sexta-feira, 15 de junho de 2018

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo H

Após analisar sete chaves da Copa 2018 (leia o que colocamos sobre os grupos A, B, C, D, E, F e G), chegou a vez de nos debruçarmos sobre o oitavo e último grupo, o H.

Nesta chave, a expectativa é que o equilíbrio seja a tônica da disputa. Há quatro continentes representados e, se não houver grandes surpresas, a última rodada tem tudo para ser agitada e emocionante.

Grupo G: Polônia, Senegal, Colômbia e Japão.

Polônia

Com nove gols marcados nos últimos três amistosos (quatro deles anotados por Lewandowski), a Polônia chega ao Mundial na Rússia com o que é possivelmente a sua melhor seleção neste século.

Polônia: 8ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Szczęsny e Fabiański somaram experiência após a saída do Arsenal e hoje são dois goleiros mais confiáveis. Na defesa, Piszczek, referência no Borussia Dortmund, é o jogador mais conhecido. A meiuca conta com atletas como Błaszczykowski, Krychowiak, Kurzawa e Zieliński. E a cereja no bolo está nas opções de ataque à disposição de Adam Nawałka: Lewandowski, que dispensa apresentações, Grosicki e Milik.

Na campanha nas Eliminatórias Européias, a única derrota em dez partidas se deu em Copenhaguen, num 4a0 para a Dinamarca. Jogando em casa, venceu todos os jogos, marcando uma média de três gols por partida. Dezesseis do total de vinte e oito gols foram de autoria do maior goleador da qualificatória do Velho Continente: Lewandowski. Em território armênio, o time polonês foi num 4-2-3-1 onde Lewandowski ficou como referência no ataque e saiu de campo com três gols marcados na goleada por 6a1.

O tamanho da ambição polonesa nessa Copa do Mundo não está muito claro. Mas há, ali, um time que tem o direito e o dever de sonhar. Ainda mais com um centroavante que, só do zagueiro oponente pensar em enfrentar, já deve estar a meio caminho de um pesadelo.

Senegal

Senegal: 27ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Líder invicto na complicada chave com Burkina Fasso, Cabo Verde e África do Sul, o Senegal chega à sua segunda participação em Mundiais. Na sua primeira, em 2002, uma exibição sensacional, desde a estréia surpreendendo a então atual campeã França até a eliminação com gol de ouro nas quartas diante da Turquia. Daquele time, continua apenas Cissé: o capitão virou treinador. E terá a missão de comandar uma equipe com alguns bons valores individuais, destacando-se o defensor Koulibaly, do Napoli, e o atacante Sadio Mané, do Liverpool.

Após o término das Eliminatórias Africanas, a equipe acumulou quatro amistosos em seqüência sem vitória, incluindo compromissos diante de seleções de menor expressão no cenário internacional, como Uzbequistão (1a1) e Luxemburgo (0a0). Mas o último jogo antes da estréia na Copa pode ter trazido um novo ânimo ao senegaleses: a vitória por 2a0 sobre a Coréia do Sul é daqueles resultados que possuem um efeito moral de retomada de confiança, algo imensurável nas proximidades de um torneio que gera tanta ansiedade.

Se Cissé conseguir obter o máximo de Mané, Senegal automaticamente sobe um nível. E se alguém duvida alguma coisa de uma nação que ajudou a eliminar uma campeã mundial na fase de grupos, é bom rever seus conceitos. São outros jogadores? Sim. Mas é o mesmo espírito e determinação de surpreender. Cissé há de saber passar isso ao elenco.

Colômbia

Colômbia: 16ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Embora tenha feito um ótimo Mundial em 2014 - com futebol muito bem jogado e destaque individual para James Rodríguez -, a Colômbia passou muitos sustos na trajetória rumo à Rússia-2018. Para se ter uma idéia, na última rodada das Eliminatórias Sul-Americanas, os comandados de José Pekerman poderiam ter ido parar na repescagem caso o Chile tivesse pontuado diante do Brasil, que já jogava com a ciência do primeiro lugar. E, se somado a isso não tivesse conseguido manter o empate com o Peru, estaria simplesmente fora até da repescagem.

