domingo, 11 de julho de 2021

"Fratelli D'Italia" - Nos Pênaltis, Itália Vence A Inglaterra Em Wembley E É Campeã Europeia

A ótima Eurocopa 2020 chegou ao final. Infelizmente, a partida derradeira passou longe dos melhores momentos proporcionados pela competição. Resultado clássico de um confronto onde ambas as seleções que chegaram à decisão trilharam seus caminhos a partir, prioritariamente, da solidez defensiva. Enquanto a Itália só foi ser finalmente vazada pela primeira vez no torneio durante a prorrogação na fase de oitavas de final, a Inglaterra resistiu ainda mais tempo, tendo sofrido seu primeiro gol somente na fase semifinal.

E, na grande decisão em Wembley, um gol de Luke Shaw logo no segundo minuto de jogo até poderia "abrir" a partida. Só que não. Nem a Inglaterra apresentava um sede de atacar como tampouco a Itália criava o suficiente para ameaçar a vitória parcial inglesa.

Ao falarmos dessa Eurocopa como um todo e dessa final em particular, precisamos lembrar de muitos nomes que realizaram excelentes participações defensivamente. A começar pelo capitão italiano Giorgio Chellini, um gigante que se tornou ainda maior: caso se confirme a aposentadoria da seleção italiana, Chiellini terá terminado de forma memorável, se eternizando com a camisa azul. Outro defensor da Itália que foi fundamental nessa solidez defensiva? Leonardo Bonucci. Em alguns momentos, chega a ser difícil separar Bonucci de Chiellini. Os dois, que esbanjam na seleção o mesmo entrosamento visto na Juventus, formam um verdadeira fortaleza no miolo de zaga. Pelo lado inglês, Harry Maguire foi imenso. Firme em toda e qualquer dividida e quase sempre soberano no jogo aéreo, foi uma figura de suma importância na última linha. Kyle Walker, ora atuando como lateral, ora mais fixo na zaga, foi outro que teve uma regularidade digna de admiração. E o que dizer dos volantes Declan Rice e, principalmente, Kalvin Phillips? Baita Euro de ambos. Phillips é daqueles caras que circulam pelo gramado dando aula silenciosa de posicionamento. É muito provável que haja aí o dedo do mestre Marcelo Bielsa, seu técnico no Leeds United.

Então, com todos esses elementos, não foi surpresa que a final seria econômica na quantidade de gols. Mas aquilo que realmente me causa decepção não é a falta de bola na rede - é pensar que jogadores como o italiano Manuel Locatelli e os ingleses Jack Grealish, Bukayo Saka, Jadon Sancho, Marcus Rashford e Phil Foden (esse nem entrou em campo na final!) tenham sido sub-utilizados de tal forma por seus treinadores. Locatelli fez uma ótima Euro na fase de grupos e estranhamente virou reserva nos confrontos eliminatórios. Na decisão em Wembley, Roberto Mancini só foi colocá-lo no jogo durante a prorrogação. Mesmo caso de Grealish, que entrou três minutos mais tarde. E o que dizer de Rashford e Sancho, lançados ao gramado no décimo quinto minuto do segundo tempo da prorrogação? Um deboche de Gareth Southgate, só pode.

A partida teve um gol para cada lado, ambos após cruzamentos para a área. Pela Inglaterra, logo no início, Luke Shaw completou de primeira a bola levantada por Kieran Trippier, numa bela finalização para abrir a contagem em Londres. Os italianos, por sua vez, só foram empatar aos vinte e um minutos no segundo tempo, quando um bate-rebate após cobrança de escanteio terminou com Bonucci empurrando para a rede.

De grandes jogadas tramadas, com tabelas e ultrapassagens, há muito pouco digno de nota. Raheem Sterling fez possivelmente sua pior atuação na competição. Harry Kane, bastante participativo na criação de jogadas, raras vezes foi visto em condição de finalizar. Mason Mount pouco foi capaz de produzir. E, mesmo com tudo isso, Southgate se recusava a colocar seus jogadores com maior capacidade de construção ofensiva. Lamentável essa postura de um treinador que mostra grande aptidão em dar consistência à sua seleção mas que apresenta um medo danado de soltar o freio de mão de um carro com motor possante.

No lado da Itália, uma atuação bastante interessante de Federico Chiesa, seguramente um dos melhores homens de frente nessa Euro 2020. Jogador que tem uma objetividade admirável, sempre pegando na bola de forma a encaminhar o time mais adiante, aproximando do gol. Às vezes comete erros na execução de passes, cruzamentos e chutes, mas é de fundamental importância para verticalizar as ações e colocar pressão na defesa oponente.

O confronto acabou indo para os pênaltis. Após Domenico Berardi e Harry Kane converterem, Jordan Pickford teve a felicidade de defender a cobrança de Andrea Belotti. Harry Maguire, na sequência, cobrou com força e tirou do ar a câmera localizada no ângulo esquerdo, estufando a rede com gosto.

Mas a vantagem inglesa durou pouco. Durou praticamente nada. Após Bonucci converter sua cobrança, Rashford mandou caprichosamente no pé da trave direita. Lembrou bastante a cobrança de Sergio Busquets na semifinal da Espanha com a própria Itália - tanto pelo chute na trave direita quanto pelo fato de Gianluigi Donnarumma saltar para o lado oposto.

Logo depois, Federico Bernardeschi converteu para a Itália. E o castigo de Southgate teve outro capítulo: Sancho, que entrara junto com Rashford no finalzinho da prorrogação, também desperdiçou a cobrança.

Coube ao ítalo-brasileiro Jorginho, cobrador oficial de pênaltis na Azzurra, se encarregar do que seria a cobrança do título. Seria. Porque Pickford, heroico, foi buscar o chute rasteiro no canto direito. E por falar em heroi, o rótulo definitivo coube a Donnarumma, que defendeu a cobrança de Saka no canto esquerdo e garantiu o troféu à Itália.

Italianos correm para saudar Gianluigi Donnarumma após defesa do pênalti cobrado por Bukayo Saka. Em contraste, Jordan Pickford, que também pegou duas cobranças, observa desolado. Imagem extraída de Notícias de Coimbra.

 

Foi uma final onde nenhum dos treinadores merecia ganhar. Seja pela covardia do Southgate, seja pela escassez de variações do Mancini. Mas, olhando para dentro de campo e vendo personagens como Chiellini e Bonucci, não há como negar que a taça ficou em boas mãos.

Seleção da Eurocopa 2020

Eis os titulares e reservas na concepção de alguém que assistiu todos os jogos na primeira rodada, todos os jogos na segunda rodada, metade das partidas na terceira rodada e todos os confrontos das oitavas de final em diante.

Titulares

Goleiro: Yann Sommer (Suíça)
Lateral direito: Denzel Dumfries (Holanda)
Zagueiro: Leonardo Bonucci (Itália)
Zagueiro: Giorgio Chiellini (Itália)
Lateral esquerdo: Luke Shaw (Inglaterra)
Volante: Kalvin Phillips (Inglaterra)
Meio-campista: Paul Pogba (França)
Meio-campista: Daniel Olmo (Espanha)
Meio-campista: Raheem Sterling (Inglaterra)
Atacante: Federico Chiesa (Itália)
Atacante: Patrik Schick (República Tcheca)
Técnico: Kasper Hjulmand (Dinamarca)

Reservas

Goleiro: Gianluigi Donnarumma (Itália)
Lateral direito: Kyle Walker (Inglaterra)
Zagueiro: Harry Maguire (Inglaterra)
Zagueiro: Simon Kjær (Dinamarca)
Lateral esquerdo: Leonardo Spinazzola (Itália)
Volante: Sergio Busquets (Espanha)
Meio-campista: Georginio Wijnaldum (Holanda)
Meio-campista: Kevin De Bruyne (Bélgica)
Meio-campista: Pedri (Espanha)
Atacante: Harry Kane (Inglaterra)
Atacante: Romelu Lukaku (Bélgica)
Técnico: Franco Foda (Áustria)

Menção honrosa

Goleiro: Kasper Schmeichel (Dinamarca) e Jordan Pickford (Inglaterra)
Lateral direito: Joshua Kimmich (Alemanha) e César Azpilicueta (Espanha)
Zagueiro: John Stones (Inglaterra) e Mats Hummels (Alemanha)
Zagueiro: Andreas Christensen (Dinamarca) e Thomas Vermaelen (Bélgica)
Lateral esquerdo: Joakim Mæhle (Dinamarca) e Robin Gosens (Alemanha)
Volante: Marco Verratti (Itália) e N`Golo Kanté (França)
Meio-campista: Luka Modric (Croácia) e Thomas Delaney (Dinamarca)
Meio-campista: Axel Witsel (Bélgica) e Jorginho (Itália)
Meio-campista: Granit Xhaka (Suíça) e Frenkie De Jong (Holanda)
Atacante: Haris Seferović (Suíça) e Cristiano Ronaldo (Portugal)
Atacante: Kylian Mbappé (França) e Kasper Dolberg (Dinamarca)
Técnico: Luis Enrique (Espanha) e Vladimir Petković (Suíça)


sexta-feira, 9 de julho de 2021

Dinamarca É Valente, Mas Não Resiste À Inglaterra E A Um Pênalti Duvidoso Em Plena Prorrogação

Pela primeira vez na história da Eurocopa, a Inglaterra consegue chegar na final do torneio. Após o empate por um a um com a Dinamarca, a seleção inglesa triunfou na prorrogação ao marcar o segundo gol em num pênalti bastante duvidoso - e, na base da imposição física e do toque de bola, segurar o resultado que a qualificou para tentar o título inédito.

