sábado, 19 de agosto de 2017

Manchester United: Eficiente Mas Ordinário

Ao ler a escalação e observar a distribuição posicional dos jogadores do Manchester United para o jogo com o Swansea City, em Gales, criei imediatamente a expectativa de assistir uma grande partida da equipe comandada por José Mourinho. Afinal, um time com Valencia na lateral-direita, além de Matic, Pogba, Mata e Mkhitaryan no meio precisaria de mais o quê? Um exímio centroavante como Lukaku? Resposta: precisaria de um treinador pra fazer esse time render.
Lukaku comemora e United goleia novamente. Imagem extraída de Stepzan.com

Não se iludam com o placar de 4a0. Enganoso é pouco para descrever este resultado com base no que aconteceu de fato e de direito no decorrer da partida no Liberty Stadium. A inauguração na contagem deu-se aos quarenta e quatro minutos no primeiro tempo, em lance de bola parada (gol de Bailly). Só que antes disso, por volta dos trinta de jogo, Paul Pogba deveria ter sido expulso de campo - mas o árbitro Jonathan Moss não teve coragem nem juízo para aplicar o segundo cartão amarelo ao segundo jogador mais caro da história do futebol mundial.

E lá ia o jogo no segundo tempo. O Swansea firme na defesa. O United previsível com a posse de bola. O jogo de baixa qualidade. Talvez fosse um entretenimento menos empolgante do que uma partida de "pinball": pelo menos nessa modalidade famosa nos fliperamas, o objetivo é de fato jogar a esfera pra cima.

Até os trinta e quatro, persistia o um a zero. Mais persistente que isso era a escassez criativa, a falta de jogadas mais elaboradas, a ausência de uma atuação condizente a um elenco tão caro quanto esse que tem sede em Old Trafford. Até que, não mais que de repente, abriu-se um latifúndio no gramado galês. Por ele, penetraram Lukaku (esbanjando seu habitual oportunismo), Pogba (que nem era para estar em campo, né, juizão?) e Martial (que entrara no lugar de Rashford e não precisou de dez minutos para marcar).

Mais um 4a0 para o Manchester United, que aplicara esta mesma goleada na estréia diante do West Ham. Mas não se engane: a julgar pela partida com o Swansea, não há razões para empolgações. É, sem dúvidas, um time competitivo. Porém, exigir mera competitividade de um plantel desse nível é menosprezar a capacidade do futebol ser um esporte que pode ser bem jogado.

sábado, 12 de agosto de 2017

Figueirense E Goiás: Mais Pra Lá Do Que Pra Cá

Figueirense e Goiás são dois clubes que nos acostumamos a ver na Série A. E esse costume causa estranheza quando olhamos para eles disputando um jogo na Segunda Divisão. Pior que isso: ambas as equipes começam o segundo turno com grandes ameaças de rebaixamento.

A partida entre eles, hoje, em Florianópolis, foi mais brigada do que jogada. Dois conjuntos determinados a ganhar as disputas territoriais, mas com escassas tramas de jogadas ofensivas. O lateral-esquerdo Carlinhos era figura bastante acionada pelo flanco esquerdo esmeraldino, dando bastante canseira na última linha de defesa do Figueira. Mas a falta de precisão nas finalizações mantinha o zero a zero. Pelo menos até os doze no segundo tempo, quando Carlos Eduardo recebeu ótimo passe de Victor Bolt e não desperdiçou, abrindo a contagem para os visitantes.

Em desvantagem por um gol, a equipe da casa lançou-se com menos cerimônias ao ataque. Chegava, cercava, incomodava. Mas faltava algo mais para transformar as investidas em empate. Deixou de faltar quando o goleiro Marcelo Rangel, imprudente, cometeu pênalti. José Eduardo Bischofe de Almeida, vulgo Zé Love, converteu cobrando no canto direito.