Só que a Colômbia chegou à Rússia e trouxe na bagagem muitos jogadores de qualidade, treinados por um técnico o qual respeito bastante. Pekerman desenvolve uma filosofia ofensiva e conseguiu fazer diversas formações diferentes em que o time colombiano tomava a iniciativa das ações. Apesar desse mérito, há que se considerar que a equipe parece ter uma certa dependência de James, algo que pode atrapalhar o rendimento coletivo em ocasiões onde o camisa 10 esteja mais marcado ou menos inspirado.

De toda forma, Pekerman tem à sua disposição um time ainda mais entrosado e que conta com muitos outros atletas capazes de decidir um jogo em lance individual, como Cuadrado, Bacca e Falcao.

Japão

Japão: 61ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Com uma seleção experiente - mais de um terço do elenco é de jogadores com mais de trinta anos de idade -, o Japão chega à Rússia após uma campanha de melhor ataque e melhor defesa em sua chave nas Eliminatórias, alcançando o primeiro lugar e deixando para trás Arábia Saudita, Austrália, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Tailândia.

O meio-campo possui jogadores de qualidade, como Hasebe, Honda e Kagawa. Na goleada sobre o Paraguai por 4a2, somente Kagawa atuou, marcando o último gol no amistoso realizado esta semana, além de ter dados as assistências nos dois primeiros gols da equipe.

Se por um lado Haraguchi foi o goleador da equipe nas Eliminatórias (quatro gols), por outro, não é garantido que ele seja escolhido, pois a concorrência com o veterano Okazaki é forte. O que parece mais garantido é que, na cabeça de Akira Nishino - no cargo de treinador da seleção desde abril -, ou joga um, ou joga outro: a equipe vem se desenhando numa formação com três meias abastecendo um homem de referência.

O Japão, por ter no futebol brasileiro uma inspiração, é uma seleção que me desperta particular curiosidade em ver jogar. Não que eu reserve grandes expectativas de ver os japoneses avançando na Copa do Mundo 2018. Mas adoraria vê-los desenvolvendo um jogo de ataque, naquele estilo que consagrou a seleção brasileira e que, infelizmente, se tornou mais objeto de memória do que de modelo programático para montar os times da CBF. Talvez o Japão possa nos representar. Vamos acompanhar.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Arábia Moscou? Rússia Passeou!

O campo do estádio Luzhniki não é um terreno agrícola, mas a Rússia passou um trator no gramado. Não estávamos no meio do mar, mas a Arábia Saudita ficou a ver navios em plena Moscou. Senhoras e senhores, a Copa do Mundo 2018 começou com uma goleada de cinco a zero da seleção anfitriã. Quase - eu disse quase - arrancou um sorriso do Vladimir Putin.

Já no décimo segundo minuto de partida, Yury Gazinskiy abriu a contagem após cruzamento certeiro de Aleksandr Golovin.
Gazinskiy salta em comemoração ao primeiro gol na Copa do Mundo 2018. Foto: Carl Recine (Reuters)
 
Só que a alegria deu lugar à preocupação cerca de doze minutos depois: em contra-ataque ligeiro, Alan Dzagoev, um dos maiores astros da seleção russa, sentiu algum desconforto grande o suficiente para impedi-lo de continuar correndo. Deixou o campo e deu lugar a Denis Cheryshev.

Atuando pelo flanco esquerdo, Cheryshev era bastante acionado. Em duas oportunidades, chegou a estar em boas condições na grande área árabe, mas faltou um pouco de sorte e/ou qualidade para encaminhar melhor os lances. Só que, ainda antes do intervalo, quando este blogueiro estava pronto para cornetar o atleta, Cheryshev marcou o segundo gol dos donos da casa.

Veio o segundo tempo. A Arábia Saudita, apática, não conseguia propôr rumos diferentes a uma partida com o feitio de triunfo russo. Golovin, um dos destaques no jogo, ampliou seu repertório de ótimos cruzamentos e dessa vez serviu Artem Dzyuba (que acabara de entrar em campo). Dzyuba anotava aos vinte e cinco no segundo tempo seu nono gol nos últimos treze jogos com a seleção.

