quarta-feira, 23 de junho de 2021

Cinco A Zero, Fora O Baile: Espanha Encanta, Goleia A Eslováquia E Avança Às Oitavas

Pressionada por uma imprensa - e um público geral - que foca no resultado do jogo ao invés de dar o devido valor à forma como a seleção atua, a Espanha tinha pela frente a Eslováquia na última rodada na fase de grupos na Eurocopa 2020. Um empate - resultado que classificaria os eslovacos - somente serviria aos espanhóis caso a Polônia vencesse a Suécia em partida realizada simultaneamente. E, considerando, que os suecos abriram o placar já no segundo minuto de jogo diante dos poloneses, já viu... [Apenas a nível de informação: Suécia e Polônia terminaria com vitória nórdica por três a dois, garantindo o primeiro lugar aos suecos e a lanterna aos poloneses.]

Totalmente alheia ao que ocorria em São Petersburgo, a seleção comandada por Luís Enrique tratou de fazer em Sevilla aquilo que mais sabe fazer: propôr jogo, rodar a bola, procurar o ataque. E fez isso muito bem, obrigado. Aos quatro minutos, Álvaro Morata chutou cruzado e o goleiro Martin Dúbravka espalmou para o lado esquerdo uma bola que passou perigosamente pela pequena área. No minuto seguinte, mais Espanha: Gerard Moreno tabelou, cruzou rasteiro em nova jogada pelo lado esquerdo de ataque e Dúbravka recolheu.

Aos oito, Koke conseguiu tomar a frente de Jakub Hromada e foi atingido dentro da área. Pênalti. Involuntário, é verdade, mas até um chute involuntário é capaz de derrubar. Com revisão do VAR, a cobrança foi realizada três minutos depois, aos onze. Morata na bola. E, de forma bastante coerente com a performance de Morata nessa Eurocopa, a cobrança terminou em defesa de Dúbravka.

Morata pára em defesa de Dúbravka: naquele momento, a Eurocopa chegava a onze pênaltis cobrados, sendo este o sexto desperdiçado. Foto: EFE.
 

Antes de a partida ter início, um camarada que também está acompanhando a Eurocopa (blogueiro que administra a página Os Craques Na Rede) comentou comigo que Maurício Noriega, funcionário de uma emissora que está fazendo a cobertura do torneio, teria afirmado que "a Espanha tem nojo de fazer gol". Não sei muito bem o que o sr. Noriega estava fazendo durante o jogo em que a Espanha colocou o goleiro da Suécia para fazer pelo menos duas grandes defesas, em partida onde dominou por praticamente a totalidade da partida. Também não faço ideia de onde estava a atenção do mesmo Noriega diante do volume de jogo espanhol na segunda rodada, quando poderia ter feito o segundo gol sobre a Polônia, mas desperdiçou, entre outras chances, uma cobrança de pênalti. Não sei e, sinceramente, nem quero saber qual era a distração de Noriega durante este jogo de hoje da Espanha diante da Eslováquia. O fato é que, mesmo com o zero a zero em andamento, o que se via era uma Espanha sempre buscando o gol. Se isso é nojo, o dicionário é bastante falho em sua definição do termo.

Aos catorze minutos, mais Espanha no ataque: Sergio Busquets abriu na direita com Pablo Sarabia, que tocou para Koke em jogada de ultrapassagem rente à linha de fundo, rendendo escanteio. Aos dezoito, adivinha que seleção criava nova grande chance de gol? Pois é, a "nojenta" Espanha. Sarabia foi lançado e, de frente para o goleiro, sem nenhum marcador entre eles, não conseguiu finalizar. Ainda aos dezoito, nova chegada perigosa espanhola: César Azpilicueta se apresentou pelo lado direito e cruzou para Pedri, que fechou em liberdade mas não alcançou a bola com a perna esquerda. Aos vinte e três, a tentativa foi de fora da área, com Morata recebendo, trazendo pra perna direita e parando em bela defesa de Dúbravka, que espalmou no canto esquerdo.

Tanto a Espanha quanto o goleiro Dúbravka faziam uma ótima partida. O zero a zero refletia muito mais a atuação do eslocavo que vestia a camisa número um do que o desempenho coletivo espanhol. Mas, por uma ironia cruel do futebol, aos vinte e nove minutos, Dúbravka protagonizou uma falha bizarra que abriu o placar. Após erro da defesa da Eslováquia na saída de bola, Sarabia ajeitou e chutou com força uma bola que explodiu no travessão e imediatamente subiu. Por pura infelicidade do goleiro, sua tentativa de saltar para empurrar a bola em escanteio - um movimento muito mais simples do que defender uma cobrança de pênalti - foi totalmente frustrada. Com o sol batendo em seu rosto no momento do salto, perdeu a noção de onde estava o objeto esférico que tinha como alvo e, ao invés de empurrar a redonda por cima do travessão, acabou direcionando para dentro do próprio gol. Era simplesmente o terceiro gol contra de um goleiro nessa Eurocopa. Mas esse, de longe, o mais bisonho. No total, essa edição da Euro já conta com sete gols chutados - ou arremessados - contra o próprio patrimônio.

Ainda no primeiro tempo, a Espanha teve novas oportunidades interessantes. Na última delas, aos quarenta e sete minutos, a defesa eslovaca afastou mal após cobrança de escanteio e Pedri, esbanjando lucidez, deu boa enfiada de bola para Moreno, que cruzou para Aymeric Laporte cabecear no contrapé de Dúbravka. Dois a zero.

A Eslováquia, amplamente dominada, voltou do intervalo com duas substituições realizadas pelo treinador Štefan Tarkovič: saíram Ondrej Duda e Hromada (meio-campistas que pouco puderam fazer além de assistir a Espanha jogar), entraram Michal Ďuriš e Stanislav Lobotka. As mexidas e, talvez principalmente, a nova atitude da Eslováquia no jogo lançaram a equipe ao ataque. Afinal, a derrota por dois a zero tirava ela inclusive da zona de classificação dos quatro melhores terceiros colocados. Aos nove minutos, Ďuriš foi lançado na esquerda nas costas da defesa, mas finalizou fraco, facilitando para Unai Simon, que era praticamente um espectador dentro do gramado. 

No minuto seguinte, uma ótima - e efetiva - resposta espanhola: Pedri acionou Jordi Alba na esquerda e o lateral cruzou para Sarabia, que completou no canto esquerdo. Três a zero.

Se eu te contasse que um chute de fora da área dado por Lukáš Haraslín, aos dezesseis minutos, que passou à esquerda do gol espanhol, seria o último ataque eslovaco na partida, você acreditaria? Pois acredite. 

Luís Enrique começou a mexer na equipe aos vinte minutos, trocando Morata por Ferran Torres. E já no minuto seguinte, em sua primeira participação, em seu primeiro toque na bola, Torres foi "nojento": após assistência de Sarabia, Torres completou de letra. Golaço para estabelecer quatro a zero no placar.

Aos vinte e cinco, Luís Enrique mexeu em dobro: trocou Eric García e Busquets por Pau Torres e Thiago Alcântara. E, novamente, não demorou um minuto após a substituição para sair outro gol espanhol - e novamente com participação de alguém que acabara de entrar em campo. Após bola levantada, Laporte deu um primeiro cabeceio e Pau Torres, também usando a cabeça, centralizou o lance. Sem ter muito o que fazer diante da intensa presença de espanhóis, Juraj Kucka acabou marcando contra. Mais um pra vasta coleção dessa Eurocopa. Cinco a zero.

Espanhóis celebram o quinto gol na goleada sobre a Eslováquia. Os dez homens de linha da Espanha aparecem na imagem, até porque todos eles estavam quase sempre na área eslovaca... Foto: AFP.

As duas últimas mexidas de Luís Enrique deram-se aos trinta e um minutos: Moreno e Azpilicueta deram lugar a Adama Traoré e Mikel Oyarzabal. E se alguém poderia imaginar que uma seleção se desfiguraria após ter meio time mexido - não é força de expressão: foram cinco substituições até aquele momento -, não entendeu ainda o que é uma filosofia de jogo. A Espanha permaneceu Espanha. Chances continuaram sendo criadas. Teve uma em cruzamento de Alba, aos trinta e cinco, com a bola atravessando bem a frente de Sarabia, Oyarzabal e do goleiro Dúbravka. Teve outra aos trinta e nove, quando Sarabia chutou de fora, por cima. Teve  mais outra, em ótima troca de passes envolvendo Koke, Sarabia, Adama Traoré, Thiago e Pedri, com Dúbravka pegando. E teve uma última, quando Oyarzabal escapou de Kucka e mandou um chute que passou à direita.

Na boa, faça a crítica que quiser a essa seleção espanhola. Mas jamais diga que ela tem "nojo de gol". Hoje foram cinco, na maior goleada nessa Euro 2020, mas poderiam ter sido dez. Só que a quantidade de gols é apenas um detalhe. O que realmente importa é a intenção, a proposição, a estruturação do jogo. E isso, não há como negar, a Espanha é daquelas que mais dão gosto de ver jogar.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Com Modrić Decisivo, Croácia Supera Escócia E Se Classifica

Cientes de que a classificação para as oitavas de final somente seria alcançada em caso de vitória no jogo de hoje, Croácia e Escócia fizeram, em Glasgow, um jogo de caráter eliminatório em plena fase de grupos, onde o empate eliminaria ambas as seleções. Na outra partida simultânea, Inglaterra e República Tcheca, já classificadas, decidiriam o primeiro lugar no grupo D. Com os resultados finais (Croácia 3a1 Escócia; e Inglaterra 1a0 República Tcheca), ingleses avançam em primeiro; croatas em segundo; tchecos em terceiro; e os escoceses estão eliminados.

Escalada com três zagueiros onde somente um é de fato e de direito um zagueiro (o camisa cinco Grant Hanley), a Escócia qualificava sua saída de jogo com Scott McTominay e Kieran Tierney. E foi a seleção escocesa quem teve as duas melhores oportunidades iniciais na partida. Aos cinco minutos, John McGinn, aparecendo pelo flanco esquerdo, usou a perna direita para levantar a bola na área, Che Adams apareceu na pequena área e esticou a perna na intenção de empurrar para o gol. mas acabou não alcançando por centímetros - o goleiro Dominik Livaković mandou para escanteio. Aos nove, Adams foi acionado no comando de ataque e, por estar isolado do restante do time, precisou se virar sozinho - ele trouxe a bola para a perna direita e chutou de fora da área, mandando à esquerda.

Com um meio de campo de boa qualidade técnica, a Croácia dessa vez tinha Luka Modrić atuando de forma mais adiantada em relação aos dois primeiros jogos, numa escolha acertada do técnico Zlatko Dalić. Quando tinha a bola nos pés, algo de interessante acontecia. Quando não tinha, sua movimentação por si só já atraía a atenção do sistema defensivo escocês, permitindo que outros jogadores croatas pudessem aparecer. Aos dezesseis, Josip Juranović levantou a bola, Ivan Perišić arrumou de cabeça e Nikola Vlašić agiu rápido para amortecer na coxa e, antes de permitir a chegada de McTominay, Hanley e Callum McGregor, chutar com a perna esquerda no canto direito. Um a zero Croácia na capital da Escócia.