Acho um erro metodológico focar no pênalti bastante duvidoso. É bem verdade que ele mancha a partida e coloca em dúvida o mérito do English Team num confronto que poderia tranquilamente caminhar para o desempate por penalidades. Porém, analisando a totalidade de um confronto que teve mais de duas horas de jogo, foi flagrante a superioridade técnica e tática dos comandados de Gareth Southgate.

A Dinamarca fez uma Eurocopa a ser lembrada com carinho - tanto pela forma como atuou quanto, principalmente, pela capacidade de superar o episódio marcante ocorrido no primeiro tempo do jogo de estreia. Um episódio que tornou o evento esportivo secundário - até porque, uma Eurocopa pode ser disputada a cada quatro anos, mas uma pessoa - uma vida - é única. E o maior "título" possível nesse torneio foi o fato de Christian Eriksen continuar vivo.

Ingleses começam bem, mas Dinamarca mostra qualidade no contra-ataque

A primeira chegada de ataque mais interessante foi da Inglaterra e aconteceu envolvendo seus dois jogadores que atuam como referência no setor ofensivo. Aos cinco minutos, Harry Kane recebeu pela direita, cruzou em diagonal encontrando Raheem Sterling nas costas de Andreas Christensen, mas o camisa dez não conseguiu alcançar para concluir.

Aos nove, uma jogada de troca de passes de primeira da Dinamarca deu o tom de como essa equipe é bem treinada. Sim, precisamos reverenciar Kasper Hjulmand pelo que vem desempenhando no comando da seleção nórdica. Quando quatro jogadores trocam passes de primeira, acionando um companheiro em contra-ataque, temos que entender que isso tem o dedo do treinador. Na jogada envolvente, Mikkel Damsgaard por pouco não chegou na bola, com Kyle Walker fazendo a proteção para Jordan Pickford recolher.

Aos doze, Kane passou novamente para Sterling - dessa vez pelo lado esquerdo de ataque. Ele carregou pra direita acompanhado por Christensen e chutou fraco, para defesa de Kasper Schmeichel.

Essas duas chegadas de ataque inglesas, onde Kane agia como uma espécie de garçom de Sterling, deram uma boa síntese do posicionamento do camisa nove na maior parte do tempo de jogo. Ele estava usualmente fora da área, misturado com outros meio-campistas, e se mostrando participativo num setor que mostrava alguma carência na capacidade criativa. Essa carência em muito se deve em parte ao próprio treinador Southgate, que se mostra bastante resistente a usar jogadores como Phil Foden e Jack Grealish entre os titulares. 

Dinamarca cresce, aparece e abre o placar em Wembley com o primeiro gol em cobrança de falta nessa edição

Aos catorze minutos, Pierre-Emile Højbjerg chutou rasteiro e parou em defesa de Pickford. No minuto seguinte, uma saída ruim de Pickford - que logo se desculpou com os companheiros - deu origem a uma chegada perigosa da Dinamarca, transformando-se em escanteio.

Passado o susto, a Inglaterra parecia retomar o controle territorial do setor de meio de campo. Mas a Dinamarca tinha seus recursos: aos vinte e quatro, Jannik Vestergaard tirou a bola de Kane no campo defensivo e deu início a um contra-ataque que que chegou até Damsgaard. Ele chutou cruzado buscando o ângulo esquerdo, mas a bola acabou indo para fora.

Aos vinte e seis minutos, Pickford superava uma marca do lendário goleiro Gordon Banks - ele acabava de completar setecentos e vinte e três minutos sem ser vazado pela seleção inglesa. 

Com o recorde estabelecido, veja o que é o futebol: apenas três minutos depois do feito histórico, a Dinamarca tinha uma cobrança de falta. Damsgaard na bola. O mesmo Damsgaard que ficou no quase duas vezes anteriormente. E Damsgaard foi brilhante: ele conseguiu fazer a bola encobrir uma barreira alta (com Kane pulando e não alcançando) e fazer a bola perder altura rapidamente, surpreendendo Pickford, que até resvalou na redonda mas sem ser capaz de evitar o gol. O primeiro gol sofrido por ele nessa Euro. O primeiro gol em cobrança de falta nessa edição. Um belo gol de Damsgaard. Dinamarca um a zero em pleno estádio de Wembley.

Inglaterra reage e alcança o empate ainda no primeiro tempo

Pela primeira vez atrás no placar em todo o andamento da competição - afinal, sequer havia sofrido um único gol até então -, a Inglaterra não demorou a levantar a cabeça, sacodir a poeira e dar a volta por cima.

Aos trinta e sete minutos, um ensaio do gol de empate: Bukayo Saka tocou para Kane pela direita, o camisa nove cruzou e Sterling, de frente para o gol, teve seu chute defendido em excepcional intervenção de Schmeichel.

No minuto seguinte, o que era ensaio virou o gol de empate propriamente dito. E envolvendo os mesmos personagens da trama anterior: Saka recebeu de Kane pela direita e cruzou buscando Sterling, que simplesmente completaria para a rede. Só que Simon Kjær, de carrinho, evitou que a bola chegasse em Sterling - mas não na rede, marcando contra. Um a um em Londres.

Deitado após o carrinho, Simon Kjær vê a bola no fundo da rede. Foto: AFP.


Segundo tempo tem início com equipes alternando possibilidades de gol

Quando Kasper Dolberg recebeu de Joakim Mæhle e teve seu chute rasteiro espalmado por Pickford no canto direito, já havia impedimento no lance. Porém, aquela chegada aos seis minutos mostrava o ímpeto dinamarquês em retomar a liderança no placar.

A Inglaterra não ficava atrás e tratou de responder três minutos depois: aos nove, após Mæhle cometer falta em Kane, Jason Mount foi para a cobrança, levantou na área, Harry Maguire conseguiu cabecear no canto direito e Schmeichel tratou de salvar, espalmando.

Na marca de treze minutos, uma bonita jogada da Dinamarca: Højbjerg avançou pela direita e rolou a bola na direção de Martin Braithwaite, que fez o corta-luz. Na sequência, Dolberg girou e chutou rasteiro, com Pickford fazendo a defesa.

Aos dezoito, era a vez dos ingleses: Sterling carregou pela esquerda, entregou para Saka, que deixou com Mount - o chute foi defendido com segurança por Schmeichel.

Cansaço começa a bater à porta dinamarquesa e três substituições simultâneas são realizadas

Com vinte e um minutos, Hjulmand mexeu triplamente em sua equipe. Saíram Stryger Larsen, Damsgaard e Dolberg para as entradas de Daniel Wass, Yussuf Poulsen e Christian Nørgaard. São três alterações que remetem ao jogo de quartas de final com a República Tcheca, quando as três primeiras mexidas na equipe foram exatamente envolvendo esses jogadores.

Aos vinte e três, foi a vez de Southgate mexer, promovendo a entrada de Jack Grealish no lugar de Saka. E, tal qual ocorreu na partida de oitavas de final diante da Alemanha (curiosamente no mesmo minuto de jogo), Grealish foi para o lado esquerdo e Sterling passou a aparecer mais rotineiramente pela direita.

Inglaterra assume o controle na partida

Aos vinte e sete minutos, Kane abriu o jogo na direita com Mount, que cruzou fechado, com Schmeichel dando um tapa para escanteio em bola que parecia ter o endereço do gol.

Na marca de trinta e dois minutos, Grealish receberia ótima enfiada de bola. Receberia, no futuro do pretérito, pois Christensen se agigantou esticando a perna e fazendo interceptação quase acrobática. Só que a dita acrobacia acabou contundindo o defensor dinamarquês, que precisou ser substituído - Joachim Andersen entrou em seu lugar.

Aos trinta e quatro, Kalvin Phillips tentou de fora da área e a bola saiu à direita. Três minutos depois, Luke Shaw levantou pela esquerda em lance de bola parada e John Stones cabeceou à esquerda.

A quinta substituição de Hjulmand deu-se aos quarenta e dois minutos, tirando Thomas Delaney - jogador que merece os elogios pela partida e pela Eurocopa que realizou - para a entrada de Mathias Jensen.

A Inglaterra mostrava uma condição física bastante superior à Dinamarca, notadamente por Southgate carregar a equipe até o final dos noventa minutos tendo feito apenas aquela troca de Saka por Grealish. E o English Team teve ainda duas oportunidades de marcar nos acréscimos. Aos quarenta e sete minutos, Sterling tinha a bola pela direita, passou para Kane - recuado, como em quase todo o decorrer do jogo - e o camisa nove rolou atrás para Phillips, que chutou de fora, mandando por cima do travessão. Dois minutos depois, aos quarenta e nove, após lance de bola parada pela direita, Maguire, soberano no jogo aéreo, cabeceou no segundo poste e Schmeichel foi buscar no canto direito.

Mais uma vez nessa Euro, a definição da vaga rumava para a prorrogação

Sobrando fisicamente, Inglaterra consegue se impôr. Mas só chega ao gol em lance para lá de duvidoso

Aos três minutos, Kane recebeu pela direita nas costas de Vestergaard e chutou cruzado, para defesaça de Schmeichel com a mão direita.

