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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Salve O País Basco! Salve O Athletic Bilbao!

Athletic Bilbao e Sporting Lisboa fizeram um duelo emocionante no estádio San Mamés, que estava lindamente lotado e testemunhou um momento histórico para o clube basco: depois de trinta e cinco anos (foi vice-campeão para a italiana Juventus na temporada 1976-7), o Athletic Club chega a mais uma final de Liga Europa (naquela época chamada Copa da UEFA).

Sou um grande apreciador dos trabalhos de Marcelo "El Loco" Bielsa, técnico argentino que está a frente do Athletic nessa temporada. E o que Bielsa vem desenvolvendo no país basco é, mais uma vez na carreira desse estrategista, digno de elogios. Seu sistema de jogo funcionou bem e o Bilbao conseguiu ser superior ao adversário. Um bravo adversário, que ajudou a nivelar por cima o confronto semifinal continental.

Apesar da eficácia do rendimento coletivo da equipe da casa, não há como falar da classificação do time sem rasgar elogios a Fernando Llorente. Não vou aqui me limitar a dizer que Llorente foi o melhor em campo. Vou além: vou dizer com todas as letras que o camisa nove basco teve uma atuação digna dos grandes centroavantes da história do futebol. Por sua presença marcante no campo de ataque, que mostrava o grande senso de posicionamento desse jogador de vinte e sete anos de idade. Pela sua sapiência e objetividade para dar ao objeto esférico um destino adequado para que ocorra a melhor jogada possível para sua equipe. Pelo seu poder de finalização avassalador, sem precisar nem de muito tempo nem de muito espaço para concluir. E por sua entrega, pela sua emoção, pela sua comunhão com o clube que veste o uniforme e com a torcida, que foi um espetáculo à parte no confronto. Aliás, o "papel" da torcida no San Mamés foi muito bem analisado por Marcelo Bielsa, que declarou ter sido o público fundamental no jogo porque "criou responsabilidades aos jogadores no sentido de não decepcionar os adeptos". E não houve decepção. Houve, isto sim, manifestação de um futebol de alto nível. De um autêntico finalista europeu. De um time que dá gosto de ver jogar. De um time com a cara e a alma de Bielsa.

Na construção do placar de 3a1 (o jogo de ida terminou com vitória portuguesa por 2a1), o Athletic soube variar suas jogadas pelos flancos do campo e, ocasionalmente, também pela zona central. Mostrou uma grande disciplina tática sobretudo no momento de recuperar a posse de bola, encurtando o espaço do jogador que detinha o controle da redonda consigo. O primeiro gol saiu aos dezesseis minutos, em jogada que teve origem numa dividida dura ganha por Andoni Iraola, a meu ver com falta sobre Stijn Schaars. Só que a jogada seguiu, Iraola passou para Iker Muniain e este cruzou para Fernando Llorente. Inteligente e ligeiro, Llorente fez com louvor o papel de pivô, amortecendo a bola com o peito e servindo Markel Susaeta, que também mostrou astúcia ao finalizar de primeira, ao chão, dificultando o trabalho do goleiro Rui Patrício e estufando a rede no canto esquerdo.

A bravura do Sporting, que mostrava competência principalmente nos remates de fora da área (até porque não era missão simples penetrar na defesa basca), rendeu o gol de empate aos visitantes na marca de quarenta e três minutos. Em jogada de bate-rebate, André Martins chutou de longe, a bola bateu em Xandão e ficou sob medida para Ricky van Wolfswinkel, que com a perna esquerda tratou de, também de primeira, mandar a bola no canto esquerdo de Gorka Iraizoz.

Mas o Athletic de Bielsa é forte demais para se deixar abater e o time tratou de retomar a frente no placar ainda no primeiro tempo: aos quarenta e cinco minutos, uma jogada muito bem trabalhada no ataque mostrou o quão eficaz é uma equipe bem treinada e bem aplicada. Ander Herrera passou rasteiro, Iraola fez o corta-luz e a bola chegou em Llorente. E quando a bola chega em Llorente, alguma coisa boa acontece. Naquele momento aconteceu algo mágico: com um controle de bola desconcertante e um passe preciso, o camisa nove deixou a marcação de João Pereira no chão e serviu Ibai Gómez, que ajeitou e concluiu no contrapé de Rui Patrício, que ainda tocou na bola. 2a1 Bilbao, placar que levaria a partida para a prorrogação.

O Bilbao era melhor em campo e fazia um bom segundo tempo. A torcida, espetacular, vibrava nas arquibancadas de maneira contagiante. Mas o futebol é um esporte muitas das vezes duro com aqueles que parecem atuar melhor (vide a eliminação do Barcelona para o Chelsea, dois dias atrás) e um gol do Sporting poderia sacramentar a eliminação de um time brilhante. Só que os deuses do futebol tinham algo de mais belo reservado ao Athletic, que havia colocado uma bola na trave direita em jogada aérea. E, aos quarenta e dois minutos, Ibai Gómez recebeu a bola pela esquerda e tratou de retribuir o presente recebido por Llorente no final do primeiro tempo. Tudo bem que o passe dado por Ibai não tenha saído com a mesma qualidade que aquele ofertado por Fernando. Nem precisava. Afinal, a redonda encontrou alguém que sabia muito bem como lidar com ela. Encontrou o nome do jogo. Encontrou Fernando Llorente, que mesmo bem marcado, conseguiu direcionar o objeto esférico para o objetivo máximo do futebol, fazendo desabar o goleiro Rui Patrício (ou guarda-redes, se preferir).

