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domingo, 27 de junho de 2021

República Tcheca Tira Proveito De Expulsão, Vence A Holanda E Se Classifica

A República Tcheca, que se classificou em terceiro lugar na sua chave (com uma vitória na estreia, um empate no segundo jogo e uma derrota no fechamento da chave D) surpreendeu a Holanda, que teve cem por cento de aproveitamento na fase de grupos. Com gols de Holeš e Schick, a equipe soube tirar proveito da vantagem numérica conquistada a partir da expulsão de De Ligt e vai às quartas de final na Eurocopa 2020.

Holanda tem ótimo início e flerta com o gol

Logo no primeiro minuto de partida, aquela Holanda que apresentou um ótimo futebol na primeira fase quando se apresentava em Amsterdã, mostrou sua cara em Budapeste: em lance pela esquerda, Memphis passou para Donyell Malen na infiltração e o cruzamento rasteiro quase encontrou Denzel Dumfries. 

Aos dez minutos, a Holanda chegou novamente, dessa vez pelo flanco direito. Mas Pavel Kadeřábek agiu bem ao cortar a bola e o barato na trama entre Memphis e Dumfries.

Por sinal, como é interessante esse ala direito Dumfries! Um jogador que se apresenta frequentemente no campo de ataque e que, como se não bastasse suas importantes aparições como ponta, também se movimenta mais centralizado e até eventualmente caindo um pouco para a esquerda, o que possibilita causar uma confusão generalizada no sistema de marcação tcheco. Foi exatamente isso que ocorreu aos doze minutos: Dumfries recebeu em velocidade infiltrando do centro para a esquerda, escapou do goleiro Tomáš Vaclík mas teve sua tentativa de cruzamento travada por Tomáš Kalas.

República Tcheca diminui os espaços e equilibra o jogo

Após o convincente início de jogo holandês, que reuniu presença no campo de ataque com movimentação, troca de posições, infiltrações e muita intensidade, a República Tcheca conseguiu encontrar uma forma de diminuir os espaços. A equipe se recusava a subir ao último terço de campo quando a Holanda tinha a bola, aumentando a compactação entre as linhas. Quando tinham a bola, os tchecos mostraram que poderiam criar situações interessantes - se não com a mesma desenvoltura do oponente, mas pelo menos com uma presença no ataque a ser levada em consideração.

Aos vinte e um minutos, Vladimír Coufal cruzou da direita e Tomáš Souček desviou com estilo, de peixinho, num mergulho que mandou a bola à direita da meta. Aos vinte e sete, o goleador Patrik Schick chutou de fora da área e Maarten Stekelenburg defendeu na direita.

A Holanda respondeu aos trinta: Malen trocou passe com Dumfries, chutou e Ondřej Čelůstka bloqueou.

Aos trinta e sete, uma das maiores chances no primeiro tempo aconteceu no ataque tcheco: Lukáš Masopust deu ótimo passe para Antonín Barák, que finalizou firme, praticamente de frente com o goleiro, mas viu seu remate ser interceptado em carrinho providencial de Matthijs De Ligt.

No minuto seguinte, uma ótima resposta holandesa: Dumfries se apresentou novamente pela ponta direita, chegou à linha de fundo e cruzou - o goleiro Vaclík salvou com o joelho esquerdo uma bola que rumava para o centro da pequena área, com endereço de entrega para Malen.

Laranja cria chances, mas é castigada por "amarelo que virou vermelho"

No segundo tempo de jogo, a Holanda voltou com atitude similar àquela do início de partida. Aos quatro minutos, Dumfries foi acionado rapidamente em contra-ataque de ligação direta, chegou na bola, avançou e cruzou para Malen. Se Malen tivesse corrido em linha reta ou, preferencialmente, abrisse um pouco para esquerda, teria condições favoráveis para finalizar. Mas ao se deslocar para a direita, perdeu completamente o tempo do lance e não foi capaz de alcançar a bola.

Dois minutos depois, aos seis, Malen teve outra preciosa oportunidade no ataque: ele avançou com a bola dominada, tinha somente o goleiro Vaclík pela frente e, no embalo da arrancada, tentou driblar com um corte para a direita. Mas Vaclík foi esperto e ligeiro para tocar na bola e ainda evitar a sobra que ficaria com Memphis.

O futebol, às vezes, é cruel com equipes que atacam, produzem, finalizam mas não aproveitam. Aos oito minutos, o jogo mudaria de uma forma que a Holanda não planejava: De Ligt escorregou em lance com Schick e, evitando que o camisa dez ficasse cara a cara com Stekelenburg,colocou a mão na bola. O árbitro indicou a infração e puniu o zagueiro com um cartão amarelo. Mas a arbitragem que gerenciava o recurso tecnológico chamou o russo Sergey Karasev para checar o monitor. Assistindo a repetição do lance, não teve como não ver que era efetivamente uma chance de gol. E Karasev expulsou De Ligt.

Aproveitando vantagem numérica, tchecos abrem o placar 

Frank De Boer optou por trocar um atacante por outro, tirando Malen e colocando Quincy Anton Promes. Tudo bem que Malen já não fazia por merecer seu lugar no campo, mas o gargalo holandês passava a ser o setor defensivo, desfalcado de um zagueiro após a expulsão de seu camisa três. E a República Tcheca soube explorar essa deficiência.

Aos dezoito minutos, Kadeřábek avançou pela esquerda, levantou a cabeça, chutou cruzado e Dumfries colocou a perna esquerda numa bola que tinha o endereço do gol. 

Aos vinte e dois, saiu o gol tcheco: em bola levantada após cobrança de falta pela direita (quase na marca do escanteio), a redonda viajou até o flanco oposto em plena pequena área, Stekelenburg não interveio, Kalas cabeceou pro meio da confusão e Tomáš Holeš, aproveitando o goleiro fora de posição, cabeceou para a rede. Um a zero para a República Tcheca na capital da Hungria. 

Autor do primeiro gol, Tomáš Holeš comemora. Imagem extraída de Meia Hora.

 

Lançada ao ataque, defesa holandesa se desguarnece e tchecos marcam o segundo gol

Se com o jogo empatado De Boer trocou um atacante por outro, com a desvantagem no placar a mexida foi ainda mais ousada no cenário de dez contra onze: aos vinte e sete, saiu o volante Marten De Roon, entrou o centroavante Wout Weghorst.

A Holanda não tinha muito o que fazer a não ser se arriscar no ataque. Aos trinta e um, Dumfries subiu novamente, cruzou rasteiro da direita e a bola atravessou a área tcheca. No mesmo minuto, Tomáš Souček chutou de fora e Stekelenburg pegou no canto direito. Era o recado tcheco: vocês atacam, a gente contra-ataca. Aos trinta e dois, foi a vez de Barák servir Masopust, que chutou colocado na esquerda e Stekelenburg segurou.

Na marca de trinta e quatro minutos, o contra-ataque tcheco foi certeiro: Holeš recebeu na esquerda - um setor escancarado com o acúmulo de acontecimentos, incluindo expulsão de De Ligt, saída de De Roon e subidas recorrentes de Dumfries -, arrancou no espaço vazio e tocou para Schick completar para o gol. O quarto dele nessa Eurocopa 2020.

Com uma situação confortável no jogo, os comandados de Jaroslav Šilhavý administraram a vantagem e o tempo no relógio. E quase marcaram o terceiro aos quarenta e três: Adam Hložek, que entrara minutos antes no lugar de Petr Ševčík, passou para Barák, que não conseguiu dominar.

A Holanda se despede da Euro 2020 nas oitavas após ganhar todas as partidas na fase de grupos. A derrota não deve ser encarada como uma tragédia no trabalho tático. Ao contrário. Ela sinaliza o quanto a competitividade atual pune uma equipe em desvantagem numérica. E que, em cenários como esse, às vezes se faz necessário abrir mão de uma ofensividade característica e reposicionar as peças de forma a procurar minimizar os prejuízos. 

A República Tcheca, por sua vez, avança para enfrentar a Dinamarca. A tendência é que a iniciativa do jogo seja dinamarquesa - uma seleção que, a exemplo da holandesa, também apresenta bastante movimentação e posse de bola. Mas o recado está dado: se vacilar, Schick e companhia não costumam perdoar.

domingo, 13 de julho de 2014

Vale Mais Que O Bronze: Holanda Começa E Termina A Copa Do Mundo Com Goleada

Foto: Natacha Pisarenko / AP Photo
A disputa de terceiro lugar no estádio Mané Garrincha entre Brasil e Holanda deve marcar diferentes significados nas duas seleções. Na brasileira, qualquer reflexão mais aprofundada levará a pessoa a torcer por um ponto de ruptura, isto é, o fim de uma seqüência de trabalho que só acrescentou vergonha ao futebol brasileiro. Quer dizer, é claro que teve aquela gente que se empolgou e aplaudiu os 3a0 sobre a Espanha na Copa das Confederações 2013 (iludidos, movidos pelo resultado)... Mas vamos lá, hoje parece quase consensual que precisamos de mudanças no comando técnico (infelizmente, onda novamente movida por resultados, pois tudo parecia caminhar bem para muita gente antes dos 7a1). Já na seleção holandesa, o cenário projetado é de um futuro mais promissor do que o pré-Mundial: Louis van Gaal encerra um ciclo de dois anos que iniciou após herdar campanha abaixo das expectativas na Euro-2012 e que deixa um legado para a Laranja, invicta tanto nas Eliminatórias quanto na Copa. Equipe rejuvenescida, com boas opções em todos os setores e que ainda deverá ser agraciada com o talento de craques como Arjen Robben (possivelmente o melhor jogador na Copa 2014 e em ótimas condições físicas) bem como a evolução de boas promessas, como o defensor Stefan de Vrij (aparenta uma maturidade muito além dos 22 anos de idade), o meio-campista Georginio Wijnaldum (mostrou qualidades surpreendentes inclusive quando assumiu a posição de Nigel de Jong, e olha que tem somente 23 anos), além de elementos mais ofensivos como Memphis Depay, autor de um golaço diante da Austrália. Para só citar esses três exemplos, que provavelmente estarão entre os jogadores mais importantes de Guus Hiddink, próximo técnico da equipe. Lembrando: a Holanda levou para 2014 somente sete vice-campeões em 2010.

No jogo, a Holanda foi vencedora desde sempre. O futebol perdeu a atuação de Wesley Sneijder, que sentiu a coxa ainda no aquecimento e não jogou. Mas o futebol viu os holandeses, então, tá tudo certo no final das contas. Robben recebeu ótima enfiada de bola e deixou Thiago Silva para trás sem nem pedir licença. Vou passar, tô passando, passei por você. Tal qual uma flecha em direção ao alvo, foi difícil ver em que momento o zagueiro brasileiro cometeu a falta, se antes ou depois da flecha entrar na área grande. O árbitro entendeu que dentro e a verdade é que só fui perceber que ele errou depois de ver a repetição do lance. O erro mais grave foi o de ter dado apenas o amarelo no lance. Robin van Persie cobrou e abriu a contagem já no terceiro minuto. Mais rápido que a Alemanha na semi!