Pouco após o lance, Southgate trocou Declan Rice e Mount por Jordan Henderson e Phil Foden. Sim, demorou mais de uma hora e meia para o talentoso Foden finalmente ser mandado a campo.

Aos sete, o camisa sete Grealish chutou firme e Schmeichel rebateu.

Os ingleses tinham a bola mas a Dinamarca se defendia bem. Até que, aos onze minutos, Sterling entrou na área pelo lado direito. Era perseguido por Mæhle. Caiu na grama. Assistindo ao vivo, parecia ter havido um toque. Mas ao olhar o lance de novo, e novamente, e mais uma vez, e por outro ângulo, fica muito difícil assegurar que tenha havido qualquer contato capaz de tombar Sterling. Ainda assim, a penalidade foi confirmada. De forma admirável, a seleção dinamarquesa pouco reclamou. Algo que transcende a competitividade e o calor do jogo. A isso, podemos chamar "educação".

Raheem Sterling cai na área - o árbitro holandês Danny Makkelie, que não aparece na foto, diz que houve pênalti. Imagem extraída do Twitter Sensacionalista.

A cobrança do pênalti - que sabe-se lá se foi realmente pênalti - coube a Harry Kane. Existe uma máxima futebolística que diz que pênalti que não é, não entra. Kasper Schmeichel deu uma mãozinha para o ditado popular e defendeu no canto esquerdo. Só que o rebote ficou com o próprio Kane. E, no jargão, não diz nada sobre rebote de pênalti que não é... Dois a um Inglaterra.

Harry Kane e Phil Foden em êxtase com o gol na prorrogação: a Inglaterra fazia dois a um sobre a Dinamarca. Foto: AFP.

Sem forças para reagir, Dinamarca entra na roda inglesa

No intervalo, uma mexida para cada lado: enquanto a Inglaterra trocava Grealish por Kieran Trippier (sim, senhoras e senhores, mesmo com a flagrante imposição física e superioridade técnica, o treinador Gareth Southgate optou por tirar Grealish de campo, colocar um homem na lateral e centralizar Walker, aumentando o contingente defensivo), o técnico Hjulmand, por sua vez, promoveu a entrada do atacante Jonas Older Wind no lugar do defensor Verstergaard.

Aos oito minutos, uma chegada com Braithwaite que foi frustrada pela boa marcação de Maguire e pela ação de Pickford foi a última ação ofensiva dinamarquesa. A Inglaterra, exercendo domínio territorial e circulando a bola sem qualquer sede de ampliar a vantagem, fazia o tempo passar. E ainda teve, aos quinze, uma situação derradeira, quando Sterling avançou pela direita, deixou Andersen para trás e parou em bloqueio de Schmeichel.

Desta forma, a seleção inglesa chega à sua primeira final de Eurocopa. É a equipe que mais me impressionou pela consistência tática. Tem um jeito de jogar bem definido, sendo sólida na defesa e contando com ótima proteção na dupla Phillips e Rice, gozando de boa qualidade técnica no último terço do gramado. É difícil apontar uma seleção com qualquer espécie de favoritismo na final, mas, analisando friamente, vejo a Inglaterra com maiores possibilidades do que a Itália em Wembley. Aguardemos. Minha maior torcida é para que Southgate não tenha medo de soltar o freio de mão de uma equipe que tem, sim, algo mais a oferecer.

À Dinamarca, meus parabéns. Fez belíssimo papel no torneio. E, graças a Deus, salvaram-se todos. Viva Eriksen!

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Com Espanha Melhor No Jogo, Itália Arranca Classificação Nos Pênaltis

Wembley recebeu pela semifinal da Eurocopa 2020 um jogo que decidiu a Euro 2012. E se naquela oportunidade, em Kiev, a Espanha sapecou um quatro a zero sobre a Itália, dessa vez, em Londres, tivemos um confronto muito disputado e definido somente no desempate por pênaltis, com vitória italiana. 

No tempo regulamentar, os gols foram marcados por Federico Chiesa e Álvaro Morata, ambos no segundo tempo de jogo. Já nas penalidades, os espanhóis desperdiçaram duas cobranças enquanto os italianos deixaram de aproveitar somente uma, fechando a série em quatro a dois e garantindo presença na final - que também será disputada em Wembley.

Itália entra em campo praticamente idêntica à que enfrentou a Bélgica enquanto a Espanha surpreende com  Mikel Oyarzabal entre os titulares

A aparição de Emerson Palmieri na lateral-esquerda foi a única mudança em relação à Itália que iniciou a partida de quartas de final diante da Bélgica - Leonardo Spinazzola, titular na posição, rompeu o tendão de Aquiles no segundo tempo daquele jogo.

Já a Espanha fez três mudanças no comparativo dos onze iniciais que enfrentaram a Suíça na fase de quartas de final. Por questão física, Pablo Sarabia, que havia sido substituído no intervalo daquele jogo, deu lugar a Daniel Olmo, que foi exatamente quem substituiu Sarabia naquela ocasião. Por questões provavelmente de ordem técnica, Pau Torres deu lugar a Eric García (lembrando que Pau Torres foi um dos que falharam no lance do gol de Shaqiri). E, de forma surpreendente, numa escolha que me parece ser fundamentalmente tática, Álvaro Morata foi para o banco, promovendo a entrada de Oyarzabal. Embora Morata faça uma Eurocopa digna de questionamentos, ele vinha sendo sistematicamente conservado entre os titulares. Acredito que Luis Enrique optou pela mudança no ataque, principalmente, por levar em consideração o comportamento tático da seleção italiana - Oyarzabal se mostrava opção interessante para explorar a velocidade e a infiltração vindo mais de trás, se projetando ao espaço vazio ao invés de aguardar mais fixo na área, onde, em teoria, seria mais vulnerável à implacável marcação tanto de Giorgio Chiellini quando de Leonardo Bonucci.

Duas primeiras chances de gol no jogo são espanholas

Excluindo uma chegada italiana que parou na trave aos três - o lance teve apenas efeito moral, já que veio a ser invalidado por marcação de impedimento -, as duas primeiras chances de gol na partida foram da Espanha. Aos doze minutos, Pedri acionou Oyarzabal com ótimo passe rasteiro, mas o jogador recém-promovido aos titulares, em ótima condição para preparar a finalização, não conseguiu realizar o domínio de bola como gostaria e permitiu que Emerson fizesse a recuperação. Dois minutos depois, aos catorze, Ferran Torres driblou Jorginho e chutou à direita.

Espanha se impõe e Itália se limita a (tentar) contra-atacar

Com Sergio Busquets liderando o setor de meio de campo espanhol e Marco Verratti sobressaindo no lado italiano, as ações do jogo se concentravam entre as duas intermediárias. Aos vinte minutos, numa saída rápida da Azzurra, o goleiro Unai Simón deixou a área para intervir. Só que o ítalo-brasileiro Emerson chegou antes, tocou de lado e a defesa espanhola só conseguiu se recuperar no lance após a indecisão de Nicolo Barella.

Na marca de vinte e quatro minutos, tivemos a primeira boa defesa de um goleiro no jogo: Oyarzabal teve o chute travado, Dani Olmo pegou a sobra, foi bloqueado por Bonucci, pegou seu próprio rebote e chutou no canto direito, para defesa de Gianluigi Donnarumma.

Aos trinta e dois, uma nova tentativa de Olmo: ele carergou a bola observado por Chellini e chutou, dessa vez mandando por cima do travessão. Com trinta e oito no relógio, Pedri passou para Jordi Alba, que encontrou Oyarzabal - o chute do camisa vinte e um foi tão longe do gol que talvez os espanhóis pudessem começar a sentir saudade do Morata...

Embora o momento da Espanha fosse de flagrante superioridade, uma das maiores chances de tirar o zero no placar na etapa inicial foi italiana e aconteceu aos quarenta e quatro minutos: Lorenzo Insigne foi lançado pela esquerda e fez o passe na ultrapassagem de Emerson, que descolou chute no travessão.

Segundo tempo inicia confirmando cenário de antes do intervalo, com Espanha mantendo a iniciativa

Sem alterações, as seleções retornaram para a segunda etapa. E a Espanha se manteve no ataque. Aos quatro minutos, Daniel Olmo cruzou da direita e Giovanni Di Lorenzo foi providencial para cortar a bola quando um adversário vinha chegando às suas costas. Ao seis, Busquets recebeu de Oyarzabal e pegou de primeira, mandando a bola perto do travessão. No minuto seguinte, resposta italiana: em rara jogada envolvendo todo o trio de frente, Insigne passou para Ciro Immobile, que deixou com Chiesa, que trouxe para a perna direita diante da marcação de Alba e chutou cruzado, com Simón caindo para segurar à direita. Com doze minutos, Oyarzabal tentou de fora da área e Donnarumma fez a defesa.

Em contra-ataque, Itália marca o primeiro gol na semifinal

O ritmo do jogo era interessante, com a marcação alta italiana tentando recuperar a bola em posição mais avançada possível, enquanto a Espanha procurava verticalizar a troca de passes, visando encontrar os espaços vazios. Aos catorze, porém, quem tratou de encontrar tais espaços vazios foi a Itália. Em rápido contra-ataque iniciado com o goleiro Donnarumma, Immobile dividiu no ataque e a bola sobrou para Chiesa: esbanjando a objetividade que lhe é característica, o filho de Enrico tratou de imediatamente arrumar e chutar cruzado no canto esquerdo. Um a zero Itália, em jogada de aproximadamente quinze segundos desde a saída com Donnarumma até a finalização com Chiesa.

