ofensivas alemães pelo seu setor, errou na saída de bola e acabou desarmado limpamente por Schweinsteiger. E que beleza de jogador é esse meio-campista do Bayern de Munique: correto na proteção da defesa, eficaz no toque de bola, astuto nas finalizações e incansável no deslocamento, o versátil atleta de 27 anos não somente tirou a redonda de André como serviu caprichosamente o companheiro André Schürrle. A finalização do atacante de 20 anos foi muito bonita, indo parar no ângulo direito.

Se Mano já havia trocado Alexandre Pato por Fred cerca de três minutos antes de levar o terceiro gol alemão, após o 3a1 o treinador trouxe a campo dois jogadores que atuam em campos alemães: entraram o estreante Luiz Gustavo (companheiro de Schweinsteiger no Bayern) e Renato Augusto (que joga com Schürrle no Leverkusen) e saíram André Santos (tomara que para nunca mais retornar) e Robinho (um dos melhores brasileiros em campo, atuando como meia-de-ligação).

Nos acréscimos, Neymar recebeu na proximidade da área, Fred o acompanhou atraindo a marcação, e o santista resolveu o lance sozinho, finalizando rasteiro no canto direito e diminuindo a derrota para 3a2. Entre amistosos com as seleções uruguaia (2a1) e brasileira (3a2), e partidas pelas eliminatórias para a Eurocopa 2012 com Áustria (2a1) e Azerbaijão (3a1), esta foi a quarta vitória consecutiva de uma Alemanha que tem tudo para ser uma das sensações nos torneios vindouros. Com bons resultados desde 2002 e bom futebol desde que Löw assumiu após a Copa 2006, os tricampeões mundiais têm todo o direito de sonhar com uma quarta estrela na camisa no Mundial a ser disputado no Brasil: renovada, rápida, entrosada e envolvente, a Alemanha de Löw está hoje entre os times que mais gosto de ver atuar. Enquanto isso, o Brasil de Mano - que venceu somente o Equador em quatro jogos de Copa América - soma mais uma derrota em partidas com os ditos "adversários top": perdeu para a Argentina em campo neutro (1a0), para a França fora de casa (1a0), empatou em casa com a Holanda (0a0) e, se por um lado conseguiu marcar gols na Alemanha, tomou 3 e conheceu mais um revés.

Ninguém em sã consciência pediria pelo retorno de Dunga (pelo menos espero que não). Mas, analisando jogo a jogo, escalação a escalação, convocação a convocação, estimo que a passagem de Mano Menezes não esteja nada satisfatória. E a julgar pelo que venho vendo dele na seleção, não vislumbro grandes horizontes no caso de sua permanência no comando técnico canarinho.
Mano Menezes esbraveja enquanto Joachim Löw observa: trabalho do brasileiro vem sendo cada vez mais colocado em dúvida enquanto o futebol arte agradece os serviços prestados pelo alemão.

domingo, 4 de julho de 2010

Arrasadora Alemanha Atropela Argentina


A envolvente seleção convocada por Diego Armando Maradona não foi capaz de penetrar na bem postada defesa alemã. De quebra, para não deixar dúvidas quanto ao mérito da classificação dos comandados de Joachim Löw, a Alemanha era absoluta quando detinha a posse de bola e aniquiladora quando saía em contra-ataques.

O 4a0 conquistado na Cidade do Cabo, diante de 64100 espectadores e centenas de milhões de telespectadores, não apenas expôs a fragilidade defensiva argentina como, mais do que isso, exaltou uma Alemanha jamais vista na história do futebol e que se apresenta ao mundo com um novo conceito em relação à tradição alemã de como praticar esse esporte apaixonante. É um prazer ver essa Alemanha de Löw jogar.

Gol no comecinho do jogo não abala os argentinos nem ilude os alemães: equipes atacam e defendem da mesma forma como na primeira fase

Aos 57 segundos de jogo, Mirolsav Klose entra forte em Javier Mascherano e comete falta para parar o contra-ataque. Os alemães mais pessimistas poderiam temer que Klose, a exemplo da segunda rodada na fase de grupos, pudesse complicar sua seleção com uma nova expulsão precoce. Mas o árbitro uzbeque Ravshan Irmatov não precisou tirar qualquer cartão do bolso para inibir o atacante de repetir o ato.