Aos vinte e um minutos, Modrić quase ampliou quando deu ótimo chute, com força, e a bola passou pouco acima do travessão pouco após desvio sutil do goleiro David Marshall. Tão sutil, que a arbitragem nem viu e marcou equivocadamente posse de bola para os escoceses onde deveria ter sido assinalado escanteio para os croatas.

Aos vinte e três, a Escócia conseguiu um momento de pressão que quase rendeu o gol de empate: após troca de passes iniciada por Adams, a bola atravessou a área e retornou até ele, que evitou a saída pela linha de fundo e a manteve em jogo. Na sequência do lance, McGinn chutou de fora e Livaković defendeu no canto direito.

Bastante burocrático no meio de campo, o jogo diminuiu as opções de aproximação tanto da valente Escócia quanto da Croácia, que parecia se acomodar no resultado de vantagem mínima. Embora tivesse conseguido duas chegadas interessantes aos trinta e sete minutos (com chute de Juranović após boa troca de passes) e aos trinta e nove (em finalização de Perišić após jogada individual pela esquerda), ficava a nítida sensação de que a seleção da camisa xadrez podia render mais do que isso. E, aos quarenta e um, veio o empate escocês: após jogada de McGinn com Andrew Robertson pelo lado esquerdo, a bola alçada na área croata foi afastada apenas parcialmente por Domagoj Vida, indo parar no domínio de Mc Gregor que, livre de marcação, chutou da meia-lua e mandou no canto direito. Um a um, para muita festa no campo e nas arquibancadas - era o primeiro gol da Escócia nessa Eurocopa e também o primeiro gol de McGregor com a camisa da seleção após trinta e quatro jogos disputados.

Com o empate ao intervalo, as seleções se viam numa espécie de divisor de águas: teriam o segundo tempo inteiro para definir sua permanência ou despedida no torneio. Aos quatro minutos e também aos dez, a Croácia chegou com perigo em jogadas pelo centro. Na primeira, Joško Gvardiol foi bloqueado na valente e providencial saída do goleiro Marshall; na segunda, Perišić foi lançado por Modrić e parou em nova defesa de Marshall - mas, dessa vez, mesmo que a bola entrasse o placar permaneceria o mesmo, pois houve detecção de impedimento no lance. 

Aos treze, tivemos a primeira boa chegada escocesa na segunda etapa: Robertson lançou da esquerda, McGinn se projetou levando vantagem na disputa de espaço com Gvardiol e, na pequena área, de frente com o goleiro, até conseguiu realizar o desvio, mas sem dar à bola a direção do gol. 

Não sei se o lance assustou - e despertou - a Croácia. Não sei se a própria Croácia se viu na necessidade de jogar mais bola do que vinha jogando. O fato é que, três minutos depois, uma bela trama de jogada aconteceu a partir do flanco esquerdo. Já dentro da área, Bruno Petković fez a função de pivô, rolou atrás para Mateo Kovačić e este, para desafogar o lance e deixar com quem melhor entende do trato com a redonda, rolou um pouco mais atrás para Modrić. E o desfecho do lance foi com o selo Modrić de qualidade. Um chute de primeira, dando um tapa estiloso na bola, com o peito do pé num movimento para fora, como se fosse pegar de trivela. Na gaveta. Golaço. Dois a um para a Croácia.

Lindo chute de Luka Modrić para recolocar a Croácia em vantagem diante da Escócia. Imagem extraída de Bola Na Rede.

 

Com dificuldades para se aproximar do ataque, a seleção escocesa precisava de algum fato novo. Steve Clarke optou por colocar em campo Ryan Fraser no lugar de Stuart Armstrong. Isso até aumentou a ofensividade da equipe, mas, para se ter uma ideia do deserto de criatividade no meio campo azul, a jogada seguinte de perigo da equipe foi construída graças à subida de McTominay, que iniciou o lance aos vinte e sete minutos e, após tabela curta, só não conseguiu finalizar porque Livaković chegou antes.

Aos trinta e dois, o pé bendito de Luka Modrić foi novamente fundamental para a Croácia: cobrando escanteio pelo lado esquerdo, ele levantou a bola no primeiro pau e contou com a excelente movimentação de Perišić, que mostrou saber antecipadamente exatamente onde a bola iria, desviando de cabeça, cruzado, e marcando no canto esquerdo. Três a um, nesse gol que tornou Perišić terceiro maior goleador na história da seleção de seu país, com trinta. Ele deixou para trás o brasileiro naturalizado croata, Eduardo da Silva, e tem a sua frente simplesmente os centroavantes Mario Mandžukić (trinta e quatro gols) e Davor Šuker (quarenta e cinco).

Aos trinta e quatro, um chute de Fraser pelo lado esquerdo sobrou para Adams no lado direito e a nova finalização foi bloqueada por Livaković. A Escócia tentava reagir. E seus maiores impulsos ao ataque eram a movimentação de Fraser e a técnica de McTominay, que finalmente foi deslocado da linha de defesa para o meio de campo, numa alteração tática que demorou demais para acontecer.

Aos quarenta e sete, McTominay estava dentro da área, chutou mas foi bloqueado pela marcação. No escanteio daí originado, Fraser recebeu, cruzou da esquerda e Scott McKenna cabeceou à direita.

Com Modrić tocando a bola no meio de campo, o árbitro argentino Fernando Rapallini deu o apito derradeiro. E a imagem que sucedeu era tão linda quando um golaço: Modrić, aos trinta e cinco anos de idade, ergueu os braços, gritou algo em comemoração e se ajoelhou no gramado, emocionado com a classificação. É isso mesmo, senhoras e senhores de todas as faixas-etárias. Um jogador finalista de Mundial, eleito melhor do mundo pela FIFA em 2018, estava absolutamente em êxtase pela vaga nas oitavas na Eurocopa 2020. Essa celebração dá a dimensão do comprometimento do camisa dez com sua seleção. Uma lição de profissionalismo e, sobretudo, amor. À camisa, ao país, ao futebol. Viva, Modrić!

Modrić, após o apito final de Croácia 3a1 Escócia. Imagem extraída de Independent En Español.

Dinamarca Faz Grande Exibição, Goleia A Rússia E Avança Com Ajuda Da Bélgica

Se tem uma coisa que eu acho curiosa nessa Eurocopa 2020 é a questão do "mando de campo". "Mando de campo" que somente pode ser dito entre aspas. E no caso desse jogo entre a "mandante" Rússia e a Dinamarca, a distorção do termo assumiu proporções bizarras. 

Veja só: são onze cidades-sede nessa Euro 2020 - que completa sessenta anos desde a primeira edição da competição. Entre essas onze localidades que recebem jogos, estão a russa São Petersburgo e a dinamarquesa Copenhagen. Acontece que São Petersburgo foi o local de jogo de Finlândia (país localizado bastante próximo dessa cidade histórica) e Bélgica. Portanto, o jogo entre Rússia e Dinamarca se realizou na capital do país nórdico. E com um detalhe a mais: devidos a questões restritivas de deslocamento no espaço geográfico em função de medidas sanitárias para contenção da pandemia, os russos foram impedidos de entrarem na Dinamarca. Ou seja, o "mando de campo" da Rússia foi num estádio onde todo o público presente nas arquibancadas era dos "visitantes" - e tome aspas.

No jogo, a visitante de fato e mandante de direito foi corajosa, tendo chegado ao ataque numa boa situação aos dezessete minutos: Aleksandr Golovin carregou em jogada individual, entortou a marcação de Pierre-Emile Kordt Højbjerg (isso é um nome ou um título?) e chutou rasteiro. Kasper Schmeichel, honrando a genética do pai - o lendário goleiro Peter -, conseguiu rebater e impedir que os russos abrissem o placar em sua casa. Sua, que eu digo, a de Schmeichel e dos demais dinamarqueses.

Se essa boa chegada da Rússia passou a impressão de que a Dinamarca estaria caminhando para mais um resultado adverso no torneio, a impressão começaria a ser desconstruída com um domínio territorial crescente da seleção mandante de fato e visitante de direito. Aos vinte e oito minutos, Højbjerg arriscou de fora da área, Matvei Safonov se esticou e a bola passou perigosamente à direita. Nove minutos depois, era aberto o placar na capital dinamarquesa: possivelmente encorajado pelo ótimo chute do companheiro, Mikkel Damsgaard recebeu de Højbjerg entre as linhas de marcação, arrumou para a perna direita e, antes da chegada de Georgiy Dzhikiya, descolou lindo chute no canto esquerdo. Golaço.

A exemplo do que ocorrera na rodada anterior, diante da Bélgica, a Dinamarca ia novamente ao vestiário com a vantagem de um gol a zero. E talvez a virada concedida naquela partida tenha servido de lição. Bastante atenta em todos os setores do campo, com Simon Kjær liderando uma defesa costumeiramente bem postada - há que se elogiar também as atuações de Andreas Christensen e de Jannik Vestergaard -, a Dinamarca buscava o segundo gol e marcava firme desde o campo ofensivo. Numa dessas, a pressão na saída de bola deu resultado: aos treze, Roman Zobnin teve a infelicidade de, na tentativa de recuar para o goleiro Safonov, acabar presenteando o atacante Yussuf Poulsen, que sequer precisou ajeitar a bola na jogada, bastando empurrá-la para a rede. Dois a zero.

A festa dinamarquesa se multiplicou quando veio a notícia de um gol de Lukaku para abrir a contagem a favor da Bélgica, algo bastante celebrado pelo fato de permitir que a Dinamarca ultrapassasse a Finlândia naquele momento. Só que a euforia rapidamente deu lugar à apreensão: o gol belga foi anulado por marcação de impedimento e, instantes depois, foi concedido pênalti para a Rússia em jogada onde houve tranco de Stryger Larsen em Vyacheslav Karavaev seguido de possível empurrão de Vestergaard em Alexander Sobolev. O centroavante goleador Artem Dzyuba se encarregou da cobrança e mandou no meio do gol, com Schmeichel saltando para a esquerda de forma a não conseguir chegar na bola mesmo esticando a perna direita.

Com um retrospecto histórico amplamente favorável aos russos (foram nove vitórias em dez confrontos diretos diante dos dinamarqueses), o público presente em Copenhagen silenciou como se pressentisse o pior. Mas uma torcida que presenciou um milagre com seu camisa dez Christian Eriksen no primeiro jogo não deveria se abater por nada mais. E, dentro de campo, a seleção da Dinamarca deu a melhor resposta: aos trinta e três minutos, numa pressão intensa, o goleiro Safonov salvou a Rússia uma, duas, três vezes em sequência. Até não conseguir mais: na quarta finalização praticamente consecutiva, Christensen soltou um foguete que viajou direto para o fundo do gol. Três a um.

O clima voltou a ser de euforia absoluta, pois cinco minutos antes a Bélgica marcava o primeiro no jogo diante da Finlândia - dessa vez sem anulação. Um a zero lá e três a um aqui, o que poderia ser melhor? Lukaku marcar o segundo gol belga, aos trinta e cinco, e Joakim Mæhle marcar o quatro dinamarquês, aos trinta e seis. Na comemoração, Mæhle exibiu os dez dedos das mãos, homenageando Eriksen. 