Daí em diante, o Figueirense assumiu o controle das ações como jamais antes. E teve toda a pinta de que viraria o jogo. Só que esbarrou em pelo menos duas defesas difíceis de Marcelo Rangel, o que deve tê-lo redimido do lance em que cometera a penalidade. Isso tudo acabou decretando o 1a1, único empate nessa rodada. Agora a Série B segue com dois clubes de investimento bastante acima da média da competição tentando sair da parte de baixo da tabela de classificação: o Figueirense é 18º (posição de descenso) e o Goiás encontra-se em 15º, duas posições e um ponto acima da zona indesejável. Certeza de que muito trabalho deverá ser feito tanto por Argel Fucks, no Goiás, quanto por Mílton Cruz, que fez sua estréia no Figueirense exatamente nessa partida. Isso se as respectivas diretorias permitirem, é claro...

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Um Sonho Que Vem Da Alma

Uma das discussões mais cativantes e desafiadoras a respeito da existência (animal em geral e humana em particular) é sobre o conceito de alma. Fato ou suposição? São muitas interpretações dentro e fora do âmbito religioso. Muitas crenças. Muitos achismos. Muitas sensações. Muitas percepções. Muitas convicções. Há quem veja a alma do Outro num olhar. Há quem sinta a alma do Próximo num abraço. Há quem capte a alma alheia numa conversa.

No futebol, um jogador pode ser criticado por errar passes simples. Vacilar em finalizações. Posicionar-se mal. Mas se esse mesmo jogador "deixa a alma em campo", a torcida o respeita. Por vezes, chega até a idolatrá-lo. O Botafogo de Jair Ventura é um time sem grandes craques. Mas é um time com alma. Pode o botafoguense reclamar de diversos aspectos do time alvinegro, mas jamais da entrega, da dedicação, da honra à camisa gloriosa. Da alma.

Hoje, diante do Nacional, pela Libertadores, ficou escancarada a alma que habita cada atleta da equipe. O espírito coletivo dos jogadores casou com a energia da torcida que lotou as arquibancadas no estádio Nílton Santos. Aliás, como não falar de alma quando o campo de jogo carrega o nome do mais lendário lateral-esquerdo de todos os tempos?

Foram dois gols em cinco minutos. Foi uma comunhão durante o jogo inteiro. Foi uma lição. Fato ou suposição? Creio que esse Botafogo, mais que qualquer outro clube, mereça essa Libertadores. De corpo e alma.
Jogadores, torcedores, ídolos lembrados na faixa... Uma atmosfera perfeita no Rio de Janeiro. Foto: Vítor Silva / SS Press / Botafogo.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

222 Milhões De Neymares

Um dos maiores talentos no futebol atual e forte concorrente a melhor jogador do mundo no futuro, Neymar conseguiu todos os holofotes nesta semana por uma razão improvável: uma transferência para fora do Barcelona.

O elenco barcelonista pediu pela permanência do brasileiro, que representa a terceira letra (mas não menos importante) no excepcional trio MSN. Mas, após um silêncio sepulcral e até inconveniente, ele anunciou a saída do clube catalão.

Havia um entendimento quase que automático apontando Neymar como o sucessor natural de Lionel Messi no Barcelona. Mas no meio do caminho havia uma tentação. Tentação essa que considero estritamente financeira e nada, repito, nada esportiva. Das finanças de Neymar cuida o xará paterno. Cuida com tanto afinco às cédulas que a troca do Santos pelo Barça virou literalmente um caso de polícia. Confesso que não sei quem é mais mercenário: se o irmão do Ronaldinho ou se o pai do Neymar. Mas não quero entrar nessa discussão entre ex-craques do Barcelona. Vamos nos ater a esta mudança do ex-santista para Paris.

Um ano depois de Pogba ser o primeiro jogador na história do futebol a ser negociado acima dos 100 milhões de euros, Neymar é negociado acima dos 200 milhões de euros. Mais precisamente, 222 milhões, o valor da multa rescisória. Um negócio que, incluindo impostos e pagamentos diversos ao jogador e seu pai-empresário, passa batido pelo um bilhão de reais. Um negócio que não é da China, mas do Catar. E que coloca em dúvida o jamais suficientemente bem explicado "fair play financeiro".

Fato é que Neymar chega ao Paris Saint-Germain com a responsabilidade de liderar o time da capital francesa ao título da Liga dos Campeões da Europa. Sim, é esse troféu que o clube e seus investidores procuram. Se acostumaram a vencer os torneios domésticos e a meta é o continente. Uma meta até modesta dado o orçamento galáctico do clube.