E se quem tem futebol e padrão tático não tem tempo a perder, a Holanda tratou de marcar o segundo aos quinze: em nova jogada de infiltração, onde dessa vez a dúvida era sobre o posicionamento de Jonathan de Guzmán (que estava alguns centímetros adiantado, em impedimento não identificado). Mas não houve dúvidas sobre a incapacidade da defesa brasileira lidar com o ataque holandês: David Luiz rebateu para o lugar que menos se recomenda a um zagueiro e, da marca do pênalti, Daley Blind arrumou duas vezes com a perna esquerda para enfim chutar com a perna direita, estufando a rede brasileira.

No banco de reservas da seleção anfitriã, viam-se orientações sendo dadas aos jogadores. Só que não pelo treinador, e sim por atletas como Neymar (que não jogou a semifinal) e Hulk (que joga mas não joga, sabe como é que é...). Conselhos extra-campo à parte, quem sabia o que fazer no gramado era a Laranja. No segundo tempo, mesmo com tantas alterações (Luiz Gustavo pelo violento Fernandinho, jogador do qual não vi essa faceta quando com a camisa do Manchester City; Paulinho por Hernanes, outro que mais pegou adversários do que bola; e Ramires por Hulk, que entrou para fazer o de sempre, ou seja, correr sem pensar), o Brasil continuava similar. Van Gaal trocou Blind (machucado) por Daryl Janmaat, que apresentou-se diversas vezes ao campo ofensivo. Depois, Joel Veltman entrou no lugar de Jordy Clasie. A torcida brasileira, que começou cantando o hino nacional com força, declarou orgulho e amor pela nação e até mandou o grito de pentacampeão, entregou-se aos fatos. Rolaram vaias quando a equipe amarela tinha a bola e gritos de olé durante a posse de bola holandesa. Havia tempo para mais. Em intensa troca de passe, Janmaat recebeu pela direita e deu a assistência para Wijnaldum transformar a vitória em goleada, nos acréscimos. Havia tempo para mais uma substituição e Van Gaal tratou de colocar o último jogador em campo, o único que ainda não havia atuado: entrou o goleiro Michel Vorm no lugar de Cillessen. Mas era outro goleiro, de outra nacionalidade, que devia estar doidinho para sair de campo, de preferência sem ser visto... Mas relaxa, Júlio César. Apesar do tanto de gols que tomaste, individualmente não é que você se saiu melhor nesse Mundial do que no anterior?

E assim termina a Copa 2014 para Brasil e Holanda. O favoritaço de muita gente não teve uma única atuação convincente. Despede-se com duas derrotas por goleada nas duas últimas partidas. Já a desacreditada pela maioria começou goleando a atual campeã mundial e bi-européia, e concluiu a bela campanha goleando o campeão da Copa das Confederações. Terminou invicta. Com bom futebol. E com motivos para sorrir quando o assunto é "futuro".
Foto: Manu Fernandez / AP Photo

Seleção medalha de bronze: todos vinte e três convocados de Louis van Gaal entraram em campo na campanha invicta da Holanda na Copa do Mundo 2014.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A Campeã Voltou: Nos Pênaltis E Na Raça, Argentina Papa A Laranja

Imagem extraída de EsporteInterativo
Sergio Romero, Pablo Zabaleta, Martín Demichelis, Ezequiel Garay, Marcos Rojo, Javier Mascherano, Lucas Biglia, Enzo Pérez, Lionel Messi, Ezequiel Lavezzi, Gonzalo Higuaín, Rodrigo Palacio, Sergio Agüero, Máxi Rodríguez. Alejandro Sabella. E todos os demais que compõem a delegação argentina na Copa do Mundo 2014. Sem jamais esquecer dos torcedores que dizem exatamente o que sentem nas arquibancadas.

Só há, no parágrafo inicial, menções a heróis. A atuação argentina diante da forte e bem treinada Holanda foi algo para constar nos livros de História.

Capítulo 1: Do contexto.

Imagem extraída de MaisFutebol
Em pleno dia da independência, a Albiceleste conquista, em semifinal disputadíssima com a Holanda, seu retorno a uma final de Copa do Mundo. São vinte e quatro anos desde a última aparição e a adversária será exatamente a Alemanha, oponente em 1990. Naquela época, ainda existia o Muro de Berlim, e a campeã foi a Alemanha Ocidental - quatro anos antes, a Argentina superou a mesma oponente. Nas Américas, jamais um europeu conquistou o caneco mundial. E lá vai a Argentina ao Maracanã, para manter a escrita e para sair de uma fila de títulos que já se arrasta desde a Copa América 1991.

Alfredo di Stéfano, um dos maiores nomes na história do futebol nacional argentino e do planeta como um todo, foi lembrado em São Paulo. Partiu aos 88 anos, essa semana, mas estava presente. Estava presente nas braçadeiras pretas dos jogadores argentinos. Estava presente no minuto de silêncio antes de a bola rolar. Estava, mais que isso, presente na alma de cada jogador que vestia azul-e-branco. Não duvido que a água que caiu sobre o estádio possa ter alguma relação com a emoção do mito que ascendeu.

Capítulo 2: Do talento.

Imagem extraída de Ahe
Mesmo havendo como adversário um time absolutamente bem postado desde o goleiro até o centroavante,
onde existir talento, sempre será fácil reconhecê-lo. Lionel Messi teve muitas dificuldades para achar e criar espaços no gramado em São Paulo. Mas ainda assim desfilou capacidade técnica no Itaquerão. Seu momento mais próximo do gol foi cobrando uma falta sofrida por Enzo Pérez, defendida pelo goleiro Jasper Cillessen. Porém, seus simples deslocamentos pelo gramado e movimentos por entre os defensores laranjas possibilitavam que, se não para si, aparecessem brechas a serem usufruidas por companheiros como Gonzalo Higuaín. Sua maneira de interagir com a bola é única. Seus passos pelo campo, uma marca registrada. Sua postura, plenamente identificável. Um capitão pelo talento, pelo exemplo, que sequer precisa desgastar além da medida suas cordas vocais. Basta olhar para ele e já se sabe o que fazer.

Capítulo 3: Da tática.

Foto: Getty Images
Sempre que você assistir um jogo de futebol onde estiverem presentes jogadores como Messi e Arjen Robben em lados opostos, tenha convicção de que algo de muito interessante poderá acontecer a qualquer momento na partida. Piscar os olhos é perigoso, pois pode ser exatamente ali que o gênio entre em ação. Acontece que tanto Louis van Gaal quanto Alejandro Sabella sabem disso. Um tem o seu Robben e teme o Messi. O outro tem o seu Messi e teme o Robben. Conseguiram ambos os técnicos preparar suas seleções de modo a conter o talento do maior jogador adversário. Não é fácil fazê-lo, e é por isso que precisam ser exaltados: fizeram de maneira esportiva, sem apelar para o antijogo (embora em alguns - raros - momentos tenham havido faltas com único intuito de interromper o progresso do craque).

Este capítulo três merece um parágrafo especial para Sabella. O treinador argentino mostrou aquilo que já foi possível ver desde as oitavas diante da Suíça e, mais ainda, nas quartas diante da Bélgica: solidez. Uma equipe bem distribuída em campo, sobretudo defensivamente. Mostrando uma capacidade quase infinita de estar preparada para o que quer que seja. E do outro lado havia Dirk Kuyt, Daley Blind, Wesley Sneijder, Robben, Robin van Persie. Mas a Argentina Sabella o que estava fazendo e, nas mais de duas horas de jogo, foi uma seleção consistente, valente, determinada. Contagiante.

Capítulo 4: Da raça.

Imagem extraída de EsporteInterativo
Por falar em contagiante, não saem da minha cabeça as imagens de Mascherano e Zabaleta. O volante e o lateral-direito foram sublimes. São os dois polegares que traduzem a impressão digital da seleção argentina. Vira-latas de raça. Pra tornar inofensivo qualquer Pastor Belga, Holandês, Alemão. Protegem a defesa sem perder a referência. Cercam o adversário sem usar a violência. Recuperam a bola mantendo a postura. Avançam e recuam de maneira segura. Gigantes pela própria natureza! Contagiam, contagiam, contagiam. A quem está assistindo de longe, a quem está perto no gramado. Vemos esse contágio quando nossa pele arrepia, quando automaticamente aplaudimos, quando olhamos hipnotizados tamanha bravura. Não tem choque de cabeça nem ombrada no queixo que os abalem. Podem derrubá-los, pois são humanos. Mas jamais enfraquecê-los, porque inabaláveis pelo espírito dos verdadeiros vencedores. E a Argentina consegue mais. Consegue ser mais. É Garay afastando a bola segurando a chuteira na mão direita. É Rojo mandando o perigo para longe mesmo estando mancando. É Romero festejando uma cobrança de pênalti defendida (Ron Vlaar, forte, no centro). É Romero festejando outra cobrança de pênalti defendida (Sneijder, colocada, buscando o ângulo direito). É Máxi Rodríguez partindo para a bola para selar a classificação com cara de quem não consegue conter a emoção. E não consegue porque o sentimento é maior do que o recipiente. Cillessen tocou no pênalti derradeiro. O travessão também encostou na bola. Mas o destino da Brazuca era a rede. Pois o destino da Argentina, só Deus sabe. Talvez o Papa também. Com as bênçãos de Alfredo di Stéfano.
Foto: Getty Images

Capítulo 5: Da final.

domingo, 6 de julho de 2014

Van Gaal Dá A Receita Para A Classificação: Bom Futebol E Duas Laranjas Verdes

Foto: Michael Dalder / Reuters
De tantos gols nos outros jogos que sediou no Mundial, a Fonte Nova se despediu na Copa do Mundo 2014 com uma novidade: um 0a0. Só que o estádio em Salvador foi tão abençoado (nunca subestime a fé dos baianos!), que tivemos entre Holanda e Costa Rica uma das partidas mais emocionantes em todo o torneio. O placar foi apenas para enganar os que perderam um jogaço.

A Holanda foi escalada com Kuyt e Blind nas alas, Sneijder na ligação e Robben, Memphis e Van Persie mais à frente. Formação de dar gosto de ver. A Costa Rica tinha em Bryan Ruíz, Bolaños e Campbell seu trio ofensivo, contando com os cinco defensores e os dois volantes para darem a segurança necessária para conter o poderio ofensivo laranja. Laranja mesmo - a Holanda jogou com camisa, calção e meia na sua cor tradicional, o que acho particularmente belíssimo, um patrimônio do futebol mundial.

O treinador colombiano Jorge Pinto, mais uma vez, conseguiu jogar de igual para igual com um adversário tecnicamente superior. Resistiu defensivamente sem abrir mão de sair para o jogo. Só que a Holanda de Van Gaal foi esmagadora territorialmente, conseguindo principalmente através de Robben prensar a Costa Rica na própria área. O camisa onze laranja faz uma Copa fantástica, apresentando o repertório incrível de sempre e esbanjando uma forma física como talvez nunca antes vista em sua carreira.