Com o apito final nas duas partidas, a Dinamarca conseguiu confirmar a classificação na segunda colocação após iniciar a rodada na lanterna na chave. Qual o limite do sonho de quem já viu um milagre?

Festa completa em Copenhagen: Dinamarca goleia a Rússia e se classifica para as oitavas na Eurocopa 2020. Imagem extraída de Giro de Notícia.


segunda-feira, 21 de junho de 2021

Áustria Vence A Ucrânia E, Pela Primeira Vez, Avança De Fase Na Eurocopa

Com um futebol consistente tanto na marcação quanto no uso da posse de bola, a seleção austríaca conseguiu uma vitória histórica por um gol a zero sobre os ucranianos e, pela primeira vez desde sempre, se classificou para a fase eliminatória na Eurocopa. Com seis pontos (vitórias sobre Macedônia do Norte e Ucrânia; derrota para Holanda), a equipe comandada por Franco Foda avança na segunda colocação no grupo C. Líder na chave com 100% de aproveitamento, a Holanda venceu a Macedônia do Norte (que não pontuou) pelo placar de três a zero, em confronto realizado no mesmo horário. Já a Ucrânia, que somou pontos somente no jogo em que venceu os macedônios do norte, está na expectativa de se classificar entre as quatro melhores terceiras colocadas. A conferir.

Com Oleksandr Zinchenko atuando centralizado e tentando ser o motor da Ucrânia para fazer a bola chegar na boa dupla de ataque composta por Andrii Yarmolenko e Roman Yaremchuk, a realidade é que o atleta do Manchester City (que atua mais pelo lado esquerdo sob orientação de Josep Guardiola) pouco conseguiu produzir para a equipe comandada por Andriy Shevchenko.

Pelo lado austríaco, ao contrário, o setor de meio de campo como um todo se mostrava bastante funcional. Marcel Sabitzer, cerebral, coordenava as ações e ditava o ritmo da transição. Pelo lado direito, os quase xarás de sobrenome Konrad Laimer e Stefan Lainer davam apoio com a posse e também na recomposição. Eles contavam também com a participação ativa de Xaver Schlager, que de vez em quando arriscava chutes de fora da área. Caindo mais pelo lado esquerdo, Florian Grillitsch era mais discreto. Até porque nem precisava aparecer muito, pois aberto pelo seu setor estava o ótimo David Alaba, hábil no apoio e também na marcação. Por ali também participava Christoph Baumgartner, sempre apresentando bastante energia e movimentação. Com todos esses elementos bem entrosados, cabia à Marko Arnautovic a tarefa de ser a referência no ataque. Na realidade, ele nem deveria estar em campo após o ato racista na partida de estreia...

Fato é que, entre chutes, cruzamentos e bastante disputa, o lance de maior susto nos minutos iniciais foi por uma questão física: aos dezessete, um choque de cabeças entre Illia Zabarnyi e Baumgartner levou os dois ao chão e apressou o árbitro a chamar os médicos para o gramado. O filme que passa na cabeça é o pior possível, numa Eurocopa que já passou - e muito! - da cota nesse sentido. 

Três minutos após esse susto que, felizmente, não causou maiores problemas aparentes, saiu o gol austríaco: Alaba cobrou escanteio pela esquerda e, curiosamente, a disputa pela bola ficou exatamente entre Zabarnyi e Baumgartner. Dessa vez, nenhum dos dois levou a cabeça até a bola. Melhor para Baumgartner, que esticou a perna para mandar a bola na rede. Um a zero Áustria.

Momento do gol de Baumgartner, o único de Áustria e Ucrânia. Imagem extraída de El Dictamen.
 

Apenas doze minutos após o gol marcado (portanto, quinze após o incidente), Baumgartner foi substituído e deu lugar a Alessandro Schöpf. Tão logo deixou o campo de jogo, recebeu imediatamente aplicação de gelo na nuca, evidenciando que o choque foi realmente preocupante.

Para não dizer que a Ucrânia nada produziu no primeiro tempo de partida, houve uma excelente oportunidade de empatar a partida aos vinte e oito minutos: Yarmolenko avançou pela esquerda e, mesmo marcado por Lainer, chutou cruzado, com Daniel Bachmann espalmando e Yaremchuk quase conseguindo alcançar o rebote.

A Áustria teve pelo menos duas boas chances de ampliar a vantagem ainda antes do intervalo. Aos trinta e seis, Laimer (não confundir com Lainer) avançou pela esquerda e chutou cruzado, escapando da marcação de Oleksandr Karavaev - Heorhii Bushchan espalmou. Aos quarenta e um, na melhor de todas as oportunidades, Arnautovic recebeu passe de Schöpf em ótima condição mas chutou mal, à direita. Ainda houve tempo para Arnautovic desperdiçar outra chance, aos quarenta e seis, quando foi acionado por Sabitzer.

Na etapa final, a qualidade na troca de passe da seleção austríaca se mantinha praticamente inalterada. Porém, as aproximações da meta adversária se tornaram mais escassas. A Ucrânia, ao contrário, frequentou um pouco mais o campo de ataque. Aos seis minutos, após descida pelo flanco direito, a bola que foi cruzada para a área foi apenas resvalada por Yarmolenko, que falhou na tentativa de dominar e, na sequência, a finalização de Yaremchuk carimbou a marcação. Dois minutos depois, resposta da Áustria: após cobrança de falta realizada por Alaba pelo lado direito de ataque, Yarmolenko afastou apenas parcialmente e Arnautovic, no lado esquerdo da área, girou o corpo para pegar de primeira - a bola atravessou a área, com Martin Hinteregger e Laimer apenas assistindo, como se não acreditassem no lance. Aos quinze minutos, em lance de bola parada, Zinchenko levantou no primeiro poste e Mykola Matvienko mergulhou, mas não alcançou - na sequência, o goleiro Bachmann saltou para afastar.

Com a entrada de Marlos no lugar de outro Mykola, o camisa dez Shaparenko, até ficou a sensação que aumentaria de forma relevante o poder ofensivo ucraniano. Afinal, Yarmolenko e Yaremchuk continuavam em campo. Só que não foi o que aconteceu. Muito bem postada, a Áustria conseguiu conter o ímpeto adversário. Tirando um chute cruzado de Yeramchuk que passou à direita aos quarenta e um, não houve mais nada digno de nota que pudesse colocar a classificação austríaca em risco. Seja bem-vinda às oitavas de final da Eurocopa, Áustria!

domingo, 20 de junho de 2021

Golaços, Defesaças, Recordes! Um Jogaço Entre Suíça E Turquia Na Eurocopa 2020


O estádio olímpico de Baku, na capital do Azerbaijão, sediou o que pode ser considerado tranquilamente como um dos melhores jogos de toda essa fase de grupos na Eurocopa 2020. Suíça e Turquia atuaram buscando jogo, procurando o ataque e conseguindo finalizar diversas vezes. Ao todo, foram dezesseis finalizações - mas não se engane com esse número, pois a bola rondou as duas áreas em muitas outras ocasiões, tendo sido computadas nas estatísticas oficiais um acumulado de incríveis quarenta e duas "tentativas de gol". Não por acaso, os destaques da partida foram os goleiros Yann Sommer e Uğurcan Çakır, protagonistas de intervenções que foram fundamentais para que o jogo não fosse aquele com mais gols nessa edição da competição.

Vamos então a mais detalhes sobre essa excelente partida na última rodada, que terminou com vitória suíça por 3a1, gols marcados por Haris Seferovic, Xherdan Shaqiri (duas vezes) e Írfan Can Kahveci. Lembrando que, com este resultado e a vitória da Itália sobre País de Gales (1a0, gol de Pessina), o grupo A ficou com os italianos em primeiro lugar (nove pontos, saldo sete); os galeses em segundo (quatro pontos, saldo um); os suíços em terceiro (quatro pontos, saldo negativo de um); e os turcos em quarto (zero ponto, saldo negativo de sete). Desta forma, Itália e País de Gales se classificam enquanto a Suíça aguarda a definição das outras chaves para saber se sua campanha foi o suficiente para garantir uma das quatro vagas concedidas a seleções que terminaram na terceira colocação no grupo. Para a Turquia, foi o fim da participação nessa edição.

Às 13 horas de Brasília, o apito soou para início simultâneo na última rodada no grupo A, com Itália (já classificada) e País de Gales se enfrentando em Roma. A lamentar o fato de que, em Baku, não foi respeitado o momento de protesto contra o racismo, uma rotina nessa Eurocopa que acabou sendo rompida sem nenhum tipo de esclarecimento. E se você acha que o protesto é desnecessário, vale lembrar que, nessa mesma Eurocopa, tivemos um insulto de origem racista proferido por Arnautovic contra Alioski, em plena comemoração de gol do atacante austríaco no confronto de primeira rodada diante da Macedônia do Norte. Para piorar o que já era péssimo, a UEFA deu uma suspensão irrisória de apenas um jogo ao Arnautovic, ou seja, nessa última rodada ele poderá atuar normalmente diante da Ucrânia, como se nada tivesse acontecido.

Com bola rolando, o que se viu foi uma partida excepcional tanto pela movimentação de ambos os lados quanto pelo amplo repertório de finalizações para cada uma das equipes. Já aos três minutos, uma bela finalização de Mert Müldür terminou em linda defesa de Sommer, que espalmou para escanteio voando para o canto direito. 

Se a Turquia chegava mais, com três chutes nos minutos iniciais, a Suíça foi mais efetiva, abrindo a contagem já no seu primeiro remate: aos cinco minutos, Seferovic recebeu de Steven Zuber, arrumou e chutou cruzado, com a canhota que lhe é preferencial, mandando no canto esquerdo do goleiro Çakır. Um a zero Suíça e alívio para Seferovic, que vibrou bastante, como se estivesse tirando uma carga de si devido às cobranças por não ter conseguido marcar nas duas primeiras rodadas.

Ficar atrás no placar não é nenhuma novidade para a Turquia nessa Eurocopa, mas levar um gol nos cinco primeiros minutos de partida não é lá das coisas mais desejáveis para qualquer que seja a seleção. Não por acaso, os minutos seguintes deram uma ligeira esfriada nos ânimos turcos, que já viriam a ser restabelecidos com novos lances de presença no campo de ataque. Aos quinze, Müldür recebeu inversão de bola de Cengiz Ünder e tratou de chutar cruzado, com Sommer aparecendo novamente para espalmar, dessa vez no canto esquerdo. No minuto seguinte, a resposta suíça: Ricardo Rodríguez lançou Seferovic pelo lado esquerdo e o atacante chutou pro gol, mas a bola saiu sem muita força e foi defendida tranquilamente por Çakır. Aos vinte, nova chegada dos suíços, dessa vez com Zuber chutando rasteiro, à direita. Dois minutos depois, a Turquia teve nova chance: Burak Yilmaz recebeu no ataque, esperou uma eternidade pela aproximação de seus companheiros até que a bola finalmente pudesse chegar em Ozan Tufan, que chutou de fora da área, mandando por cima. Essa desconexão na Turquia entre o centroavante e o resto do time facilitava a marcação suíça, que, em maior número no último terço do campo, conseguia conter a maioria das aproximações.