E pra quem acha que três é pouco, vieram mais dois gols nos acréscimos. Primeiro, Dzyuba serviu Cheryshev, que anotou um golaço em chute de trivela. Depois, em cobrança de falta digna de chamarmos de "perfeita", Golovin, que havia anotado duas assistências, colocou ele próprio a bola na rede. Não deve ser por acaso que seu sobrenome é Gol-ovin (o hífen é por minha conta).

Se a Rússia está classificada? Por mais que um 5a0 seja contundente - ainda mais numa atuação bastante equilibrada e imponente -, ainda considero Egito e Uruguai como as maiores forças na chave A. Só que a vitória dilatada na estréia pode motivar os russos a acreditar mais em si, a vislumbrar de maneira menos utópica e mais pragmática um avanço às oitavas. E isso deve aumentar o rendimento da equipe diante de egípcios e uruguaios.

Quanto à Arábia... Essa daí tem que celebrar sua passagem pelo Mundial 2018 se conseguir pontuar. Mas celebrar muito. Tirando a lucidez do zagueiro e capitão Osama Hawsawi, há pouquíssimos destaques positivos na seleção de Juan Antonio Pizzi.

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo G

É chegada a hora de analisarmos o grupo G na Copa do Mundo 2018 (leia o que colocamos sobre os grupos A, B, C, D, E e F).

Nesta chave, os europeus são apontados como favoritos para a classificação. Mas como não existe vitória de véspera, é bom belgas e ingleses ficarem atentos, pois panamenhos e tunisianos tentarão surpreender.

Grupo G: Bélgica, Panamá, Tunísia e Inglaterra.

Bélgica

Após uma participação dentro do "programado" no Mundial 2014, quando foi eliminada para a Argentina na fase quartas-de-final, a Bélgica chega na Rússia com mais experiência e mais expectativas.

Bélgica: 3ª colocada no ranqueamento da FIFA.
É difícil cravar se o feito obtido no Brasil - o de figurar entre as oito melhores seleções do mundo - será superado ou mesmo alcançado na Copa 2018. Mas a responsabilidade existe. E, se existe, é porque o talento do time imprime confiança. Atuações como a diante dos Estados Unidos, nas oitavas em 2014, são inspiração para que vejamos belas performances dos comandados de Roberto Martínez, de preferência já a partir do jogo de estréia, diante do Panamá.

O último amistoso dos belgas antes desta Copa deu-se com a também centro-americana Costa Rica, com goleada por 4a1. A formação inicial contou com Witsel, De Bruyne, Mertens e Hazard no meio-campo, o que ajuda a dar a dimensão da qualidade técnica desse elenco - ainda entraram na partida jogadores como Chadli e Dembélé, tendo permanecido no banco atletas como Fellaini e Januzaj. É, definitivamente, um dos melhores setores de meio-campo do planeta. Como se não bastasse, Martínez conta com Courtois no gol, Alderweireld e Vertonghen na defesa, Lukaku e Batshuayi como opções no ataque (geralmente, o treinador escolhe um dos dois).

Torço para que as características desta geração sejam respeitadas. Desta forma, o maior beneficiado será o fã do futebol bem jogado, que poderá assistir, com o mesmo uniforme, alguns dos jogadores mais interessantes na atualidade. Talvez não cheguemos a sentir falta de Nainggolan, que, estranhamente, não foi convocado. Mas eu temo por já sentir falta de Wilmots, o técnico que conduziu o time para e no Brasil...


Panamá

Eis uma seleção que pode ser apontada como "zebra". Não que haja semelhança estética entre o
Panamá: 55ª colocada no ranqueamento da FIFA.
mamífero alvinegro e o uniforme tricolor panamenho. Mas é que está absolutamente fora das expectativas uma classificação dos comandados do colombiano Hernán Darío Gómez Jaramillo nessa Copa do Mundo. Só que tem os seguintes... Lembram da Copa do Mundo 2014? Lembram de uma outra seleção da América Central, chamada Costa Rica? Naquele grupo com as ex-campeãs mundiais Itália, Inglaterra e Uruguai, não lembro de ninguém ousar "classificar" a "zebra". Pois passou, líder e invicta. E treinada também por um colombiano, Jorge Pinto. Isso é o futebol.