Mas então, como explicar a ausência de gol? Em duas palavras: Keylor Navas. Para confirmar de uma vez por todas a excepcional Copa do Mundo do arqueiro costarricense, o camisa 1 só não fez chover porque parecia bem à vontade no gramado sob aquelas condições climáticas. Defesas dignas dos grandes goleiros e que, em alguns momentos, atravessavam a fronteira do futebol profissional para ação de pai-de-santo - seja colocando o corpo na direção da bola quando parecia impossível, seja sendo agraciado pela ação das traves. Ainda contou com ajuda de um companheiro, quando Tejeda evitou o gol holandês de maneira espetacular, desviando de maneira sutil o suficiente para levar a bola ao travessão. Isso no final no segundo tempo, para levar a partida à prorrogação!

Van Gaal havia tentado aquele "algo mais" colocando Lens no lugar de Memphis e Huntelaar no lugar de Bruno Martins Indi, partindo pro ataque de maneira avassaladora e gerando lances espetaculares como os mencionados anteriormente. E outros mais.

Se a Costa Rica resistiu como pôde à pressão holandesa, a verdade é que também ficou perto de mais uma classificação histórica e heróica, parando em defesa salvadora de Jasper Cillessen nos instantes finais.

E aí, quando a gente fica na dúvida de qual goleiro fará história - se Navas ou Cillessen -, surge uma novidade. Surge um trunfo. Navas era atendido no campo de jogo enquanto um goleiro estava no aquecimento na beira do gramado. Só que Navas, costarricense, veste azul. Aquele grandalhão fora do campo vestia verde, a cor do uniforme do holandês Cillessen, inteiraço fisicamente. Como explicar? Navas foi atendido, permaneceu em campo e continuou sua grandiosa atuação. No último minuto na prorrogação, Van Gaal promoveu a última substituição: Cillessen por Tim Krul. Goleiro por goleiro. Era a confiança que o camisa vinte e três fizesse a diferença nos pênaltis. Estava sendo escrito um capítulo único na história das Copas: Krul entrou, acertou o lado em todas as cinco cobranças e, não satisfeito, defendeu os chutes de Bryan Ruiz e Umaña. A Holanda converteu suas quatro penalidades. Mais Navas a declarar. Com dois toques na bola, Krul era determinante a colocar os holandeses nas semifinais. O goleiro fez história. E viva a genialidade e a ousadia de um treinador que parece não cansar de surpreender. O futebol só tem a agradecer.

domingo, 29 de junho de 2014

No Confronto De Invictos, Holanda Elimina México Com Virada Emocionante

Quando alguém te pergunta o nome de um filme que você tenha gostado muito de assistir (aquele pra figurar no topo na lista de preferências), o que você responde? Bem, provavelmente, independentemente do nome da película, a resposta será em referência a alguma obra cinematográfica que tenha final emocionante. Pode ser suspense, drama, aventura. Mas, preferencialmente, com final emocionante. Às vezes o filme nem chega a ser primoroso em seu roteiro ou não tenha uma atuação inesquecível por parte de alguém do elenco. Mas, sendo o final emocionante, tudo muda de figura.

Holanda e México não fizeram um grande jogo no Castelão. Sol forte, horário ingrato, umidade alta, tudo parecia conspirar para uma partida arrastada em Fortaleza. Até a torcida fugiu das áreas iluminadas pelo astro-rei, deixando um clarão nas arquibancadas e procurando abrigo à sombra. Os jogadores não têm essas regalias. Pelo contrário. Uma bola lançada para Robin van Persie não foi dominada da maneira ideal pelo camisa nove muito provavelmente por causa do sol na cara do holandês. Uma marcação implacável. A pausa para reidratação era o mínimo do mínimo que poderia ser feito pelos atletas. Mesmo assim, é lamentável que nos sujeitemos a jogos em horários como esse. Atuar à uma da tarde no nordeste brasileiro é mais grave do que muita mordida no ombro.

Os primeiros vinte minutos foram no ritmo imposto pelo México. Posse de bola entre as duas intermediárias com cada vez mais aproximação da área holandesa. Já com oito minutos, Nigel de Jong deixou o campo por motivos clínicos - Bruno Martins Indi entrou em seu lugar. Uma mudança de nomes para diversas mudanças de posicionamento: Wijnaldum passou a ficar mais centralizado (na função então exercida por De Jong), Blind migrou uma linha à frente (ocupando a posição anterior de Wijnaldum) e Martins Indi foi fazer a lado esquerdo da defesa (onde estava Blind anteriormente). Na dinâmica da partida, pouca coisa mudou do antes para o depois: México com a bola, Holanda correndo atrás.

Curiosamente, os mexicanos atuavam espalhados pelo campo. A alma do time estava no trio formado por Herrera, Salcido e Guardado, que ditava o compasso e tinha a missão de acionar Giovani dos Santos e Peralta. A liderança técnica e psicológica de Rafa Márquez na linha de cinco defensores era a segurança que o México precisava para conter os contra-ataques holandeses, que só ofereciam perigo quando passavam pelos pés de Arjen Robben. Se bem que Van Persie ainda descolou uma ou duas finalizações. Mas foi só. O primeiro tempo foi do sol, do calor e do México, talvez nessa mesma ordem.

No segundo tempo, o gol mexicano veio ligeiro: Giovani dos Santos acompanhou a trajetória da bola e, mesmo vigiado de perto por Blind e com a marcação dobrada, conseguiu chutar no canto esquerdo de Cillessen, abrindo o placar no Ceará. 1a0 e festa da maior parte da torcida presente no estádio.

A Holanda precisaria achar uma nova maneira de jogar. E achou. Com Memphis no lugar de Verhaegh, Louis van Gaal redesenhou a formação tática da equipe: de quatro para três defensores; três meio-campistas; e Memphis aberto pelo flanco esquerdo, possibilitando que Robben ficasse mais dedicado ao lado direito, com Kuyt se deslocando pelos dois extremos.

Se Miguel Ernesto Herrera havia mexido no intervalo por motivo de contusão (Reyes entrou no lugar de Moreno), aos quinze o treinador mexicano substituiu para promover uma mudança estratégica: saiu o autor do gol Giovani dos Santos e entrou o meio-campista Aquino. Uma opção que chamou ainda mais os holandeses para o campo do México. Percebendo o tamanho do perigo e tentando não perder completamente a possibilidade de contra-atacar, Herrera colocou Javier Hernández no lugar de Peralta. Ganhou velocidade, mas não tinha conexão do resto do time com Chicharito.

Van Gaal fez sua última modificação imediatamente depois, trazendo Huntelaar para o lugar de Van Persie. E aqui, aos trinta minutos no segundo tempo, foi dada oportunidade para cornetarmos o consagrado técnico. Senhor treinador, concordamos plenamente que Van Persie não está bem no jogo. E se não está bem é, basicamente, porque não está participando o suficiente para manifestar o seu reconhecido talento. Sneijder recuou para buscar jogo, isolando o atacante. Memphis não vem rendendo aberto pelo lado esquerdo. Blind e Wijnaldum pouco acrescentam na articulação. Apenas Robben representa real ameaça aos adversários. Não seria melhor, caro treinador, mexer em algum elemento mais recuado e trazer alguém que eventualmente pudesse fazer Van Persie aparecer mais?

Mas a cagada, digo, a substituição estava feita. Com determinação e apostando alto em Robben, a Holanda foi criando chances em cima da bem postada defesa do México. Houve um pênalti claro que foi negado à Laranja, em lance onde Robben foi atingido duas vezes, por dois marcadores diferentes - ambos dentro da área. O português Pedro Proença nada assinalara. Como se não bastasse enfrentar sol, calor, umidade elevada e uma arbitragem errante, a Holanda também enfrentava uma zaga liderada por Rafa Márquez e uma baliza protegida por Guillermo Ochoa. Que missão ingrata virar esse jogo!

Foi então que, aos quarenta e dois minutos no segundo tempo no quarto jogo holandês no Mundial, Wesley Sneijder mostrou um pouco do que é, ou melhor, de quem é Wesley Sneijder. Após cobrança de escanteio pelo lado esquerdo, a sobra de bola ficou para o camisa dez holandês, que pegou do jeito que veio para marcar belíssimo gol, não dando sequer oportunidade de reação para Ochoa. Era o empate no Castelão!

Por gols, substituições e reidratação, foram indicados seis minutos como acréscimo. Ou seja, tudo levava a crer que teríamos pela frente uns trinta e seis minutos de futebol praticado no limite da resistência física (já incluindo os dois tempos de quinze minutos de prorrogação). Só que a Holanda queria mais. Ou seja, queria menos tempo de jogo. E era o time com mais jogadores voltados para buscar o gol: enquanto o México era quase que exclusivamente Chicharito no campo ofensivo, os holandeses contavam naquele momento com Sneijder, Kuyt, Robben, Memphis e Huntelaar. E, para confirmar a ótima Copa que vem fazendo, Robben arrancou pelo lado direito, fez um carnaval fora de época na defesa mexicana e caiu ao ter o pé de Rafa Márquez colocado à sua frente. Dessa vez, Pedro Proença assinalou a penalidade máxima, para desespero da seleção que talvez tenha pensado que pênaltis só existiriam se fosse para a série derradeira de desempate.

Lembram da cornetada que tivemos a oportunidade de dar em Van Gaal por ter trocado Van Persie por Huntelaar? Pois bem: aos quarenta e oito, o próprio Huntelaar pegou a bola, colocou na marca e cobrou com categoria, com Ochoa caindo no canto oposto na fotografia. Virada holandesa. Virada laranja. Uma seleção que mostrou que é casca grossa. Que não azeda por qualquer coisinha. E que chega fortíssima na fase quartas-de-final. 100% saborosa. Não é cebola, mas proporcionou lágrimas nos olhos dos mexicanos. E, tal qual filmes que ficam na memória da gente, o jogo no Castelão também merece ser lembrado.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Liderança Laranja: Holanda Vence Chile E Confirma Primeiro Lugar No Grupo

Holanda e Chile justificaram as circunstâncias do jogo nessa tarde de segunda-feira, em São Paulo. Um jogo que virou o confronto direto pela primeira e segunda posições num grupo que conta também com a atual campeã mundial, a Espanha. Espanha que fecha sua participação na Copa do Mundo 2014 com uma vitória por 3a0 sobre a Austrália, com direito a gol de letra de David Villa. Uma despedida como se imagina da seleção espanhola, não no momento em que se imaginava: não conheço ninguém que tenha em algum momento afirmado que os comandados de Vicente del Bosque cairiam na primeira fase. Mas aconteceu, faz parte do futebol, torcemos para que a Espanha consiga reencontrar o seu melhor rendimento (a goleada sobre os australianos talvez seja um passo nessa direção), e agora vamos falar especificamente da partida entre holandeses e chilenos.

Desfalcada de Bruno Martins (zagueiro que se lesionou) e de Robin van Persie (atacante que cumpre suspensão pelo segundo cartão amarelo), a Holanda foi para campo com uma escalação surpreendente: Georginio Wijnaldum entrou no meio-campo onde estávamos acostumados a ver Jonathan de Guzmán enquanto Daley Blind (que faz bela Copa até aqui) foi recuado para a linha de defesa, dando lugar para Dirk Kuyt estrear entre os titulares. Wesley Sneijder, Jeremain Lens e Arjen Robben eram os homens mais adiantados num sistema de jogo que tinha como ponto de equilíbrio a compactação entre as linhas, a recomposição precisa em todos os setores e o elemento Nigel de Jong, que se apropriava do entorno do círculo central como se fosse o verdadeiro dono daquele território. A solidez de Daryl Janmaat, Ron Vlaar e Stefan de Vrij aumentavam a segurança na meta protegida pelo bom goleiro Jasper Cillessen. Ou seja, Louis van Gaal tem o time e o elenco na palma da mão. Escalou surpreendendo e o rendimento foi positivo: diante da forte seleção chilena, a Holanda jogou seu melhor primeiro tempo nessa Copa.

