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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo D

Há três sextas-feiras, foi realizado o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Em postagens anteriores, versamos sobre o grupo A, o grupo B e o grupo C. Vamos, nessa publicação, analisar o grupo D. Para muitos, trata-se de uma das chaves mais fortes do torneio: são três seleções acostumadas ao Mundial e uma estreante que foi a sensação na última Eurocopa.

Grupo D: Argentina, Islândia, Croácia e Nigéria.

Argentina

Se por um lado é verdade que os argentinos quase ficaram de fora da Copa 2018 (contaram com a genialidade de Lionel Messi na rodada derradeira nas Eliminatórias Sul-Americanas para virarem o jogo diante do Equador, em Quito), por outro, é inegável que a seleção comandada por Jorge Sampaoli tem potencial para chegar a mais uma final de mundial.
Argentina: 4ª colocada no ranqueamento da FIFA.

Encontrar um padrão tático talvez seja o maior desafio do ótimo técnico argentino. É desejo de todo amante do futebol arte ver uma seleção dessa enorme qualidade jogando com a fluidez daquela Universidad de Chile que goleou o Flamengo e que encantou a América, ou daquela seleção chilena que rodava a bola de maneira envolvente, independentemente de quem fosse o adversário.

Messi e Javier Mascherano são os líderes de um grupo machucado com tantos "quases". Mas que podem ter, exatamente nessas feridas aparentemente cicatrizadas, um excepcional recurso profilático para novas quedas. Desde a estréia com a empolgada Islândia, a trajetória deverá ser caracterizada pelo esforço coletivo de conseguir jogar um futebol consistente.

O ponto de equilíbrio a ser encontrado talvez gire em torno da solidez dos tempos de Alejandro Sabella com a inventividade típica dos times de Sampaoli. Achando essa "fórmula mágica" e conseguindo manter a cabeça inabalável pelas frustrações recentes, é possível que o país do tango consiga uma trilha sonora mais alegre em solo russo.

Islândia

Líder da chave que tinha a Croácia (olha a coincidência), a Islândia chega embalada para a sua primeira Copa do Mundo, afinal, a menor nação da história das Copas vem de uma Euro-2016 memorável e de uma Eliminatória com campanha maiúscula: sete vitórias, um empate e duas derrotas, com direito a 100% de aproveitamento em seus domínios territoriais. Fora de casa, empatou com a Ucrânia, venceu Kosovo e goleou a Turquia, tendo sido superada somente por croatas e finlandeses.

Islândia: 22ª colocada no ranqueamento da FIFA.
A contribuição de Sigurðsson é notável tanto pelo desenvolvimento do jogo quanto pelos números: autor de quatro gols e três assistências nas Eliminatórias Européias, o ótimo meia do Everton (com passagem marcante pelo Swansea City) participou diretamente de quase metade dos gols da equipe (sete de dezesseis). Na última rodada, quando a vitória por 2a0 sobre o Kosovo em Reykjavik selou a classificação direta, foi o camisa 10 quem marcou o primeiro gol e deu o passe para Guðmunds­son anotar o segundo.

Se Sigurðsson será personagem a atrair atenção dentro de campo, outra grande atração islandesa no Mundial será a presença de sua apaixonada e apaixonante torcida nas arquibancadas: as cidades de Moscou, Volgogrado e Rostov serão agraciadas com a presença desse pessoal barulhento e festeiro na primeira fase. E, se tudo der certo para a equipe e seus adeptos, os vikings poderão desembarcar em outras sedes na seqüência da competição.

Croácia

Se no passado não muito distante a Croácia encantou o mundo com jogadores como Zvonimir Boban (titular no meu time de botão) e Davor Suker (goleador naquela Copa de 1998), hoje a seleção do país também está muito bem servida no setor de criação e de ataque: Modric, Rakitic, Perisic e Mandzukic são jogadores de ponta no futebol mundial e capazes de resolver partidas em um lance individual.

Croácia: 17ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Então, com um time dessa qualidade ofensiva, podemos cravar a Croácia na próxima fase? Não. A qualidade técnica também existia em demasia no Mundial de 2014, mas a realidade é que os croatas caíram em plena fase de grupos naquela oportunidade, ficando atrás de Brasil e México, tendo vencido somente Camarões. A chave de 2018 é de uma força similar daquela. Talvez o maior ganho de lá para cá esteja nos quatro anos de entrosamento somado, pois a espinha dorsal do time comandado por Zlatko Dalic foi inteligentemente sustentada.

Dona da melhor campanha como visitante em sua chave de Eliminatórias (nove pontos em cinco jogos, incluindo a vitória por 2a0 em Kiev no confronto direto com a Ucrânia na última rodada), a Croácia teve vida tranqüila na Repescagem, confirmando a vaga na Copa após golear em casa e empatar fora com a Grécia. Será, acredito, o setor de meio-campo o grande termômetro da seleção da camisa xadrez no Mundial: se as feras Modric e Rakitic renderem, meio caminho andado. Se Perisic estiver inspirado e o centroavante Mandzukic encontrar aquela eficiência do auge de sua carreira, aí bastará a defesa saber se postar para afirmar com todas as letras que o feito de 1998 poderá ser novamente alcançado.

Nigéria

Líder e invicta, com o ataque mais efetivo e a defesa menos vazada num grupo que tinha Zâmbia, Camarões e Argélia, a Nigéria chega a mais uma Copa do Mundo e a mais um "grupo da Argentina".

Nigéria: 50ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Podemos - e devemos - esperar boas coisas de uma seleção com Moses, Obi-Mikel, Iwobi, Iheanacho, Musa e companhia. Os 4a2 de virada sobre a Argentina em Krasnodar foram impactantes, mesmo se tratando de um amistoso.

Naquela partida, o alemão Gernot Rohr (passagens por Gabão, Níger e Burkina Fasso) escalou a equipe numa espécie de 5-3-2 (3-5-2, se consideramos o avanço dos extremos da última linha de defesa). Formação diferente, por exemplo, do 4-5-1 usado nas Eliminatórias durante a vitória por 1a0 sobre Zâmbia, que garantiu a classificação à Copa. Importante observar que, neste jogo, Moses atuou. Diante dos argentinos, não. E Moses, mesmo jogando na meia direita, foi o goleador das Super Águias nas Eliminatórias.

A Copa das Nações Africanas, que começa em janeiro, poderá mostrar se Rohr tem preferência por algum esquema tático específico ou se estuda trabalhar com alternâncias para surpreender os adversários. Com a sua boa rodagem no futebol africano, o treinador alemão deve ter em mente qual é o seu maior desafio: fortalecer e equilibrar a defesa. E isso deve ser feito, necessariamente, sem perder a essência do que há de melhor nas seleções daquele continente, que é a agilidade em encontrar os espaços seja com o drible, seja com a velocidade, seja com as duas coisas juntas e misturadas. E se tem uma seleção da África que mexe com o imaginário popular "esses podem aprontar", essa seleção é precisamente a Nigéria. Okocha, Ikpeba, Finidi, Amokachi, Amunike e companhia não me deixam mentir...

terça-feira, 30 de junho de 2015

A Experiência De Assistir Argentina E Colômbia Em Viña Del Mar

Sausalito! Saudades desse estádio, que tive a feliz oportunidade de visitar no dia 26 de junho de 2015 e no qual pude acompanhar o ótimo jogo entre Argentina e Colômbia, pela fase semifinal na Copa América.