Mas então, Neymar fez bem em partir para o PSG? Diria que Neymar trocou uma história que o eternizaria por uma aventura que o enriquecerá. Não que ele já não fosse rico. Mas muito se torna pouco quando a ganância é grande.

Com todo respeito ao Mônaco, ao Olympique de Marselha, ao Lyon e a outros rivais, mas o Campeonato Francês não oferece a Neymar os mesmos desafios da Liga Espanhola. Tudo bem, tanto PSG quanto Barça são (muito) mais fortes que a (grande) maioria dos oponentes em seus países. Mas a Espanha está facilmente pelo menos um nível acima da França em sua principal divisão de clubes. E o Barcelona, como instituição, tem/tinha muito mais a oferecer ao jogador/pessoa Neymar do que os investidores catares poderão/quererão fazê-lo. Trocou-se filosofia por regalia.

Neymar e, principalmente, seu pai, não querem saber disso. O PSG oferecerá uma fortuna e um protagonismo que dificilmente seriam obtidos simultânea e imediatamente em qualquer outro lugar no mundo.

08.03.2017: noite inesquecível. Arquivo pessoal.
Particularmente, lamento a saída de Neymar. Tive o prazer e o privilégio de assistir o histórico jogo entre Barcelona e PSG no Camp Nou, em oito de março deste ano. Partida memorável por vários elementos e, esportivamente, uma das maiores viradas de qualquer modalidade. O 4a0 que o PSG obteve na ida gerou sentenças de "já era". Na volta, o Barça, com grande atuação de Neymar, alcançou 3a0. E o gol único do PSG no segundo tempo, retomou o "já era". Mas era possível. E o 6a1 imortalizou aquela gostosa noite na Catalunha. Lembro que, na saída do estádio, cheguei a puxar um "uh, tá maneiro, o Neymar é brasileiro". Por irônica coincidência, menos de cinco meses depois, a rima mais apropriada talvez seria "uh, tá maneiro, o Neymar quer mais dinheiro". E ele trocou Barcelona por Paris. Direito dele. Mas é meu dever dizer: havendo um novo Barça e PSG, estarei torcendo por Messi e companhia. Não se troca uma identificação por 222 milhões de nada.

sábado, 29 de julho de 2017

Com Atuação Mágica Do "Profeta", São Paulo Vira Sobre Botafogo No Rio

Que no futebol "tudo pode acontecer", provavelmente nenhum torcedor duvida. Mas o que aconteceu com Botafogo e São Paulo na tarde deste sábado no estádio Nílton Santos foi pra superar os mais audaciosos cenários de imprevisibilidade.

Era a reestréia de Hernanes com a camisa do Tricolor Paulista. Era um Botafogo embalado pela classificação às semifinais na Copa do Brasil. Era um monte de coisa. E a soma delas todas deram um grande jogo de futebol.

Os destaques na partida foram Cueva e o próprio Hernanes, ambos maestrais na condução de bola no último terço de gramado. Ainda assim, até os trinta e poucos minutos do segundo tempo, parecia que a vitória não escaparia das mãos do Alvinegro Carioca, que vencia por 3a1 e tinha bastante campo para contra-atacar, jogando do jeito que o time gosta.

"Profeta" Hernanes ajudou o São Paulo a conseguir uma reviravolta no jogo. Imagem extraída de Gols Da Rodada.
Só que "tudo pode acontecer", não é mesmo? Com dois gols de Marcos Guilherme e um de Hernanes, os visitantes buscaram uma virada improvável no Rio de Janeiro. É a primeira vitória do time do Morumbi fora do seu estádio no Campeonato Brasileiro 2017. Vitória que dá grande moral para os comandados de Dorival Júnior tentarem se afastar da zona de rebaixamento o quanto antes. Já para o Botafogo, derrota que Jair Ventura e seu elenco devem assimilar como aprendizado: não há jogo resolvido antes de consumado o apito final. Lição que vem em ótima hora, pois o clube de General Severiano tem confrontos eliminatórios na Copa do Brasil e na Copa Libertadores da América. Para correr atrás desses títulos inéditos, é bom ter em mente que "tudo pode acontecer". Assim, possivelmente, o Glorioso poderá extrair o lado bom da máxima de que "tem coisas que só acontecem com o Botafogo".