Federico Chiesa chuta cruzado e inaugura o marcador em Wembley. Foto: Facundo Arrizabalaga / Pool / AFP.
 

Equipes mexem no ataque e surgem chances para ambos os lados

Logo após o gol, tanto Roberto Mancini quanto Luis Enrique Martínez mexeram no ataque de suas equipes: na Itália, saiu Immobile para a entrada de Domenico Berardi; na Espanha, Morata entrou no lugar de Ferran Torres.

Aos dezenove minutos,uma chance clara de empate foi desperdiçada: Koke fez ótima enfiada de bola desmontando toda a defesa italiana e Oyarzabal, livre, leve, solto e de frente com Donnarumma, falhou na tentativa de cabeceio.

Aos vinte e um, nova participação de Oyarzabal: ele recebeu, fez a parede diante da marcação de Chiellini, rolou atrás e Dani Olmo chutou de primeira, mandando à esquerda.

No minuto seguinte, resposta da Itália: Chiesa recebeu pela direita, carregou e passou para Berardi, que ficou de frente com Simón, chutou rasteiro e viu o goleiro rebater com a perna.

Após novas alterações nas duas seleções, jogo volta a se agitar e Espanha empata

Com Gerard Moreno no lugar de Oyarzabal e Rodri no lugar de Koke, Luis Enrique procurava alternativas no setor ofensivo. Já Mancini, visando fortalecer a marcação na última linha, trocou Emerson por Rafael Tolói. Também tirou Verratti, colocando Massimo Pessina em seu lugar e renovando o fôlego na proteção à defesa.

Aos trinta e um minutos, Morata teve sua tentativa de cruzamento pela direita travada por Bonucci. Três minutos depois, após recuperação de bola no ataque, Berardi teve nova oportunidade, mas parou novamente em Simón, que segurou no lado direito. E, ainda aos trinta e quatro, saiu o gol de empate espanhol: em ótima tabela entre Morata e Olmo, o atacante tocou e recebeu de volta do meio-campista e, centralizado, nas costas da defesa, chutou com precisão no contrapé de Donnarumma, estufando a rede no canto direito. Um a um no placar, em jogada onde uma rápida tabela arruinou a última linha de defesa adversária.

Álvaro Morata comemora o gol de empate da Espanha diante da Itália. Imagem extraída de Bola Vip.
 

A Espanha ainda teve uma possibilidade de virar o jogo: aos trinta e oito, Morata levou a bola para a linha de fundo e rolou atrás para Moreno, que, da meia-lua, isolou.

No minuto posterior, um total de três substituições: na Itália, saíram Barella e Insigne para as entradas de Manuel Locatelli e Andrea Belotti; na Espanha, entrou Marcos Llorente no lugar de César Azpilicueta.

Prorrogação tem pequeno número de oportunidades de gol e jogo caminha para a decisão por pênaltis

Talvez por falta de gás, talvez por sobra de vantagem do sistema defensivo, talvez por um pouco de cada, o fato é que a prorrogação não teve lá grandes situações de gol. Mas, quando teve, foi espanhola. Aos sete minutos, Olmo cobrou falta da esquerda, Donnarumma rebateu, Morata chutou rasteiro e Cheillini conseguiu bloquear. Aos onze, Moreno levantou da direita e Donnarumma afastou em disputa com Morata e Bonucci.

Daí para a frente, nem as mexidas mudaram o panorama da partida. No intervalo, Luis Enrique trocou Busquets por Thiago Alcântara. Com um minuto no segundo tempo, Chiesa deu lugar Filippo Bernardeschi na Itália. E, aos três, Pau Torres entrou no lugar de Eric García na Espanha. Todas as seis mexidas autorizadas para cada conjunto foram usufruídas e, bastante alteradas em suas composições, as seleções definiriam a classificação nas penalidades.

Nos pênaltis, Locatelli e Olmo desperdiçam logo de cara. No final, Donnarumma pega a cobrança de Morata e Jorginho sela a classificação italiana.

Na primeira cobrança, Unai Simón saltou para o lado direito e defendeu o chute rasteiro de Locatelli.
Dani Olmo, que atuou bem no tempo regulamentar, poderia colocar a Espanha em vantagem. Mas chutou por cima do travessão.

Na segunda cobrança italiana, Simón novamente acertou o canto, mas o chute de Belotti foi muito bem realizado, firme e próximo à trave, anotando o primeiro gol.
Moreno cobrou alto, à esquerda - Donnarumma acertou o lado, mas não alcançou. Um a um.

Na terceira cobrança, Bonucci foi o primeiro a conseguir colocar a bola no lado oposto à escolha do goleiro, estufando a rede entre o meio do gol e o canto esquerdo.
Thiago Alcântara, com estilo, mandou a bola no canto direito e viu Donnarumma pular o outro lado. Dois a dois.

Na quarta cobrança, Bernardeschi bateu firme, alto, sem chance de defesa para Simón, que acertou a escolha do lado esquerdo. Três a dois Itália.
Morata, que jogou a temporada 2020/1 na italiana Juventus, foi para a cobrança. No gol, o rossonero Donnarumma. Morata escolheu chutar no lado esquerdo do gol. Donnarrumma, também. E a Itália ficava em vantagem.

Coube a Jorginho, batedor oficial da Azzurra - que cobrou cinco penalidades em partidas oficiais com a seleção italiana e converteu todas elas - se encarregar da quinta cobrança. Esbanjando tranquilidade e lucidez, partiu pra bola, mudou o ritmo da passada e, com Simón se deslocando para a direita, não teve dúvidas e mandou no canto esquerdo. Quatro a dois e fim de papo. A Itália está na final da Eurocopa 2020!

Consciente e cheio de frieza: Jorginho converte a cobrança de pênalti derradeira. Foto: Getty Images.

domingo, 4 de julho de 2021

Inglaterra Passeia Em Roma, Faz Quatro A Zero Na Ucrânia, E Volta A Wembley Com Sede De Título

Se nas outras três partidas dessa fase tivemos três confrontos bastante disputados (Espanha e Suíça decidiram a vaga nos pênaltis, a Itália passou pela Bélgica com vitória por dois a um e a Dinamarca venceu a República Tcheca também por dois a um), a Inglaterra sobrou diante da Ucrânia e aplicou a sua maior goleada na história das Eurocopas: um inapelável quatro a zero, com dois gols de Harry Kane, um de seu xará Harry Maguire e um de Jordan Henderson, que anotou seu primeiro gol com a camisa que vestiu sessenta e duas vezes.

Mesmo com as ótimas atuações de Grealish, Southgate dá titularidade a Sancho

Com uma formação diferente da que venceu a Alemanha por dois a zero nas oitavas, o técnico Gareth Southgate diminuiu a última linha de cinco para quatro homens, com Kieran Trippier indo para o banco de reservas e Kyle Walker assumindo a lateral direita. Outra modificação foi no setor de meio campo, barrando Bukayo Saka e promovendo Jordan Sancho e Mason Mount aos onze iniciais. Um desenho mais ofensivo, sem dúvidas, mas que estranhamente abdicou de utilizar Jack Grealish, um dos destaques na vitória sobre os alemães.

Andriy Shevchenko, por seu turno, alterou o meio campo ucraniano em relação ao preparado na vitória por dois a um sobre a Suécia na prorrogação. E essa solitária mudança de jogadores - qual seja, a saída de Taras Stepanenko para a entrada de Vitaliy Mykolenko - modificou significativamente a forma da equipe jogar, pois Oleksandr Zinchenko, o melhor jogador em campo na partida diante dos suecos na fase de oitavas de final, retornava a uma posição mais centralizada, abandonando a bem-sucedida função de atuar pelo flanco esquerdo do gramado, que é exatamente a que ele está acostumado a fazer no Manchester City de Josep Guardiola.

Parceria entre Sterling e  Kane funciona e English Team abre o placar aos três minutos

Assumindo a iniciativa no uso da posse de bola, a Inglaterra foi ao ataque desde cedo. E logo aos três minutos, conseguiu chegar ao gol: Raheem Sterling conduziu a bola da esquerda para o centro, atraiu a marcação ucraniana e descolou excelente passe para Harry Kane, que só teve o trabalho de esticar a perna e desviar, de bico, antes da chegada do goleiro Heorhii Bushchan. Um gol com a marca de um goleador num lance que merece ser exaltado, mais ainda, pelo passe magistral de Sterling. Um a zero Inglaterra em Roma, na primeira partida da seleção inglesa fora de Wembley nesse Eurocopa.

Harry Kane estica a perna direita e, de bico, empurra para o gol: a Inglaterra abre o placar diante da Ucrânia. Foto: Estadão Conteúdo.

 

Ucrânia procura atacar, mas consistência inglesa inibe a ação ofensiva adversária

Com um plano de jogo inicial que parecia ser o de se fechar atrás e sair em contra-ataques, o gol sofrido aos três minutos foi um balde de água na temperatura ambiente do inverno ucraniano. A vontade de buscar o empate esbarrava nas limitações da equipe e, mais ainda, na muito bem postada defesa inglesa. Andriy Yarmolenko, um dos destaques da Ucrânia no torneio, era figura sumida na partida, sucumbindo em meio ao sólido sistema de marcação da Inglaterra. E se a capacidade criativa ucraniana estava totalmente abafada pelo adversário, a primeira grande oportunidade de empatar o jogo se deu graças a um erro da seleção inglesa: aos dezesseis minutos, Walker tocou curto demais para John Stones, Roman Yaremchuk fez a interceptação, avançou pela esquerda e chutou rasteiro, parando em defesa de Jordan Pickford no canto direito.