Múltiplas alegrias. A alegria de estar viajando pela primeira vez para o Chile, na maravilhosa companhia da minha mãe. A alegria de estar assistindo o esporte que mais gosto de acompanhar, envolto de duas torcidas festivas. A alegria de estar presente num torneio como a Copa América, o mais antigo entre seleções do mundo. A alegria de assistir o maior da história: Lionel Messi. A alegria, enfim, de uma atmosfera especial.

A chegada ao estádio passava pelo terminal rodoviário de Viña del Mar e foi uma verdadeira aventura, pois chegamos à cidade-sede da partida sem ingressos em mãos - conseguimos buscá-los, gerando uma sensação de alívio. Nos molhamos no oceano Pacífico. Passeamos. E fomos ao jogo.

O estádio, bastante simpático, era de dimensões relativamente reduzidas (comportando algo em torno de vinte e duas mil pessoas) mas caprichado na sua simplicidade. Longe de ser dos mais confortáveis, era, porém, permeado por todo um clima já destacado anteriormente. E se o vento frio fazia despencar a temperatura nas arquibancadas, os festejos das torcidas (argentina, colombiana, chilena... e nós, brasileiros apoiando a Argentina) mantinha a sensação térmica nos conformes.

O jogo foi possivelmente um dos melhores na competição. Muita qualidade técnica dos dois lados e um futebol muito bem desenvolvido pela Argentina. Se a Colômbia decepcionou (muito abaixo da espetacular performance na Copa do Mundo), os argentinos mantiveram um bom nível de jogo, talvez até acima do Mundial. E mereciam a vitória. Vitória que teria acontecido com maior tranqüilidade se não fossem duas intervenções de caráter miraculoso do goleirão Ospina. Vitória que teria sido construída mais naturalmente se as traves estivessem "jogando a favor". Mas vitória que não seria a mesma do que a que de fato foi. Foi sensacional ver o gol da classificação sair nos pênaltis, numa cobrança de Tévez. Tévez, que "eliminou" a Argentina na Copa América 2011, ao desperdiçar, no seu país, a cobrança diante do Uruguai, também na fase quartas-de-final. Mais quatro voltas completas em torno do sol e o planeta Terra pôde testemunhar a volta por cima de Carlitos. Um prazer e um privilégio estar lá, vendo tudo de perto.








quarta-feira, 17 de junho de 2015

Agüero Decide No Clássico Entre Argentina E Uruguai

Foto: Andre Penner / AP Photo.
Argentina e Uruguai, futebol, Copa América.

Com essas poucas palavras já é possível imaginar o que foi o jogo realizado no estádio La Portada de La Serena, válido pela segunda rodada no grupo B. Era o reencontro nesse torneio continental entre essas seleções - na campanha de 2011, o Uruguai eliminou a anfitriã Argentina nas quartas-de-final, nos pênaltis. Lembro-me com carinho da ocasião, pois estava desembarcando no aeroporto de Ezeiza quando a bola rolava naquela partida eliminatória.

Retornando a 2015, o equilíbrio ditou o ritmo na maior parte do tempo, tornando o empate um resultado natural para essa partida. Só que Agüero conseguiu ir à rede após cruzamento de Zabaleta, marcando o gol solitário do jogo aos dez minutos no segundo tempo. Diferentemente do jogo de estréia, a Argentina não conseguiu criar tantas situações que envolvessem o adversário. E talvez o maior mérito desse cenário seja uruguaio, pois os comandados de Tabárez conseguiram encaixar a marcação de maneira a conter (na medida do possível) a efetiva participação de Messi. Do contrário, teríamos provavelmente um placar mais amplo. Outro mérito uruguaio foi o de ter conseguido produzir mais do que na pífia partida de estréia. Mas os desperdícios nas finalizações (talvez com Suárez o placar fosse outro) custaram pelo menos um ponto para a Celeste. Na melhor das chances, Rolan isolou o rebote do goleiro Romero.

Não sei se é intenção de Martino manter a mesma formação para a partida derradeira. Acredito que seja interessante testar a equipe com Tévez fazendo dupla com Agüero ou mesmo Higuaín, deixando Di María como opção para o decorrer dos acontecimentos. Lavezzi também pode ser uma opção para jogar pelos flancos, impondo maior força física pelas beiradas de campo. Enfim, acredito que seja válido experimentar essas situações tanto para procurar variações de jogo quanto para "se adaptar" a um adversário que conta com uma defesa fisicamente mais potente, como é o caso da Jamaica.

Já o Uruguai é mais carente de elementos para reposição. De toda forma, as entradas de Sánchez e Hernández melhoraram a equipe no segundo tempo e talvez sejam boas escolhas para iniciar entre os onze diante dos paraguaios. A habilidade de De Arrascaeta também surge como alternativa na criação de jogadas de ataque, notadamente em se tratando de um time que tem nos lances de bola parada e de chuveirinho suas maiores aptidões - é preciso encontrar outras soluções e o jogo com o Paraguai pode definir a classificação ou a eliminação do atual campeão.

domingo, 14 de junho de 2015

Argentina Joga Com Graça, Mas Paraguai Busca Empate Na Raça

Imagem extraída de FCBarcelona.com.
Argentinos e paraguaios protagonizaram o que considero ter sido a melhor partida na Copa América 2015 nesses primeiros três dias (quatro jogos) de competição. Jogo que teve movimentação desde o início, com a Argentina pressionando o Paraguai, até o final, com as seleções fazendo um jogo franco e sem abdicar da procura pelo gol.

Se alguém viu apenas o primeiro tempo, provavelmente não acreditaria no placar final. Se alguém assistiu somente após o intervalo, não imaginaria o que foi o jogo até então. As seleções de Gerardo Martino e Ramón Díaz (ambos argentinos) alternaram seus momentos de alegria no campo de La Serena: se a Argentina conseguiu abrir 2a0 com 36 minutos, o Paraguai foi buscar o empate na última meia hora, garantindo a emoção num jogo surpreendente.

Teorias para explicar uma partida assim devem existir várias. A minha não é das mais elaboradas: entendo que, por se tratar de um torneio que começa após o final da temporada européia, o desgaste físico foi bastante sentido principalmente por parte da seleção que teve mais jogadores envolvidos em campeonatos mais competitivos - caso da Argentina. Argentina que, por sinal, iniciou a partida com o pé esmagando o acelerador, gerando um sufoco no adversário. O gol inaugural veio após Messi apertar a saída de bola paraguaia em disputa com Samudio - o erro aconteceu e Agüero não desperdiçou. O segundo veio após Di María cair em lance dentro da área, novamente envolvendo Samudio. Pênalti convertido por Messi, que mandou com precisão no canto esquerdo.