Com 2 minutinhos, Bastian Schweinsteiger faz bela inversão da direita para esquerda servindo Lukas Podolski, que tenta o drible em Nicolás Otamendi e acaba sofrendo falta. Schweinsteiger vem para a cobrança, capricha no levantamento e Thomas Müller não precisa de mais do que um desvio sutil com a cabeça, quase imperceptível, para superar o goleiro Sergio Romero. Já estava aberto o marcador. Müller, que tanto aparece com passes e assistências, fazia seu 4º gol na Copa e igualava-se na lista de goleadores com Gonzalo Higuaín, David Villa, Róbert Vittek e Wesley Sneijder.

Aos 5 minutos, em rápida troca de passes, Schweinsteiger recebe de Philipp Lahm e chuta de média-distância, para fora.

3 minutos depois, Lionel Messi se livra de dois no campo de defesa e liga rapidamente o contra-ataque: Ángel Di María recebe na esquerda mas acaba bloqueado por Lahm no momento do cruzamento.

Na marca de 10 minutos, Otamendi chega forte na canela de Arne Friedrich e recebe o primeiro cartão amarelo da partida.

Com 12', a seleção alemã recupera a bola perto da área argentina, Müller rola para Podolski, o camisa 10 chuta e a bola desvia saindo em escanteio. No minuto seguinte, Carlos Tévez enfia para Di María, que pára e cruza rasteiro para Higuaín, mas o camisa 9 não consegue dominar e é desarmado. A Alemanha responde no minuto posterior: Lahm desce pela direita e cruza para Klose, mas Nicolás Burdisso consegue afastar antes que a bola chegasse no atacante.

Aos 21 minutos, Carlitos Tévez toca de lado para Messi e se manda pra área: o camisa 10 faz a enfiada mas Manuel Neuer consegue chegar antes e recolher. 2 minutos depois, a defesa argentina faz um corte parcial, Müller acredita no lance, chega na bola, avança pela direita e passa para Klose, que chuta por cima do travessão.

Na marca de 28', Di María tem a bola pelo lado direito, centraliza o jogo com Messi, que abre no flanco esquerdo com Gabriel Heinze: o lateral chuta e a bola sai à direita. Com 30 minutos, Tévez corta Podolski e sofre falta - Messi cobra por cima da meta. Aos 32', mais Argentina no ataque: Di María encara marcação de Jérôme Boateng, chuta e Neuer encaixa. Aos 34', Otamendi passa para Higuaín, que leva para o pé esquerdo e chuta para defesa de Neuer, no cantinho esquerdo. Na seqüência, Messi e Müller disputam bola e o alemão, com o braço colado ao corpo, toca na Jabulani: Irmatov apitou e ainda deu cartão amarelo para o camisa 13, prestando um desserviço ao futebol, suspendendo-o da próxima partida. Na cobrança, Messi rola pra Tévez, que pisa na bola para Messi chutar e acertar a barreira. No rebote, Heinze enfia para Tévez, livre, dar a assistência para o gol de empate de Higuaín. Mas a arbitragem acertou ao interpretar que Carlitos estava em posição de impedimento.

Com 38 minutos, Podolski recebe e chuta cruzado, perto da trave esquerda. No minuto seguinte, Mascherano recebe após escanteio pela direita, cruza na área e Neuer afasta antes que a bola chegasse em Martín Demichelis. Mais 2 minutos passados e novo lance de perigo: Mesut Özil recebe bola ajeitada por Müller mas chuta por cima.

Aos 43', contra-ataque alemão: Lahm desce pela direita e passa para Müller que, fazendo da perna um taco de sinuca, dá de bico tentando encaçapar a bola na rede argentina, mas a redonda desvia em Burdisso e sai à direita.

Na marca de 44 minutos, Schweinsteiger pega sobra de fora da área e chuta, isolando. No minuto posterior, Messi dribla Schweinsteiger e chuta por cima.

Tal como nas oitavas, Alemanha resolve a parada nos contra-ataques

A Argentina voltou com os mesmos onze jogadores, mas já tratou de impôr um ritmo mais contundente. Porém, do outro lado estava uma muralha móvel, onde os tijolos eram jogadores vestidos de preto.

Com 2 minutos, Di María chuta de canhota, cruzado à meia-altura, e a bola passa perto da trave direita. Aos 8 minutos, Di María cruza da direita, Maximiliano Rodríguez passa de peito e Tévez chuta firme, mas acerta o rosto de Per Mertesacker. No mesmo minuto, Higuaín passa por Friedrich na velocidade pela direita, cruza rasteiro da linha-de-fundo, Neuer espalma pro lado e Sami Khedira recolhe.