Inglaterra domina territorialmente e cria chances de ampliar

Mantendo o adversário fora do último terço do campo, a seleção inglesa foi exercendo um domínio cada vez maior. E, com naturalidade, criou oportunidades de chegar ao segundo gol.

Aos vinte e um minutos, numa jogada entre Sancho e Sterling, Luke Shaw cruzou rasteiro da esquerda mas ninguém apareceu para a finalização. Na marca de vinte e oito, Shaw cobrou falta pela esquerda levantando na área e Kane cabeceou por cima. Com trinta e dois, Declan Rice chutou com muita força uma bola que passou a centímetros (talvez milímetros) de Zinchenko, viajou entre Serhiy Kryvtsov e Mykola Matvienko e, sabe-se lá como, Bushchan conseguiu rebater mesmo com tantos jogadores cobrindo a sua visão do lance.

Por falar em Kryvtsov, o zagueiro central acabou sendo substituído ainda no primeiro tempo, dando lugar a Viktor Tsygankov aos trinta e quatro minutos.

A Inglaterra encontrava mais facilidade pelo lado esquerdo: aos trinta e nove minutos, Sterling passou para Shaw que, em posição duvidosa, tocou atrás para Sancho, que chutou firme e Bushchan voltou a rebater. 

Apesar do deserto de circunstâncias no campo de ataque, até houve uma última finalização ucraniana antes do intervalo, quando, aos quarenta e dois, Mykola Shaparenko pegou sobra de bola de Shaw e mandou para fora, à esquerda.

No segundo tempo, ingleses marcam dois gols nos primeiros quatro minutos

Logo no primeiro minuto na etapa complementar, a Inglaterra tinha uma falta para cobrar pelo lado esquerdo de ataque, quando Serhiy Sydorchuk derrubou Kane. Shaw se encarregou da cobrança, levantou na área, Maguire saltou se apoiando em Matvienko (não houve manifestação do VAR) e cabeceou para a rede. Dois a zero no placar.

O que estava bom para os ingleses ficou ainda melhor apenas três minutos depois: Sancho recuperou a bola na defesa, Mount puxou o contra-ataque arrancando em velocidade, Sterling recebeu e passou com estilo para Shaw, que cruzou na medida para Kane - com um cabeceio protocolar para o chão, o camisa nove colocou entre as pernas de Bushchan, marcando o terceiro da Inglaterra no jogo e seu terceiro gol na competição.

Jordan Henderson sai do banco e marca pela primeira vez com a camisa da seleção

Com o jogo sob controle e o resultado confortável, aos onze minutos o técnico Southgate trocou Rice por Jordan Henderson, experiente meio-campista do Liverpool e veterano na seleção inglesa.  

Cinco minutos após pisar no gramado, Henderson lançou Sterling, a defesa afastou e Kane emendou de primeira, com Bushchan sevitando o quarto gol ao espalmar no canto esquerdo. Veio a cobrança de escanteio: Mount cruzou e ele, Henderson, surgiu no primeiro poste cabeceando firme, marcando seu primeiro gol após sessenta e dois jogos representando o English Team. Interessante observar que, no último amistoso da Inglaterra antes da Eurocopa, Henderson havia desperdiçado um pênalti diante da Romênia.

Jordan Henderson é bastante festejado após marcar seu primeiro gol com a camisa da seleção inglesa, fechando os quatro a zero sobre a Ucrânia no estádio olímpico de Roma. Foto: AFP.
 

Gareth Southgate faz três substituições e a Inglaterra passa a administrar o jogo e o relógio

Imediatamente após marcar quatro a zero no placar, foram realizadas quatro substituições na partida. Primeiro, Shecvhenko trocou Sydorchuk (machucado) por Yevhen Makarenko. Depois, Southgate, já pensando na fase semifinal, tirou de campo Sterling, Shaw e Kalvin Phillips para as entradas de Marcus Rashford, Trippier e Jude Bellingham.

O jogo não ficou frio - ele ficou gélido, congelante. As únicas esparsas emoções daí para o final foram uma saída atrapalhada de Pickford - o goleiro inglês abandonou a área para afastar uma bola lançada nas costas da defesa mas pegou tão mal na redonda que quase piorou as coisas; e um chute forte de fora da área dado por Makarenko, que Pickford rebateu, mantendo sua meta inviolável na Eurocopa 2020.

Para puxar os aplausos no estádio olímpico de Roma, Southgate ainda trocou Kane por Dominic Calvert-Lewin, aos vinte e oito minutos.

Era difícil saber quem estava mais ansioso pelo apito final: os ingleses, já com a mente voltada para o o próximo confronto, ou os ucranianos, para tentar virar a página dessa contundente derrota na sua partida derradeira. Agradando gregos e troianos, digo, ingleses e ucranianos, o árbitro alemão Felix Brych soprou o apito precisamente aos quarenta e cinco.

Dinamarca Vence A República Tcheca, Avança Para A Semifinal E Sonha Repetir 1992

Jogando um futebol ofensivo e procurando rodar a bola no campo de ataque, a Dinamarca deu mais um passo gigante em sua já marcante trajetória na Eurocopa 2020. Com a vitória por dois a um sobre a República Tcheca, a equipe comandada por Kasper Hjulmand garantiu presença na fase semifinal do torneio. Um torneio que começou com o gigantesco susto em torno de Christian Eriksen - felizmente, o atleta de vinte e nove anos sobreviveu ao mal súbito e tem expectativas de um dia retornar aos campos. Porém, o que realmente importa é a vida. Dentro ou fora dos gramados, o camisa dez se faz presente no espírito competitivo da seleção dinamarquesa - e é, antes de tudo, em homenagem a ele que essa equipe se supera e avança mais uma vez.

Logo no início da partida, a Dinamarca abre o placar

Escalada com a mesma formação e os mesmos jogadores da goleada sobre País de Gales na fase oitavas de final, a Dinamarca tomou a iniciativa e foi para cima de uma República Tcheca ligeiramente modificada em relação ao jogo em que venceu a Holanda nas oitavas - dessa vez, o técnico Jaroslav Šilhavý optou por começar o jogo com Jan Bořil na lateral esquerda ao invés de Pavel Kadeřábek.

E se essa Eurocopa vem sendo relativamente tranquila e bem-sucedida com questões relacionadas à arbitragem, dessa vez aconteceu algo desagradável já nos primeiros minutos de partida: numa dividida de bola nas proximidades da linha de fundo, foi assinalado escanteio para a Dinamarca quando deveria ser concedida a posse para a República Tcheca (VAR, cadê você?). E, para piorar, saiu o gol imediatamente após a cobrança: aos quatro minutos, Jens Stryger Larsen fez o levantamento a partir do lado direito, os grandalhões da defesa se deslocaram em direção ao gol, mas a bola chegou mesmo foi no volante Thomas Joseph Delaney, que, gozando liberdade pouco a frente da marca do pênalti, cabeceou bem à vontade para mandar no canto direito. Um a zero para a Dinamarca, com Delaney se tornando o sétimo jogador dinamarquês a marcar gol nessa Euro.

Thomas Delaney comemora: a Dinamarca abria o placar aos quatro minutos de partida em Baku. Foto: DBU FodBold / Divulgação

 

República Tcheca equilibra as ações e jogo fica lá e cá

A primeira chegada mais interessante da República Tcheca se deu pelos pés daquele que vem se mostrando um dos jogadores mais efetivos na Eurocopa - não toca tanto na bola, mas quando o faz, esbanja qualidade tanto no passe quanto na finalização. Sim, estamos falando de Patrik Schick: aos onze minutos, ele recebeu a bola pela direita, fintou Joakim Mæhle do jeito que quis e chutou firme, mas foi bloqueado.

No minuto seguinte, aos doze, Pierre-Emile Højbjerg deu belo lançamento para Mikel Damsgaard, que na finalização conseguiu com um toque sutil tirar do goleiro Tomáš Vaclík. Só que o toque foi sutil demais, e permitiu que outro Tomáš - o zagueiro Kalas - chegasse para evitar o segundo gol dinamarquês.

O jogo era agitado e, mais um minuto passado, mais uma oportunidade: aos treze, após bola levantada e posteriormente ajeitada de cabeça, Petr Ševčík pegou de primeira, mas mandou longe.

Aos dezesseis, foi a vez da Dinamarca: Jens Stryger cruzou da direita e Delaney apareceu para finalizar. Os mesmos envolvidos no lance do gol. Só que, dessa vez, o camisa oito pegou mal na bola, mandando à esquerda.

Quando afirmamos que o jogo era lá e cá, era literalmente lá e cá: aos vinte e um, após o goleiro Kasper Schmeichel errar em lance de saída de bola, Lukáš Masopust foi acionado na esquerda e mandou para Tomáš Holeš na pequena área - Schmeichel, ligado no lance, fez o bloqueio.

Na marca de vinte e seis, Martin Braithwaite tinha a bola pela direita, avançou, levantou a cabeça procurando algum companheiro na área e percebeu que a melhor alternativa era chutar ao gol. Só que o remate foi à esquerda. 