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Porcaria No Parque

O estádio palmeirense recebeu grande público no jogo de ida pelas quartas-de-final na Copa do Brasil 2017, sendo palco de uma bela partida nessa noite de quarta-feira.

Então por que "Porcaria No Parque"?, alguém poderia indagar. Estimado leitor e estimada leitora, depende do que você atribui à palavra "porcaria". Reconhecendo os porcos como animais inteligentes, sensíveis e brincalhões, esse termo contempla a desenvoltura do futebol apresentado pelos comandados de Cuca. Um time alegre, envolvente, que busca o gol coletivamente. Porcos, por sinal, são seres altamente sociáveis.

Porém, o futebol não tem compromisso com a justiça (assim como muitos humanos também não têm, afinal, bastante gente submete porcos a uma vida miserável simplesmente para convertê-los em pedaços de lingüiça, salame, presunto, mortadela...). E o placar do primeiro tempo sentenciava 3a0 para o Cruzeiro, que chegou aos gols em três ótimas tramas, nas suas três finalizações até então. Um duro golpe aos donos da casa, que criavam chances mas não tinham a mesma felicidade no momento de concluir. Mas, ao contrário da sentença de morte nos matadouros - o Brasil mata oficialmente um porco a cada segundo - o futebol permite uma volta por cima. Viria o segundo tempo.

Teve comentarista esportivo que, no intervalo, comparou a atuação do Palmeiras diante do Cruzeiro com a do Brasil diante da Alemanha na fatídica semifinal de 2014. Péssima comparação. Se naquela ocasião a seleção de Felipão levou um baile de bola da equipe de Löw, dessa vez o que se via era uma partida equilibrada, apesar do placar elástico. E tanto o equilíbrio quanto a elasticidade foram rompidos no segundo tempo: o Palmeiras passou a dominar o jogo e o resultado foi refletindo essa predominância.

No final, um 3a3 construído com belo futebol. Uma porcaria de atuação. Infelizmente, durante os 90 minutos em que se disputou essa partida, esse país matou aproximadamente 5400 suínos. Todos inocentes. Todos sencientes. É o 7a1 que não vira notícia nos meios de comunicação. Que não possui apelo popular. E então, é a minha vez de perguntar: como pedir paz no esporte se nos alimentamos diariamente de violência?
Porco: símbolo do Palmeiras, vítima da indústria alimentícia. Imagem disponível em pesquisa no Bing.

sábado, 24 de junho de 2017

México Vira, Avança, Elimina A Rússia E Auxílio Eletrônico Marca Presença

Lozano mais esperto que Akinfeev. Foto: Tolga Bozoglu/EFE/EPA
Havia visto alguns comentários que previam que a Copa das Confederações 2017 seria um fracasso. Os argumentos giravam em torno:
  • da pouca procura por ingressos;
  • da seleção alemã não levar seu "time principal";
  • da FIFA considerar que o modelo da competição encontra-se esgotado.
Talvez hajam ainda mais justificativas para criticar o torneio disputado na Rússia. Mas gostaria de me fixar em dois pontos positivos. O primeiro é que, do pouco que vi até agora, gostei: Rússia e México foi o primeiro jogo que assisti inteiro e achei a partida bem interessante. Duas equipes propositivas e, curiosamente, com a equipe russa conseguindo encaixar mais jogadas envolventes que seu adversário (considerado superior tecnicamente). O México primou pela organização, sobretudo entre as duas intermediárias. Mas raramente impôs um flagrante domínio sobre os donos da casa. Virou o jogo com um misto de sorte e mérito, mas não sobressaiu ao ponto de tornar o empate um resultado fora de contexto.
O outro ponto positivo é, na minha opinião, ainda mais importante. Principalmente pelo momento que vive o futebol mundial. É a incorporação do recurso eletrônico para auxiliar a arbitragem na tomada de decisão. Funcionou corretamente no jogo e proporcionou dois ganhos inestimáveis ao evento: a justiça no resultado e a sensação de justiça no resultado. Sim, uma coisa difere da outra. Quando os jogadores dentro de campo sentem que não está havendo interferência de terceiros (sim, o árbitro deve ser considerado como uma terceira parte nessa história toda), o jogo parece fluir melhor, parece transcorrer mais leve, parece seguir seu rumo com maior tranqüilidade.