Llorente, emocionado, vibrou muito com o gol. Aliás, vou pedir licença e encerrar esse artigo com as palavras dele após o jogo.

"Foi um gol dos sonhos, não posso pedir mais. Isso é histórico, faz 35 anos da final da Uefa. Foi incrível poder desfrutar desses momentos. Não posso expressar a felicidade que tenho agora. Quando passar o tempo nos daremos conta do que fizemos"
Outro resultado

Valencia 0a1 Atlético de Madrid (2a5 na soma dos resultados)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Um Gigante Chamado Athletic Bilbao (Com As Bênçãos De Bielsa)

Três meses atrás, quando o Manchester United era eliminado na Liga dos Campeões da Europa e, com o terceiro lugar no grupo, ingressava na Liga Europa, havia uma quase unanimidade de opiniões dando conta de que o time comandado por Alex Ferguson apareceria como favorito ao título no torneio. Afinal, estamos falando de um clube poderoso, com três finais de Champions League nas últimas quatro temporadas, atual campeão inglês e tão acostumado a decisões.

Sem tomar conhecimento de um adversário dessa grandeza, o Athletic Club, da cidade de Bilbao, dominou amplamente a partida de volta (já hava vencido na ida, em pleno estádio Old Trafford, por 3a2), colocou o Manchester na roda e venceu o jogo por 2a1, totalizando 5a3 no resultado somado. E digo para vocês com todas as letras: poderia ter sido uma diferença muito, mas muito mais elástica. Os amantes do futebol arte devem ficar de olho nessa equipe comandada por Marcelo "El Loco" Bielsa.

O jogo

Intenso. Vou tentar resumir nessa palavra trissílaba o que foi o desempenho do Athletic Bilbao nessa partida diante do Manchester United. Mas quero deixar claro que a adjetivação é meramente ilustrativa, uma vez que é sempre mais completo e esclarecedor ver um time jogar do que ler a respeito de um jogo.

Essa intensidade supracitada foi vista do primeiro ao último minuto de partida e era subsidiada por uma marcação forte e adiantada, por um time rápido e discipliando taticamente, por uma ocupação inteligente dos espaços e uma correta transição ao ataque. Combinações que deram ao Athletic Club um total domínio da partida, sem dar chance ao Manchester United de, em algum momento, se sobressair.

Aos doze minutos, o placar não foi inaugurado por detalhe. A jogada foi maravilhosa: Llorente recebeu a bola e, de primeira, serviu Muniain com um passe que desconcertou a defesa inglesa. Muniain chutou na trave direita e, no rebote, com De Gea completamente batido, De Marcos chutou para fora.

Onze minutos mais tarde, um lançamento espetacular de Amorebieta encontrou a fera Fernando Llorente. E, numa finalização talvez mais incrível que o lançamento que o serviu, o camisa 9 alvirrubro emendou um lindo chute, de primeira, cruzado, sem defesa para o goleiro De Gea. Foi com toda essa beleza que, aos vinte e dois minutos, Llorente se tornou o maior goleador da história do Athletic em competições européias, com 12 gols marcados.

Uma investida que terminou em cabeceio de Giggs foi o máximo de perigo oferecido pelo United no primeiro tempo. O domínio do Athletic era tamanho que os próprios jogadores de defesa do Manchester tinham dificuldades de tocar a bola, sofrendo com a marcação-pressão que parecia não dar sossego a ninguém que vestisse azul.

No início do segundo tempo, Iraola quase marcou um golaço: recebeu passe próximo da grande área, escapou de três adversários esbanjando um controle de bola formidável (a redonda parecia estar colada em suas chuteiras) e deu um toque categórico com a esquerda, mandando pertinho da trave esquerda.

A saída de Llorente ainda no primeiro tempo (aparentemente sentindo alguma contusão muscular) para a entrada de Toquero pode até ter diminuído a capacidade técnica do ataque basco, mas o esforçado camisa 2 que entrara em campo também dava trabalho aos defensores oponentes. Só que quem balançaria a rede seria De Marcos: aos dezenove minutos, Iraola cruzou da direita, Toquero dividiu com Smalling pelo alto e a bola chegou no camisa 10, que dominou e chutou para ampliar a vantagem dos donos da casa, da festa e do jogo.

No jogo coletivo, o Bilbao esmagava o Manchester. Restou a Wayne Rooney, em jogada individual, marcar o gol de honra dos visitantes - aos trinta e quatro minutos, Rooney acertou belo chute no canto esquerdo, diminuindo a diferença no placar mas não o abismo de nível de jogo entre os dois times.

Aplausos para Marcelo Bielsa, que ratificou com propriedade a beleza do seu estilo de lidar com o futebol. Aplausos para o time do Athletic, que desempenhou suas funções em todos os setores do campo (embora tivesse desperdiçado muitas chances de gol, algo a ser corrigido). Aplausos para a torcida que lotou o estádio San Mamés e fez muito barulho, atuando como um autêntico 12º jogador. Agradecimentos aos deuses do futebol, por me possibilitarem assistir um evento como esse. Vida longa ao Athletic de Bielsa!