Aos trinta e três, nova chegada dinamarquesa: em contra-ataque, Braithwaite dessa vez apareceu em velocidade pelo lado esquerdo, a bola chegou em Kasper Dolberg na direita, que tentou entregar para Stryger, mas Vaclík pegou.

No minuto seguinte, resposta tcheca: Vladimir Coufal cruzou da direita, Holeš chutou de primeira e Schmeichel encaixou.

Com trinta e seis minutos, Jannik Vestergaard enfiou na direita para Damsgaard, que entrou na área e chutou firme à meia altura, com Vaclík conseguindo rebater.

Lindo cruzamento dá origem ao segundo gol dinamarquês 

Procurando variar as jogadas ofensivas e causando uma canseira na marcação tcheca, a Dinamarca dessa vez avançou com o apoio de Mæhle, que vinha tendo bastante trabalho com as subidas de Coufal pelo seu setor. E Mæhle, um destro que atua pela esquerda, mostrou a melhor versão da sua perna direita as descolar cruzamento espetacular de três dedos aos quarenta e um minutos - a bola passou por Braithwaite e por Kalas, chegando até Dolberg, que completou de primeira para a rede. Dois a zero no placar.

República Tcheca volta diferente - nas peças e na atitude

Jaroslav Šilhavý aproveitou o intervalo para chacoalhar a equipe tcheca, que voltou do vestiário com o atacante Michael Krmenčík no lugar de Masopust e com o meio-campista canhoto Jakub Jankto no lugar de Holeš. Mais do que as boas entradas desses jogadores, a República Tcheca se mostrou determinada a pressionar a Dinamarca no último terço do campo.

Logo com vinte e cinco segundos, Krmenčík já participou ativamente, dando chute forte de fora da área que Schmeichel rebateu. Com 1,91m de altura, careca e esbanjando força física, Krmenčík me lembrou o também atacante tcheco Jan Koller - que, no alto de seus 2,02m, defendeu a seleção entre os anos de 1999 e 2009, formando uma dupla de ataque bem-sucedida com Milan Baroš.

Com um minuto, Antonín Barák quase marcou um belo gol: ele emendou de fora da área pegando na bola de primeira, chutando pro chão, com Schmeichel saltando para espalmar no canto direito.

Só dava República Tcheca: aos dois minutos, Krmenčík levantou a bola e Schick deu de bicicleta, com a bola batendo em Simon Kjær e Schmeichel recolhendo.

Aos três minutos, o goleador da Eurocopa 2020 diminui para os tchecos 

E a pressão tcheca deu resultado: Coufal cruzou da direita e Schick, de primeira, se aproveitou do atraso de Vestergaard para mandar no canto direito, com a precisão que lhe é característica. Era o quinto gol do camisa dez tcheco nessa Euro, igualando-se ao português Cristiano Ronaldo no topo da lista de goleadores nessa edição.

Dinamarca se reorganiza e cria chances

Se alguém achou que a pressão tcheca se estenderia até que saísse o gol de empate, o que ocorreu foi que a seleção dinamarquesa começou a assimilar a nova postura do adversário, reequilibrando a partida. 

Na marca de dez minutos, Coufal foi providencial ao mergulhar para tirar de peixinho uma bola enfiada às suas costas.

Aos treze minutos, Kasper Hjulmand promoveu suas primeiras substituições no jogo: Yussuf Yurari Poulsen no lugar de Dolberg e Christian Thers Nørgaard no lugar de Damsgaard. As mexidas fizeram bem à Dinamarca, principalmente pela participação de Poulsen, bastante ativo no campo de ataque e também contribuindo na defesa.

Aos quinze minutos, Yussuf Poulsen puxou contra-ataque pela esquerda escapando de Coufal, Braithwaite errou o passe, a bola voltou em Poulsen e o camisa vinte preparou o remate - Tomáš Souček foi preciso na intervenção e travou Poulsen no exato momento da finalização. Infelizmente, na continuação do movimento do chute, sobrou trava da chuteira de Poulsen na cabeça de Souček, cortando a orelha do tcheco.

Souček continuou o jogo com um amarrado na cabeça visando conter o sangramento. O aparato não se mostrou dos mais eficazes com o sangue escorrendo pela nuca e manchando a camisa do jogador.

Aos vinte, Šilhavý fez a terceira troca, dessa vez de menor impacto na estrutura do time: saiu o defensor Ondřej Čelůstka e entrou o também defensor Jakub Brabec.

Aos vinte e três, Poulsen arrancou pelo centro e chutou no canto direito, para defesa de Vaclík.

Aos vinte e cinco, quem tratou de fazer substituição foi Hjulmand, mais precisamente na lateral direita, trocando Stryger Larsen por Daniel Wass.

República Tcheca retoma ímpeto ofensivo, Dinamarca contra-ataca e joga fica muito interessante

Aos vinte e seis minutos, após levantamento da direita, Wass não conseguiu afastar, Jankto chutou cruzado do lado esquerdo e Kjær cortou.

Dois minutos depois, Barák cobrou falta pela direita e a bola tinha o endereço do "enfaixado" Souček, só que Schmeichel cortou antes e impediu o que seria o iminente gol de empate tcheco.

Aos trinta e dois, uma ótima chegada dinamarquesa: Braithwaite deixou a bola com Wass, que rolou para Poulsen, que chutou e viu Vaclík buscar a finalização com linda defesa no canto esquerdo.

Na marca de trinta e seis, mais Dinamarca no ataque: Christian Nørgaard passou para Poulsen, que entregou de primeira para Mæhle pelo lado esquerdo de ataque. Destro, o camisa cinco arrumou o corpo buscando o canto direito do goleiro - Vaclík defendeu o chute rasteiro com a perna.

Cansaço bate forte dos dois lados e República Tcheca tem uma última oportunidade

Com ambas as seleções já tendo feito as cinco substituições que tinham direito, os últimos minutos foram arrastados pela combinação de pelo menos dois motivos: os times desfigurados pelo acúmulo de alterações e, talvez principalmente, o cansaço de um jogo bastante movimentado.

Aos cinquenta minutos houve, porém, uma chance de empate. A chance derradeira: após levantamento da direita, Kjær afastou parcialmente e Souček pegou a sobra de primeira, chutando à direita.

O apito final do árbitro holandês Björn Kuipers sacramentou a classificação da Dinamarca no estádio olímpico de Baku. Se pensarmos que, em vinte e cinco confrontos anteriores entre as duas seleções, foram somente duas vitórias da Dinamarca (a República Tcheca venceu treze vezes e houve dez empates), o triunfo dinamarquês ganhou ainda mais contornos de feito histórico. 

Dinamarqueses comemoram após o apito final: com a vitória por dois a um sobre a República Tcheca, a seleção campeã continental em 1992 avança para a semifinal vinte e nove anos depois. Imagem extraída de Yahoo! Esportes.

sábado, 3 de julho de 2021

Itália E Bélgica Fazem Grande Jogo E Azzurra Avança À Fase Semifinal

No encontro entre duas seleções invictas no torneio, tivemos um ótimo jogo de futebol em Munique. Uma partida dinâmica, de muita movimentação, explícita objetividade na transição ao ataque e notória capacidade técnica tanto no trato com a bola quanto na realização da marcação.

Há muito o que se aprender com essas duas seleções. Tanto Bélgica quanto Itália mostraram força ofensiva sem dar indícios de qualquer sinal de fraqueza em seus sistemas defensivos. Se cometaram erros? Sim, cometeram. Alguns deles, inclusive, foram "punidos" com gol. Mas, em se tratando da estrutura de jogo e da proposição tática, temos aí duas fortes seleções a levarmos em conta rumo à Copa do Mundo 2022.

Nesse dois de julho de dois mil e vinte um, vitória italiana. E vitória do futebol. É sempre um prazer assistir jogos como esse.

Logo aos doze minutos, a rede balançaria e os italianos comemorariam: Lorenzo Insigne cobrou falta pela direita, e ambos os zagueiros italianos participaram do lance. Primeiro, Giorgio Chiellini com desvio sutil. Por último, Leonardo Bonucci, mandando pro gol. Só que a comemoração foi frustrada pela revisão tecnológica, que identificou impedimento na posição de Chiellini.

Esse gigante zagueiro de sobrenome Chiellini, que esteve ausente nos jogos anteriores após lesão ainda na primeira fase, voltou e voltou da forma que o conhecemos. Implacável na marcação e acreditando em todos os lances. Foi assim que, aos dezesseis minutos, Kevin De Bruyne viu seu chute forte ser bloqueado num cabeceio de Chiellini. Sim, Chiellini tratou de colocar a cabeça na rota de uma bola chutada com força por De Bruyne, evitando o que poderia ser o primeiro gol do jogo. Na sequência do lance, tanto o italiano quando o belga riram entre si, provavelmente admirando mutuamente o ato de coragem na interceptação. Felizmente, tudo bem com Chiellini.

O jogo era disputado arduamente no setor de meio de campo. Ambos os conjuntos procuravam espaços e tinham, sem a bola, o zelo de intensificar o confronto na zona da bola. Dois cartões amarelos em um intervalo de um minuto ilustraram a relevância da disputa na meiuca. Primeiro, Marco Verratti parou contra-ataque puxado por Youri Tielemans com falta intencional. O árbitro esloveno, Slavko Vinčić, corretamente aplicou o primeiro cartão no jogo. Praticamente na sequência, a reciprocidade: dessa vez, Tielemans cometeu a infração sobre Verratti, recebendo a mesma punição do árbitro.