Melhor organizada entre meio e ataque, a Suíça chegou ao segundo gol aos vinte e cinco minutos: Seferovic, desempenhando naquele momento uma função de pivô, teve seu chute travado e, na sequência do lance, Zuber passou para Shaqiri, que chutou de fora e mandou no ângulo esquerdo de Çakır, anotando um golaço. Dois a zero em Baku e um recorde na história da seleção suíça era estabelecido naquele momento: Shaqiri acabava de se tornar o primeiro jogador de seu país a marcar pelo menos um gol em quatro edições dos maiores torneios internacionais. Antes dessa Eurocopa de 2020, ele já havia anotado na Copa do Mundo de 2014, na Eurocopa de 2016 e na Copa do Mundo de 2018. 

Xherdan Shaqiri, que marcou duas vezes diante da Turquia, é o primeiro suíço a marcar gol em quatro edições dos principais torneios de seleções. Foto: Twitter Eurocopa / Divulgação

Apenas dois minutos após alcançar o feito inédito, Shaqiri por muito pouco não marcou outra vez: ele recebeu enfiada de bola de Granit Xhaka, avançou em velocidade com o campo livre a sua frente e chutou uma bola que foi salva em excelente defesa de Çakır. Após o lance, Shaqiri pediu desculpas pelo desperdício da oportunidade, sinalizando que sua fome de gols estava longe de ser saciada, mesmo depois de um recorde histórico.

Quando eu disse que era possivelmente o melhor jogo dessa Eurocopa, eu não estava exagerando. O primeiro tempo ainda reservaria outros lances interessantes. Aos trinta e dois minutos, o participativo Müldür, dono do flanco esquerdo turco e terror do lado direito do sistema defensivo suíço, apareceu novamente e descolou chute forte, à meia altura, no canto direito, parando em mais uma linda defesa de Sommer. É interessante observar que Müldür, um jogador ambidestro, atua no lado direito em sua equipe italiana, o Sassuolo. Mas, utilizado pelo técnico Şenol Güneş no flanco esquerdo turco, proporciona alguns momentos interessantes quando traz a bola para o pé direito e consegue chutes muito bem realizados. 

Três minutos depois, mais Turquia no ataque, dessa vez com Mehmet Çelik chutando forte, de primeira, e mandando por cima. A Suíça reagiu. Aos trinta e sete, Breel Embolo, que teve ótima atuação na estreia mas que pouco produziu na segunda rodada, partiu pela direita e chutou cruzado uma bola que atravessou em diagonal a pequena área, passando à direita. Aos quarente e dois, uma emoção para cada lado: Shaqiri passou para Seferovic e o chute do camisa nove foi travado por Çağlar Söyüncü. No contra-ataque, Müldür - sempre ele - avançou pelo lado esquerdo, chutou firme e Sommer, novamente, salvou a meta suíça ao buscar no canto direito.

Após um primeiro tempo muito bem jogado, veio a segunda etapa, onde os dois conjuntos se mantiveram focados em atacar. Afinal, no intervalo de jogo em Roma tínhamos uma vitória italiana, que dava para os suíços a possibilidade real de se classificar na segunda colocação caso conseguisse buscar o saldo de gols suficiente. Já aos turcos, somente uma virada em Baku daria alguma possibilidade de sonhar. O que, necessariamente, era uma intimação a se lançar ao ataque.

Aos três minutos, Zuber chutou rasteiro, fraco, com Çakır realizando a defesa sem maiores problemas. No minuto seguinte, a Turquia respondeu quando Ünder fez o levantamento e encontrou Yilmaz nas costas de Manuel Akanji, mas o cabeceio saiu por cima. Aos cinco, quase uma repetição de lance suíço anterior, com Zuber recebendo novamente pela esquerda e mais uma vez com Çakır conseguindo defender. Mais um minuto no relógio, mais uma oportunidade no gramado: aos seis, Embolo foi acionado na direita, correu acompanhado da marcação de Söyüncü e chutou firme, para uma defesaça de Çakır no canto esquerdo. 

O ritmo era frenético. Aos oito, Ünder carregou em jogada individual e chutou por cima. Três minutos depois, um erro de saída de bola permitiu que a Suíça avançasse novamente com Embolo pelo lado direito e dessa vez ele rolou de lado, encontrando Shaqiri mais centralizado. Mas o chute do camisa vinte e três passou por cima. Mais três minutos passados e nova oportunidade para os suíços: Seferovic recebeu no comando de ataque, escapou de dois marcadores e, mesmo marcado por Söyüncü, chutou rasteiro, cruzado, com Çakır salvando no cantinho.

E se dava pinta de que a Suíça transformaria a vitória em goleada, a Turquia finalmente tratou de marcar seu primeiro gol na Euro 2020. Aliás, um golaço. Aos dezesseis, após bela triangulação, Hakan Çalhanoğlu passou para Kahveci que, acompanhado pela marcação de Ricardo Rodríguez, tratou de mandar de fora da área - e o resultado disso foi um remate cruzado, na gaveta, entrando no lado direito do gol.

Se o gol abalou os suíços? Muito pelo contrário. Aos dezoito, Shaqiri tentou de fora da área e Çakır defendeu no canto direito. Na sequência do lance, um cruzamento vindo da direita encontrou Embolo fechando na pequena área, com a bola quase entrando. No minuto seguinte, Zuber chutou cruzado, de fora da área, mandando à esquerda. Aos vinte e dois, não teve jeito, era o terceiro gol suíço: após contra-ataque certeiro iniciado com o goleiro Sommer, Xhaka passou para Zuber, que cruzou na medida para Shaqiri completar. Três a um no placar. Detalhe: de mil novecentos e oitenta para cá a Eurocopa tinha visto apenas dois jogadores darem três assistências num mesmo jogo - Michael Laudrup, em 1984, e Rui Costa, em 2000. Steven Zuber acabava de se juntar a eles.

E por falar em grandes marcas, precisamos falar também sobre Xhaka. Desde o fim da Copa do Mundo 2018, somente dois jogadores inscritos nessa Eurocopa 2020 atuaram em todas as partidas de suas seleções: o francês Antoine Griezmann e ele, Granit Xhaka, que esteve em ação em todos os trinta e um jogos de sua seleção. E tem mais: na história da Suíça em Eurocopas (contando fases eliminatórias e o torneio propriamente dito), o recorde de aparições é do lendário atacante Stéphane Chapuisat, com vinte e nove jogos. Xhaka está a dois de igualar esta marca.

Figura central na transição meio-ataque, Xhaka fez bela jogada individual aos trinta minutos, sendo parado na meia-lua, com falta cometida por Söyüncü. O próprio Xhaka se ancarregou da cobrança, batendo forte e carimbando a trave esquerda. Na sequência do lance, Xhaka reclamou pênalti e foi punido com cartão amarelo pelo árbitro esloveno Slavko Vinčić. No meu entendimento, a reclamação foi de fato digna da advertência. Mas eu achei que houve, sim, pênalti no lance. Estranho é não apenas a decisão do árbitro, como principalmente o fato de o VAR não ter sido acionado. 

Polêmicas à parte, o jogo seguiu. Aos trinta e três, Ünder avançou e chutou por cima. Aos quarenta e três, já com o jogo menos intenso após quase uma dezena de substituições realizadas, foi a vez de Müldür aparecer novamente, chutando rasteiro e, pra variar, com Sommer defendendo. Ainda houve tempo para, aos quarenta e oito, Kenan Karaman fechar pelo meio após escanteio pela esquerda e mandar por cima o que poderia ter sido o segundo gol turco.

Mas não será por falta de gol ou de oportunidade de gol que nós iremos reclamar, não é mesmo? Bendito o momento em que decidi assistir essa partida ao invés de Itália e País de Gales. Resta saber se a Suíça conseguirá ser uma das quatro melhores terceiras colocadas para avançar às oitavas.

sábado, 19 de junho de 2021

Eurocopa 2020 - Análise Da Segunda Rodada Na Fase De Grupos

Finlândia 0a1 Rússia

São Petersburgo, histórica cidade russa que se localiza a menos de quatrocentos quilômetros de distância da capital finlandesa Helsinque, sediou o jogo de abertura na segunda rodada na Eurocopa 2020. E, para embolar de vez o grupo B, a seleção que perdeu na estreia venceu aquela que havia vencido o jogo inaugural. Mas as coisas não começaram nada fáceis para a Rússia: já na primeira chegada da Finlândia, com menos de cinco minutos no relógio, Pohjanpalo abriria a contagem. Abriria, se não fosse a anulação que detectou impedimento no lance.

Pohjanpalo, que havia marcado o gol finlandês na vitória sobre a Dinamarca, teve ainda outras duas ótimas chances para vazar a meta russa, ambas sem sucesso. Mas a Rússia também tinha suas ambições: numa, acertou a trave esquerda em finalização de Dzyuba; noutra, abriu o placar em belíssimo chute de Miranchuk, que bateu colocado mesmo com pouca angulação para o remate.

No segundo tempo, a partida ganhou movimentação em ambos os campos de ataque. O empate finlandês quase saiu em lance onde Teemu Pukki teve seu chute travado de forma providencial por Karavaev. E se o empate não ocorreu naquele momento, não ocorreria nunca mais, principalmente após a decisão de Markku Kanerva tirar Pukki de jogo e colocar Lappalainen. Foi a sentença que afastou os nórdicos da área adversária. E, a partir daí, os russos ficaram mais próximos de ampliar a vantagem do que de sofrer o empate. No final, persistiu o um a zero, resultado que iguala a pontuação das duas seleções e que dá indícios de fortes emoções na rodada derradeira.

Turquia 0a2 País de Gales

Arroz com feijão. Você conhece alguma parceria melhor que essa? No âmbito culinário, é paixão - e salvação - nacional. Uma combinação deliciosa, que traz saciedade e que dá um aporte nutricional importantíssimo para a saúde humana.

Calma, esse não é um blógui sobre comida. Mas achei por bem trazer o arroz com feijão pra introduzir uma outra parceria que também dá muito certo: Aaron Ramsey e Gareth Bale. Logo aos cinco minutos, Bale deu passe certeiro para Ramsey que, após drible preciso, finalizou rasteiro e parou em grande defesa de Çakır. Aos vinte e três, nova aparição da dupla arroz com feijão: Bale lançou, Ramsey surgiu em liberdade e acabou chutando por cima. Pensa que acabou o repertório? Pois o melhor sairia do forno aos quarenta e dois: Bale fez o lançamento, Ramsey ajeitou no peito, arrumou o corpo e chutou cruzado. Golaço galês.

No segundo tempo, Bale poderia ter ampliado, mas desperdiçou um pênalti aos quinze minutos. E, após a saída de Ramsey aos trinta e nove, quase queimou o rango de Gales: aos quarenta e um, após cobrança de escateio, Demiral - que entrou no intervalo - só não empatou o jogo porque Ward defendeu lindamente. Seria um empate bastante indigesto para uma seleção que dominava as ações na maior parte do tempo. Mas, para felicidade galesa, a equipe ainda teve a competência de, nos acréscimos, se aproveitar dos espaços deixados para ampliar a contagem: Bale fez jogada individual na linha de fundo e serviu Connor Roberts para marcar o segundo. Era a segunda assistência de Bale, destaque absoluto numa atuação onde conseguiu ir bastante além do arroz com feijão.