Mesmo com Di María atuando muito abaixo do que pode render e inclusive já rendeu em outros anos, a Argentina se sobressaía. Algumas jogadas de ataque aconteciam com tamanha naturalidade que parecia que era questão de tempo para a vitória ficar mais elástica. Só que um lindo chute de Valdéz trouxe a diferença no placar de volta para um gol, proporcionando expectativas de pontuação ao Paraguai, que até minutos atrás era ameaçado de ser goleado. E o que é melhor: graças à postura argentina de mais se dedicar ao ataque do que se preocupar com a defesa, a partida ficou ótima de se assistir. Martino trouxe Tévez (retornando à seleção) e Higuaín para os lugares de Pastore e Agüero. Chances de gol se sucederam aos montes. Os goleiros Romero e Silva foram brilhantes em chutes de Samudio e Pastore, este em lance pouco antes de ser substituído. E a coragem paraguaia foi premiada aos 44': Paulo da Silva rolou e Lucas Barrios, que entrara no lugar de Roque Santa Cruz, chutou rasteiro para igualar o placar. Um ponto muito comemorado pela Albiroja que, na edição passada, foi vice-campeã e tinha como treinador o "agora" argentino Tata Martino.

sábado, 19 de julho de 2014

Equipe E Jogada Da Semana

Dez meses e dez dias sem publicar Equipe E Jogada Da Semana. Chega de esperar, né?

O futebol no Brasil está passando por um momento de transição em seu calendário: sai a Copa do Mundo 2014, retorna o Campeonato Brasileiro 2014. Em comum, o ano e alguns dos estádios. De diferente, muita coisa. Os preços dos ingressos, por exemplo, ficaram mais acessíveis (leia-se menos inacessíveis) ao público que a FIFA procura deixar longe dos jogos. A qualidade das partidas, outro exemplo, caiu abruptamente. Mas, na terra da Confederação Brasileira de Futebol (essa aí que coloca o empresário Gilmar Rinaldi para coordenar as seleções e tenta trazer Dunga de volta para uma coisa que ele nunca foi: técnico), temos, ainda, espaço para grandes jogadas.

Com vocês, o golaço de Neto Baiano. O único na vitória do Sport sobre o Botafogo. Alguns metros a frente do meio do campo. Muitos metros distante da linha final. Em plena estréia do jovem goleiro botafoguense Andrey (21 anos completados no dia seguinte ao jogo). Para deixar de queixo caído cada um dos mais de 18000 presentes na Ilha do Retiro. E, claro, para marcar a décima rodada na liga nacional. E nos permitir ter alguma esperança em dias melhores. Se bem que com essa CBF aí, dá até desgosto...
Neto Baiano, do Sport, marca um golaço praticamente no meio do gramado. Repare na curva que a bola faz antes de entrar.

Agora você pergunta: mas e a equipe da semana? Depois de assistir a final da Copa do Mundo 2014 e rever duas vezes a prorrogação, fica registrada a nossa homenagem à seleção argentina. Vice-campeã mundial com muitas qualidades e que por detalhes do jogo não levantou o troféu no Rio de Janeiro. Se da Alemanha já esperávamos um grande futebol desde antes do megaevento, a Argentina surpreendeu bastante gente com seu futebol consistente (principalmente a partir das quartas-de-final) e de altíssima competitividade, mesmo diante de adversários excepcionais, como os próprios alemães.
Imagem extraída de IG
 Seleção argentina em foto posada pré-jogo na final na Copa do Mundo 2014: equipe jogou de igual para igual com a Alemanha, teve algumas das maiores chances na partida, mas não conseguiu o título. Uma espécie de novo "Maracanazo", só que com outros personagens.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Consagração Do Planejamento De LÖWngo Prazo: Alemanha É Tetra No Maracanã

Foto: Juan Mabromata / AFP
"Gott ist Deutsch" quer dizer "Deus é alemão" no idioma de Mario Götze. Ou seria Mario Gottze? O jovem de vinte e dois anos de idade, que é odiado por muitos na cidade de Dortmund graças à opção de trocar o Borussia pelo Bayern de Munique após a temporada 2012-3, fez todo o país vibrar. Entrou em campo aos quarenta e dois minutos no segundo tempo, substituindo ninguém menos que Miroslav Klose, maior goleador na história das Copas do Mundo. Havia feito um gol meio sem querer no empate de 2a2 com Gana (o outro gol alemão naquele jogo foi de Klose, então igualando a marca de Ronaldo). Götze não era elemento dos mais utilizados por Joachim Löw no Mundial. O que poderia fazer diante da excepcional defesa argentina? O camisa dezenove provou que não precisa de muitos minutos nem de muito espaço em campo para fazer a diferença. Precisa de uma oportunidade. E a oportunidade de ouro surgiu aos sete minutos no segundo tempo da prorrogação.

André Schürrle, outro jovem jogador que começou a final no banco, fez linda jogada pelo lado esquerdo. E quando digo "linda jogada" estou me referindo sobretudo ao grau de sucesso levando em consideração o nível de dificuldade da coisa. Schürrle conseguiu, diante da marcação dupla dos gigantes Pablo Zabaleta e Javier Mascherano, acionar Götze num espaço entre outra dupla de gigantes - Martín Demichelis e Ezequiel Garay. Era tudo o que Gott (o Deus) precisava para encaminhar o tetra: Götze (o jogador) em liberdade na área argentina. Uma liberdade condicional, pois logo chegaria o goleiro Sergio Romero para fazer a cobertura. Mas Götze não precisava de nada mais do que o talento que Gott lhe deu: dominou no peito já arrumando para a finalização e completou com a perna esquerda sem sequer deixar a bola encostar na grama. Porque lugar de bola é na rede. Estava feito o gol histórico.
Imagem extraída de DiárioDoPoder.
Após jogada de Schürrle pela esquerda, Götze conclui na pequena área: Alemanha 1a0 Argentina, em momento que será lembrado por gerações.

