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sábado, 15 de janeiro de 2011

Um Tsunami? Um Furacão? Não: É A Inter De Milão

Com atuação de gala de Samuel Eto'o, disposição tática empolgante de todo o elenco e apresentando um futebol leve e ofensivo, a Internazionale de Leonardo mostrou, nesse 4a1 sobre o Bologna, que os tempos de Rafael Benítez no comando interista ficaram definitivamente para trás.

Antes de mergulharmos em maiores detalhes do que foi essa partida no estádio Giuseppe Meazza, um lembrete: o holandês Wesley Sneijder, maestro interista, desfalcou o time. Mas o desempenho do conjunto "nerazzurri" foi tão convincente que a equipe parecia estar completíssima.

O jogo

Atacando com velocidade e consciência impressionantes, a Internazionale não tardou a afunilar o Bologna no campo de defesa e, já com 3 minutos, uma bola escorada de cabeça por Lúcio acabou em finalização - também de cabeça - de Diego Milito, que resvalou na trave direita de Emiliano Viviano. Com Esteban Cambiasso e Dejan Stankovic aparecendo constantemente no ataque e Maicon atuando como se fosse um ponta direita, era previsível que a qualquer momento a equipe da casa balançaria a rede adversária. Aos 19 minutos, aconteceu. O camaronês Samuel Eto'o avançou com a bola dominada a partir da linha que divide o campo ao meio, escapou da marcação adversária mostrando explosão e vigor físico, e, já dentro da grande área, deu assistência para o sérvio Dejan Stankovic apenas completar para o gol. Cabe colocar que Stankovic estava em posição duvidosa, mas na dúvida, nem árbitro nem auxiliar devem ter sentido vontade de anular uma jogada como aquela.

Dez minutos depois, uma enfiada de bola partida do círculo central acionou o argentino Diego Milito no ataque. E Milito demonstrou a frieza e a categoria que esperamos de um bom atacante, desviando de Viviano com sutileza para colocar 2a0 no placar.

O time do Bologna, apesar de largamente dominado, não se dava por entregue. Aos 33 minutos, o veterano atacante Marco Di Vaio, de 34 anos, mostrou fôlego de garoto ao escapar de Lúcio no domínio de bola, dar velocidade ao lance e chutar no canto direito. Mas lá estava Luca Castellazzi para realizar grande defesa e evitar o que seria mais um belo gol. Dois minutos depois, Di Vaio cobrou falta no canto direito e novamente Castellazzi interviu de forma providencial, conseguindo espalmar.

As equipes foram para o intervalo e voltaram dele com os mesmos jogadores. O início de segundo tempo manteve a tônica da primeira parte, com a Inter pressionando. Mas uma substituição de Alberto Malesani aos 4 minutos melhorou visivelmente a equipe do Bologna: na saída do congolês Gaby Mudingayi (que deixou o campo com expressão de irritação) para a entrada do uruguaio Henry Damián Giménez Báez, a equipe visitante abriu mão de um dos três volantes e ganhou grande poder de aproximação com o ataque, forçando a Inter a segurar um pouco mais os meio-campistas Cambiasso e Stankovic.

E o Bologna começaria a mostrar o efeito positivo da mexida do treinador rapidamente. Aos 6 minutos, o também uruguaio Gastón Ramírez esbanjou categoria ao chapelar a marcação no meio-campo e deu seqüência ao lance com uma enfiada de bola para o compatriota Giménez, que, acompanhado por Maicon, não conseguiu mais do que um chute para fora. Aos 9 minutos, Di Vaio cobrou falta pertinho do quadrante 11. Castellazzi pulou nela, mas dessa vez contou com a sorte, pois se ela fosse no gol, entraria.

O Bologna era melhor naquele momento e o desenrolar dos acontecimentos levavam a crer que a equipe estivesse cada vez mais perto de diminuir a desvantagem. Mas do outro lado havia a genialidade de Samuel Eto'o. Aos 17 minutos, o camaronês recebeu na esquerda, encarou a marcação do uruguaio Miguel Angel Britos (não perca as contas, são quatro dessa nacionalidade no time do Bologna), tocou a bola por entre as pernas do adversário para encontrar Diego Milito, recebeu de volta do argentino (que deu lindo passe de calcanhar) e, com um tapa na bola, levou a redonda ao canto esquerdo, tirando de Viviano e marcando o 3º da Inter. Golaço.