Itália 3a0 Suíça

Se na partida de estreia os 3a0 da Azzurra diante da Turquia não me convenceram, esse segundo 3a0 escancarou as virtudes da equipe comandada por Roberto Mancini. Mesmo com a saída forçada de Chiellini (que teve um gol anulado antes de ser substituído por lesão), a defesa italiana permaneceu sólida. Sólida ao ponto de fazer Embolo, que teve grande atuação na estreia suíça, se tornar figura praticamente inoperante no jogo.

E, curiosamente, foi pouco após a saída de Chiellini que a Itália abriu o placar - dessa vez, de fato e de direito. Aos vinte e cinco, Domenico Berardi recebeu no flanco direito, avançou em velocidade tirando proveito do espaço deixado e cruzou, ou melhor, passou com carinho e com afeto para Manuel Locatelli concluir.

No segundo tempo, aos cinco, Locatelli, que já era figura determinante para o setor de meio de campo italiano, voltou a dar o ar da graça no ataque: dessa vez, ele recebeu passe de Nicolo Barella e chutou seco, cruzado, no canto esquerdo. O goleiro Sommer? Só assistiu.

Aos quarenta, ecoaram os sons dos aplausos em Roma. O motivo era a reverência a Locatelli, que deixava o campo para dar lugar a Pessina. Três minutos depois, a vitória ganhou contornos de goleada quando Rafael Tolói, que substituíra Berardi aos vinte e quatro no segundo tempo, recuperou a bola no ataque e rolou para Immobile anotar o terceiro.

A Itália é a primeira seleção matematicamente classificada. E o mais importante: jogando um futebol competitivo, de qualidade e com bastante movimentação. 

Ucrânia 2a1 Macedônia do Norte

Numa partida bem movimentada, ucranianos e macedônios do norte foram a campo cientes da necessidade de buscar a vitória após saírem derrotados na rodada inaugural. Bom para quem assiste, pois não é por falta de iniciativa que as oportunidades não serão criadas.

A Ucrânia, que é treinada por aquele que foi o maior atacante na história da seleção nacional, tem exatamente em sua dupla de ataque a maior virtude. Bem posicionados e bastante entrosados, ambos foram fundamentais na construção do resultado.

Aos vinte e oito minutos no primeiro tempo, um escanteio cobrado da esquerda encontrou Karavaev no primeiro poste e deste saiu um passe que desmontou a defesa oponente: livre de marcação, Yarmolenko finalizou e não desperdiçou. Quatro minutos depois, Yarmolenko fez a assistência para seu companheiro de ataque, Yaremchuk, ampliar a vantagem.

A Macedônia do Norte voltou melhor do intervalo e pressionou. Aos onze, um pênalti sofrido por Pandev foi cobrado por Alioski. Bushchan conseguiu defender, mas foram os jogadores de camisa vermelha que mais se empenharem para o rebote, com o próprio Alioski mandando para a rede - não fosse ele, seria algum companheiro de equipe a completar para o gol, numa tremenda covardia com o goleiro.

Treze minutos após sofrer o gol, Shevchenko tirou seus dois atacantes, aumentando a presença no meio de campo. Substituições que são um prato cheio para a cornetada. Mas quem melhor que Shevchenko para fazer a leitura de manter, tirar ou colocar um atacante dentro de campo? O fato é que a Ucrânia reequilibrou as ações. Aos trinta e oito, Malinovskyi teve a chance de recolocar a margem de dois gols de vantagem quando o VAR acusou toque de mão dentro da área. Mas a cobrança de pênalti, feita com mais força do que colocação, parou em bela defesa de Dimitrievski.

Nos últimos instantes, Trajkovski, que entrara no intervalo de jogo, quase deixou tudo igual no placar. Mas seu chutou cruzado, aos quarenta e oito, acabou indo para fora.

Dinamarca 1a2 Bélgica

Em jogo marcado por homenagens a Christian Eriksen, a Dinamarca fez aquele que considero os melhores dez minutos iniciais de uma seleção até aqui nessa edição de Eurocopa. Sem tomar conhecimento da Bélgica, a equipe foi para cima e fez um abafa com velocidade, troca de passe, movimentação e bastante objetividade. O prêmio veio antes dos dois minutos: após bola recuperada perto da área belga, Højbjerg fez o passe e Poulsen chutou cruzado, no canto direito, tirando de Courtois.

Os dinamarqueses quase fariam o segundo, mas o melhor momento da partida não foi numa oportunidade criada, numa finalização, nada disso. Foi a homenagem prestada a Eriksen depois que o relógio apontou dez minutos de jogo. Todos pararam. Jogadores, árbitro, bola, comissão técnica. Eu me atreveria a dizer que, por um instante, o mundo parou junto. E os aplausos deram o tom do valor intrínseco que reside em uma vida. Se déssemos a todas as formas de vida esse mesmo apreço, viveríamos no paraíso. O justo paraíso.

"TODA A DINAMARCA ESTÁ COM VOCÊ, CHRISTIAN". Imagem extraída de Short Sport News.

 

Após a parada emocionante e arrepiante, o domínio da Dinamarca se esvaiu. Cheguei a ter a sensação de que aqueles primeiros dez minutos foram jogados por Eriksen. Como se os dinamarqueses tivessem um jogador a mais. 

Mas, com a entrada de Kevin De Bruyne no intervalo para estrear nessa Euro, o panorama da partida mudou de vez. Aos oito, após linda jogada pela direita onde Lukaku atuava naquele momento como um ponta, Thorgan Hazard recebeu de De Bruyne e empatou a partida. Dezesseis minutos depois, Eden Hazard - irmão de Thorgan e que entrara no lugar de Carrasco - recebeu de Lukaku e passou para De Bruyne marcar outor belo gol. O vigésimo segundo dele pela seleção.

Nos últimos minutos, a Dinamarca conseguiu algumas boas situações e quase empatou. Nas principais oportunidades, Braithwaite acertou a trave e, mais perto do final, Jensen chutou próximo ao gol.

Holanda 2a0 Áustria

No primeiro jogo entre equipes que venceram na rodada inaugural, holandeses e austríacos fizeram uma boa partida, mas com bastante oscilação no rendimento de ambos os conjuntos. Ainda antes dos dez minutos, Alaba pisou em Dumfries na área e o VAR não deixou passar - quem também não perdoou foi Memphis Depay, que cobrou o pênalti com precisão para abrir a contagem.

Com Frenkie De Jong e Georginio Wijnaldum exibindo grande qualidade no trato com a bola, a Holanda conseguia prevalecer na criação de jogadas. Aos trinta e nove, Van Aanholt lançou Weghorst, que abriu mão do instinto goleador para dar ótimo passe para Memphis. Mas a finalização do camisa dez passou longe, apesar da ótima posição. No minuto seguinte, Van Aanholt tabelou com De Jong e passou para Wijnaldum, que teve seu chute bloqueado por Ulmer.

Veio o segundo tempo e o desafio da Áustria era conseguir encontrar brechas numa defesa que se mostrava sempre atenta. Sabitzer, que tem ótima precisão nos passes, lançamentos e chutes, era figura constantemente bem acompanhada por alguém vestindo laranja, o que dificultava a capacidade criativa austríaca. E se a situação já era complicada para os austríacos, aos vinte e um ela ficou ainda pior: Donyell Malen, que entrara no lugar de Weghorst três minutos antes, arrancou em velocidade pela esquerda e tomou a melhor decisão ao rolar de lado para Dumfries chutar pro gol. Bachmann, que tinha feito uma defesaça anteriormente, até tocou na bola, mas não havia muito o que fazer. Dois a zero.

No final, a Holanda quase transformou a vitória em goleada: em rápido contra-ataque aos quarenta e três, o zagueiro Stefan De Vrij deu uma grande arrancada para se apresentar fechando pelo meio da área, mas Donyell Malen, dessa vez, decidiu resolver sozinho e chutou para fora, ignorando a presença do companheiro em melhor situação. Se optasse pelo passe, provavelmente seria sua segunda assistência no jogo. Com este resultado, a Holanda está classificada para as oitavas de final em primeiro lugar no grupo C.

Suécia 1a0 Eslováquia

Por motivo de trabalho presencial, essa foi a partida que menos tempo de jogo consegui assistir. Acompanhei mais ou menos um quarto do total, sendo a maior sequência a partir do momento em que a Suécia fez o gol, com Forsberg, cobrando pênalti aos trinta e um minutos no segundo tempo.

A partir desse momento, o que se viu foi uma seleção eslovaca buscando o empate, embora deva confessar que me causa estranheza a opção do treinador por tirar de campo jogadores hábeis e experientes como Vladimir Weiss e Marek Hamšík. Enfim, difícil tecer maiores julgamentos sem ter assistido o desenrolar dos acontecimentos. O fato é que, nas estatísticas da partida, acusa-se um total de zero chute da Eslováquia na direção do gol, mesmo detendo o maior tempo de posse de bola. Por sinal, deter o maior tempo de posse de bola quando se enfrenta essa seleção sueca parece algo tão natural quanto correr no gramado...

Croácia 1a1 República Tcheca

Vindos de uma vitória na estreia sobre a Escócia - onde passou a chamar atenção pela grande atuação de seu camisa dez -, os tchecos enfrentaram uma Croácia que buscava seus primeiros pontos no grupo D. Confirmando a expectativa de um jogo equilibrado - que terminou em igualdade tanto no percentual de posse de bola quanto no número de chutes a gol -, o fato é que cada seleção foi ligeiramente superior em um tempo de jogo. No primeiro, os tchecos conseguiram se postar de forma a se aproximar do ataque e, não menos importante, manter Luka Modric distante do último terço de campo. E chegou ao gol aos trinta e seis: após Lovren dar uma cotovelada em Patrick Schick dentro da área, o pênalti foi assinalado com auxílio da revisão do VAR. E Schick, que havia encantado no jogo inaugural, foi para a cobrança mesmo com o nariz sangrando após o lance que originou o pênalti. Certeiro. Um a zero República Tcheca, terceiro gol dele nessa Eurocopa. 

Logo no intervalo, Zlatko Dalić mexeu duas vezes: entraram Ivanušec e Petković nos lugares de Brekalo e Rebić. E foi já no início do segundo tempo que os croatas empataram: Ivan Perisic recebeu de Kramarić no seu habitat natural, isto é, o flanco esquerdo do ataque, e fez o que melhor sabe fazer, trazendo a bola para o lado direito e chutando firme, cruzado, estufando a rede de Vaclík.

Modric até conseguia aparecer mais no campo de ataque, mas o confronto era mais intenso na disputa territorial no meio de campo do que nas proximidades das duas áreas. E, desta forma, o empate acabou se sustentando até o apito final, dando a entender que a última rodada nessa chave poderá ter duas partidas bastante interessantes entre tchecos e ingleses; e croatas e escoceses.