Não há complexidade de uma final de Copa que caiba em dois parágrafos. E esse texto não ousa comportar em suas humildes linhas todas as variáveis que compuseram tão espetacular decisão de campeonato. O jogo teve um pouco de muita coisa. Um tanto de pouca coisa. E teve algo que não poderia faltar: futebol. Ah, o futebol! Que bênção dos deuses essa final! Reuniu uma seleção com impressionante capacidade de circular a bola com qualidade e outra com incrível aplicação para confrontar de igual para igual um adversário teoricamente superior. A Argentina mostrou-se poderosa. E seu poder estava em algo que não se mede e, se não pode ser medido, também não pode ser contido: a determinação. Determinação desde uma linha de defesa intransponível no seu posicionamento milimétrico até uma linha de ataque ousada em cada tentativa de infiltrar na zaga oponente. Sem esquecer da alma: o meio-campo. Uma alma materializada na camisa catorze de Mascherano. A Alemanha encontrou um adversário à altura. E aqui vão os elogios àquele indivíduo diretamente responsável pela eficiência de cada setor da equipe: o técnico Alejandro Sabella. Conseguiu a proeza de montar a Albiceleste sem criar uma dependência exclusiva do gênio Lionel Messi. Só que se a Argentina, taticamente, era muito mais do que Messi + dez, na prática, os argentinos bem que gostariam de ter um "segundo Messi" no gramado. Poderia ser Ángel di María, que jogou demais nas oitavas (infelizmente ausente na final por contusão). Poderia ser Sergio Agüero, jogador de enorme potencial mas que não fez uma boa Copa (também teve problemas com lesão, só entrando no intervalo na decisão). No primeiro tempo, Ezequiel Lavezzi foi talvez o maior parceiro de Messi. Correndo barbaridade tanto para contra-atacar quanto para recompôr a marcação, o jogador foi um dos destaques nos primeiros quarenta e cinco minutos. Daí meu não entendimento por substituí-lo por Agüero no intervalo. Opção tática ou necessidade clínica? De toda forma, uma alteração corajosa. Alteração de quem tinha mais forte em si o sonho de ganhar o jogo do que o medo de perdê-lo.

A Argentina perdeu muito em combatividade no meio-campo, mas jamais perdeu a consistência. Marcos Rojo, Lucas Biglia e Enzo Pérez se desdobraram para manterem o equilíbrio tático diante da alta rotatividade alemã. Ofensivamente, a Argentina seguia perigosíssima. Esbarrava na excepcional atuação de Jérôme Boateng (era aquilo um zagueiro ou o Muro de Berlim em pleno Rio de Janeiro?). E encaixavam-se as peças de um quebra-cabeça: não foi a Bélgica que tremeu nas quartas, nem a Holanda que teve desempenho pior na semi, tampouco a Alemanha piorou na final. Em todos esses três eventos, foi a Argentina que mostrou-se superior a ponto de inibir qualidades de três grandes adversários.

Para aumentar ainda mais as esperanças no tri, a Argentina tinha Messi com mais uma grande atuação. Passava por Hummels como queria. Invertia o jogo com facilidade. No início do segundo tempo, fez linda jogada individual e finalizou raspando a trave. Era Messi sendo Messi! Tipo o papa rezando a missa! Não importa para que seleção você torça nem que religião você siga, há que se reconhecer o talento onde existe o talento. E Lionel é daqueles para tirarmos o chapéu. Por falta de sorte da Argentina, ele não teve aquela chance de gol frontal que tivera Higuaín. Nem cairia nos pés dele a bola do jogo: na prorrogação, Rodrigo Palacio (que entrou no lugar de Higuaín) recebeu em ótima condição, dominou como manda o figurino e encobriu Manuel Neuer, só que sem conseguir completar/direcionar pro gol.
Foto: Jamie Squire / Getty Images
Rodrigo Palacio tem a bola do jogo na prorrogação: argentino escolheu encobrir o goleiro Neuer e a bola acabou saindo ao lado da trave.

O que a Argentina não conseguiu com Higuaín nem com Palacio, a Alemanha aproveitou com Götze. Está descrito no segundo parágrafo. Estava escrito nas estrelas. Mais precisamente naquela estrela que se junta às outras três, logo acima do escudo alemão. Uma Alemanha que se reinventou com Löw. Que revolucionou sua própria maneira de jogar futebol. Que iniciou o caminho do tetra com um 4a0. E que, desde muito antes de sua ótima passagem pelo Brasil (tanto dentro de campo com uma performance de alto nível quanto fora dele com ótimas relações com a população), mostrava trilhar a direção correta (leia aqui). Parabéns a essa brilhante geração e a esse magnífico técnico de futebol. Diante de todas essas qualidades notáveis na Alemanha e da realidade que foi a final, não resta mais nada senão dar os parabéns, também, à Argentina. Não foi derrotada. Venceu junto com o futebol. E tem todo o direito de sonhar com sua terceira estrela daqui a quatro anos, em Moscou.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A Campeã Voltou: Nos Pênaltis E Na Raça, Argentina Papa A Laranja

Imagem extraída de EsporteInterativo
Sergio Romero, Pablo Zabaleta, Martín Demichelis, Ezequiel Garay, Marcos Rojo, Javier Mascherano, Lucas Biglia, Enzo Pérez, Lionel Messi, Ezequiel Lavezzi, Gonzalo Higuaín, Rodrigo Palacio, Sergio Agüero, Máxi Rodríguez. Alejandro Sabella. E todos os demais que compõem a delegação argentina na Copa do Mundo 2014. Sem jamais esquecer dos torcedores que dizem exatamente o que sentem nas arquibancadas.

Só há, no parágrafo inicial, menções a heróis. A atuação argentina diante da forte e bem treinada Holanda foi algo para constar nos livros de História.

Capítulo 1: Do contexto.

Imagem extraída de MaisFutebol
Em pleno dia da independência, a Albiceleste conquista, em semifinal disputadíssima com a Holanda, seu retorno a uma final de Copa do Mundo. São vinte e quatro anos desde a última aparição e a adversária será exatamente a Alemanha, oponente em 1990. Naquela época, ainda existia o Muro de Berlim, e a campeã foi a Alemanha Ocidental - quatro anos antes, a Argentina superou a mesma oponente. Nas Américas, jamais um europeu conquistou o caneco mundial. E lá vai a Argentina ao Maracanã, para manter a escrita e para sair de uma fila de títulos que já se arrasta desde a Copa América 1991.

Alfredo di Stéfano, um dos maiores nomes na história do futebol nacional argentino e do planeta como um todo, foi lembrado em São Paulo. Partiu aos 88 anos, essa semana, mas estava presente. Estava presente nas braçadeiras pretas dos jogadores argentinos. Estava presente no minuto de silêncio antes de a bola rolar. Estava, mais que isso, presente na alma de cada jogador que vestia azul-e-branco. Não duvido que a água que caiu sobre o estádio possa ter alguma relação com a emoção do mito que ascendeu.

Capítulo 2: Do talento.

Imagem extraída de Ahe
Mesmo havendo como adversário um time absolutamente bem postado desde o goleiro até o centroavante,
onde existir talento, sempre será fácil reconhecê-lo. Lionel Messi teve muitas dificuldades para achar e criar espaços no gramado em São Paulo. Mas ainda assim desfilou capacidade técnica no Itaquerão. Seu momento mais próximo do gol foi cobrando uma falta sofrida por Enzo Pérez, defendida pelo goleiro Jasper Cillessen. Porém, seus simples deslocamentos pelo gramado e movimentos por entre os defensores laranjas possibilitavam que, se não para si, aparecessem brechas a serem usufruidas por companheiros como Gonzalo Higuaín. Sua maneira de interagir com a bola é única. Seus passos pelo campo, uma marca registrada. Sua postura, plenamente identificável. Um capitão pelo talento, pelo exemplo, que sequer precisa desgastar além da medida suas cordas vocais. Basta olhar para ele e já se sabe o que fazer.