Para alegria de quem gosta do futebol bem jogado, Jorge Sampaoli deu uma contribuição relevante para a qualidade do espetáculo. Honrando a alcunha de "discípulo de Marcelo Bielsa", o argentino montou o time com dois alas (Mauricio Isla e Eugenio Mena), dois volantes que subiam com alguma freqüência (Charles Aránguiz e Marcelo Diaz), além de Felipe Gutiérrez centralizado no que formaria um triângulo ao lado de Alexis Sánchez e Eduardo Vargas. A defesa parecia segura com o trio Gary Medel, Francisco Silva e Gonzalo Jara, contando ainda com o goleiro Claudio Bravo. Evidentemente, o impacto da ausência de Arturo Vidal, peça-chave no sistema tático da equipe, é de uma magnitude inestimável. Mas o Chile mostrou-se um time que pode sobreviver sem seu maior craque, jogando de igual para igual com a bela seleção holandesa e tendo amplo domínio no tempo de posse de bola.

Foi interessante observar o alto nível técnico, tático e de competitividade da partida. Um jogo daqueles em que era possível ver o dedo dos respectivos treinadores para procurar alternativas num confronto com cara e jeito de ser definido em detalhes. Me senti assistindo um jogo de dezesseis-avos-de-final. E o que é melhor, onde nenhum dos dois times seria eliminado. Entre ótimas jogadas individuais de Sánchez e grandes arrancadas de Robben, a partida contava também com a bravura de Medel e multi-utilidade de Kuyt, que parecia estar em todos os cantos no Itaquerão. Felizmente, a arbitragem não agiu para estragar o espetáculo nem complicar as coisas, embora fosse uma partida notadamente difícil de se apitar: eram muitas divididas onde o vigor dos zagueiros se chocava com a agilidade dos atacantes. Não houve pênaltis assinalados e um cartão amarelo para cada lado foi o suficiente para manter a partida estável no aspecto disciplinar. Parabéns para Bakary Papa Gassama, de Gâmbia. Um ótimo primeiro jogo de Copa do Mundo, marcado pela simplicidade em apitar e deixar de apitar, sendo o mais discreto quanto fosse possível, embora sem necessariamente agradar a todos.

Para encontrar um jeito de chegar à vitória, Van Gaal e Sampaoli tiveram que recorrer aos suplentes. O primeiro a mexer foi o argentino, que já no intervalo voltou com Jean Beausejour no lugar de um pouco participativo Gutiérrez. Só que Beausejour não conseguiu ser aquele Beausejour dos tempos de Bielsa, que aparecia no jogo esbanjando versatilidade entre as posições de ataque. A defesa holandesa conseguiu encontrar fórmulas de contê-lo nessa partida. Van Gaal, então, tratou de realizar sua primeira alteração: Memphis Depay no lugar de Lens. Como são dois jogadores de características parecidas, a Holanda não alterou significativamente o seu jeito de jogar, mas ganhou potência nos chutes de longa distância - Bravo evitou que Memphis abrisse o placar em remate de fora da área que tinha o endereço da rede, espalmando com estilo.

A torcida chilena (leia-se chilena, brasileira, paulista, palmeirense) gritou por Jorge Valdívia e Sampaoli acabou atendendo, colocando o camisa dez em campo no lugar de Silva. Uma modificação com explícito espírito ofensivo, diminuindo a marcação na linha de defesa e trazendo alguém para articular o jogo no ataque. Van Gaal, por sua vez, provavelmente não ouviu ninguém pedir por Leroy Fer, mas tratou de colocá-lo em campo no lugar do camisa dez Sneijder. E não é que Fer logo abriria o placar? Dois minutos depois de adentrar o gramado, Fer subiu bem após jogada de escanteio e aproveitou o cruzamento de Janmaat, mandando a bola no canto esquerdo sem dar qualquer possibilidade de defesa para Bravo. 1a0 Holanda em Itaquera, aos trinta e um no segundo tempo.

Se o empate já não servia ao Chile em sua tentativa de terminar em primeiro no grupo B, a derrota no placar foi encarada por Sampaoli como uma necessidade de mexer novamente: Mauricio Pinilla entrou no lugar de Vargas, aumentando a presença de área no ataque chileno. O camisa nove até se esforçou, mostrou-se "brigador" e manteve-se firme na difícil missão de fazer o pivô no meio de tantos zagueiros fortes e competentes. Sánchez continuava se apresentando como a melhor alternativa ofensiva, conseguindo encontrar espaços na base da habilidade. Mas faltava gente para trocar passe com o camisa sete, algo que pouco mudou mesmo com as presenças de Beausejour, Valdívia e Pinilla. O sistema defensivo laranja (é, finalmente a Holanda jogou de laranja nesse Mundial) beirava o impecável. Um dos maiores responsáveis por isso era Kuyt, que pediu substituição após cair no que parecia ser motivado por cãimbras. Terence Kongolo foi o escolhido para substituí-lo e restavam alguns minutos para o apito final. Naquela altura, a virada chilena era improvável, mas o jogo tinha cara de que poderia ser contemplado com mais um golzinho. Então, eis que, nos acréscimos, Robben partiu em disparada puxando contra-ataque pelo flanco esquerdo, foi até a proximidade da linha-de-fundo e tocou na medida para Memphis concluir. Conclusão: 2a0 Holanda e a justa comemoração de Memphis, que foi celebrar com o autor da assistência. Na opinião desse que vos digita, o autor da assistência é o melhor jogador na Copa do Mundo 2014.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Tudo Azul Para A Laranja

A Holanda avassaladora da estréia em Salvador diante da Espanha deu lugar a uma Holanda novamente eficiente, mas sem conseguir repetir aquela enorme quantidade de ocasiões de gol vista na partida anterior. Não que os comandados de Van Gaal tenham tido uma grande queda de rendimento, mas a maior dificuldade em confirmar a vitória se deu provavelmente porque a Austrália conseguiu mais uma boa atuação no Mundial. Por falta de sorte para a representante da Oceania (que disputa as eliminatórias asiáticas, é verdade), os australianos não conseguiram o resultado positivo, a exemplo do que ocorreu diante do Chile. Mas o futebol apresentado pelos Socceroos é digno de elogios, pois, com todas as limitações técnicas, apresentou algo mais que aquele estilo antigo de simplesmente alçar bolas para o alto e ver no que vai dar.

No primeiro tempo, dois gols em seqüência. Aliás, dois golaços um atrás do outro. Primeiro, Robben deu arrancada de quase cinqüenta metros e anotou seu terceiro gol na Copa do Mundo, confirmando a ótima fase técnica (o que não é novidade) e física (o que é uma ótima novidade). Craque. Depois, Cahill acertou um chute estupendo, anotando um dos mais belos gols nessa edição do Mundial, o segundo do camisa quatro.

Na etapa final, o jogo teve momentos maravilhosos, principalmente no período entre o pênalti inventado para a Austrália (segundo jogo seguido que a Holanda vê um árbitro anotar um pênalti pra lá de duvidoso a favor do adversário) e a virada holandesa.

Janmaat não aparentou qualquer intenção de tocar com a mão na bola, mas o árbitro argelino Djamel Haïmoudi deu um chega pra lá no bom senso e indicou penalidade (no susto, no grito, sem qualquer convicção, como sugere a imagem do lance). Talvez seja mais fraqueza de personalidade do que má-fé. De toda forma, um perfil perigoso para se apitar jogos.

Se a Austrália virou o jogo aos nove, a Holanda devolveria a virada pouco tempo depois. Aos treze, Van Persie recebeu de Memphis e finalizou ao seu estilo, com força e precisão. Dez minutos mais tarde, Memphis, que entrou no finalzinho do primeiro tempo no lugar do contundido Bruno Martins Indi (que infelizmente deixou o campo para passar a noite no hospital), marcou o terceiro em chute de fora da área. É importante frisar que o gol de Memphis foi uma jogada de contra-ataque após Leckie quase recolocar a Austrália em vantagem no placar.

Essa vitória combinada ao resultado da partida seguinte acabou classificando a Holanda para a fase oitavas-de-final e eliminando os australianos. São duas seleções que vêm fazendo um belo Mundial e colaborando para a alta média de gols na Copa. Para a Austrália, resta "cumprir tabela" com a atual campeã. Para os holandeses, o confronto diante do Chile vale a liderança numa das chaves mais fortes do torneio. Jogará sem Van Persie, que cumprirá suspensão. Talvez seja o momento certo para tentar alguma variação na formação e tentar resgatar o bom futebol de Sneijder, que pode vir a ser um ótimo diferencial para conduzir a Holanda ao sonho do título, afinal, Robben e Van Persie estão voando e o sistema de jogo parece encaixado principalmente para os contra-ataques.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Laranjástico!

Aconteça o que acontecer em todos os futuros jogos, nenhum se comparará ao Espanha e Holanda. As atuais finalistas da Copa do Mundo proporcionaram um belo espetáculo em Salvador que reservou boas jogadas, lindos gols e uma grande surpresa: a goleada impactante da Oranje que jogou de azul diante da Roja que jogou de branco. 5a1 de virada com direito a um atropelamento no segundo tempo. Detalhe: o gol espanhol saiu num pênalti que não houve, mantendo o índice de jogos contaminados com erros capitais de arbitragem em... 100%.

Sensacionalistas plantonistas jornalistas já repetem discurso semelhante àquele que sucedeu a também surpreendente derrota espanhola na estréia diante dos suíços na Copa passada. Naquela ocasião, ouviu-se de tudo um pouco e se você tiver curiosidade de relembrar algumas das declarações apocalípticas, pesquise nesse mesmo blógui sobre os comentários referentes àquela partida de estréia na África do Sul. Clique para ver o resumão da Espanha na Copa do Mundo 2010.

Vejo a Espanha de 2014 com as mesmas possibilidades de título mundial que a Espanha de 2010. Um déficit grande é que Xavi não é mais aquele - embora ainda seja um jogadorzaço. Diego Costa jamais será um David Villa - embora possa ser útil em algumas variações táticas. A zaga se enfraquece sem Puyol. Mas David Silva parece melhor. Iniesta, idem (se é que isso possa ser humanamente possível). E Del Bosque tem uma grande capacidade de se reinventar sem perder o estilo. Em suma: é preciso respeitar a Espanha. Mesmo que as circunstâncias sugiram qualquer coisa diferente disso.