Inglaterra 0a0 Escócia

Num confronto com cento e catorze jogos oficiais, o zero a zero somente apareceu em três ocasiões - nenhuma delas em território inglês. Não até este jogo. Embora a Inglaterra conseguisse avançar e rodar a bola procurando espaços, o fato é que foram poucos os momentos em que efetivamente a seleção comandada por Gareth Southgate conseguiu envolver o adversário de forma a criar momentos de grande pressão. Na realidade, se pegarmos o primeiro tempo como um todo, a chance mais interessante foi escocesa: aos vinte e nove, Tierney cruzou e O`Donnell pegou de primeira, cruzado, parando em defesa de Pickford.

No segundo tempo a Inglaterra ensaiou uma melhora, que passava pela participação ativa de Foden, jogador de maior técnica no uso da posse de bola. Fiquei realmente sem entender a opção de Southgate trocar Foden por Grealish aos dezessete. E entendi menos ainda o comentário proferido por Lédio Carmona durante transmissão televisiva, que sintetizou a participação de Foden como se tivesse "tomado decisões ruins". Decisão ruim, ao meu ver, foi ter tirado de campo um dos mais lúcidos jogadores no gramado.

Com os comandados de Steve Clark conseguindo neutralizar a maioria das ações ofensivas de uma Inglaterra cada vez mais previsível, o jogo rumou para a confirmação do zero a zero. Mas não sem uma última emoção, já nos acréscimos, quando cerca de meia dúzia de jogadores ficaram em volta de uma bola que não entrava nem saía da área escocesa, parecendo por alguns segundos se tratar de um lance de rugby - onde viam-se cabeças, costas, pernas, braços, mas não se conseguia enxergar aquele famoso objeto esférico, que passou longe das duas redes nesse clássico britânico.

Hungria 1a1 França

Se essa segunda rodada na fase de grupos na Eurocopa 2020 teve algo que podemos chamar de "zebra", muito prazer, estamos em Budapeste. 

Desde cedo foi possível perceber que teríamos a França detendo mais tempo de posse de bola, algo que passou longe de acontecer quando os franceses, retraídos e reativos, enfrentaram - e venceram - a Alemanha. 

Aos treze minutos, tanto Mbappé quanto Griezmann pararam em defesas de Gulácsi. Três minutos depois, Digne cruzou da esquerda e Mbappé, livre, leve e solto, cabeceou à esquerda da meta. Mais quatro minutos passados, mais França no ataque: Digne escorou de cabeça, Benzema levantou e Mbappé voltou a cabecear - novamente para fora. Aos trinta, Benzema recebeu na área e ele próprio finalizou, mandando à esquerda.

As oportunidades francesas pareciam não cessar: aos trinta e quatro, Mbappé avançou pela esquerda em velocidade, Benzema recebeu centralizado e, cheio de boas intenções, errou o passe para Griezmann, à sua direita no ataque. Dois minutos depois foi a vez de Pogba, muito menos participativo do que na estreia, chutar rasteiro, no lado externo da rede.

Com esse tanto de chances desperdiçadas, o gol em algum momento tinha de acontecer, não é mesmo? Pois ele foi marcado pela Hungria: aos quarenta e seis, Roland Sallai acionou o incansável Attila Fiola nas costas de Pavard e de Varane e o camisa cinco húngaro mandou rasteiro, firme, no canto direito de Lloris, para enlouquecer uma já insana torcida que aglomerava sem máscara no estádio.

No segundo tempo, aos três, Gulácsi espalmou chute cruzado de Pogba. Aos treze, quem salvou a Hungria não foi Gulácsi, mas a trave esquerda, que rebateu o chute de N`Golo Kanté. Aos vinte, veio o empate: Mbappé arrancou em velocidade pelo lado direito e tentou dar a assistência para Benzema. Só que Vilmos Tamás Orban não deixou. Melhor para Griezmann, que chegou na bola e teve tranquilidade para chutar no canto esquerdo.

A Hungria ainda teve uma chance de ficar novamente em vantagem quando, aos vinte e oito, Nemanja Nikolić - que entrara no lugar de Szalai ainda no primeiro tempo - chutou mascado, para defesa de Hugo Lloris. Aos trinta e seis, a França somente não virou o jogo porque Gulácsi rebateu o chute forte dado por Mbappé. Aos quarenta e nove, no último lance de maior perigo, Varane cabeceou à esquerda. E o um a um foi bastante comemorado pelos húngaros, que chegarão à última rodada com chance de classificação em caso de vitória sobre a Alemanha. Eu nem sou capaz de cogitar o tamanho da celebração em Budapeste caso isso de fato aconteça... Que, independentemente do que venha ocorrer, máscaras cubram nariz e boca...

Portugal 2a4 Alemanha

No jogo de mais gols até o momento nessa Eurocopa, tivemos uma atuação de gala da Alemanha de Joachim Löw. Jogando um futebol ofensivo, de movimentação, toques curtos, enfiadas de bola, inversões, triangulações, jogadas de ultrapassagem e sem jamais se abdicar de atacar, a equipe reviveu seus grandes momentos sob o comando desse magistral técnico de futebol. Por alguns momentos, lembrei daquele maravilhoso 7a1 no estádio Mineirão. Em outros, pensei comigo mesmo o tamanho da saudade que o amante do futebol arte irá sentir quando Löw se despedir dessa seleção que ele foi determinante para revolucionar a forma de jogar.

Aos quatro minutos, Robin Gosens já abriria o placar em Munique. Só que o gol foi invalidado em função da posição irregular de Serge Gnabry no lance. Aos nove, um chute de Kai Havertz foi rebatido pelo goleiro Rui Patrício e Gnabry chegou no rebote, mas a defesa portuguesa afastou. Dois minutos depois, Toni Kroos teve o chute bloqueado na defesa após jogada de linha de fundo pela esquerda.

Foram os catorze minutos iniciais mais intensos e encantadores na competição. Mantendo o oponente sempre sob pressão e variando as jogadas, a Alemanha esbanjava versatilidade na construção e fome de gol no momento da conclusão. Mas, por ironia, o primeiro gol do jogo saiu no primeiro contra-ataque bem realizado por Portugal: Bernardo Silva fez ótimo lançamento para Diogo Jota, que avançou e viu Cristiano Ronaldo à sua direita, rolando de lado para o camisa sete apenas empurrar para o gol, abrindo a contagem e marcando seu terceiro no torneio.

Cristiano, aos vinte e um minutos, ainda daria um belo chapéu em Rudiger para na sequência tocar de calcanhar, em lance que não levou Portugal a lugar nenhum, apesar da plasticidade. Mas sabe o que é mais bonito do que um chapéu seguido de passe de calcanhar? O jeito da Alemanha de Löw jogar!

Aos vinte e quatro, Gnabry partiu pela direita, cruzou fechado e por muito pouco que Hummels, na pequena área, não conseguiu cabecear. Aos vinte e oito foi a vez de Kimmich avançar também pelo flanco direito, cruzar rasteiro e Rui Patrício recolher a bola. Já aos trinta e quatro, um gol de fato e de direito para empatar a partida: após inversão de jogo para o lado esquerdo, Gosens chegou pegando de primeira, cruzado, e no entrelace de pernas entre Havertz e Ruben Dias, foi o defensor português quem colocou a própria canela na bola, anotando contra. A partida estava empatada e a virada aconteceria quatro minutos depois: em jogada envolvendo Gosens, Thomas Müller, Havertz e Kimmich, Raphael Guerreiro acabou marcando contra - não fosse ele, provavelmente seria Gnabry o autor do gol.

O placar poderia ter sido (muito) mais dilatado ainda antes do intervalo, notadamente pelas chances de Havertz, aos trinta e nove e de Gnabry, aos quarenta e sete, com Müller quase chegando na bola rebatida por Rui Patrício. 

Veio o segundo tempo e o show alemão continuou. Aos cinco minutos, Gosens recebeu na esquerda e cruzou rasteiro para Havertz marcar o terceiro. Foi mais uma jogada com o DNA dessa Alemanha de Löw, com participação coletiva de rápida troca de passes, envolvendo İlkay Gündoğan, Havertz e uma tabela de Müller com Kimmich antes de Gosens dar a assistência para Havertz.

O repertório de grandes jogadas se mostrava inesgotável: aos catorze, Havertz abriu na direita com Kimmich. Ele recebeu, avançou, levantou a cabeça e tinha três opções no cruzamento, já que Gnabry, Havertz e Gosens estavam na área. E Kimmich escolheu a melhor delas, colocando na cabeça de Gosens.

Após esse quarto gol, Löw tirou Gosens, o melhor jogador em campo, e colocou Marcel Halstenberg. Também trocou Mats Hummels por Emre Can. A partir de então, o ritmo da Alemanha desacelerou e Portugal conseguiu diminuir o prejuízo no setor de meio de campo, com Renato Sanches, João Moutinho e Rafa Silva apresentando melhor rendimento que os titulares Bernardo Silva, William Carvalho e Bruno Fernandes. Aos vinte e um, em lance de bola parada pela esquerda, a redonda viajou até o segundo poste com Cristiano Ronaldo arrumando para Diogo Jota, retribuindo a gentileza no primeiro gol português.

Aos trinta e três, Renato Sanches chutou de longe e acertou a trave direita de Manuel Neuer. Aos trinta e sete, Goretzka, que entrara no lugar de Havertz, chutou por cima do travessão em contra-ataque iniciado após erro de Danilo. Aos quarenta e três, Rudiger afastou de cabeça lance perigoso com Pepe dentro da área alemã. Aos quarenta e oito, foi Ginter quem conseguiu, de carrinho, bloquear chute de André Silva, que substituíra Diogo Jota.

Em síntese, uma espetacular exibição da Alemanha, na melhor atuação de uma seleção nessa Eurocopa. Independentemente de até onde essa equipe possa chegar, ela, na verdade, já chegou. Chegou no coração de quem ama esse esporte chamado futebol.

Espanha 1a1 Polônia

Fechando a segunda rodada, a Espanha recebeu a Polônia em Sevilla. Novamente, a equipe espanhola foi dominante, impondo seu estilo de jogo e não raramente criando situações de perigo ao gol adversário. Escalada com Morata e Moreno no ataque, a equipe comandada por Luís Enrique apresentou um "instinto" goleador mais aguçado do que na partida de estreia. Olmo, aos nove; Pau Torres, aos doze; e Rodri, aos dezessete minutos, tiveram oportunidades. Mas foi aos vinte e quatro que saiu o gol: Moreno chutou cruzado e o remate virou um passe para Morata, que desviou para dentro. Era um lance bastante difícil para analisar a legalidade da posição de Morata, mas a revisão via VAR atestou a legitimidade do gol espanhol.

O primeiro tempo, bastante movimentado, teve ainda outras quatro situações interessantes. Aos trinta e três, Moreno cobrou falta mandando perto da trave direita. No minuto seguinte, a Polônia chegou pela direita com Lewandowsky servindo Świderski, mas o desvio do camisa onze foi por cima. Aos quarenta e dois, nova chance polonesa, dessa vez com Świderski acertando a trave e, no rebote, Lewandowski parando em grande defesa de Unai Simón. Aos quarenta e quatro, Jordi Alba recebeu de Pedri e cruzou para Moreno fechar na primeira trave, mandando à direita.