Quem acompanha a carreira de Eto'o sabe de algumas coisas a respeito da fera. Por exemplo: [1] muita velocidade nas arrancadas, [2] habilidade e agilidade para atormentar os defensores adversários, [3] boa visão de jogo. Mas que Eto'o cobrava faltas com maestria, eu pelo menos (ainda) não sabia. A partir dos 26 minutos do segundo tempo, passei a tomar conhecimento: com um chute que mais pareceu um afago na bola, Eto'o levou a redonda caprichosamente até o quadrante 6, marcando seu segundo gol no jogo e o quarto da Internazionale.

Com a vantagem de 4a0 imposta no placar, Leonardo convidou Eto'o a receber os aplausos da massa, substituindo-o aos 29 minutos pelo macedônio Goran Pandev. No minuto seguinte, Giménez deu chute cruzado e só não anotou o primeiro gol dos visitantes porque Castellazzi interviu brilhantemente ao alcançar a bola no canto direito e, com os dedos, mandá-la para escanteio. A cobrança veio e, após atravessar a área da Inter sem ser afastada por ninguém, Daniele Portanova furou a tentativa de remate e a redonda se apresentou à Giménez, que estufou a rede interista para marcar o gol de honra "rossoblu".

Entre os 39 e os 40 minutos, cada equipe teve mais uma chance de mexer no marcador. Primeiro, Pandev chutou para fora após bola recuperada no campo de ataque. Depois, Di Vaio emendou um lançamento vindo da esquerda e finalizou por cima da barra.

Leonardo, então, colocou o jovem lateral Davide Santon no lugar do argentino Javier Aldemar Zanetti. Javier Zanetti tem 37 anos de idade, mas a disposição e a forma física do capitão interista me permitem também chamá-lo de jovem. E o jovem Zanetti, com seus 723 jogos vestindo a camisa "nerazzurri", foi ovacionado pela platéia.

A mais nova missão de Leonardo em Milão começa muito bem, obrigado. São quatro vitórias em quatro jogos. E, a julgar pelo desempenho nessa partida de hoje, a Internazionale está firme e forte na corrida por novos títulos.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Leonardo E Sua Mais Nova Missão Em Milão

O modesto 7º lugar na Série A levou a Internazionale de Rafael Benítez ao Mundial de Clubes 2010 sob pressão. O título veio, o ego do treinador espanhol inflou e vieram declarações (que as entendo mais como uma espécie de desabafo do que qualquer outra coisa) contra o presidente Massimo Moratti, que, segundo Rafa Benítez, não teria cumprido a promessa de "fazer três ou quatro contratações". Campeã da Tríplice Coroa com José Mourinho e do mundo com Benítez, os interistas ficaram sem treinador após a demissão do antigo comandante do Liverpool. Então, em 29 de dezembro, o brasileiro Leonardo foi anunciado oficialmente como novo treinador da equipe de Milão. Seria tudo muito simples não fosse um "detalhe": Leonardo Nascimento de Araújo, de 41 anos de idade, viveu 13 anos de sua carreira futebolística dentro do maior rival dos "nerazzurri", o Milan.

Tal situação acaba dividindo opiniões. Conheço Leonardo pessoalmente, não cheguei a conversar muito longamente com ele, e o contato basicamente se limitou a um gentil autógrafo para esse que vos blogueia. Figura que me pareceu bastante simpática, vale frisar. Mas não tiro conclusões sobre a personalidade de Leonardo baseado nesse contato-relâmpago. O que acho é que devemos ponderar duas questões especificamente, que aponto a seguir.

[1] Leonardo tem uma história dentro do Milan e isso é fato;
[2] A relação de Leonardo com a cúpula "rossonera" sempre foi positiva, de respeito mútuo, mas a demissão do brasileiro foi bastante conturbada, gerando um clima pesado entre Léo e Silvio Berlusconi.

Aí surge o espaço para debatermos a esse respeito.