E o que dizer da Holanda? Só restaram sete jogadores vice-campeões mundiais - os outros dezesseis convocados são "novidades". A equipe rejuvenesceu. O ótimo Bert van Marwijk caiu após o mau rendimento na Euro 2012, quando a Laranja foi eliminada logo na primeira fase. Só que aí está a Holanda, senhoras e senhores. Firme, forte, sólida, leve, envolvente, destemida. Com personalidade. A Holanda é mais que um conjunto de bons jogadores: é uma escola de futebol. Uma escola que ensinou ao mundo o quão bonito é jogar com dois pontas, seja quando for, contra quem for. Um sistema que atravessa décadas e permanece novo, pois foge do usual. E quando você tem jogadores do nível de Sneijder, Robben e Van Persie, tudo fica mais fácil. E belo.

Entre algumas das cenas emblemáticas da partida na Bahia, destaco os gritos de "Olé" das eufóricas arquibancadas: os espanhóis, ironicamente, viveram a situação do touro. Ooooooolé!
 
O futebol deve à Holanda um título mundial. Talvez o "país do futebol" seja o lugar ideal para essa dívida ser acertada. Tivemos um bom indício de que ela poderá ser quitada em breve. Obrigado, Oranje! E boa sorte em suas viagens pelo Brasil!

P.S.: a Espanha vive e isso é bom. Principalmente para o futebol.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Com Vitória, Alemanha Se Aproxima De Vaga E Complica Holanda Na Eurocopa

Holanda e Alemanha é aquele jogo que faltou na Copa do Mundo 2010. Duas seleções que, de alguns anos para cá, conseguem apresentar uma maneira de jogar que une eficiência e beleza, mas que não cruzaram na África do Sul porque havia uma Espanha no meio do caminho.

Dessa vez, na fase de grupos pela Eurocopa 2012, quis o sorteio colocar essas duas potências mundiais em duelo na segunda rodada. E quem levou a melhor foram os alemães, que venceram o jogo por 2a1, se aproximaram da classificação e complicaram a situação dos holandeses, que precisão vencer Portugal por diferença superior a um gol e torcer por vitória alemã diante da Dinamarca. Para a Alemanha, basta um empate no duelo com os dinamarqueses para garantir a classificação e também a 1ª posição no grupo. Se a Holanda vencer, a Alemanha passa de fase independentemente do que aconteça em seu próprio jogo.

O jogo

1 minuto e 15 segundos de troca de passes. Foi assim que começou o jogo holandês, que passava a bola de pé em pé e por muito pouco não terminou a jogada coletiva abrindo o placar em Kharkiv, com o último passe - de Wesley Sneijder para Robin van Persie - sendo recolhido pelo goleiro Manuel Neuer, após o centroavante dar uma leve escorregada no lance.

Se naquele momento van Persie escorregou, aos seis minutos ele acertou a bola de primeira após ser lançado por Mark van Bommel, mas o remate foi seguro por Neuer. Aos sete, a Alemanha chegou pela primeira vez: Mesut Özil pegou a sobra de bola afastada por Van Bommel e mandou de primeira para  gol - a bola bateu na trave esquerda e foi defendida por Maarten Stekelenburg. O jogo era dinâmico: aos oito, Sneijder passou para Ibrahim Afellay pela esquerda, o jovem camisa vinte cruzou rasteiro e Neuer defendeu. Aos dez, Arjen Robben recuperou a bola na altura do meio do campo pelo lado direito, trouxe para dentro e enfiou para Van Persie, que chutou à direita.

A Holanda era melhor e conseguia marcar presença no ataque a quase todo momento. Aos quinze minutos, um lançamento longo para Van Persie na esquerda foi dominado no peito, o camisa dezesseis avançou e a defesa alemã cortou pela linha-de-fundo. Aos dezessete minutos, Robben recebeu centralizado em jogada de contra-ataque e acionou Afellay, que cruzou rasteiro buscando Van Persie mas Mats Hummels cortou em escanteio. Com dezenove, Holger Badstuber subiu na jogada áerea e acabou cabeceando a bola mas também a cabeça de Robben, fazendo sangrar o companheiro de clube - os dois atuam juntos no Bayern de Munique.

No futebol, ser a equipe que chega mais vezes perto do gol não significa que a vitória esteja próxima. No caso da Holanda, que perdeu na estréia para a Dinamarca sendo amplamente superior ao adversário, isso parece ainda mais evidente: aos vinte e três minutos, Thomas Müller passou para Bastian Schweinsteiger e este alemão bisneto de holandeses descolou enfiada de bola para Mario Gómez, que dominou girando o corpo sobre o próprio eixo e concluiu rasteiro. 1a0 Alemanha, segundo gol do "Super Mario" na Eurocopa 2012.

A Alemanha passaria a se sobressair no jogo, mas não sem antes levar um susto: aos vinte e cinco minutos, Robben fintou Philipp Lahm na direita trazendo para dentro, chutou e Neuer foi pegar no canto esquerdo. Aos trinta e um, Müller recebeu na paralela pela direita, cruzou rasteiro e Gómez, acompanhado por Joris Mathijsen, não conseguiu chegar para completar. Aos trinta e cinco, Willems cedeu lateral e o arremesso foi cobrado às suas costas - o jovem holandês calçou Müller por trás, cometendo falta. Na cobrança, Özil colocou na cabeça de Badstuber, que estava livre de marcação e só não mandou na rede porque Stekelenburg interviu de forma salvadora.

A posse de bola era 61% do tempo pertencente aos holandeses, mas quem chegaria ao gol seriam novamente os alemães: aos trinta e sete, Schweinsteiger voltou a servir Gómez e o atacante voltou a aproveitar a chance, chutando cruzado e marcando belo gol no canto direito. A jogada teve início com um lançamento de Neuer, tendo sido bem trabalhada no campo de ataque. Principalmente quando passou pelos pés de Schweinsteiger e chegou no goleador Gómez, autor de todos os três gols alemães na competição.

Aos quarenta, um escanteio mal cobrado por Sneijder iniciou o contra-ataque alemão: Özil avançou, deu na esquerda para Jérôme Boateng e o chute do lateral saiu por cima. Aos quarenta e seis, Lukas Podolski, figura sumida dos lances de bola, cobrou uma falta pela esquerda de maneira surpreendente, mandando direto para o gol quando dava pinta de que sairia um cruzamento - Stekelenburg, atento e elástico, espalmou. Era o último ato na etapa inicial.

No intervalo, Bert van Marwijk trocou Van Bommel por Rafael van der Vaart e Afellay por Klaas-Jan Huntelaar. A dupla alteração naquele momento mostrava a disposição holandesa em atacar a Alemanha e aumentar sua presença de área, de maneira semelhante àquilo que foi visto na estréia da Laranja na Euro. A sólida atuação de Nigel de Jong deve ter servido para encorajar tais modificações, até porque não é qualquer equipe que ousaria atuar diante de um adversário tão qualificado de uma maneira tão ofensiva.

Com seis minutos, Hummels apareceu no ataque alemão como elemento surpresa, carregou, chutou da meia-lua, parou em defesa parcial de Stekelenburg, pegou o próprio rebote e chutou novamente, para nova intervenção do ótimo goleiro holandês, que defendeu no canto direito. Aos doze minutos, Robben avançou pela esquerda, cruzou atrás e Van Persie pegou de primeira, com estilo, parando em defesaça de Neuer, que foi buscar no canto direito.

A diferença no percentual de posse de bola diminuiu, mas a Holanda seguia preponderando, com 54%. Aos dezesseis, Sneijder trouxe a bola da esquerda para dentro fugindo da marcação de Boateng e chutou, mandando perto da trave esquerda. Aos vinte e três, Sneijder apareceu novamente: o camisa dez passou para Robben, que dominou no peito e chutou à esquerda. No minuto seguinte, Mario Gómez recebeu pela esquerda e chutou à esquerda.  Mais um minuto corrido, mais uma chance de gol: aos vinte e cinco, Robben apareceu bem - dessa vez pelo lado direito -, rolou para a esquerda, Sneijder pegou de primeira e Boateng conseguiu bloquear. Após o escanteio, a Alemanha saiu em contra-ataque e quem estava ajudando a defesa para recuperar a posse de bola era Robben, incansável.

Com vinte e seis minutos, Gómez deixou o campo e deu lugar para Miroslav Klose, em alteração que também ocorreu na estréia alemã na competição. E, no minuto seguinte, a Holanda finalmente chegou ao seu primeiro gol no jogo e também no torneio: Van Persie recebeu de Sneijder, avançou e, na entrada da meia-lua, chutou cruzado no canto esquerdo para diminuir a desvantagem no placar.

O gol deu novo ânimo aos comandados de Van Marwijk e, já no minuto posterior, chegou novamente com perigo: Van Persie foi lançado na esquerda mas Hummels cortou o barato ao fazer o corte. Aos trinta, a Alemanha respondeu: Özil recebeu, ficou de frente pro gol, trouxe para a perna direita e acabou desarmado numa bela intervenção de De Jong. Aos trinta e dois, Sneijder passou para Van Persie em jogada de penetração mas o jogador estava cercado de alemães na área, caindo junto de Schweinsteiger em lance interpretado como normal pelo árbitro sueco Jonas Eriksson.

Com trinta e cinco, Joachim Löw trocou Özil por Toni Kroos. Dois minutos depois, Van Marwijk mexeu pela última vez: saiu Robben e entrou Dirk Kuyt. A entrada de Kuyt era uma opção interessante para explorar os cantos do gramado, a exemplo do que foi proposto diante da Dinamarca (naquela oportunidade quem saiu foi Gregory van der Wiel). Mas daí a tirar Robben, uma das figuras mais participativas, insinuantes e efetivas na equipe, foi difícil de entender.

Aos trinta e oito minutos do segundo tempo, uma jogada de efeito de Sneijder pra cima de Boateng merece um parágrafo à parte: o meia recebeu a bola e fez um lindo giro por cima da redonda, atravessando a linha que divide o campo e deixando o marcador para trás esbanjando habilidade e categoria.

Aos trinta e nove, Van der Vaart tentou de fora e mandou à esquerda. Aos quarenta e um, Boateng retardou cobrança de arremesso de lateral e foi punido com cartão amarelo - por ser o segundo no torneio, o lateral desfalcará a Alemanha na próxima partida, diante da Dinamarca. Aos quarenta e quatro, uma bola recuada para Stekelenburg quase terminou em gol de Klose, que dividiu com o goleiro e a redonda passou perto da trave esquerda. Aos quarenta e seis, Müller deu lugar a Lars Bender e, naquele momento a Holanda não incomodava a defesa alemã.

Agora o desafio holandês é resgatar a motivação. Não será nada fácil para um atual vice-campeão mundial entrar em campo dependendo de resultado alheio para ter chance de classificação. Mas, na pior das hipóteses, a equipe precisa jogar a última rodada pela fase de grupos buscando uma vitória que honre a campanha da seleção. O adversário não poderia ser mais apropriado: é Portugal, maior rival da Holanda nos últimos dez anos. Os alemães ainda não exibiram aquele futebol vistoso e empolgante visto na Copa do Mundo, mas a organização tática e a capacidade da equipe de ser consistente com e sem a bola a colocam entre as maiores favoritas ao título europeu esse ano. Mas a torcida que fica é para que aquele futebol reapareça o quanto antes - quem sabe diante da Dinamarca?