É fato que os resultados recentes do Panamá não inspiram confiança. Há uma única vitória (sobre Trinidad e Tobago) nos últimos sete jogos oficiais. E também há que se lembrar que, nas Eliminatórias da CONCACAF, um gol que não aconteceu (acredite, um chute para fora foi validado como gol), ajudou a colocar a seleção panamenha no Mundial. O que vai acontecer na Rússia, não sabemos. Mas uma coisa é certa: se o Panamá passar de fase, será o caso de estudar o que os colombianos são capazes de fazer numa equipe centro-americana em chaves complicadas...

Tunísia

Tunísia: 21ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Desde a invencibilidade nas Eliminatórias numa chave com Congo, Líbia e Guiné até o recenteamistoso em solo russo diante da Espanha, a Tunísia chega ao Mundial com qualidades na defesa que não podem ser desprezadas. Particularmente, o que antes eu via como números (quatro gols cedidos em seis jogos naquela chave africana), hoje valorizo ainda mais após assistir - mesmo que por apenas alguns minutos - o desempenho da equipe diante dos espanhóis. A noção de compactar as linhas e atacar a zona de influência da bola parece estar absolutamente bem treinada por Nabil Maâloul. Não houve facilidade para a (poderosa) equipe adversária, que venceu por 1a0, com gol nos últimos minutos, em lance que foi muito mais exceção do que regra na tônica do jogo. Com um detalhe: ainda no primeiro tempo, houve chance clara dos tunisianos abrirem a contagem em trama bem desenvolvida.

Infelizmente, a Tunísia não contará com Taha Yassine Khenissi e Youssef Msakni, apontados como os dois principais nomes no ataque do país - Msakni foi autor de três gols e duas assistências na campanha nas Eliminatórias Africanas. Talvez a melhor receita para lidar com as ausências seja o fortalecimento do jogo coletivo. O que, defensivamente, já parece bem encaminhado. A missão de criar e converter oportunidades, mais complexa que a de marcar o adversário, deve ser o desafio tunisiano para buscar êxito no Mundial. A julgar pelo mais recente amistoso com os espanhóis, o equilíbrio tático para enfrentar um adversário mais forte já parece ter sido alcançado.

Inglaterra

Inglaterra: 12ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Após a decepção de ser eliminada na fase de grupos na Copa do Mundo 2014, a Inglaterra fez mais do que juntar os cacos: se comprometeu, publicamente, a rever conceitos e iniciar uma reformulação generalizada. Nas divisões de base, êxito notório com uma geração que está unindo bom futebol com bons resultados. Isso dá uma perspectiva positiva para mundiais futuros (2030, 2026 e, possivelmente, já em 2022). Mas o que esperar para Rússia-2018? A Inglaterra chega relativamente quieta ao maior país do planeta e a idéia de não fazer muito barulho talvez seja uma estratégia de surpreender em silêncio, longe das buzinas do (pseudo)favoritismo e no sossego dos treinamentos jogo a jogo, fase a fase.

Harry Kane vive grande momento e tem tudo para ser um dos goleadores na fase de grupos. As opções Welbeck, Sterling, Rashford e Vardy são interessantes para um ataque que será servido por um setor de meio-campo longe da criatividade dos tempos de Gerrard, Lampard e Beckham, o que torna ainda mais estranha a não-convocação de Wayne Rooney. As apostas de Gareth Southgate talvez estejam concentradas no ótimo entrosamento entre Bamidele Alli e Kane, parceiros de Tottenham há quatro temporadas.

Na defesa, Gary Cahill será a voz mais experiente - longe de exercer uma liderança como a do aposentado Terry, por exemplo. Kyle Walker, que passou a ser treinado por Guardiola no Manchester City numa transferência acima de 50 milhões de euros, é um nome dos mais badalados no setor. E, entre tantas incógnitas, nenhuma supera a da posição de goleiro: alguém confia em Butland, Pickford e Pope? A boa notícia para os ingleses é que Guardiola está num time inglês. Quando esteve no Barça, deu Espanha em 2010. Quando esteve no Bayern, deu Alemanha em 2014. A conferir o tamanho da magia.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo F

Vamos analisar o grupo F da Copa do Mundo 2018 (leia o que colocamos sobre os grupos A, B, C, D e E).