Capítulo 3: Da tática.

Foto: Getty Images
Sempre que você assistir um jogo de futebol onde estiverem presentes jogadores como Messi e Arjen Robben em lados opostos, tenha convicção de que algo de muito interessante poderá acontecer a qualquer momento na partida. Piscar os olhos é perigoso, pois pode ser exatamente ali que o gênio entre em ação. Acontece que tanto Louis van Gaal quanto Alejandro Sabella sabem disso. Um tem o seu Robben e teme o Messi. O outro tem o seu Messi e teme o Robben. Conseguiram ambos os técnicos preparar suas seleções de modo a conter o talento do maior jogador adversário. Não é fácil fazê-lo, e é por isso que precisam ser exaltados: fizeram de maneira esportiva, sem apelar para o antijogo (embora em alguns - raros - momentos tenham havido faltas com único intuito de interromper o progresso do craque).

Este capítulo três merece um parágrafo especial para Sabella. O treinador argentino mostrou aquilo que já foi possível ver desde as oitavas diante da Suíça e, mais ainda, nas quartas diante da Bélgica: solidez. Uma equipe bem distribuída em campo, sobretudo defensivamente. Mostrando uma capacidade quase infinita de estar preparada para o que quer que seja. E do outro lado havia Dirk Kuyt, Daley Blind, Wesley Sneijder, Robben, Robin van Persie. Mas a Argentina Sabella o que estava fazendo e, nas mais de duas horas de jogo, foi uma seleção consistente, valente, determinada. Contagiante.

Capítulo 4: Da raça.

Imagem extraída de EsporteInterativo
Por falar em contagiante, não saem da minha cabeça as imagens de Mascherano e Zabaleta. O volante e o lateral-direito foram sublimes. São os dois polegares que traduzem a impressão digital da seleção argentina. Vira-latas de raça. Pra tornar inofensivo qualquer Pastor Belga, Holandês, Alemão. Protegem a defesa sem perder a referência. Cercam o adversário sem usar a violência. Recuperam a bola mantendo a postura. Avançam e recuam de maneira segura. Gigantes pela própria natureza! Contagiam, contagiam, contagiam. A quem está assistindo de longe, a quem está perto no gramado. Vemos esse contágio quando nossa pele arrepia, quando automaticamente aplaudimos, quando olhamos hipnotizados tamanha bravura. Não tem choque de cabeça nem ombrada no queixo que os abalem. Podem derrubá-los, pois são humanos. Mas jamais enfraquecê-los, porque inabaláveis pelo espírito dos verdadeiros vencedores. E a Argentina consegue mais. Consegue ser mais. É Garay afastando a bola segurando a chuteira na mão direita. É Rojo mandando o perigo para longe mesmo estando mancando. É Romero festejando uma cobrança de pênalti defendida (Ron Vlaar, forte, no centro). É Romero festejando outra cobrança de pênalti defendida (Sneijder, colocada, buscando o ângulo direito). É Máxi Rodríguez partindo para a bola para selar a classificação com cara de quem não consegue conter a emoção. E não consegue porque o sentimento é maior do que o recipiente. Cillessen tocou no pênalti derradeiro. O travessão também encostou na bola. Mas o destino da Brazuca era a rede. Pois o destino da Argentina, só Deus sabe. Talvez o Papa também. Com as bênçãos de Alfredo di Stéfano.
Foto: Getty Images

Capítulo 5: Da final.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Alfredo Di Stéfano. Eterno.

Imagem extraída de Kabir News
Pelo que li de sua biografia, o futebol espanhol em geral e o Real Madrid em particular não seriam os mesmos se não fosse Alfredo di Stéfano.

Sua transferência para os merengues se deu não por um diretor de futebol, não por um presidente de clube, mas pelo Ministro dos Esportes da Espanha - nascia ali a maior rivalidade de clubes do futebol mundial (Real Madrid e Barcelona), em plena ditadura do general Francisco Franco.

307 gols em 371 jogos com a camisa madridista, entre 1953 e 1964. Pentacampeão europeu consecutivamente. Se hoje o Real festeja "la décima", veja o tamanho da contribuição daquela geração.

Nasceu em Buenos Aires, tendo completado 88 anos e 1 dia na data do jogo em que a Argentina eliminou a Bélgica no Mané Garrincha. Deu adeus hoje.

Será lindo se Lionel Messi, ídolo do Barcelona, erguer o troféu no Maracanã homenageando a lenda Di Stéfano.

Descanse em paz, mito. Muchas gracias, Viejo.
Vídeo com alguns momentos de Alfredo Di Stéfano

domingo, 6 de julho de 2014

Papa Francisco Protege: Argentina Elimina Diabos Vermelhos

Foto: Getty Images
Vai passando o tempo, vão sucedendo as fases e chega o inevitável: o cruzamento de grandes equipes para ver quem segue no Mundial e quem se despede. O jogo entre Argentina e Bélgica representa isso. Duas seleções que brilharam em suas Eliminatórias (Argentina campeã na América do Sul; Bélgica líder e invicta em seu chaveamento na Europa). Duas seleções que ganharam todas as partidas que disputaram na Copa 2014 (a Argentina de Bósnia & Herzegovina, Irã, Nigéria e Suíça; a Bélgica de Argélia, Rússia, Coréia do Sul e Estados Unidos). Com todas as qualidades dos selecionados derrotados aqui mencionados, a Bélgica era para a Argentina o que a Argentina era para a Bélgica: seu maior adversário no Mundial até então. Felizardo que sou, aqueles ingressos adquiridos meses atrás, quando sequer os grupos haviam sido definidos, calhou de ser para esse encontro entre argentinos e belgas. E tive a experiência única e inesquecível de presenciar Lionel Messi no estádio Mané Garrincha. Uma bênção!

O clima nos arredores do estádio confundia os desavisados: era Argentina e Bélgica ou Argentina e Brasil? Era um pouco de cada coisa. Felizmente, dentro de campo, não havia brasileiro nenhum. E, na beira do gramado, Alejandro Sabella e Marc Wilmots dando seqüência a dois trabalhos elogiáveis. São times com grandes jogadores, mas que não dependem exclusivamente deles. Têm um sistema cada vez melhor definido. São consistentes. Sabem onde procurar e encontrar os companheiros desmarcados (ou, pelo menos, com mais espaço). Resultado disso, em números, foi a vitória da Argentina por 1a0. Resultado disso, em palavras, foi uma linda tarde em Brasília.

Porém nem tudo são flores, há dissabores, infelicidades (aqui usando trecho do enredo "É De Arrepiar" da Unidos do Viradouro, carnaval 2008). Havia brasileiros mais preocupados em atrapalhar o lazer dos argentinos do que em assistir o jogo em si. Sinceramente: para ir ao estádio nessas condições, é preferível nem ir. Mas cada um é cada um, e fiquei cercado de gente mala por tudo quanto é lado (exceto pelo meu lado direito adjacente, na ótima companhia da minha irmã). Lugar de mala não é no estádio, né? De toda forma, o futebol é muito maior que tudo isso. Lionel Messi é muito maior que tudo isso. E a manifestação dos torcedores argentinos, que foram assistir futebol, anula esses inconvenientes. Foi uma linda festa.