Aos vinte e um minutos, uma grande arrancada em contra-ataque de De Bruyne tornou o outrora povoado meio-campo em uma avenida de trânsito livre para a Bélgica. E o próprio camisa sete tratou de finalizar, chutando firme no canto direito e com Gianluigi Donnarumma fazendo bonita defesa.

Na marca de vinte e cinco, novamente um contra-ataque para os belgas e novamente ele, De Bruyne, conduziu o time ao ataque: ele arrancou em velocidade e abriu na direita para Romelu Lukaku, que chutou cruzado e viu Donnarumma buscar no canto direito com uma ótima intervenção.

Após essas duas grandes chances de a Bélgica inaugurar o placar, a Itália reagiu. Aos vinte e cinco, Federico Chiesa foi acionado pela esquerda, chutou, a bola desviou em Toby Alderwireld e foi segura por Thibaut Courtois. No minuto seguinte, Insigne tentou de fora da área e a bola viajou perto do ângulo esquerdo. Na marca de trinta, o gol: em erro de saída de bola belga com Jan Vertonghen, Verratti recuperou a bola no ataque e passou para Nicolo Barella, que chutou cruzado no canto esquerdo. Um a zero Itália em Munique.

Nicolo Barella é festejado: a Itália abre o placar diante da Bélgica. Imagem extraída de El Litoral.

 

Se o primeiro tempo terminasse naquele momento, já teria sido ótimo pela qualidade do que foi apresentado. Mas havia mais guardado para ainda antes do intervalo. Aos trinta e nove, após escanteio pela direita, Chiesa pegou a sobra e mandou à esquerda. Aos quarenta e três, saiu o segundo gol italiano. Aliás, um golaço: Insigne carregou pela esquerda, trouxe para dentro driblando Tielemans e chutou bonito, no melhor estilo que o importalizou com a camisa do Napoli, mandando no canto esquerdo de um Courtois que saltou, esticou o corpo de cento e noventa e nove centímetros de estatura, ergues os braços em direção à bola, mas não alcançou. O destino do remate de Insigne era a rede. Dois a zero.

Desfalcada de um de seus principais jogadores - Eden Hazard não foi sequer listado para o banco de reservas -  e com desvantagem de dois gols, a Bélgica não tinha tempo para lamentações. E, numa jogada individual pelo lado esquerdo, o hábil Jeremy Doku foi derrubado dentro da área por Giovanni Di Lorenzo. Pênalti que Lukaku cobrou no meio, com Donnarumma se deslocando para a direita. Era o quinto gol do atacante da Internazionale em cinco jogos diante do goleiro do Milan. A provocação era bônus.

Se o primeiro tempo foi ótimo, o segundo também não decepcionou. Com um minuto, Verratti tinha a bola pelo lado esquerdo e rolou para Chiesa, que chutou à esquerda. Aos seis, Barella avançou e abriu na direita com Chiesa, que cruzou rasteiro com força demais e Ciro Immobile não conseguiu alcançar.

Não é trivial substituir Eden Hazard nos onze iniciais. Na primeira fase, vimos o técnico Roberto Martínez optar por Yannick Ferreira Carrasco, que até teve algumas participações interessantes. Mas se teve uma agradável surpresa nesse Bélgica e Itália foi a escolha de Martínez por Jeremy Doku. Um jovem de dezenove anos de idade, preferencialmente destro e que atua com extrema desenvoltura pelo flanco esquerdo. Tinha sofrido o pênalti convertido por Lukaku no final do primeiro tempo, mas tinha mais a oferecer.

Aos dez minutos, Doku driblou a marcação pela esquerda, foi à linha de fundo e cruzou rasteiro, com Donnarumma abafando em dois tempos e impedindo a saída da bola em escanteio. Na marca de quinze, em rápido de contra-ataque, Doku avançou nas costas de Di Lorenzo e passou para De Bruyne na jogada de ultrapassagem. De Bruyne conseguiu descolar passe para Lukaku que, sem goleiro, completou para o gol. Só que havia um Leonardo Spinazzola no meio do caminho, salvando a pátria italiana.

A Itália via a Bélgica crescer na proporção em que Doku era acionado. Àquela altura, já não se viam jogadas de infiltração no time de Roberto Mancini. Mas os italianos possuem outros recursos. Aos vinte e três, de fora da área, Insigne deu outro belo chute, dessa vez espalmado por Courtois no canto esquerdo.

Martínez trocou Tielemans por Dries Mertens aos vinte e três. E já no minuto seguinte, o meio-campista companheiro de Insigne no Napoli participou de ótima chegada belga: Mertens arrancou, rolou na esquerda para Nacer Chadli (que também acabara de entrar, substituindo Thomas Meunier), Chadli cruzou, a bola foi desviada e por pouco não foi alcançada por Lukaku nem por Thorgan Hazard, com Donnarumma já fora do lance.

Para infelicidade de Chadli, uma lesão não permitiu que ele ficasse mais do que cinco minuto no campo, forçando Martínez a substituí-lo. O técnico optou por Dennis Praet, mesmo tendo Carrasco, Batshuayi e Benteke à disposição.

Com uma Itália totalmente dedicada a se defender, a Bélgica via poucas alternativas para penetração na defesa adversária. Mancini já tinha trocado Verratti por Cristante, Immobile por Belotti e Insigne por Berardi, incrivelmente mexendo em três peças entre meio e ataque sem trazer para jogo Manuel Locatelli, que faz ótima Eurocopa. São coisas assim que dificultam eu criar qualquer admiração por esse treinador, mesmo quando monta equipes funcionais e interessantes como essa italiana. Simplesmente escapa da minha compreensão. Aos trinta e quatro, por motivo de força maior, precisou tirar Spinazzola por motivo de lesão (infelizmente, as notícias posteriores foram de ruptura no tendão de Aquiles daquele que foi possivelmente o melhor lateral esquerdo nessa edição da Euro). Se Roberto Mancini finalmente trouxe Locatelli? Que nada: escolheu Emerson Palmieri.

Aos trinta e oito minutos, a Bélgica apelou para aquele que era o mais insinuante de seus jogadores: Doku. O camisa vinte e cinco recebeu no flanco esquerdo, foi enfileirando marcadores enquanto trazia a bola pro centro e descolou chute forte, que passou perto do travessão.

O pavor da Azzurra com Doku se traduziu na última substituição de Mancini: saiu Chiesa para a entrada de Rafael Tolói. Com os três ítalo-brasileiros em campo e um time praticamente inteiro concentrado na defesa, a Itália já não mais atacava e tinha como dedicação exclusiva fazer o relógio correr mais do que o Doku. Para se ter uma ideia de a que ponto isso chegou, aos quarenta e sete minutos o goleiro Donnarumma ficou aproximadamente dezessete segundos com a bola na mão. Acho que não fui avisado sobre a supressão da "regra dos seis segundos"...

Com o apito final, a Itália avança para a semifinal, quando enfrentará a Espanha. 

A Bélgica, por sua vez, retorna para casa. Foi uma bela campanha, certamente prejudicada pela lesão de Eden Hazard e pela limitação física do valente e dedicado De Bruyne. Mas há uma ótima notícia para os belgas: Jeremy Doku. Olho nesse jovem. Provavelmente será a maior oxigenação dessa geração que já encanta e que, agora, passa a ter um novo elemento para chamar de seu.

Com muita velocidade e habilidade, Jeremy Doku foi um dos destaques na partida. Foto: Reuters.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Yann Sommer Brilha No Jogo E Unai Simón Se Consagra Nos Pênaltis: Espanha Joga Muito E Elimina Suíça

Precisará ser muito criativa a pessoa que quiser criticar a seleção espanhola. Já li e ouvi comentários insanos sobre a Espanha desde a primeira rodada nessa Eurocopa, quando a seleção comandada por Luís Enrique empatou em zero a zero com a Suécia, num jogo de domínio flagrante espanhol pela quase totalidade do jogo. Depois do novo empate - dessa vez por um a um com a Polônia -, mais críticas pesadas ao "rendimento" da seleção. Coloquei "rendimento" entre aspas porque o que essa gente analisa não é o "rendimento", mas o resultado. Teve jornalista esportivo (?) que chegou a declarar que 'a Espanha tem nojo de fazer gol'. Após essa frase totalmente fora da realidade, tivemos uma sapecada de cinco a zero sobre a Eslováquia e um cinco a três sobre a Croácia. Resultado: o ataque mais efetivo na Eurocopa 2020 é o espanhol. Aí passaram a elogiar a Espanha. Como se a Espanha tivesse mudado muito dos dois empates para as duas vitórias. Não, não mudou. Ela permanece soberana na posse de bola. Insinuante no último terço. Com fome - e não nojo - de gol. O que mudou foi, meramente, o resultado.

Mas, não vim aqui para falar de resultado. Vim aqui para analisar o jogo de hoje, pela fase quartas de final, em que a Espanha enfrentou a Suíça na bela cidade russa de São Petersburgo. Foi um jogo em que a Espanha abriu a contagem cedo: já aos sete minutos, após cobrança de escanteio pelo lado direito de ataque, a bola viajou ao encontro de Jordi Alba, que pegou de primeira e contou com desvio em Denis Zakaria para que a bola entrasse no canto direito.