Nele, estão quatro seleções que aparecem rotineiramente em mundiais, incluindo a atual campeã e também aquela que surpreendeu nas Eliminatórias ao deixar pelo caminho as tradicionais Holanda e Itália.

Grupo F: Alemanha, México, Suécia e Coréia do Sul.

Alemanha

Alemanha: 1ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Revolucionada desde a chegada de Joachim Löw e rejuvenescida nesses últimos anos, a Alemanha tem muitos ingredientes que sugerem favoritismo ao penta. É bem verdade que a convocação trouxe algumas discordâncias, sendo provavelmente a maior delas a ausência de Sané, jovem promessa/realidade treinada por Josep Guardiola no Manchester City. Mas a realidade é que os alemães têm todos os motivos para confiar em sua seleção na Rússia.

Com uma campanha sólida nas Eliminatórias (com direito a 6a0 sobre a Noruega), com a bem-sucedida estratégia de usar a Copa das Confederações para possibilitar maior rodagem e experiência a atletas menos aproveitados e, principalmente, com um elenco qualificado técnica, tática e mentalmente, só duvida desta Alemanha quem não conhece esta Alemanha.

O radar do futebol arte há de apitar forte quando este time estiver em campo. Começamos a nos acostumar com isso desde 2010. E tivemos o desfrute de uma das maiores aulas no Mineirão, naquela memorável semifinal em 2014 que alguns, equivocadamente, chamam de "apagão". Aqueles 7a1 são o oposto: são luz. Que o ascendente futebol alemão possa continuar iluminando os gramados pelo mundo. Chegou a vez da Rússia.

México

A classificação sem maiores sustos - o oposto do cenário visto para a Copa 2014 - dá ao México maior tranqüilidade na preparação para este Mundial. Só que o recente escândalo envolvendo jogadores e prostitutas colocou a seleção nacional em maus lençóis, virando assunto não-esportivo e alimentando a engrenagem sensacionalista de setores midiáticos.
México: 15ª colocada no ranqueamento da FIFA.

Naquilo que tange ao campo de jogo, Juan Carlos Osorio leva para a Rússia um grupo experiente. Os 3 goleiros somam 104 anos de idade. Na zaga, o imortal Rafael Márquez nos brindará com seu talento e elegância novamente. No meio, o bom futebol está Guardado. No ataque, Peralta e Hernández marcam presença ao lado de Giovani dos Santos e Carlos Vela (aos 29 anos de idade e perto de tantos trintões, podem ser considerados dois meninos).

O único gol marcado nos últimos quatro amistosos levantam suspeitas sobre a efetividade do setor ofensivo da equipe, o que contrapõe uma defesa que foi vazada em apenas duas partidas nos últimos sete compromissos. A estréia com a Alemanha tem pelo menos uma coisa boa: dará aos mexicanos o direito de arriscar, pois uma derrota seria um resultado normal. Pontuando nessa partida, abre caminho para a classificação, que tem tudo para ser decidida somente na rodada derradeira, com a disciplinada seleção sueca. E é sempre bom ter em mente o seguinte: esse grupo cruza com o "do Brasil" e, se tem uma seleção que não tem medo da "Amarelinha", essa seleção é a mexicana...

Suécia

Com a autoconfiança de quem sobreviveu a um grupo com França e Holanda - eliminando a Itália na repescagem - e com a união de um grupo que superou todas as dificuldades sem sua principal estrela, a Suécia chega à Rússia com muitos motivos para acreditar em surpreender.

Suécia: 24ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Os dois amistosos zerados realizados nesse mês (0a0 com Dinamarca e Peru) talvez sugiram ajustes para fortalecer um ataque habituado a marcar poucos gols. A boa notícia é que, em mais de 180 minutos de confronto, os suecos somente precisaram de um único gol para eliminar os italianos.