Ver Messi aquecendo no gramado, chutando no gol, já era uma sensação especial por si só. Ainda mais tendo dado a sorte de ficar tão bem posicionado no estádio. Para ter uma idéia, a bola de Gonzalo Higuaín que carimbou o travessão e subiu, por pouco não me atingiu. Aliás, por falar em Higuaín, que partidaça do atacante do Napoli! Marcou o gol no oitavo minuto mostrando oportunismo e precisão, em jogada com participação de Messi e Ángel di María.

Puxa vida... cá estou falando de Di María... Ainda no primeiro tempo, o herói nas oitavas sofreu uma contusão e precisou deixar o campo. Sabella colocou Enzo Pérez em seu lugar. Enzo entrou bem, compôs o meio-campo com ótimo senso de posicionamento. Mas a notícia mais desagradável veio depois: diz-se que a Copa acabou para Di María.

Bem postada, a Argentina não se abateu nem com a saída do camisa sete e conseguiu neutralizar a maioria das jogadas da Bélgica. Conteve o veloz Origi, novamente titular (no segundo tempo, Lukaku entrou em seu lugar). Acompanhou o participativo Fellaini de perto (o camisa oito parecia ter um ímã que atraía o chip e a bola para si). Reduziu os espaços para Hazard (que novamente não produziu o que dele se espera). E manteve-se firme defensivamente mesmo após as entradas de Mertens (saiu Mirallas, que quase marcou gol de cabeça ainda antes do intervalo) e Chadli (substituiu Hazard). Zabaleta foi gigantesco na marcação de Vertonghen. Mascherano foi fundamental na proteção à defesa. Basanta mostrou-se um bom substituto para o suspenso Rojo. Romero correspondeu quando exigido. Demichelis e Garay mostraram-se atentos nos noventa minutos. Biglia passou discreto aos meus olhos, o que considero um bom sinal tratando-se de um volante. Lavezzi buscou jogo, mas teve dificuldades diante de Vertonghen e Kompany. Palacio entrou em seu lugar agregando velocidade, dificultando a saída de bola oponente e nada mais. Também não precisava: Gago substituiu Higuaín para promover a definitiva segurança no meio-campo e os aplausos a um dos melhores jogadores em campo, um camisa nove que fez de tudo - não "apenas" o gol. Só não digo o melhor em campo porque naquele bendito gramado no estádio que carrega o nome do maior em todos os tempos estava ele, o maior que vi jogar. Messi faltou andar em cima da bola. Que categoria! Que elegância! Que talento! Só não marcou mais um na Copa porque sua cobrança de falta teimou em subir alguns centímetros a mais. Centímetros poucos. Ao contrário do goleiro Courtois, de centímetros muitos, cerca de dois metros, que conseguiu parar o gênio em contra-ataque bem diante dos meus olhos. É claro que torci pelo gol do mito, mas fui frustrado. Tudo bem. No final ficaram os aplausos para o goleiraço belga. E para Messi. Viva o futebol! Obrigado, Argentina e Bélgica!

Galeria de imagens de Argentina e Bélgica (incluindo registros pré e pós-jogo).

 Rodinha descontraída antes do jogo começar: Sergio Agüero presente.
 Lionel Messi e Gonzalo Higuaín aparentemente olhando para um ponto em comum: os dois jogaram muito.
 Lionel Messi chutando: a bola foi na gaveta, estufando a rede.
 Mais de Messi.
 Nunca é demais, porque ele é demais: Lionel Messi.
 Argentinos indo para os vestiários antes de voltarem para o jogo: torcedores já os saúdam com fervor.
 Juan Sebastián Verón (à direita): aposentado dos gramados e agora comentarista.
 Torcedores argentinos no estádio Mané Garrincha.
 Torcedores belgas no estádio Mané Garrincha.
 Seleções entrando em campo.
 Alinhando para os hinos nacionais.
 Dizem que os gênios sempre fazem algum movimento diferente. É verdade.
 Os 22 titulares de Argentina e Bélgica e o quarteto de arbitragem.
 Visão do gramado.
 Jogadores celebram a classificação - ao fundo, o lamento da eliminação.
 Argentinos comemorando o momento histórico: retorno às semifinais após 24 anos.
 Papa Francisco presente.
 Belgas agradecem carinho dos fãs.
 Festa argentina no estádio.
 Courtois agradece o público. E digo mais: ele olhou pra mim instantes antes desse registro.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Quando O Anjo Diz Amém: Argentina Elimina Suíça

Argentina e Suíça encontraram conjuntamente o equilíbrio de seus times. Na fase de grupos, ambas as seleções oscilaram de um jogo para outro e também dentro de cada partida analisada isoladamente. Dessa vez, nas oitavas-de-final, Alejandro Sabella e Ottmar Hitzfeld parecem ter conseguido um ponto ideal para balancear defesa e ataque. Aparentemente simples, tal tarefa é digna de elogios. Ainda mais quando se trata de um torneio curto e competitivo como uma Copa do Mundo.

O equilíbrio da Argentina enquanto Argentina e o da Suíça enquanto Suíça proporcionaram um jogo que só poderia ser... equilibrado. Isso já bastaria para dizermos que estávamos diante de mais uma boa partida no Mundial. Só que o jogo em São Paulo foi mais que isso. E muito se deve à postura suíça, pois os argentinos fizeram exatamente aquilo que deles se espera. Gökhan Inler e Valon Behrami, parceiros de Napoli, eram as pilastras que sustentavam todo o esquema tático vermelho. Mas que desabariam se não fossem as bases bem acimentadas com Stephen Lichtsteiner e Ricardo Rodríguez nos flancos, Granít Xhaka ao centro e a dupla Xherdan Shaqiri (possivelmente o melhor jogador da equipe no jogo) e Admir Mehmedi. Claro que todo o esforço desses atletas seria em vão se não fosse a determinação de Johan Djourou e a de seu companheiro de zaga Fabian Schär. Com todos os méritos de conseguir conter jogadores como Lionel Messi, Ezequiel Lavezzi e Ángel di María (o que por conseqüência acaba neutralizando aquele que é abastecido por esses três, o centroavante Gonzalo Higuaín), a Suíça teve como principal - e talvez único - pecado no primeiro tempo o fato de não aproveitar as oportunidades que lhe surgiram. Uma foi com Xhaka, que chutou rasteiro e o goleiro Sergio Romero conseguiu rebater com a perna. Outra foi com Josip Drmic, que recebeu ótima passe de Shaqiri, avançou livre e, na tentativa de fazer um golaço por cobertura, acabou facilitando a defesa de Romero.