Veio a segunda etapa e, aos oito, saiu o gol de empate polonês: Jóźwiak cruzou da direita, Laporte não conseguiu subir e quem tirou proveito disso foi simplesmente Lewandowski, cabeceando no canto direito.

Sem dar tempo para lamentações, a Espanha correu atrás da própria felicidade já no minuto seguinte, em lance que a revisão do VAR mostrou pênalti cometido por Moder em Moreno. Moreno pegou a bola para a cobrança. Era o desenho da retomada da vantagem no placar. Mas a trave direita foi o destino da bola. No rebote, Morata conseguiu chutar para fora.

A Espanha, embora visivelmente abalada com os baques de ceder o empate e desperdiçar um pênalti numa partida em que era dominante, continuou produzindo: aos dezenove, Morata, pela direita, chutou cruzado e Szczęsny espalmou. Aos vinte e sete, Ferran Torres, que entrara no lugar de Daniel Olmo, teve a chance em jogada por cima, mas seu cabeceio saiu fraco. Aos trinta e oito, após lançamento para a área, Morata teve o chute bloqueado por Szczęsny, Bednarek afastou parcialmente no rebote e a bola sobrou para Ferran Torres, que chutou para fora.

A Espanha chega a dois empates e vai definir seu futuro diante dos eslovacos, que possuem três pontos, naquele que tem muitos ingredientes para ser um grande jogo. Os poloneses, com um ponto, entrarão em campo na necessidade de vencer os suecos, atuais líderes na chave, com quatro.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Eurocopa 2020 - Análise Da Primeira Rodada Na Fase De Grupos

Seguem breves comentários sobre os jogos que assisti nessa primeira rodada na fase de grupos na Eurocopa 2020 (que virou uma espécie de Eurocopa 2021).  

[ao terminar essa postagem, percebo que consegui assistir todos os jogos dessa rodada - que alegria!]

Turquia 0a3 Itália

Na abertura do torneio continental, a seleção italiana dominou territorialmente o setor de meio de campo e não encontrou muita resistência por parte dos turcos em manter a posse de bola no campo ofensivo. Segura como quase sempre, a dupla de zaga Chiellini - Bonucci raramente foi colocada à prova.

Todos os gols saíram no segundo tempo: Demiral marcou contra, aos sete; Immobile ampliou aos vinte; e Lorenzo Insigne, um dos destaques na partida, fechou a conta com um chute cruzado característico, tirando completamente do alcance de Uğurcan Çakır.

Embora eu tenha visto muitos comentários exaltando a atuação da Azzurra, devo dizer que não vi rigorosamente nada de especial na performance do time comandado por Roberto Mancini. A Turquia, demasiadamente retraída, foi facilmente envolvida. A Itália soube tirar proveito e, mesmo com um repertório limitado, chegou aos gols numa vitória tranquila. Provavelmente, a competição exigirá rendimentos melhores do que esse para que a tetracampeã mundial possa sonhar com algo grande nessa Eurocopa.

País de Gales 1a1 Suíça

Também pelo grupo A, galeses e suíços travaram confronto bem disputado. No primeiro tempo, tanto Daniel Ward quando Yann Sommer realizaram uma defesa difícil - destaco a do goleiro da Suíça, que brilhou ao conseguir espalmar ótimo cabeceio de Kieffer Moore.

No segundo tempo, quem assumiu o protagonismo foi o atacante camaronês naturalizado suíço Breel-Donald Embolo. Além de imprimir velocidade, apresentar ótimo controle de bola nas arrancadas e ser figura ativa inclusive na criação de jogadas, Embolo ainda conseguiu mostrar virtude no jogo aéreo: aos três, cabeceou após cobrança de escanteio de Xherdan Shaqiri para abrir a contagem em Baku.

Gales não se deu por vencido e passou a atacar mais, até alcançar o empate aos vinte e oito: Joseff Morrell levantou e Moore, aquele mesmo que tinha parado em defesaça de Sommer, dessa vez não deu chance ao goleiro suíço.

Mais perto do final, Mario Gavranovic até recolocaria os suíços na frente, após ótimo passe de Embolo, mas o VAR acertadamente orientou a anulação do gol, por impedimento.

São duas equipes que, apesar de algumas limitações, deverão impôr dificuldades aos italianos nas próximas rodadas. A conferir.

Dinamarca 0a1 Finlândia

O primeiro tempo do confronto nórdico apresentava uma seleção dinamarquesa bastante presente no campo ofensivo, apostando na criatividade de Christian Eriksen e na mobilidade de Martin Braithwaite. Os finlandeses se defendiam bravamente mas parecia ser questão de tempo até que a equipe viesse a ser vazada.

Porém, por volta do minuto quarenta e três, ocorreu uma tragédia: Christian Eriksen teve um mal súbito e caiu no gramado. Jogadores de ambas as seleções se desesperaram, o público se comovia e os médicos atuavam para tentar reanimar o dinamarquês de vinte e nove anos de idade. 

Felizmente, as notícias que vieram mais tarde eram a de que seu quadro era estável após sofrer uma síncope. O jogo ficou paralisado e, quando retornou, eu já não mais assisti. Tivemos uma vitória finlandesa (gol de Pohjanpalo, aos catorze minutos no segundo tempo) em uma partida que será lembrada pelo incidente com Eriksen. Que tudo fique bem com ele! Isso é o que realmente importa!

Momento desesperador do atendimento médico ao jogador Christian Eriksen. Foto: CNN Filipinas.

 

Bélgica 3a0 Rússia

Também pelo grupo B (o mesmo de Dinamarca e Finlândia), belgas e russos foram a campo em São Petersburgo - cidade e estádio que tive o prazer de conhecer durante a Copa do Mundo 2018, onde assisti a semifinal entre França e Bélgica. As seleções já tinham conhecimento do estado de saúde de Eriksen. E a prova disso se deu logo aos nove minutos: Romelu Lukaku, esbanjando o oportunismo habitual, aproveitou vacilo da defesa - e da arbitragem e também do VAR, já que estava em posição irregular - para chutar cruzado, de perna esquerda, e abrir a contagem. Mas o melhor ficou para a comemoração, quando foi até uma câmera e declarou seu amor por Eriksen, companheiro de time na Internazionale. 

A Bélgica sobrava em campo e suas preocupações se limitavam ao atacante Artem Dzyuba, que era bastante acionado na função de pivô, embora geralmente em lances onde estava muito bem marcado. Aos trinta e três, Thomas Meunier (que entrara no lugar de Castagne, em lance de choque de cabeça que também tirou de campo o russo Daler Kuzyaev) aproveitou rebote do goleiro Anton Shunin e ampliou para a Bélgica. Carrasco ainda poderia ter deixado a vantagem mais dilatada antes do intervalo, em bela jogada individual pelo lado esquerdo que terminou em chute por cima do travessão.

No segundo tempo, ainda sob domínio belga, o terceiro gol saiu novamente dos pés de Lukaku: ele aproveitou ótima enfiada de bola de Meunier e mandou rasteiro para sacramentar a vitória aos quarenta e dois. Importante observar que, mesmo sem o astro Kevin De Bruyne - e com Eden Hazard entrando somente na etapa complementar -, a seleção comandada pelo espanhol Roberto Martínez mostrou qualidades suficientes para se credenciar ao título.

Inglaterra 1a0 Croácia

Semifinalistas na Copa do Mundo de 2018 - ocasião na qual os croatas levaram a melhor, triunfando na prorrogação -, essas seleções tinham voltado a se encontrar naquele mesmo ano, pela Liga das Nações (com empate sem gol e vitória inglesa por dois a um). Dessa vez, pela Eurocopa 2020, e durante uma pandemia que já matou milhões de pessoas pelo planeta, tivemos novamente um jogo equilibrado.

Porém, mesmo nesse equilíbrio, foi flagrante perceber uma maior aptidão da Inglaterra em chegar com mais perigo ao ataque. Talvez as ausências de Rakitic no meio e de Mandzukic no ataque tenham dificultado as coisas para a Croácia. Mas é fato que há muita coisa interessante no English Team. O volante Kalvin Phillips, treinado por Marcelo Bielsa no Leeds United, foi o melhor jogador em campo. Saiu dele uma combatividade fundamental para conter o ímpeto croata. E saiu dele o passe para o único gol da partida, marcado por Raheem Sterling. Gareth Southgate conseguiu montar um time onde todo o setor de meio-campo encosta nos atacantes, de uma forma a permitir uma gama de opções difícil de ser contida pela defesa adversária. Embora seja prematuro afirmar até onde poderá ir a Inglaterra nessa Eurocopa, tenho a sensação de que já se coloca como um dos selecionados mais difíceis de ser superado.

Áustria 3a1 Macedônia do Norte

Inaugurando o grupo C, a Áustria e a Macedônia do Norte se enfrentaram em Bucareste numa partida de muita movimentação onde ambas as equipes se mostraram destemidas na busca pela vitória. Se por um lado os austríacos saíram na frente aos dezessete, dez minutos mais tarde falharam numa interceptação dentro da área e viram o veterano Goran Pandev empatar o jogo num momento histórico: tratava-se do primeiro gol em Eurocopa do país que conquistara a independência em oito de setembro de mil novecentos e noventa e um. Para se ter uma idéia, Pandev nasceu oito anos antes, na cidade de Strumica, naquela época sob domínio iugoslavo. Tal domínio finalmente teve fim. E quem passou a dominar - não o território de um país, mas o campo de jogo - foi a Áustria.

No segundo tempo, com relativa naturalidade, a equipe comandada por Franco Foda - que dispensa adjetivos com uma atuação e um sobrenome desse - marcou mais duas vezes e sacramentou uma importante vitória no jogo de estreia, em partida onde em momento algum abdicou de atacar.

Holanda 3a2 Ucrânia

Também pelo grupo C (o mesmo de Áustria e Macedônia do Norte), holandeses e ucranianos fizeram sua estreia em Amsterdã. Habitualmente montada com dois pontas, a Holanda honrou sua tradição e foi a campo com Denzel Dumfries e Memphis Depay atuando pelos flancos, embora rotineiramente se apresentando de forma mais centralizada, numa equipe bastante dinâmica no setor ofensivo. A Ucrânia até conseguiu manter o placar zerado por todo o primeiro tempo. Mas, no segundo, a rede balançou e balançou com gosto, na partida de mais gols até aqui nessa Eurocopa.

Wijnaldum, figura que sabe se posicionar como poucos para se apresentar como elemento surpresa, esteve no lugar certo e no momento exato para aproveitar rebatida do goleiro e abrir a contagem, aos seis. Seis minutos depois, o centroavante Wout Weghorst, em posição de difícil análise (coisa para deixar nas mãos do VAR e confiar no veredito), marcou o segundo. Goleada holandesa? Que nada. A Ucrânia subiu de produção, se lançou ao ataque e conseguiu arrancar um empate, com gols de Yarmolenko (aliás, um belíssimo gol, com chute na gaveta encobrindo Stekelenburg) e Yaremchuk.