A Suécia tem na experiência de Toivonen, Larsson e Svensson, além do talento de Forsberg, seus principais trunfos no campo de ataque. Mas é a consistência coletiva o diferencial que pode fazer a equipe nórdica incomodar as outras três seleções nessa chave. No pouco que assisti no amistoso diante dos peruanos, foi notória a capacidade de conter o ímpeto de um adversário com vocação ofensiva, conseguindo bloquear os flancos e povoar o centro sem gerar grandes espaços ao adversário, além de ter relativo êxito em sair para o jogo com objetividade.

De destaque, fico com a declaração do treinador Janne Andersson sobre Zlatan Ibrahimovic: "Assim que Zlatan anunciou a aposentadoria depois da Eurocopa, comecei a planejar a seleção sem ele. Comecei a pensar no time sem ele. É um jogador que respeito muito, mas quis priorizar a equipe que classificou a Suécia para a Copa. Tira muito da minha energia esse tanto de perguntas sobre o Zlatan".

Coréia do Sul

Embora classificada de maneira direta com o segundo lugar em seu grupo nas Eliminatórias Asiáticas, a Coréia do Sul suou para chegar à Rússia. O 0a0 na rodada derradeira, no Uzbequistão, selou uma classificação que estaria ameaçada em caso de derrota, pois levaria os sul-coreanos, na melhor das hipóteses, à repescagem.

Coréia do Sul: 57ª colocada no ranqueamento da FIFA.
O atacante Son Heung-Min, há três temporadas no Tottenham, é o jogador que vive momento de maior destaque na seleção. Seu faro goleador na Premiership não é novidade, pois se mantém presente desde os tempos da Bundesliga, onde vestiu as camisas do Hamburgo e do Bayer Leverkusen. No setor de meio-campo, mais um jogador que atua no futebol inglês: Ki Sung-Yeung, do Swansea City. Mas se me perguntar como joga a equipe treinada por Shin Tae-Young, não saberei responder. E, considerando que houve somente uma vitória nos últimos seis jogos oficiais, é possível que o próprio treinador possa estar usando esses dias na Rússia para reformular a formação do time.

Guardo ótimas lembranças da Coréia do Sul na época em que a cultura holandesa de atuar com três atacantes permeou o paradigma futebolísitco do país, que teve Guus Hiddink e Dick Advocaat como alguns de seus técnicos. Vamos ver como a seleção se comporta nesse Mundial. O grupo é difícil, mas uma boa estréia diante da Suécia pode dar esperanças a um país que, entre méritos e apitos, chegou a uma semifinal de Copa do Mundo dezesseis anos atrás, para euforia de seus torcedores.

domingo, 27 de maio de 2018

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo E

Desde a realização do sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018 estamos publicando uma análise chave a chave (leia o que colocamos sobre os grupos A, B, C e D).

E é chegada a vez do "grupo do Brasil". Não querendo cortar o otimismo daqueles que consideraram o sorteio generoso à seleção canarinho, é bom lembrar que as outras três seleções evoluíram de alguns anos para cá.

Grupo E: Brasil, Suíça, Costa Rica e Sérvia.

Brasil

Brasil: 2ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Antes de mais nada: enquanto publico isso, a Confederação Brasileira de Futebol é presidida por um indivíduo banido do futebol pela entidade máxima que rege o esporte.

Dito isto... Dentro das quatro linhas, podemos esperar uma seleção ágil na transição e sólida na recomposição defensiva. Embora Tite não prime pela ofensividade - ao contrário, seu grande momento na carreira foi gerenciando uma equipe que "jogava pelo um a zero" -, é razoável crer que, com Paulinho, Coutinho, Willian, Neymar e Gabriel Jesus, o time vá transitar por todas as faixas latitudinais e longitudinais no campo de ataque.

A convocação, ainda assim, trouxe a decepção de não incluir jogadores do talento de Lucas e Oscar, nomeando um total de quatro laterais, quatro zagueiros e quatro volantes - todos de ofício. Se, por exemplo, Tite chamasse Luiz Gustavo, teria em um único atleta a possibilidade de trabalhar duas ou três posições, abrindo espaço para jogadores mais talentosos comporem tranqüilamente o grupo  dos vinte e três. Só que não. Iremos de Fágner para a Rússia.