A Argentina cresceu no segundo tempo. Cresceu porque conseguiu manter-se firme na defesa ao mesmo tempo que subiu de rendimento quando com a posse de bola. Higuaín teve uma oportunidade em cabeceio, defendida por Diego Benaglio. Messi atraía a marcação de três adversários quando carregava a bola, conseguindo distribuir a redonda para os companheiros desmarcados. O lateral-esquerdo Marcos Rojo desperdiçou um desses presentes do camisa dez.

Com Xhaka amarelado e pouco efetivo, Hitzfeld optou por colocar o cabo-verdiano Gelson Fernandes em seu lugar. Sabella trocou Lavezzi por Rodrigo Palacio. E foi a alteração de Sabella que deu maior efeito prático no jogo: a aproximação entre Palacio e Higuaín possibilitou mais opções para Messi e Di María no momento da criação de jogadas, e a bola parecia ficar cada vez mais próxima da área suíça. Só que entre colocar a bola na área e colocar a bola na rede vai uma diferença. Então, o jogo foi para a prorrogação.

Na prorrogação, quem subiu de produção de maneira decisiva foi Di María. Era visivelmente o jogador argentino em melhor forma física, conseguindo causar grandes dificuldades à defesa adversária com arrancadas que se dava ora pela esquerda, ora pela direita. Um lindo chute de fora da área só não entrou no ângulo esquerdo porque Benaglio conseguiu ir até lá para espalmar. Só que se Di María sobrava, outros jogadores sentiam o peso do cansaço de um jogo duro e em horário ingrato. Rojo e Fernando Gago, exaustos, deram lugar para Basanta e Biglia. Sabella mostrava com essas alterações que não desejava realizar transformações estruturais na equipe, confiando naquela disposição tática. E seu instinto mostrou-se preciso: aos doze minutos no tempo derradeiro, Messi mandou para Di María e o camisa sete mandou cruzado para fazer o gol argentino. Um verdadeiro Ángel di María!

A partir dali, cada minuto restante pareceu uma eternidade para a Argentina manter a vantagem no placar. O goleiro Benaglio virou atacante, juntando-se a sete ou oito suíços na área adversária. Na oportunidade mais incrível, Blerim Dzemaili, que entrara no segundo tempo na prorrogação, cabeceou na trave direita de Romero. A bola ainda voltou nele, só que não foi possível direcioná-la para dentro. Shaqiri ainda cobrou uma falta que representava a última chance de levar o jogo para os pênaltis. E a Brazuca ficou na barreira.

A Argentina, com as bênçãos do papa Francisco, a colaboração do gênio Messi e a graça do anjo de Maria, avança em direção ao paraíso. E se a maçã era o símbolo do pecado na história de Adão e Eva, agora é outro fruto que passa a requerer todo o cuidado do mundo à seleção albiceleste: a laranja. Só que antes, muito antes de pensar nela (ou na perigosíssima Costa Rica), há que se ter vigilância com os Diabos Vermelhos.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Messi Rege Orquestra E Argentina Não Desafina: Líder E 100%

Perguntado se a Copa começaria nas oitavas, o técnico argentino Alejandro Sabella deu uma sábia resposta: a Copa começa nas Eliminatórias.

Se formos analisar as campanhas das seleções sul-americanas no Mundial, veremos como a declaração é ainda mais pertinente do que pode parecer à primeira vista. Três dessas seleções são dirigidas por técnicos argentinos. O Chile, de Jorge Sampaoli, estreou com vitória diante da Austrália, venceu a Espanha em partida que selou a eliminação dos atuais campeões mundiais e bi continentais, e perdeu somente para a Holanda, em jogo equilibrado. A Colômbia, de José Pekerman, venceu todas as três partidas que disputou: 3a0 na Grécia, 2a1 na Costa do Marfim e 4a1 no Japão. E, enfim, a Argentina de Sabella, que também se mantém com 100% de aproveitamento após vencer Bósnia & Herzegovina, Irã e Nigéria. Se o Brasil vive uma crise na função de treinador (pensar que Mano, Dunga e Scolari foram os últimos a dirigirem a seleção brasileira dá até calafrios nos adeptos do futebol arte), parece que a Argentina caminha muito bem, obrigado.

E caminha com as bênçãos do melhor jogador do mundo. Hoje, em Porto Alegre, o Beira-Rio colorido de azul assistiu uma aula de futebol de Lionel Messi. Ele abriu o placar aos dois minutos, desempatou a partida instantes antes do intervalo e foi substituído no segundo tempo, por provável precaução de Sabella com sua principal referência. A agitada partida no Rio Grande do Sul, estado que faz fronteira com a Argentina, contou ainda com uma Nigéria veloz e objetiva: os africanos buscaram a igualdade duas vezes, com dois gols de Musa, mas não conseguiram reestabelecer a igualdade após Rojo marcar 3a2. Nem precisavam: com a vitória da Bósnia & Herzegovina sobre o Irã (3a1), a classificação das Águias estava assegurada (a seleção nigeriana é a primeira do continente africano a garantir classificação numa Copa que já eliminou camaroneses e marfinenses). O ótimo goleiro Enyeama evitou um placar elástico, defendendo pelo menos duas bolas difíceis chutadas por Di María e uma cobrança de falta perfeita realizada por Messi.

A seleção argentina tem o que melhorar. Há espaços na defesa que precisam ser reduzidos - a Nigéria aproveitou duas oportunidades e teve outras ocasiões de perigo explorando inconsistências no sistema defensivo albiceleste. Mas a seleção argentina tem também o que comemorar: ofensivamente, foi a partida mais produtiva da equipe até o momento. Vê-se potencial para o que está bom ficar melhor, mas o caminho parece estar sendo percorrido na direção correta. Com ajustes pontuais e o talento de Messi, a Argentina tem todo o direito de sonhar. Agora, fica a expectativa para que nada de mais sério tenha ocorrido com Sergio Agüero, que precisou deixar o campo ainda no primeiro tempo. É um jogador que ainda não encontrou seu melhor rendimento, mas que certamente agrega bastante ao time.

A Copa, que começou nas Eliminatórias, vai chegando nas oitavas. E com Messi, uma espécie de oitava maravilha do mundo.

sábado, 21 de junho de 2014

Em Jogo Parelho Com O Irã, Messi Resolve No Final E Garante Argentina Nas Oitavas

A Argentina parece ter aprendido algumas lições de sua estréia diante da Bósnia & Herzegovina. Se naquela ocasião o time melhorou de rendimento após passar a jogar com um centroavante de ofício, dessa vez Alejandro Sabella já tratou de iniciar a partida com Higuaín à frente de Di María, Agüero e Messi.

Só que a mera modificação tática não tornou a vida argentina fácil no Mineirão. É que o Irã também tinha os seus recursos para se tornar competitivo no jogo: com um sistema tático retraído e compacto, os comandados de Carlos Queiróz conseguiram armar um muro vermelho que congestionou a intermediária defensiva e conteve na medida do possível as investidas sul-americanas. Foram poucas as oportunidades criadas via toque de bola, com os lances aéreos levando maior perigo para o gol defendido por Haghighi.