Outro resultado

Quarta-feira (Grupo B)

Dinamarca 2a3 Portugal

Situação no grupo

Na última rodada, a Holanda (0 ponto) enfrenta Portugal (3) precisando vencer por mais que um gol de diferença e ainda dependendo de uma vitória da Alemanha (6) diante da Dinamarca (3) para se classificar em segundo lugar no grupo. Com um empate, os alemães garantem o primeiro lugar - caso percam, só não se classificam se os portugueses vencerem os holandeses, tirando diferença no saldo. Para Portugal e Dinamarca, qualquer vitória serve para passar de fase (no caso dos portugueses, há que se observar a disputa no saldo de gols e no número de gols pró em relação aos alemães).

sábado, 9 de junho de 2012

Holanda Joga Bem, Mas Paga Pelo Desperdício: 1a0 Dinamarca

Apareceu a primeira surpresa na Eurocopa 2012. Por se tratar de um grupo com quatro seleções de boa qualidade, não chega a ser uma zebra daquelas que cause grande espanto, mas pouca gente esperava uma vitória dinamarquesa pra cima da Holanda na estréia dessas seleções no torneio continental. E, a bem da verdade, a Dinamarca teve sorte durante o jogo realizado em Kharkiv, no estádio do ucraniano Metalist: a Holanda criou muito mais chances, teve mais a bola e poderia ter um pênalti marcado a seu favor aos 43 minutos do segundo tempo, mas o árbitro esloveno Damir Skomina ignorou a infração cometida.

A primeira chegada ao ataque até foi da Dinamarca, com Agger cabeceando após cobrança de falta pela direita e Stekelenburg segurando, com um minuto de jogo. Mas a Holanda responderia já no minuto seguinte e mostraria grande superioridade dentro de campo. Começou com finalização de Willems, que chutou por cima após receber a bola de Van der Wiel. Aos quatro, Sneijder fez a bola viajar até o lado direito, Van Persie escorou de cabeça e Afellay emendou à esquerda. Aos seis minutos, Robben recebeu de Sneijder no lado esquerdo, cruzou rasteiro e o desvio de Kjaer fez a bola chegar limpa para Van Persie, mas o chute saiu à direita da meta.

Com boa movimentação no setor de ataque, os holandeses conseguiam envolver o sólido sistema defensivo dinamarquês e as chances continuavam aparecendo. Aos nove minutos, Afellay recebeu na esquerda, fintou Jacobsen e chutou por cima. No minuto seguinte, Van Persie lançou Sneijder nas costas de Kjaer e o camisa 10 cabeceou à esquerda, provavelmente tentando encontrar algum companheiro na área. Aos treze minutos quem finalizou foi Van Bommel, mas o chute forte dado após sobra de escanteio saiu por cima.

Depois de tantas investidas com remates sem direção, era chegada a hora do goleiro dinamarquês trabalhar. Aos quinze minutos, Robben recebeu na direita, carregou em diagonal, chutou rasteiro e Andersen pegou. A Dinamarca respondeu com Rommedahl no minuto seguinte, mas Stekelenburg evitou o pior ao interceptar a tentativa de cruzamento vinda do lado direito. O jogo parecia não parar e, mais um minuto corrido no relógio, nova ocasião de gol: Robben tabelou bonito com Van Persie, avançou e tocou de lado uma bola que tinha tudo para ser concluída em gol por um dos dois holandeses que apareciam livres, mas a defesa dinamarquesa conseguiu interceptar no último momento. Aos vinte e dois, Robben carregou, passou para Van Persie e o camisa 16 girou bem, mas chutou à direita.

Era boa a atuação holandesa e o gol parecia cada vez mais perto de acontecer. E ele acabou acontecendo, só que para o lado menos provável: aos vinte e três minutos, Simon Poulsen avançou pelo lado esquerdo, a bola bateu em Van der Wiel e chegou até Krohn-Dehli, que foi ágil e esperto para com um único toque na bola escapar de dois marcadores, finalizando o lance com um chute rasteiro que passou por entre as pernas de Stekelenburg. 1a0 Dinamarca.

O gol sofrido não abateu os comandados de Bert van Marwijk e a Holanda seguiu o jogo com a bola e criando oportunidades de gol. Aos vinte e oito, Vlaar cabeceou à direita após escanteio cobrado por Robben pelo lado direito. Aos trinta e cinco, quase saiu o empate: Andersen saiu jogando errado, Robben recolheu a bola, avançou, arrumou pro chute e carimbou caprichosamente a trave direita. Três minutos depois, Afellay escapou de Agger e chutou por cima.

Apesar de pressionada no campo de defesa, a Dinamarca conseguia escapar de vez em quando. Aos trinta e nove minutos, Bendtner abriu na direita com Jacobsen, o lateral cruzou e Zimling não foi feliz na finalização, chutando mascado uma bola que poderia chegar em Krohn-Dehli. Dois minutos depois, Krohn-Dehli chutou rasteiro de fora da área e Stekelenburg defendeu no canto esquerdo. No minuto seguinte, a Holanda chegou bem quando Sneijder recolheu sobra de lançamento, serviu Van Persie, o camisa 16 não dominou como gostaria mas mesmo assim conseguiu se virar para finalizar, parando no goleiro Andersen. Na seqüência, Sneijder colocou para fora. A Dinamarca teve uma última oportunidade antes do intervalo, mas o escanteio pela direita que bateu em Bendtner acabou seguro por Stekelenburg.

As equipes voltaram com os mesmos jogadores para o segundo tempo, e se a Holanda havia pressionado na etapa inicial, retornou do intervalo estabelecendo um domínio total e absoluto. Para se ter uma idéia da ampla superioridade da seleção laranja, foram sete chances de gol nos primeiros sete minutos. Van Persie, goleador na última edição da Premiership após fazer bela temporada com a camisa do Arsenal, desperdiçou duas delas. O cronômetro avançava e a Holanda mais ainda, com novas oportunidades de gol surgindo. Wesley Sneijder tinha atuação destacada no meio-campo, descolando passes e lançamentos precisos para servir os companheiros, mas o desperdício seguia imperando na hora das finalizações.

Aos vinte e cinco minutos, Van Marwijk tratou de fazer uma dupla substituição: saíram De Jong e Afellay, entraram Van der Vaart e Huntelaar. Van der Vaart entrou no jogo e logo mostrou serviço, aparecendo em dois lances que terminaram um sendo afastado pela defesa e outro saindo por cima. Morten Olsen resolveu mexer na Dinamarca e, aos vinte e oito, trocou Eriksen por Schone. Ainda na marca de vinte e oito minutos, Sneijder deu enfiada de bola deslumbrante com uma trivela certeira para Huntelaar - o camisa 9 parou no goleiro Andersen, que ainda conseguiu chegar antes de Van Persie no rebote para salvar a Dinamarca. Cada treinador mexeria mais uma vez em suas equipes: Olsen, aos trinta e oito, trocou Rommedahl (que deixou o campo irritado) por Mikkelsen; Bert, no minuto posterior, colocou Kuyt no lugar de Van der Wiel. Achei bacana por parte do treinador holandês manter a confiança em Van Persie, mesmo numa tarde onde as coisas não iam bem para o jogador.

Com Sneijder, Kuyt, Van der Vaart, Robben, Van Persie e Huntelaar juntos, a presença da Holanda no campo de ataque era marcante. Aos quarenta e três, Huntelaar disputou a bola dentro da área e Jacobsen fez a interceptação esticando o braço até a bola - pênalti não marcado pela arbitragem, para indignação dos holandeses. A Holanda não se deu por vencida e chegou mais duas vezes, mas as duas jogadas aéreas terminaram em cabeceios para fora. Dizem que os números são frios, mas há alguns dados estatísticos que ilustram bem o que foi o jogo. Veja só esses: Holanda e Dinamarca deram, cada uma, oito chutes na direção do gol. Agora note a quantidade de remates que foram para fora: 20 da Holanda, 0 da Dinamarca.

Se a Holanda conseguir novas atuações desse nível e melhorar a pontaria, ou irá descolar goleadas históricas ou consagrará goleiros adversários. A Dinamarca, para seguir surpreendendo, terá de manter a eficiência na hora de concluir o lance e melhorar um pouco a proteção à defesa - ou torcer para que a sorte volte a lhe sorrir, sobretudo se encontrar um adversário com poderio ofensivo similar ao holandês.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Eurocopa 2012: Pitacos Para O Grupo B

Como você já deve saber, a Euro 2012 terá início no próximo dia oito e reunirá dezesseis seleções divididas em quatro grupos. Na edição 2008, a Espanha se sagrou campeã do continente de maneira convincente. O que será que os deuses do futebol nos reservarão em solos polonês e ucraniano? Vamos descobrir em breve. No tópico anterior, abordamos o grupo A (Polônia, Grécia, Rússia e República Tcheca). Agora é a vez de adentrarmos no grupo B.

Grupo B: Holanda, Dinamarca, Alemanha e Portugal.

Não é somente o "grupo da morte". É, talvez, o grupo mais forte da história recente do futebol mundial. Faz lembrar aquele grupo da Euro 2008, que contava com Holanda, França, Itália e Romênia. Essa é uma chave que promete emoções e, principalmente, boas partidas de futebol.

Com três goleiros de qualidade, uma defesa experiente, um meio-campo criativo e combativo e um ataque avassalador. É assim que a Holanda de Bert van Marwijk se apresenta para a Eurocopa 2012 e, não por acaso, figura entre as favoritas ao título.

São muitos os jogadores de técnica apurada no selecionado holandês e dá gosto ver atletas como Wesley Sneijder, Arjen Robben e Dirk Kuyt preenchendo os espaços no gramado trajando o mesmo uniforme. Mas, a julgar pela temporada 2011-2, a principal esperança da Laranja no torneio reside no desempenho de Robin van Persie, goleador na Premiership (30 gols com a camisa do Arsenal) e, possivelmente, o atual melhor centroavante do mundo (isso se não considerarmos Lionel Messi um centroavante ou mesmo alguém desse mundo). A estréia será diante da Dinamarca, curiosamente a mesma adversária na estréia pela Copa do Mundo 2010. Pitaco: a Holanda avança de fase.

Com um elenco experiente e um treinador que conhece como poucos o futebol do país, a Dinamarca chega na Euro 2012 como grande zebra no grupo B. E se um time que conta com o talentoso Christian Eriksen, o hábil Dennis Rommedahl e o oportunista Nicklas Bendtner pode ser chamado de zebra, você imagina o quão forte é a chave em questão. No amistoso diante do Brasil, os comandados de Morten Olsen melhoraram de rendimento após as entradas  de Thomas Kahlenberg e Rommedahl, restando saber se o treinador escolherá usá-los entre os onze iniciais. Pitaco: a Dinamarca não se classifica.

Alemanha. Tá aí uma seleção que merece atenção especial. Tradicionalmente uma equipe de futebol truculento e pragmático, usando e abusando da força física para fazer os resultados que a interessavam. Mas, depois que um certo Joachim Löw deu o ar da graça, o jogo apresentado pelos alemães teve uma transformação formidável. Talvez seja atualmente um dos maiores expoentes do futebol-arte, com apresentações encantadoras em pelo menos três partidas no Mundial da África do Sul 2010. Atual vice-campeã continental, a vistosa Alemanha de Löw buscará o título. Mas o caminho não será simples, a começar pelo forte grupo que lhe foi sorteado. Com muitos jovens talentos sob o comando de um treinador dos mais competentes, tudo leva a crer que, independentemente do resultado, a Alemanha fará bonito na Eurocopa. Pitaco: a Alemanha avança de fase.