Houve dúvidas em pelo menos dois lances de queda na grande área (ambos, de fato, sem pênaltis) e um gol mexicano que colocaria 3a1 no placar (os russos sequer reclamaram de impedimento, mas ele realmente existiu).

O auxílio de vídeo chegou para ficar. Não há qualquer razão para não incorporá-lo nos próximos torneios da FIFA. Há, isto sim, a necessidade de seguirmos nessa direção e ampliá-lo quando necessário. O mundo - e isso inclui o futebol - precisa de justiça. Atentar contra ela em alguma parte é ameaçá-la em qualquer outra.

Em tempo: ótima arbitragem do árabe Fahad Al Mirdasi. Foi praticamente tão preciso quanto a própria tecnologia à sua disposição.

Ah! O jogo terminou 2a1 para o México. Os mexicanos avançam em segundo lugar (atrás de Portugal) e os russos são eliminados em terceiro (a frente da Nova Zelândia). Independentemente do que ocorra no outro grupo (onde Alemanha e Chile são as maiores forças diante de Austrália e Camarões), a Copa das Confederação já tem um vencedor: o futebol. Vitória com um golaço do auxílio eletrônico. Antes tarde do que Blatter...

sábado, 10 de junho de 2017

Deus Salve A Rainha!

Como diria o lendário narrador Sílvio Luiz:

- Pelas barbas do profeta!

Foi de uma exclamação metafórica o final de partida entre os britânicos da Escócia e da Inglaterra, em Glasgow. Aquilo que rumava para um 0a0 se transformou em um jogo de quatro gols, todos na segunda metade do segundo tempo, sendo três deles para depois dos quarenta.

Primeiramente, #ForaTemer! (Não resisti hahaha...)

Aos vinte e quatro minutos no segundo tempo, quando os ingleses esbanjavam organização defensiva mas não traziam grandes inspirações no setor de ataque, uma bola recuada "na fogueira" pela defesa escocesa rendeu um arremesso lateral para a Inglaterra no campo de ataque. Seria um lance facilmente marcável, mas Oxlade-Chamberlain, que entrara a cerca de cinco minutos, fez brilhante jogada individual e chutou firme, contando com a contribuição do goleiro Gordon para inaugurar o marcador na Terra da Rainha. Sim, senhoras e senhores, em tempos de BrExit, é bom lembrar que a Escócia também é a Terra da Rainha. E, por aquelas terras, diz-se que a maioria da população é contrária à saída britânica da zona do Euro. Mas voltemos ao futebol.

Com Martin no lugar de Anya, o treinador Gordon Strachan mostrava-se à disposição de abrir o time para tentar pelo menos o empate nos minutos finais. O que ele talvez não esperava era que sua equipe viraria o jogo! Aos quarenta e um, Griffiths cobrou falta com precisão, no lado esquerdo de Joe Hart. Uma explosão de alegria da fanática torcida local. Três minutos depois, nova falta para a Escócia por aquela região. Nenhuma dúvida: era Griffiths novamente na cobrança. Dessa vez, ele escolheu uma cobrança no lado direito do goleiro. E, mais uma vez, festa no gramado e nas arquibancadas.

O êxtase era completo e já dava para imaginar quais seriam os títulos das publicações naquele país. Ainda mais em tempos inflamados na geopolítica mundial como um todo e britânica em particular. Só que no futebol, o improvável, provavelmente, acontece. Nos acréscimos, uma bola lançada caprichosamente por Sterling (outro jogador lançado por Gareth Southgate no segundo tempo), acabou encontrando o goleador Harry Kane, que estufou a rede oponente e foi para os braços de seus compatriotas. Se bem que, ali, eram todos eles compatriotas. Com ou sem saída da zona do Euro.
Finais de jogo como o de Escócia 2a2 Inglaterra fazem o futebol sorrir. Imagem extraída de Blog do Dirceu Rabelo.

sábado, 3 de junho de 2017

Realmente, O Melhor - Madrid Arrasa Juventus Em Gales

Sergio Ramos ergue a taça da Liga dos Campeões da Europa, a 12ª na história do Real Madrid. Foto: Getty.