Na marca de 14 minutos, Özil passa para Schweinsteiger no centro do comando de ataque, o camisa 7 dá de três-dedos para Lahm no flanco direito, que desce acompanhado por Heinze, cruza e Romero segura.

Aos 17', Tévez chuta de fora da área e Neuer encaixa. No mesmo minuto, Messi abre na esquerda com Higuaín, que chuta fraco e Neuer defende em dois tempos. No minuto seguinte, Messi limpa o lance, chuta prensado e na sobra Lahm tira de carrinho antes de Higuaín.

Não era por falta de empenho que a Argentina não chegava ao empate. Aos 19', Di María carrega pela direita acompanhado por Boateng, chuta e Neuer encaixa.

Com 22 minutos no cronômetro, a Alemanha chegou. Müller recebe de Khedira e, mesmo caído no gramado, dá enfiada desconcertante para Podolski, demontando toda a defesa argentina. O camisa 10 centra consciente para Klose, que se dá ao trabalho de praticamente entrar com bola e tudo para fazer 2a0.


Klose prestes a fazer 2a0, num dos gols mais fáceis de sua carreira.

O show não pode parar. No minuto seguinte, Podolski recebe na esquerda, tenta encobrir Romero, mas o goleiro segura com tranqüilidade.

Aos 24' e aos 26', a primeira substituição em cada seleção. Maradona trocou Otamendi por Javier Pastore e Löw colocou Marcell Jansen no lugar de Boateng.

Na marca de 27 minutos, Özil abre com Jansen, que cruza e Maxi Rodríguez corta para escanteio.

No minuto seguinte, o 3º gol alemão. Schweinsteiger recebe, faz fila se livrando de três adversários, chega à linha-de-fundo e passa atrás para Friedrich completar pra rede.


Dupla de zaga na área adversária para fazer 3a0: "carrossel alemão"?

Naquele momento, Maradona interrompia as instruções que passava para Sergio Agüero. A missão que já era difícil ficava complicadíssima. O camisa 16 entrou no lugar de Di María.

Com 31 minutos, Tévez recebe e chuta por cima. No minuto seguinte, Löw troca Khedira por Toni Kroos.

Aos 34', Mascherano derruba Klose por trás e recebe amarelo (nenhuma menção estratégica ao lance com 57 segundos de jogo, apenas a exposição dos fatos).

Na marca de 35 minutos, Kroos chuta de fora da área e Romero espalma. 3 minutos depois, a 3ª e última alteração na Alemanha: Müller, em nova grande atuação, por Piotr Trochowski.

Com 39', Pastore carrega da esquerda para o centro e chuta à esquerda. 2 minutos depois, Messi clareia, chuta de fora, Schweinsteiger resvala e Neuer encaixa.

Se a Argentina atacava, a Alemanha fazia o quê? Pois é. Aos 43 minutos, em mais um contra-ataque fulminante, os alemães chegaram: Özil recebe na esquerda e cruza para Klose escorar no contrapé de Romero. O 4º da Alemanha na partida. O 13º da Alemanha na Copa 2010. O 2º de Klose na partida. O 4º de Klose na Copa 2010. O 14º do segundo maior artilheiro da história das Copas, igualando a marca de Gerd Müller e ficando a um gol de Ronaldo Nazário.

Aos 45', quase a despedida de Messi da África do Sul acontecia com um gol: o camisa 10 carregou a bola dominada e chutou no canto esquerdo. Mas Neuer encaixou mais uma vez.

Sem dar um pontapé, os argentinos se despedem do Mundial 2010 com essa goleada na bagagem. Maradona abraçou e beijou cada um de seus comandados, tal como fizera nas partidas em que saíra como vencedor. Novamente, a Alemanha nas quartas foi um obstáculo não superado pela Argentina. O futebol agradece a "Don Diego" pela convocação atrativa e pelo futebol valente que os argentinos apresentaram. E agradece também ao revolucionário Joachim Löw, que, mesmo com tantos desfalques antes de iniciar a competição, montou um grande time. Nenhum alemão, hoje, sente a falta de Michael Ballack ou daquele joguinho feio pragmático. Saudades do futebol de outrora quem tem somos nós, brasileiros.


Löw faz anotações enquanto Maradona observa o jogo: uma nova Alemanha diante de nós.