Mas a Holanda não se deu por vencida, digo, empatada. Aos trinta e nove, Dumfries, um dos melhores jogadores em campo, anotou o terceiro da Laranja e selou a vitória na estreia. Frank De Boer provavelmente gostou do que viu. Eu pelo menos gostei. Mas acredito que iniciar a partida com Luuk De Jong ao invés de Weghorst possa deixar o ataque holandês mais efetivo.

Escócia 0a2 República Tcheca

Em Glasgow, a Escócia recebeu a República Tcheca pelo grupo D (o mesmo de ingleses e croatas). Com um desenho tático bem definido, a seleção anfitriã dava todo o respaldo para que o ala esquerdo Andrew Robertson, titular no Liverpool, fosse bastante participativo no campo de ataque. Com uma bela finalização (muitíssimo bem defendida por Tomáš Vaclík) e um cruzamento perigoso que saíram de seus pés, a Escócia quase chegou ao gol. Mas quem inaugurou a contagem foi a República Tcheca: Patrik Schick, que havia parado em grande defesa de David Marshall, dessa vez esbanjou elegância para cabecear fora do alcance do goleiro escocês, aos quarenta e um.

Só que o melhor de Schick ficou para o segundo tempo. Aos seis minutos, num contra-ataque veloz, o camisa dez tcheco fez lembrar a genialidade de grandes meias de seu país, como Pavel Nedvěd ou Tomáš Rosický. Alguns metros a frente da linha que divide o campo, ele chutou com muita precisão e bastante curva para encobrir Marshall, surpreender todo mundo e marcar um dos mais belos gols da história da Eurocopa. Uma obra de arte. Daqueles lances que valem o jogo, a rodada, a edição do torneio.

Os escoceses até se esforçaram, mas com uma defesa sólida, um meio de campo comprometido e uma bela atuação de seu goleiro, os tchecos mantiveram sua meta inviolável até o apito final. 

O golaço de Patrik Schick, o segundo dele e da República Tcheca nos 2a0 sobre a Escócia.


Polônia 1a2 Eslováquia

Inaugurando o grupo E (que também conta com espanhóis e suecos), Polônia e Eslováquia jogaram em São Petersburgo. Com um setor de meio de campo bastante povoado, os poloneses impunham forte resistência - física e numérica - às investidas eslovacas. Mas, quando os espaços começaram a ser melhor explorados por esses últimos, foi possível perceber a qualidade superior no trato com a bola. Aos dezessete, Róbert Mak fez jogadaça pela esquerda, deixou os marcadores para trás, entrou na área e chutou rasteiro. E aí, o azar e a sorte, combinados, deram um final feliz para a Eslováquia: a bola bateu na trave, nas costas do goleiro Szczesny e entrou. Um gol contra, é verdade. Mas que não tira o brilho da linda jogada de Mak.

Sem conseguir dar a Lewandowski uma participação mais efetiva, a Polônia foi para o vestiário com a desvantagem no placar. E tudo o que não esboçou no primeiro tempo inteiro, realizou no primeiro minuto da etapa complementar: em grande jogada coletiva, trocando passes com precisão e velocidade, Linetty recebeu de Rybus e completou rasteiro para empatar o jogo.

Tal mudança de atitude poderia ser o prenúncio de uma virada. Talvez fosse. Mas a expulsão de Grzegorz Krychowiak (a primeira nessa Eurocopa) enfraqueceu o setor onde a Polônia exercia maior predominância. E apenas sete minutos depois, aos vinte e três, a Eslováquia retomou a vantagem no placar: Mak cobrou escanteio pela direita, Hamsik mergulhou para desviar de cabeça e Skriniar, zagueiro central que mostrou oportunismo de centroavante, conseguiu dominar e chutar firme, se antecipando à chegada de pelo menos três adversários que tentavam bloquear o remate.

Nos últimos minutos, Bednarek quase empatou a partida, mas o chute passou à esquerda. Nada mais estragaria a festa de um dia "tchecoeslovaco" na Euro, afinal, tivemos uma dobradinha de vitórias da República Tcheca e da Eslováquia na mesma data.

Espanha 0a0 Suécia

Bastante reformulada em relação às ultimas edições de Eurocopa e Mundial, a Espanha fez sua estreia na Euro-2020 dentro de casa, diante da Suécia. Estranhamente, o gramado do estádio olímpico de Sevilla estava em condições precárias, muito aquém do padrão verificado em todos os outros campos na competição. Mas como se tivesse criado imunidade a isso, a seleção espanhola não abriu mão do seu estilo de jogo que se tornou característico há mais de uma década: foram centenas de trocas de passes durante os setenta e cinco por cento do tempo de posse de bola diante de uma adversária que cercava, acompanhava, observava, combatia... Mas raramente conseguia sair jogando.

A Espanha não conta mais com jogadores brilhantes como Xavi, Iniesta, Fàbregas e David Silva. Mas ainda assim consegue impôr o seu estilo de circular o gramado de pé em pé. Não com a mesma qualidade de outrora, isso é fato, mais ainda sim obstinada em dominar as ações e ditar o ritmo dos acontecimentos. Se no ataque ainda houvesse um David Villa ou um Fernando Torres, talvez o resultado pudesse ser diferente do zero a zero que se consumou. O lance aos trinta e sete minutos não me deixa mentir: Álvaro Morata desperdiçou uma chance clara, após falha da defesa sueca em enfiada de bola de Jordi Alba.

Dois minutos depois, Alexander Isak, figura mais lúcida na equipe sueca, quase marcou o dele em raro momento de perigo dos escandinavos - o chute rasteiro tinha o endereço da rede, mas Marcos Llorente (praticamente na linha final) e a trave esquerda salvaram a pele do goleiro Unai Simón, que literalmente viu a bola ir ao encontro de seus braços na sequência.

E não tem como falar dessa partida sem comentar as fundamentais intervenções do goleiro sueco: Robin Olsen fez pelo menos duas defesas difíceis ainda no primeiro tempo, ambas em finalizações de Daniel Olmo. A mais espetacular foi a primeira delas, quando, após levantamento certeiro de Koke, Olmo cabeceou cara a cara com o goleiro, mandando firme e para o chão, mas viu Olsen salvar magistralmente com o braço esquerdo.

No segundo tempo, mesmo com as dez substituições (cinco de cada lado), o panorama de domínio espanhol seguiu inalterado. Mas o placar, também. De toda forma, deixou uma ótima impressão a Fúria comandada por Luís Enrique Martínez, que se mostra comprometida a seguir o legado de Luis Aragonés e Vicente Del Bosque. 

Hungria 0a3 Portugal

Com uma geração bastante talentosa, a seleção portuguesa visitou a Hungria em Budapeste com um setor ofensivo contando com Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Cristiano Ronaldo e Diogo Jota. Mas quem realmente se destacou na partida foi o volante Danilo, que trouxe segurança à defesa além de dar cobertura para as recorrentes subidas de William Carvalho. 

Os húngaros se defendiam como podiam e a bem da verdade essa marcação já começava com seu centroavante: Ádám Szalai esbanjou disposição e aplicação tática para usar sua força física de forma a dificultar a saída de bola portuguesa desde o campo de defesa.

No primeiro tempo quem mais se aproximou de balançar a rede foi Diogo Jota, parando duas vezes em defesas do goleiro Péter Gulácsi. Na segunda etapa, embora Portugal continuasse atuando bem, o fato é que a Hungria cresceu de produção de modo a frequentar com mais assiduidade o campo ofensivo. Até chegou a abrir a contagem aos trinta e quatro, mas o gol marcado pelo jovem atacante Szabolcs Schön - que havia entrado no lugar do meio-campista Roland Sallai - foi corretamente invalidado por marcação de impedimento.

Quando o 0a0 parecia o destino do jogo, um lance de sorte colocou Portugal em vantagem: aos trinta e oito, Rafa Silva, que entrara no lugar de Bernardo Silva, cruzou da direita, a bola desviou na marcação de Attila Szalai e chegou até Raphaël Guerreiro, que chutou e contou com novo desvio, dessa vez em Vilmos Tamás Orban, para ver a bola fugir do alcance de Gulácsi.

Se a abertura do placar tardou, a ampliação foi ligeira: três minutos depois, Orban cometeu pênalti em Rafa Silva, com Cristiano Ronaldo - bastante discreto ao longo da partida - se encarregando da cobrança e anotando o segundo gol lusitano. Nos acréscimos, ainda houve tempo para Rafa e Cristiano tabelarem e o badalado camisa sete português driblar o goleiro Gulácsi e empurrar para a rede.

Portugal estreia com uma importante vitória em pleno campo oponente, apesar do resultado dilatado não traduzir a forte disputa que se travou, principalmente na etapa complementar. O ponto mais triste e lamentável do jogo esteve nas arquibancadas. Lotadas. Sem máscaras. Sem distanciamento. Coisas que um governo negacionista como o que se apoderou da Hungria proporciona contra a humanidade. E que a UEFA aceita passivamente, tornando-se cúmplice do que, torço eu, não seja o embrião de uma nova variante de uma pandemia que já vitimou milhões de pessoas pelo mundo.

França 1a0 Alemanha

Para fechar a primeira rodada, aquele que era simplesmente o jogo mai aguardado nessa fase de grupos na Eurocopa 2020. As duas últimas campeãs mundiais se enfrentaram em Munique e o que se viu cumpriu as expectativas: um jogão de bola, com ares de partida eliminatória em plena estreia.

O gol único do jogo saiu aos dezenove minutos no primeiro tempo, foi alemão, mas a favor da França: Hummels tentou cortar cruzamento de Henrández e acabou marcando um golaço de canela, sem dar chance de defesa para seu companheiro Manuel Neuer. Ironia à parte, Hummels fez ótimo jogo, com pelo menos duas intervenções fundamentais na etapa complementar - uma cortando cruzamento similar ao do lance do gol e outra com um desarme certeiro e providencial sobre Mbappé.

A França mostrou-se uma seleção muito equilibrada taticamente. O lance do gol ilustra bem uma das faces francesas: uma cobrança de lateral no flanco direito envolveu Pavard, Benzema e Pogba, que inverteu o jogo para o lado esquerdo até encontrar Hernández - o resto você já sabe.

Mas não somente pelo gol. Os contra-ataques dos Bleus eram quase sempre perigosos. Seja por explorar a velocidade de Mbappé, seja pelas aproximações deste com Benzema, seja pelo apoio que vinha ora pelos lados, ora pelo centro, ora por tudo que é canto.

Só que o que realmente mais me impactou na seleção francesa foi a implacável aplicação defensiva. A trinca Kante - Rabiot - Pogba era fortíssima no combate que antecedia a última linha de defesa. Como se não bastasse, Griezmann conseguia somar a esse trio e aumentar a resistência às investidas alemãs. Sim, senhoras e senhores, Didier Deschamps armou uma retranca diante da seleção comandada por Joachim Löw. Uma retranca chique, mas uma retranca. Uma retranca com craques, mas, ainda assim uma retranca. Uma retranca que, se mantiver essa mesma mecânica no decorrer da Eurocopa, se colocará como a mais séria concorrente ao título no torneio. Porque não basta se fechar - é preciso saber sair pro jogo. E isso a França mostrou que sabe fazer muito bem, obrigado. Ou melhor, merci.

Que venha a próxima rodada.