A seleção portuguesa chega na Euro 2012 sem convencer. Talentos individuais existem - vide Fábio Coentrão, Cristiano Ronaldo e Nani. Mas parece que Paulo Bento segue a linha de seus antecessores em dar muito maior atenção à marcação do que à criação de jogadas, o que vejo como um desperdício de um material humano de qualidade à disposição do treinador. Os últimos três amistosos incluem dois empates sem gol com Polônia e Macedônia e uma derrota por 3a1 para a Turquia. Tem todo o direito de sonhar com algo interessante na competição - a geração portuguesa conta com atletas talentosos -, mas se quiser saber o que eu acho... Pitaco: o Portugal não se classifica.

Na próxima postagem será a vez de analisarmos o grupo C.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Amistosos Internacionais De Alto Nível

Nessa quarta-feira, dezenas de amistosos entre seleções agitam o dia no calendário futebolístico. Tomei a liberdade de destacar 5 dessas partidas. Ei-las.

Argentina e Brasil

Em Doha, capital do Reino do Catar, duas gigantes do futebol mundial se reencontrarão após mais de um ano sem se enfrentarem (a última partida entre elas foi em 5 de setembro de 2009, pelas Eliminatórias para o Mundial 2010, vencido pelo Brasil, por 3a1, no território adversário).

Eliminadas nas quartas-de-final (a Argentina foi arrasada pela Alemanha enquanto o Brasil caiu de virada para a Holanda), o duelo sul-americano no Oriente Médio terá um ingrediente para amante do futebol arte nenhum colocar defeito: as presenças de Lionel Messi e Ronaldinho Gaúcho.

Holanda e Turquia

Na Arena de Amsterdã, a Holanda de Bert van Marwijk e a Turquia de Guus Hiddink farão o que promete ser um jogo bastante interessante. Vinda de um vice-campeonato mundial e de uma série invicta enorme - que teve uma pausa naquele gol de Andrés Iniesta no segundo tempo da prorrogação da final da Copa 2010 -, a Holanda encara uma Turquia que está, aos poucos, ganhando a face de seu técnico holandês, convicto implementador da filosofia de jogo ensinada em seu país de origem.

Inglaterra e França

Mais um jogo entre campeões mundiais para apimentar a quarta-feira. Ingleses e franceses não corresponderam às expectativas no último Mundial (o "English Team" caiu nas oitavas para a Alemanha enquanto os "Bleus" foram eliminados como lanternas no grupo A).

Se de lá para cá a Inglaterra não perdeu mais, assim mesmo o técnico Fabio Capello teve de ouvir críticas quanto ao empate sem gol diante de Montenegro. Já pelo lado francês, Laurent Blanc vem trabalhando na tentativa de renovar o elenco que brilhou em 2006 e fracassou em 2010 com o mesmo Raymond Domenech, e que parece ainda sentir falta da genialidade de Zinedine Zidane.

Portugal e Espanha

Em 29 de junho, essas seleções fizeram um duelo ibérico pelas oitavas-de-final do Mundial 2010. Melhor para a Espanha, que avançou com o gol de David Villa e depois se sagraria campeã. A Espanha convocada por Vicente Del Bosque é semelhante àquela, com o único campeão mundial ausente sendo Jesús Navas, contundido. No pós-Copa, a seleção portuguesa conseguiu a proeza de, dentro de casa, empatar com o Chipre numa partida de oito gols.

A qualidade dessa partida depende basicamente da postura lusitana: se tiverem o mesmo estilo visto na Copa, teremos um jogo concentrado no campo de ataque espanhol; se resolverem sair para o jogo e jogar futebol, poderemos ter um duelo bacana entre os países vizinhos.

Chile e Uruguai

O estádio Monumental David Arellano sediará a despedida do técnico Marcelo Bielsa do comando da seleção chilena (o argentino se recusa a trabalhar com o novo presidente da Federação Chilena de Futebol, o empresário Jorge Segovia, a quem já criticara duramente). Pior para a seleção do Chile, que não apenas fez uma boa Copa como exibiu um belo futebol no Mundial. Pelo lado uruguaio, o prestigiado Oscar Tabárez dá seqüência a um trabalho que devolveu a autoestima ao futebol do país com o honroso 4º lugar na África do Sul.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Equipe E Jogada Da Semana

Dois jogos regionais. O primeiro, em Prudente: vitória por 3a2. O segundo, o clássico "SanSão", no Morumbi: vitória por 4a3. Duas vitórias que fazem o São Paulo Futebol Clube recolocar o tema "Libertadores da América" na pauta de discussão. Com 44 pontos ganhos, o Tricolor Paulista aparece em 9º lugar, a 2 pontos do 6º colocado Atlético Paranaense (atual último da zona de classificação para a competição continental 2011). Alimentando as expectativas, a CONMEBOL divulgou hoje que o G3 retornou à condição de G4 (embora um eventual título brasileiro na Copa Sul-Americana retire a 4ª vaga do Campeonato Brasileiro).

Regulamentos à parte, o SPFC tem boas chances de engrenar e subir posições. O trabalho de Paulo César Carpeggiani começa de forma positiva, resta saber se os resultados seguirão aparecendo. E as duas próximas rodadas podem ter caráter decisivo: primeiro, o Ceará no Castelão; na seqüência, o típico "jogo de seis pontos", dentro de casa com o Atlético Paranaense, time que Carpeggiani conhece bem. Outrora carta fora do baralho, será que hoje alguém descarta o São Paulo de uma vaga na Libertadores?

Jogada da semana

Holanda e Suécia duelaram na Arena de Amsterdã pelas Eliminatórias para a Euro-2012. Uma partida que não assisti - adoraria tê-la visto ao vivo, na íntegra - mas pude me encantar pelo simples fato de assistir aos gols do jogo. Que belas jogadas! Que envolvente a seleção comandada por Bert van Marwijk!

Logo aos 3 minutos, uma troca de passes rasteiros colocou Klaas-Jan Huntelaar em condições de abrir a contagem - e o camisa 9 não desperdiçou. O 2º gol do jogo aconteceu aos 36 minutos e nasceu após erro da equipe sueca: Wesley Sneijder recuperou a posse de bola e deu passe preciso, cabendo a Ibrahim Afellay finalizar para ampliar a vantagem.

Na segunda etapa, aconteceu a jogada que achei mais interessante: Afellay encarou a marcação adversária pelo lado esquerdo exibindo grande intimidade com a bola. Depois, o camisa 11 cruzou na medida para Huntelaar fazer 3a0, aos 9 minutos. 4 minutos depois, viria o 4º: em contra-ataque inapelável, Sneijder passou para Huntelaar, que colocou na área para Afellay dominar e chutar para estufar a rede sueca. Na marca de 23 minutos, a Suécia descontou com outro belo gol: o zagueiro Granqvist pegou de primeira após bonito giro, em feito raro para atacantes, que o diga para defensores.

Veja os gols do jogo e faça sua escolha. A concorrência é forte.

domingo, 11 de julho de 2010

Da Europa Para O Mundo: Espanha Amarelo Ouro

Confesso faltarem-me palavras para descrever essa final de Copa do Mundo, vencida pela Espanha com um gol (contestável) marcado aos 10 minutos do segundo tempo da prorrogação.

É bem possível que as ponderações aqui postas possam ser levadas pelo emocional de alguém que, nesse momento, veste uma camisa laranja com as letras "KNVB" bordadas abaixo da figura de um leão.

Apesar da má atuação do árbitro inglês Howard Webb, o título foi para ótimas mãos. A seleção espanhola representou o que há de melhor no futebol atual, com um toque de bola refinado e a busca incessante por chegar ao ataque administrando a posse com paciência e lucidez.

É a primeira vez na história das Copas que uma equipe campeã do mundo inicia sua campanha com uma derrota na estréia. Naquela vitória suíça por 1a0, muitos comentaristas oportunistas - mostrando desconhecimento futebolista - cantarolavam um apocalíptico cenário para os comandados de Vicente Del Bosque. Um deles foi Walter Casagrande Júnior, que declarou ter "eterna desconfiança na Espanha", dizendo que a seleção sofria de "fragilidade emocional" (veja a postagem sobre o jogo). Curiosamente, o discurso pós-final foi outro. O meu continua o mesmo: a Espanha fez uma boa Copa do primeiro ao último minuto de bola rolando, sendo merecedora do título.

Os holandeses têm todos os motivos para saírem da África do Sul de cabeça erguida. Foram 8 vitórias em 8 jogos nas Eliminatórias, 6 vitórias em 7 jogos na Copa, com a derrota solitária acontecendo pra lá dos 115 minutos de uma partida equilibrada, onde teve chance de vencer e se tornar campeã em campanha 100%. O gesto pós-premiação de formar um corredor e cumprimentar cada membro da delegação espanhola que por ali passava já tornou-se automaticamente épico.

Pronto, acho que esses parágrafos acima deixaram o blogueiro mais relaxado para descrever os fatos do jogo. Antes de mais nada, parabéns Espanha e Holanda! Johann Cruyff, um dos destaques do "Carrossel Holandês" de 1974, implementou a filosofia do "Futebol Total" no Barcelona - time-base da seleção espanhola - e, antes da final ser jogada, declarou que "todo mundo é um vencedor" (veja matéria original). Estou de total acordo. Apitos à parte, o futebol saiu ganhando com o desenrolar da Copa do Mundo 2010.

Fotos-posadas pré-jogo: as duas melhores seleções na final, para deleite dos amantes do futebol.

Equipes jogam primeiro tempo atacando mais o corpo dos adversários do que o gol

A primeira falta da partida ocorreu com 50 segundos, numa entrada de Robin van Persie em Sergio Busquets. E não seria um lance isolado: antes do apito de intervalo, foram mostrados cartões amarelos para 5 jogadores (aos 14' para van Persie por carrinho em Joan Capdevila; aos 16' para Carles Puyol por entrada no tornozelo de Arjen Robben; aos 21' para Mark van Bommel por carrinho que derrubou Andrés Iniesta; aos 22' para Sergio Ramos após ir no corpo de Dirk Kuyt; e aos 27' para Nigel De Jong, por entrada horrorosa com a sola da chuteira no peito de Xabier Alonso). Fora tudo isso, houve também jogo de futebol.

Aos 4 minutos, Xavier Hernández levanta em lance de bola parada (por que será?) pelo lado direito, Ramos cabeceia e Maarten Stekelenburg faz bela defesa ao espalmar no canto direito. Na seqüência, Stekelenburg e Kuyt foram fechar o ângulo de Gerard Piqué e impedir uma nova finalização.

3 minutos depois, Xabi Alonso passa rasteiro atravessando o campo de defesa, Busquets não pega, Kuyt intercepta e chuta rasteiro para defesa de Iker Casillas.