Ainda assim, é preciso tratar o Brasil como um dos favoritos no Mundial. Mas, independentemente do que aconteça, é bom que se diga que já começaremos a Copa do Mundo 2018 desonrando a melhor parte da tradição futebolística brasileira. O talento foi preterido para se "defender" um pragmatismo que já atravessou a fronteira da insensatez há muito tempo. Desde antes de Marco Polo Del Nero presidir a CBF...

Suíça

Última seleção a divulgar a convocação, a Suíça é possivelmente um dos melhores exemplos de como uma equipe pode ser transformada positivamente em um ciclo de quatro anos. Entre 2010 e 2014, vimos a transição da água enferrujada (ferrugem do Ferrolho Suíço) para o vinho saboroso do futebol ofensivo, que quase eliminou a Argentina na fase oitavas-de-final no último Mundial.

Suíça: 6ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Para 2018, a responsabilidade maior estará nos pés e no talento de Xherdan Shaqiri, do Stoke City. Também atuando na Premiership, Granit Xhaqa, do Arsenal, tem em seus chutes potentes outro alimento de esperança. Fortalecendo o meio-campo com pegada e entrosamento, uma dupla de volantes que atua no futebol italiano: Valon Behrami (Udinese) e Blerim Dzemaili (Bologna), que possuem ótimo entrosamento desde os tempos de Napoli. As laterais da equipe também são de uma dupla "italiana": Stephen Litchsteiner (Juventus) e Ricardo Rodríguez (Milan). Já no ataque, Josip Drmic (Borussia Mönchengladbach) e Haris Seferovic (Benfica) vão para mais uma Copa no currículo. Aliás, Seferovic foi inclusive autor do gol da vitória sobre o Equador na estréia no Mundial 2014, em jogo disputado no estádio Mané Garrincha, em Brasília.

A torcida é para que a transformação que Ottmar Hitzfeld promoveu em quatro anos tenha seqüência nessa passagem de Vladimir Petkovic. O maior beneficiado seríamos nós, que gostamos do jogo desenvolvido na busca pelos gols.

Costa Rica

Costa Rica: 25ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Se um bom time começa por um bom goleiro, a Costa Rica já pode se animar: sua seleção tem no gol o arqueiro Keylor Navas, que fez excelente Copa do Mundo no Brasil e que, entre elogios e críticas (leia-se perseguições) no Real Madrid, é titular absoluto na equipe tricampeã continental consecutivamente.

Mas o que esperar dessa seleção em 2018? O conselho que daria, é: independentemente de o que esperar, é preciso respeitar os costarricenses. Mas respeitar mesmo. Respeitar com vontade. No Brasil, ao cair no grupo de três campeãs mundiais (Itália, Inglaterra e Uruguai), a imprensa de um modo geral tratou a Costa Rica como "eliminada de véspera". Resultado: ótimas atuações, primeiro lugar invicto no grupo e uma campanha invicta em todo o Mundial (a eliminação diante da Holanda ocorreu nos pênaltis, em uma das partidas mais emocionantes de todo o torneio).

Com o trio Bolaños-Ruiz-Campbell convocado, fica a expectativa de que boas coisas possam acontecer na trama de jogadas de ataque. E, se alguém ousar cravar que Brasil, Suíça e Sérvia são "mais fortes" que a Costa Rica, eu peço apenas a gentileza de voltar um parágrafo nesse texto ou, melhor ainda, quatro anos no tempo. Tem que respeitar.

Sérvia

Sérvia: 35ª colocada no ranqueamento da FIFA.
As ironias da vida às vezes alcançam níveis altíssimos: o que dizer do fato de a Sérvia anunciar a convocação em pleno posto de combustível nesta semana em que o Brasil testemunha uma greve de caminhoneiros? No mínimo, inusitado.