E a seleção iraniana não era apenas defesa, apostando em contra-ataques muito bem desenvolvidos, onde quase sempre conseguia encaixar alguma ocasião de dificuldade para a Argentina. O goleiro Romero interviu pelo menos três vezes com grande qualidade para salvar a equipe favorita.

A torcida apoiou. Sabella mexeu (Higuaín e Agüero por Palacio e Lavezzi). A Argentina tentou. E a salvação veio aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo. E quem mais poderia salvar a pátria albiceleste? Ele: Lionel Messi. No seu único chute no jogo que tomou a direção do gol, o camisa dez conseguiu colocar a bola com uma precisão e colocação que tornaram a finalização inalcançável, para delírio de um estádio que conhecia naquela tarde de sábado o seu novo recorde de público.

Essa é a Copa do Mundo 2014: um torneio onde o rótulo de favorito não dá nenhuma garantia de facilidade. Essa é a Argentina: uma seleção que não desiste de seus objetivos em momento algum. Esse é o Irã: determinado e muito competente na sua proposta de jogo. E esse é Lionel Messi: decisivo, diferenciado. Uma bênção para a Copa. Um orgulho para a Argentina.

domingo, 15 de junho de 2014

Maracanã, Messi. Messi, Maracanã.

O Maracanã recebeu na noite desse domingo seu primeiro jogo no Mundial. E foi um jogo com clima de clássico nas arquibancadas, com intensas manifestações de ambos os lados. De um lado, a paixão do torcedor argentino, que exaltava sua própria seleção e incentivava os comandados de Alejandro Sabella. De outro, o medo do torcedor brasileiro, que chegou a vaiar a seleção argentina numa total demonstração de "vocês são importantes para mim e eu não sei lidar com isso de maneira esportiva". Claro que entre argentinos e brasileiros anti-Argentina havia também um grupo de bósnios e de brasileiros pró-futebol. Todos eles devem ter se divertido com a partida: seja pelo bom nível do jogo, seja pela surpreendente atuação da Bósnia, que se mostrou um time sólido.

Foi um confronto que começou de maneira atípica, pois logo na primeira bola que a Argentina colocou na área bósnia, uma infelicidade do defensor Kolasinac abriu o placar em gol contra. Um baque grande para uma seleção que estreava em mundiais. Só que os europeus que se livraram de uma guerra sangrenta em nome da independência da nação são fortes o suficiente para administrar uma situação como essa. E o próprio Kolasinac mostrou-se elemento importante, com ótima atuação na linha de defesa. Ousada na proposta de pressionar a Argentina, a Bósnia & Herzegovina teve as maiores chances de gol no primeiro tempo, dando bastante trabalho para o argentino mais efetivo naquela altura do jogo - o goleiro Romero.

Na volta do intervalo, a Argentina veio com Gago e Higuaín nos lugares de Campagnaro e Máxi Rodríguez, conseguindo ganhar dinamismo no ataque e, o mais importante, dar relevo à atuação de Lionel Messi. Messi foi encontrando espaços em campo e gente com quem trabalhar a bola. Num dos seus momentos de genialidade, tabelou com Higuaín, limpou o lance e chutou sem qualquer chance de defesa para o bom goleiro Begovic: 2a0 no placar.

Foi então que os espaços apareceram ainda mais e as oportunidades, idem. Safet Susic mexeu três vezes na equipe européia e a tornou mais ofensiva do que nunca. O preço que isso cobra é um sistema defensivo exposto a um adversário que contra-atacava com jogadores da qualidade de Messi, Di María, Agüero e Higuaín. Só que a valente defesa da Bósnia & Herzegovina resistiu. Lá na frente, o camisa nove Ibisevic, que entrara no segundo tempo, aproveitou a oportunidade e descontou.

A partir dali, a Argentina viu sua vitória sendo colocada em risco a ponto de Sabella aumentar a marcação no meio-campo para garantir o resultado. Conseguiu garantir mais que isso: também estava assegurada a alegria de uma torcida apaixonada. Os modinhas ficaram aos gritos pseudo-patrióticos de que têm amor e orgulho de nascerem no país que nasceram, embora não estivessem se manifestando nas ruas - essa tarefa ficou com brasileiros que não precisam desse tipo de cântico para se auto-afirmarem cidadãos de uma nação. Talvez fosse bom aos brasileiros anti-Argentina que torceram pela Bósnia & Herzegovina conversar com argentinos e bósnios sobre o que é o patriotismo na opinião dessas pessoas. É possível que seja um passo na direção de começar a cantar alguma coisa diferente no interior de um estádio.

Imune a tudo isso, o talento de Messi foi exaltado de todos os lados. Em sua primeira aparição num dos estádios mais místicos do planeta, não houve quem não se rendesse à sua capacidade de encantar. Esse sim dá orgulho e amor de ver jogar. Que sua participação na Copa seja longa, gênio!

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Serra Dourada, Bola Quadrada

Analisando friamente, o jogo entre Brasil e Argentina foi fraco. Mas se analisarmos a partida levando em consideração a grandeza das duas seleções e o que elas representam para o futebol mundial, então o duelo em Goiânia beirou o patético.

Do ponto de vista técnico, muitos valores individuais a se respeitar, sobretudo vestindo amarelo - o fato de o amistoso se restringir aos jogadores que atuam nas ligas argentina e brasileira foi muito mais prejudicial aos hermanos do que a nosotros.

Do ponto de vista tático, é como se o jogo sequer tivesse acontecido. Talvez a dureza dessas palavras se devam por ter, horas antes, assistido a uma ótima partida entre Chelsea e Juventus, pela Liga dos Campeões da Europa, onde o brasileiro Oscar brilhou ao marcar dois gol no empate em 2a2. Mas independentemente do que acontecera em Stamford Bridge, Brasil e Argentina não podem achar que com esse futebolzinho apresentado no estádio Serra Dourada estejam perto da tradição dessas camisas tão respeitadas pelo planeta bola. Pelo contrário: precisam aumentar a exigência em si mesmos para que, até 2014, honrem as cores que trajam. Com esse futebol, é mais um ultraje.

A Argentina não precisou de mais que um único e solitário chute para abrir o placar. O Brasil empatou em lance de bola parada e com impedimento não marcado por um auxiliar que, se não detectou a irregularidade numa jogada como aquela, não tem condições de seguir na profissão. No final, quando alguns já haviam deixado as arquibancadas, um pênalti cometido nos acréscimos deu ao Brasil a virada e a vitória. O "Superclássico das Américas" terá seu jogo de volta em Resistencia, Argentina. Resistência teremos que ter nós, torcedores numa pátria pentacampeã e entregue a uma Confederação que acredita que Mano Menezes, Luiz Felipe Scolari, Muricy Ramalho, Dunga e companhia sejam técnicos de futebol. Desculpem-me, mas diferenças nos currículos à parte, nenhum destes é.