Vamos evitar falar de números. Apenas para não dizer que eles não foram mencionados: o jogo Juventus 1, Real Madrid 4 representou a 12ª conquista de Liga dos Campeões da Europa da equipe da capital espanhola; o segundo de Zinedine Zidane em duas temporadas como técnico; a primeira vez em 59 anos que o clube consegue vencer a Liga Espanhola e a Européia no mesmo ano. Enfim, números.

Vamos falar de futebol.

Navas é um grande goleiro. Fez uma excepcional Copa do Mundo em 2014, no Brasil, ajudando a Costa Rica a chegar às quartas no Mundial. E por muito pouco a equipe não foi ainda mais longe (lembre-se que a Holanda só conseguiu a classificação nos pênaltis). As críticas que a imprensa espanhola faz em cima dele parecem-me desproporcionais. Será que eles preferem De Gea? Francamente...

Carvajal e Marcelo formam uma consistente dupla de laterais. Do lado direito, há mais marcação. Do lado esquerdo, mais ofensividade. E rola um equilíbrio entre eles, dados sobretudo pela sólida dupla de zaga - o capitão Sergio Ramos e o cada vez melhor Raphael Varane.

O setor de meio-campo começa com Casemiro, implacável protetor da última linha. Kroos e Modric agregam qualidade na posse de bola e na capacidade de encontrar os espaços vazios de tal forma que a impressão que dá é que sempre que a redonda passa por eles, ela chegará em boas condições em um lugar melhor. Isco, por sua vez, soma um nível de energia que permite integrar os três setores. Mais à frente, Benzema, que até quando não está bem, é útil. E o elemento por muitas vezes criticado mas quase sempre decisivo. Na ausência (vide final da Eurocopa) ou na participação (vide hoje), não há como não falar de Cristiano Ronaldo. Mas como prometi evitar falar de números, vamos apenas deixar aqui que Cristiano encaminha mais uma Bola de Ouro na carreira. Sua principal virtude me parece ser a força de vontade. Uma vontade de êxito pessoal que reflete no coletivo. Uma vaidade que se apresenta como mãe da perseverança. "Eu tô aqui", ele diz. Sabemos disso.

Mas o personagem que me parece o protagonista nessa história é mais humilde. Menos midiático. E demasiadamente talentoso: Zinedine Yazid Zidane. Conseguiu na base da simplicidade, da conversa, e de algo mais, modernizar um time que já tinha conceitos modernos. Pegou uma herança positiva deixada por Carlo Ancelotti e fortaleceu o grupo. Casemiro é um dos seus "achados". Tem o seu dedo também o ótimo rendimento de Cristiano. Com todas as arestas a serem aparadas num time que não é perfeito, o que vem sendo desenvolvido é, com méritos, vencedor. É muito mais legal ver o Real jogar hoje do que alguns anos atrás. O futebol te agradece, Zizou. E estamos na expectativa pelo que você poderá proporcionar na próxima temporada.

À Juve, que teve campanha estupenda, fica a frustração. Poderia ter sido a primeira conquista continental do mítico Gianluigi Buffon. Não foi. Coisa dos deuses do futebol, que usaram Bonucci e Khedira para desviar as bolas para longe das luvas do goleiro. O golaço de Mandzukic foi insuficiente. Faltou um pouco de Higuaín. Faltou um tanto de Dybala. E sobrou Massimiliano Allegri, que precisou ver o adversário ficar dois gols a frente para colocar Cuadrado. Por mais que haja uma diferença entre times e elencos, talvez o maior abismo entre Real e Juventus esteja na mentalidade de seus treinadores. Não sei se o jogo teria sido tão interessante e dinâmico caso a Juve tivesse ficado em algum momento na frente no placar. E, sinceramente, melhor nem saber. Os deuses nos deram um roteiro melhor. Parabéns, Real Madrid e obrigado, Zidane.
Zinedine Zidane em seus tempos de Juventus. Sobrava nos gramados. Imagem extraída de Sportsmo.

domingo, 26 de março de 2017

Schü-Schürrle Beleza

A atual campeã mundial foi a campo na cidade de Baku, capital do Azerbaijão, e não decepcionou: goleou a seleção da casa por 4a1 dando alguns lampejos daquele time que venceu a Copa do Mundo de 2014. Tudo bem que quatro não é sete, mas a superioridade alemã na tarde de hoje foi incontestável.