Para o holandês Marco van Basten, um dos maiores ídolos dessa instituição de 111 anos chamada Associazione Calcio Milan, o que Leonardo fez ao assumir a Internazionale chama-se "traição". Considero um termo forte, mas não me posiciono a esse respeito devido a uma declaração do próprio Leonardo, que recusou-se a assumir o comando técnico da Roma (Claudio Ranieri estava sob pressão e especuláva-se o nome do brasileiro para substituir o italiano na equipe da capital) afirmando:
- Nesse momento não assumirei qualquer equipe na Itália. É muito forte o amor pelo meu ex-time, faz pouco tempo que saí de lá. No futuro poderei voltar, agora não. Seria como se eu traísse a minha história, o meu passado no Milan. Ainda sou ligado ao clube - disse ele, em outubro, a um programa de TV italiano.
Quem diria que, após soltar essas palavras, Leonardo aceitaria, dois meses depois, assumir a Internazionale, arquirrival do Milan?

Gennaro Ivan Gattuso, meio-campista que veste a camisa do Milan desde 1999, insinuou que Leonardo tenha sido mercenário ao aceitar a proposta de Massimo Moratti:
- Ele até fez um bom trabalho na temporada passada, mas sempre dizia que o trabalho de técnico não era para ele. Evidentemente, o Deus do dinheiro pode produzir milagres. Espero que ele não ganhe nada na Inter - disparou Gattuso a um jornal italiano.
Alguns acham que a ida de Leonardo para a Inter foi uma resposta ao tratamento recebido de Berlusconi na ocasião de sua demissão, que teria magoado o brasileiro. Difícil garantir. O fato é que Léo foi muito bem recebido na sua apresentação no centro de treinamento Appiano Gentile, que contou com presença maciça de torcedores interistas. Na coletiva, Leonardo deu uma declaração interessante:
"Sou um romântico. Eu não estava procurando um emprego: estava à procura de um sonho. E este é o maior desafio que terei".
E o respaldo de Léo parece ir além das arquibancadas. Nas palavras do português José Mourinho, vitorioso na Internazionale e hoje no Real Madrid,
"Na última temporada Léo provou que é um técnico com um potencial real. É um grande profissional e não pode ser definido como um milanista. Ele dedicou muitos anos da sua vida para o Milan e agora vai fazer o mesmo para a Inter, com a mesma paixão".
Dentro do elenco também já pintaram elogios ao brasileiro, como pode ser visto através de um comentário do defensor Javier Zanetti:
- Há um grande entusiasmo. Leo chegou e sei que é uma pessoa muito capaz e, sobretudo, muito inteligente. Devemos ser um grupo unido e dar-lhe uma ajuda. Será um grande desafio para ele e para nós, mas esperamos iniciar 2011 da melhor maneira - disse o argentino, capitão da equipe.
A carreira de Leonardo como jogador é bastante conhecida e culminou com o título mundial em 1994, na seleção de Carlos Alberto Parreira. Como treinador, uma única temporada: a 2009-10, com o Milan, quando conseguiu levar a equipe ao 3º lugar na Série A mesmo contando com um time que, embora tivesse negociado seu principal jogador (Kaká, que foi para o Real Madrid por 89 milhões de euros), não contratou ninguém para suprir o espaço do brasileiro. Aliás, cabe lembrar que a chegada de Kaká ao Milan, vindo do São Paulo, teve o dedo de Leonardo (então dirigente "rossonero"), numa negociação muito vantajosa para os milanistas, que traziam o atleta por 8,5 milhões de euros.

Ao assinar com a Internazionale de Milão, Leonardo tornou-se o 3º treinador da história do futebol mundial a dirigir tanto o Milan quanto a Inter (os outros foram Giovanni Trapattoni e Alberto Zacheroni). A estréia está agendada: será no dia 6 de janeiro, em San Siro, diante do Napoli. O que será desse jogo e do trabalho de Leonardo na Internazionale, só Deus sabe. O que eu sei é que não é tarefa simples agradar "gregos e troianos". De toda forma, boa sorte ao Leonardo, primeiro treinador brasileiro a dirigir dois grandes clubes do futebol europeu.


Leonardo em três momentos no AC Milan. Acima, comemorando gol como jogador e sorrindo na companhia do treinador Carlo Ancelotti (Leo era dirigente). Abaixo, o treinador vibra com os compatriotas Thiago Silva e Ronaldinho Gaúcho.