O gol, como era de se esperar, não mudou a forma da Espanha jogar. Porque a Espanha não atua em função de um resultado - ela é movida por uma filosofia de jogo que consiste, fundamentalmente, em atacar a bola e, a partir de seu domínio físico, exercer o domínio territorial que permita atacar o adversário.

Aos dezesseis, Koke cobrou falta perto da quina da área e colocou pouco acima do travessão. Nada de gol de falta nessa Euro até o momento. Aos vinte e quatro, Ferran Torres cruzou da direita e Nico Elvedi cortou antes que a bola pudesse chegar até Álvaro Morata. No Escanteio daí originado, César Azpilicueta deslocou Manuel Akanji com um empurrão e cabeceou, com o goleiro Yann Sommer pegando no alto. Para não dizer que somente a Espanha finalizava, a Suíça teve um escanteio pela direita que Silvan Widmer cabeceou para fora.

Há um detalhe interessante a ser levado em conta: a Espanha, que até aquele momento era a terceira seleção que mais finalizou na Euro 2020, enfrentava uma equipe que era a quarta nesse mesmo quesito. Então, passar o primeiro tempo inteiro sem praticamente ser ameaçada por um conjunto que fez três gols na seleção francesa não é algo meramente trivial. Claro que a capacidade criativa suíça foi abalada pela ausência de Granit Xhaka. A suspensão do meio-campista pelo segundo cartão amarelo no torneio foi um duro golpe no equilíbrio de um time acostumado a ter Xhaka atuando. Para se ter uma ideia, o capitão que veste a camisa dez havia jogado todas as vinte e oito partidas da Suíça desde o término da Copa do Mundo 2018, disputada ali mesmo, na Rússia. Havia ficado de fora de somente dois jogos nos últimos sessenta e um compromissos na Suíça. Então, sua ausência é, de fato, impactante. Mas nada é mais impactante do que a imposição espanhola em deter a posse de bola.

A Espanha voltou do intervalo com Daniel Olmo no lugar de Pablo Sarabia, que havia ainda no primeiro tempo reclamado de uma situação física. Dani Olmo já mostraria serviço com um minuto, só que o chute que parou em defesa de Sommer já estava irregular devido à posição anterior de Morata.

Aos quatro, sem impedimento, Olmo tinha a bola pela esquerda, entortou a marcação e cruzou à meia altura, com Koke cabeceando por cima.

A Suíça tentava ser mais presente no ataque, mas entre ter a bola e criar uma chance de finalizar ia uma longa jornada. Aos seis minutos, Xherdan Shaqiri resolveu literalmente tentar sozinho, cobrando escanteio pela direita de forma a surpreender todo mundo numa tentativa de gol olímpico. A cobrança até foi interessante, mas se direcionou à rede externa. Na marca de dez minutos, novo escanteio para os suíços, dessa vez pelo lado direito: após o levantamento na área, Zakaria cabeceou cruzado e a bola passou perto da trave direita. A Espanha respondeu aos treze, em lance também de bola parada: Sergio Busquets cobrou falta pela direita levantando na área, Ferran Torres ajeitou no peito e chutou uma bola que bateu nas costas de Haris Seferović. Reparou como essa foi a primeira vez que apareceu digitado nessa publicação o nome do maior goleador suíço? Isso dá a dimensão do quanto a Espanha era dominante: o camisa nove, que faz ótima Eurocopa, aparecia mais para ajudar a defesa do que efetivamente para concluir alguma jogada de ataque.

Aos dezoito minutos aconteceu aquela que talvez tenha sido a primeira oportunidade suíça com bola rolando: Ruben Vargas, que havia entrado no lugar de Breel-Donald Embolo ainda no primeiro tempo, carregou pelo lado esquerdo e acionou Steven Zuber com passe entre as pernas de Azpilicueta, que chutou para defesa de Unai Simón no canto direito.

Vladimir Petković tinha planos de mexer na equipe, com Kevin Mbabu e Mario Gavranović se preparando para entrar. Só que, para felicidade do técnico bósnio, um lance aos vinte e dois minutos o fez desistir das substituições naquele momento: após descuido de Pau Torres e Aymeric Laporte, Remo Freuler recuperou a bola em plena área espanhola e tocou para Shaqiri, que mandou um chute devagarzinho, cruzado, tocando na trave direita antes de entrar caprichosamente. Tudo igual no placar em São Petersburgo.

A Espanha, que é movida muito mais por um ideal do que pelas circunstâncias, manteve seu estilo. Aos trinta, em jogada pela esquerda, Olmo recebeu na área e chutou travado por Widmer. No minuto seguinte, um carrinho duro de Freuler em Gerard Moreno (que entrara no lugar de Morata) acabou sendo um duro golpe para a Suíça: o árbitro inglês Michael Oliver não pestanejou e aplicou o cartão vermelho ao agressor.

Se jogar com a Espanha já é difícil em igualdade numérica de jogadores, imagina com o déficit de um homem. Aos trinta e oito minutos, Moreno recebeu perto da área e tratou de chutar de primeira, com a perna esquerda - Sommer defendeu no meio do gol. Dois minutos antes desse lance, Gavranović finalmente entrou em campo, substituindo Seferović. Nos últimos minutos do tempo regulamentar, a Suíça mexeu mais uma vez (Zuber por Christian Fassnacht) e a Espanha outras duas (Ferran Torres por Mikel Oyarzabal e Koke por Marcos Llorente).

A partida foi para a prorrogação e o que se viu nela, principalmente no primeiro tempo, foi uma pressão espanhola daquelas dignas de entrar na galeria das maiores imposições táticas na história das prorrogações em grandes competições. 

Com um minuto, Alba recebeu na esquerda e cruzou para Moreno, que pegou de primeira (só que de canela) e mandou à direita. Aos cinco, Alba chutou forte e Sommer, bem posicionado, esticou o braço para defender no alto. No minuto seguinte, aos seis, Olmo recebeu de Pedri e chutou, mas a bola desviou em Moreno e passou à direita.

A Espanha era intensa e não dava sossego aos suíços, tornando Sommer o protagonista da partida. Aos dez minutos, após bola lançada, Oyarzabal cabeceou, Ricardo Rodríguez cortou parcialmente e Moreno, cara a cara com Sommer, chutou para grande defesa do goleiro. 

Na marca de doze minutos, Oyarzabal recebeu pela direita, chutou cruzado e Sommer espalmou bonito no canto direito. Com quinze, novamente Oyarzabal, novamente pelo lado direito e, adivinhe só, novamente defesa de Sommer - dessa vez encaixando o chute do espanhol.

Não tinha jeito, o destino era o desempate nas penalidades máximas.

A primeira cobrança coube ao capitão espanhol Busquets, que acertou a trave direita quando Sommer saltou para a esquerda. 

Logo na sequência, Gavranović cobrou de forma parecida à sua própria cobrança diante da França: no alto (dessa vez não tão no alto), e no canto direito. Simón foi para a esquerda. Suíça um a zero.

Talvez os corneteiros estivessem preparando o texto para criticar a Espanha pela eliminação nas quartas. Só que não foi dessa vez, caros trombeteiros do apocalipse e comentaristas de resultado. Se nas oitavas a Suíça acertou todas as cobranças diante da França, dessa vez o cenário seria bastante diferente. 

Dani Olmo cobrou o segundo pênalti espanhol e marcou, mandando firme no canto direito, com Sommer acertando o lado mas sem conseguir alcançar o ótimo chute. Um a um.

Fabian Schär, que havia entrado durante a prorrogação, tinha sido bem-sucedido na penalidade diante da França, quando cobrou no canto esquerdo de Lloris. Dessa vez, escolheu o lado direito. E parou em defesa de Unai Simón.

A Espanha podia ficar pela primeira vez na frente quando Rodri, que substituiu Pedri nos últimos minutos na prorrogação, era o próximo a bater. Sommer apontou para o canto direito, desafiando o espanhol. E Rodri optou pelo lado esquerdo, mordendo a isca do jogo psicológico do goleiro, que fez a defesa do chute à meia altura.

Mas, após esse momento, tudo viria a dar certo para a Espanha. Primeiro, Unai catou no canto direito a cobrança rasteira de Akanji, numa batida na bola muito parecida à que Akanji realizou nas oitavas, naquela oportunidade com sucesso. Depois, Moreno, que havia jogado na trave direita diante da Polônia, dessa vez escolheu o canto esquerdo e estufou a rede, com Sommer acertando o lado mas não conseguindo alcançar. Na sequência, Vargas chutou por cima do travessão. Coube a Oyarzabal a chance de colocar a Espanha nas quartas - com os olhos vidrados na bola, ele mandou rasteiro no canto esquerdo e foi para a comemoração.

Unai Simón defende a cobrança de Manuel Akanji: nos pênaltis, a Espanha superou a Suíça nas quartas de final na Eurocopa 2020. Imagem extraída de Impala.

 

A Espanha avança às semifinais e não há qualquer razão para duvidar de sua capacidade de conquistar a Eurocopa mais uma vez, podendo ser o tricampeonato num intervalo de quatro edições.

Já a Suíça, que foi gigante diante da França e, com um jogador a menos, resistiu como pôde diante da Espanha, tem muitos motivos para acreditar na possibilidade de fazer ótimas Eliminatórias Europeias visando a classificação para a próxima Copa do Mundo.