Se a equipe comandada pelo ótimo Joachim Löw não conta mais com Lahm, Schweinsteiger, Podolski, Klose e alguns outros grandes talentos, é fato que o elenco ainda possui muita qualidade. Prova disso é ver jogador da grandeza de Mesut Özil começar relacionado entre os suplentes. E foi exatamente um jogador habitualmente escalado na reserva que, de titular desde o início nesse domingo, foi o grande destaque na partida: André Schürrle. Aquele mesmo, autor dos dois últimos gols alemães naquela fatídica semifinal no Mineirão.

O camisa 9, que a bem da verdade jogava a maior parte do tempo como um segundo atacante - Mario Gómez era a referência mais centralizada -, esbanjou eficiência, visão de jogo e posicionamento para ajudar a construir a vitória dos visitantes. Vitória que começou com gol dele: após boa troca de passes (daquelas que a gente conhece também por causa deles), o participativo lateral-esquerdo Jonas Hector serviu Schürrle, que completou para a rede, aos dezoito.

A torcida do Azerbaijão, que celebrava desde antes de o apito inicial e parecia festejar o simples fato de estar recebendo os atuais campeões da Copa, dividindo o gramado do estádio Tofiq Bəhramov adına Respublika (sim, copiei e colei esse nome exótico), foi ao êxtase quando testemunharam o gol de empate: aos trinta, o versátil Ismaiylov passou para Nazarov, que chutou cruzado sem dar possibilidade de defesa para Leno. 1a1 no placar, uma euforia generalizada nas arquibancadas e um momento histórico: a Alemanha estava a onze horas sem ser vazada, tendo sofrido um gol pela última vez em julgo de 2016. De lá para cá, sete jogos inteiros sem ceder um tento sequer aos adversários. Dá-lhe, Azerbaijão! Aliás, quando alguém chegar até você dizendo que "futebol é apenas um jogo" (ou algo do gênero), mostre para esse indivíduo as imagens da comemoração de jogadores e torcedores do Azerbaijão após marcarem o gol de empate diante da Alemanha. Obrigado.

Cinco minutos depois, no entanto, os alemães retomavam a frente no marcador: após vacilo na saída de bola dos donos da casa - e da festa -, Schürrle passou sob medida para Thomas Müller, que concluiu o lance como manda o figurino: passou pelo goleiro com um drible curto e finalizou com um remate rasteiro. Ainda houve tempo e oportunidade para marcar o terceiro antes do intervalo: Joshua Kimmich cruzou e Mario Gómez anotou de cabeça.

No segundo tempo, a intensidade alemã foi menor. Provavelmente devido aos dois gols de margem no placar e, talvez principalmente, à intermitente dedicação do Azerbaijão em competir por todos os lances, em qualquer centímetro quadrado de gramado. O quarto gol saiu aos trinta e cinco: jogando como um nove de fato e de direito (até porque Löw havia trocado Gómez por Özil), Schürrle voltou a desfrutar de passe de Hector para chegar à rede. Uma linda finalização, por sinal.

A Alemanha é soberana em sua chave nas Eliminatórias Européias, e tudo leva a crer que a classificação ao Mundial-2018 seja mera questão de tempo. O Azerbaijão, autor do primeiro gol sofrido pelos alemães no torneio, conserva o sonho num grupo que tem Irlanda do Norte (próximo adversário, novamente em Baku), Noruega, San Marino e República Tcheca. Mas, verdade seja dita, com ou sem vaga na Copa, esses caras estão de parabéns. Na tarde de hoje, provaram que futebol é muito mais que um jogo.
Schürrle foi o nome do jogo: marcou duas vezes (em duas assistências de Hector) e ainda deu o passe para o gol de Müller. Foto: Kirill Kudryavtesv/AFP.