Com 8 minutos, Xavi Hernández tenta lançar David Villa, mas Stekelenburg sai para recolher. Aos 10', Villa recebe na frente, passa para Iniesta, que abre na direita com Ramos: o lateral se livra de Kuyt, bate cruzado a 14 metros do gol e John Heitinga coloca o pé esquerdo mandando para escanteio. Na cobrança, Xavi manda curto para Iniesta, recebe de volta, passa mais atrás para Alonso e o camisa 14 cruza: a bola chega até o lado esquerdo para Villa, que chuta de primeira e manda na rede pelo lado de fora.

Na marca de 17 minutos, cobrando a já mencionada falta sofrida por Robben, Wesley Sneijder manda direto e Casillas consegue encaixar. 2 minutos depois, Robben avança pela direita, passa por Capdevila mas Alonso dá a cobertura e manda para escanteio - a marcação no camisa 11 holandês era dupla (quando não tripla).

O jogo teve um breve momento pingue-pongue aos 22 minutos: Casillas tentou ligar contra-ataque com Villa e a bola foi até Stekelenburg. O goleiro holandês recolocou em jogo e a Jabulani (ou Jobolani, pois a bola da final teve nome dado em homenagem à cidade de Johannesburgo) atravessou a linha final no extremo oposto do gramado do Soccer City, voltando para a posse do camisa 1 espanhol.

Com 33', um lance inusitado: a seleção holandesa ia devolvendo a posse para a Espanha numa atitude de "fair play" e o quique da bola surpreendeu Casillas, que deu um tapa para escanteio. Na cobrança, van Persie rolou para o goleiro e o jogo seguiu.

3 minutos depois, Robben faz fila pela direita, atraindo marcação de três espanhóis. Sneijder pega a sobra do desarme parcial, avança e ganha escanteio. Na cobrança, a bola desvia e chega na esquerda até Joris Mathijsen, que tenta a finalização de primeira mas acaba furando. No minuto posterior, Pedro Rodríguez recebe pouco a frente do círculo central, avança e chuta à esquerda.

Aos 42', Sneijder comete falta ao deixar a sola em Busquets: Webb apitou e dialogou com o camisa 10. Na cobrança, Alonso tentou chute direto mas não conseguiu colocar o efeito que desejava e a bola saiu à direita.

Aos 44', a Espanha tentava emplacar um contra-ataque com enfiada para o flanco direito e Giovanni van Bronckhorst fez bela interceptação, recolocando a Holanda no ataque. Mas van Persie não conseguiu escapar da marcação e Iniesta fez a proteção para ganhar tiro-de-meta. No minuto seguinte, Robben recebe passe curto de van Persie na quina direita da grande área, ganha espaço com corte curto para o centro, chuta rasteiro e Casillas vai no canto esquerdo para espalmar.

Equipes têm chances claras de gol, mas goleiros atuam brilhantemente

Em escanteio aos 2 minutos pelo lado direito, Xavi cruza, Puyol cabeceia saltando sobre Heitinga e a bola chega na esquerda em Capdevila, que, a exemplo de Mathijsen na primeira etapa, fura no movimento da finalização.

Aos 3 minutos, Iniesta passa para Alonso na esquerda, van Bommel dá o tranco e ambos caem na área: tiro-de-meta marcado. No minuto seguinte, Gregory van der Wiel desce pela direita, centra a jogada com passe rasteiro, Casillas toca na bola mas é marcado tiro-de-meta. Na marca de 6 minutos, Kuyt passa para Robben, que corta para o centro e chuta para nova defesa de Casillas no canto esquerdo.

Com 8 minutos, Ramos tenta fazer um-dois com Pedro mas é derrubado por van Bronckhorst antes de receber de volta: falta e cartão amarelo para o capitão. Na cobrança, a 27 metros, Xavi manda na rede externa e Stekelenburg acompanha de perto.

Aos 10 minutos, novo cartão amarelo para jogadores holandeses: Villa é acionado na esquerda e leva rapa de Heitinga após tocar de lado. 2 minutos depois, Sneijder recebe e é atingido por Iniesta na altura do joelho - falta marcada mas nenhum cartão mostrado. Na cobrança, Sneijder põe na área e Heitinga cabeceia cruzado à esquerda.

Na marca de 14 minutos acontece a primeira substituição da partida: Pedro por Jesús Navas. No minuto posterior, Kuyt cruza, van Persie sobe se antecipando a Puyol e cabeceia fora. Mais um minuto passado e nova chance holandesa. E não era uma chance qualquer, mas sim a mais clara da partida: Sneijder dá enfiada de bola precisa para Robben, que avança e chuta no contrapé de Casillas, mas o goleiro, situado na marca do pênalti para tentar fechar o ângulo, consegue grande defesa com a chuteira e a bola passa perto da trave direita.

Com 20', van Persie recebe, finta Capdevila em velocidade e recebe falta. Amarelo para o lateral.

Aos 24 minutos, Navas recebe de Xavi na direita, cruza rasteiro, Heitinga não afasta, a bola chega em Villa, que chuta e a defesa holandesa consegue bloqueio providencial.

No minuto seguinte, primeira substituição de Bert van Marwijk: Kuyt por Eljero Elia.

Na marca de 28 minutos, Iniesta tenta passe pelo centro, van Bronckhorst intercepta e Webb dá falta de Heitinga. Villa cobra mandando cruzado, alto, à esquerda.

Com 30 minutos, Navas recebe de Alonso, cruza pra esquerda e Villa manda de primeira, isolando. No minuto seguinte, Villa tabela com Xavi, chuta e van der Wiel bloqueia dando carrinho. No escanteio, Xavi levanta e Ramos sobe livre, cabeceando por cima do travessão.

Aos 32', Iniesta agride van Bommel sem bola. O árbitro vê, marca falta, mas nega-se a dar qualquer cartão.

3 minutos depois, Iniesta entra na área se livrando de Heitinga e é desarmado por Sneijder em carrinho limpo.

Na marca de 37 minutos, Robben ganha de Puyol na corrida após escorada de cabeça de van Persie, o zagueiro puxa o atacante, Robben segue a arrancada tentando fintar Casillas mas o goleiro fica com a bola. "Se ele cai o juíz dá pênalti", muitos diriam. Provavelmente. O fato é que Robben foi reclamar com Webb e ainda recebeu cartão amarelo.

Com 41 minutos, troca interessante na seleção espanhola: Alonso por Francesc Fàbregas.

A Espanha tinha 56% da posse de bola, mas o momento holandês era melhor. Aos 43', Sneijder tenta ligar contra-ataque com Robben dando passe esticado pro lado direito, o camisa 11 corre, chega na bola, mas não evita a saída pela lateral. Aos 47 minutos, Sneijder tem a bola em contra-ataque e decide chutar de longe, mandando à direita. Pela primeira vez na Copa, Holanda e Espanha iam disputar uma prorrogação.

Espanhóis criam chances e van Marwijk torna a Holanda mais ofensiva, "repetindo" substituição da semifinal

Aos 2 minutos, Cesc Fàbregas tabela com Iniesta, a bola sobra com Xavi e sai em escanteio - os espanhóis pedem pênalti supostamente cometido por Heitinga.

Com 4 minutos, Iniesta enfia a bola para Fàbregas, que fica cara-a-cara com o goleiro: Stekelenburg se posiciona bem e defende a finalização com a canela.

Na marca de 5 minutos a Holanda cobra escanteio pela direita e Mathijsen sobe cabeceando perto do travessão. 3 minutos depois, Fàbregas passa para Iniesta, que avança e é desarmado por van Bronckhorst.

Aos 9 minutos, Bert van Marwijk troca De Jong por Rafael van der Vaart, em mexida similar a realizada no intervalo da semifinal (naquela oportunidade, Demy De Zeeuw, substituto do suspenso De Jong, deu lugar ao camisa 23).

Com 10 minutos, Navas recebe na direita, chuta e van Bronckhorst bloqueia - a bola vai no contrapé de Stekelenburg e sai ao lado da trave esquerda, na rede externa. 3 minutos depois, Fàbregas carrega desde a intermediária e chuta da meia-lua, à esquerda.

Na marca de 14', substituição na Holanda daquelas que somente se justificam por questões físicas: sai o capitão van Bronckhorst e entra o surinamês Edson Braafheid, estreando no Mundial. A braçadeira passa para van der Vaart, que entrara há 6 minutos.

Torres entra no intervalo e, iluminado, participa do xeque-mate

A última troca do jogo colocava em campo Fernando Torres, que fazia uma Copa discreta, no lugar de David Villa, um dos artilheiros da competição e decisivo em diversas partidas.

Com 1 minuto já era explícito que Braafheid sentia a pressão do contexto em que estreava: bola cruzada a partir da esquerda e o camisa 15 dá as costas pra redonda para procurar a quem marcar. Por sorte, a bola vai na parte de trás da cabeça dele e é recolhida por Stekelenburg, num recuo absolutamente involuntário.

Aos 2 minutos, Sneijder passa na esquerda com Elia, que encara a marcação de Ramos mas sai com a bola antes de efetuar o cruzamento.

Na marca de 3 minutos, Iniesta tabela com Xavi, parte para receber e ir em direção ao gol mas é seguro por Heitinga, que recebe o segundo amarelo e é expulso.

Na final mais recheada de cartões na história das Copas, Heitinga é o único expulso.

Com 5', Iniesta recebe na esquerda, van der Wiel se aproxima e o camisa 6 aproveita para ir ao gramado. Webb vai na dele e mostra cartão amarelo para o lateral. No levantamento originado na bola parada, Stekelenburg salta e afasta.

Aos 7', Sneijder passa para Robben que, impedido, dá seqüência ao lance. Espanhóis pedem amarelo (e consqüente expulsão) mas Webb opta por dialogar com o camisa 11, ao som das vuvuzelas.

Na marca de 9', Sneijder cobra falta direto pro gol, a bola bate nas costas de Fàbregas e sai à direita do gol. A arbitragem marca, sabe-se lá como, tiro-de-meta para a Espanha. Astigmatismo? Miopia? Cegueira? Melhor nem especular...

No minuto seguinte, Torres tenta inversão para Iniesta, que receberia em posição duvidosa: Mathijsen corta parcialmente e Fàbregas passa para Iniesta, que chuta com força, cruzado, à meia-altura, uma bola que ainda foi tocada por Stekelenburg antes de ir pra rede, no canto direito. Mathijsen, revoltado, reclamou com árbitro e auxiliar. No que deu? O 8º holandês a receber cartão amarelo. Por tirar a camisa na comemoração do gol histórico, Iniesta recebeu o quarto cartão espanhol do jogo.

Iniesta vibra muito com o gol que será lembrado por muitas gerações.

Aos 12', na saída de bola pós-gol, Sneijder tentou do meio-campo e mandou à direita. A Holanda se mandou, em desespero, ao campo de ataque. Mas o abafa não teve qualquer finalização e o apito final coroou essa memorável geração espanhola, ratificando para o planeta o que todos que assistiram à Eurocopa já sabiam. E assim caiu uma invencibilidade de 25 jogos.

Casillas recebe o troféu das mãos dos presidentes da FIFA e da África do Sul: camisa já com a estrela bordada.