A seleção de Mladen Krstajic, adversária da seleção brasileira na última rodada, dia 27, em Moscou, está com 27 nomes, na iminência de quatro cortes para formar o grupo definitivo. E o que não falta é experiência na lista: Kolarov, Ivanovic e Matic têm tudo para formarem a base defensiva de uma equipe carente de grandes talentos no ataque mas que pode, sim, surpreender. Os seis gols de Aleksandar Mitrovic na campanha de vinte gols da seleção nas Eliminatórias o colocam como maior esperança de balançar as redes. Mas não basta ter atenção com o goleador: Dusan Tadic concedeu sete assistências e só não foi melhor nessa estatística do que o alemão Joshua Kimmich (nove) em toda a Eliminatória Européia.

O amistoso com o Chile, dia quatro de junho, deverá ser o último parâmetro para a lista final de convocados. E restará aguardar para ver se os jogadores chegarão com "o tanque cheio" nas "rodovias" que levam à Rússia...

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Arsène FC

Quantos treinadores o clube que você torce teve desde 1996?

Se você for torcedor do Arsenal, essa pergunta, mesmo sendo feita em pleno ano de 2018, oferta resposta fácil: um.

Arsène Wenger assumiu o comando técnico do Arsenal vinte e dois anos atrás e simplesmente revolucionou a maneira de se jogar futebol em toda a Inglaterra. Se hoje a Premier League é a liga mais prazerosa de se assistir (e muitos concordam que sim, é), parte significativa disso é legado desse francês nascido em 1949.

Particularmente, tornei-me fã do Arsenal numa época em que Bergkamp e Henry eram os atacantes da equipe. E meu deslumbramento não se limitava ao ilimitado talento da dupla. Fui me dar conta, mais tarde, que o que mais gostava no Arsenal transcendia a soma das partes: era o todo. Um todo que era rotineiramente elaborado, construído e treinado, sessão a sessão, dia a dia, pelo Wenger.

Nas mais de duas décadas que acompanho futebol, vi muitos timaços serem formados, mantidos e desfeitos. Nenhum que se compare aos Invencíveis de 2003-4. Lehmann, Lauren, Touré, Campbell, Cole, Vieira, Gilberto Silva, Ljungberg, Pirès, Bergkamp e Henry, juntos e misturados traduziam a essência da filosofia de jogo de Wenger. O Arsenal foi ali, mais do que nunca, Arsène. Um time de contra-ataques arrebatadores. Que, de qualquer lugar do campo - principalmente se o gramado fosse o de Highbury Park -, conseguia chegar dentro da área adversária em cerca de meia dúzia de toques na esfera. Com tal performance encantadora, não importaria (ou pelo menos não deveria importar) se o time era campeão ou não. Mas os deuses da bola premiaram aquele maravilhoso plantel com o título invicto na mais difícil competição no formato de pontos corridos. E marcou-se uma Era.

No esporte em geral e no futebol em particular, vitórias, empates e derrotas são ocorrências difíceis de prever. Veja por exemplo as páginas de apostas: a tendência é o indivíduo, por melhor informado que seja, perder dinheiro em vez de ganhar. A banca se favorece da imprevisibilidade. Do contrário, ser um apostador de favoritos equivaleria a um investimento em renda fixa. Não é. Longe de ser.

Infelizmente, muitos torcedores de diversos clubes (afirmo com segurança de que estejamos nos referindo à esmagadora maioria) preferem um time que "jogue feio para vencer" do que uma equipe treinada para "jogar bonito". Evidentemente, a feiúra ou a beleza de um estilo de jogo não são garantias de que o resultado será positivo ou negativo. E se o futebol tem algum valor enquanto entretenimento, é obrigação do fã de esporte valorizar a filosofia por trás de um trabalho técnico e tático. E a filosofia de jogo implementada por Wenger no Arsenal é uma bênção ao esporte mais popular deste planeta que orbita ao redor do sol.

Sem Wenger, o mundo da bola perderá bastante de sua luz. Espero e torço para que o anúncio de sua despedida do Arsenal não seja o sinônimo de uma aposentadoria precoce. Mas, independentemente de para onde irá o professor, já lamento pela seperação entre Arsène e Arsenal.

Tirando A R S È N E do A R S E N A L, restará ao clube somente A L. Algo que não sabemos exatamente o que é. Na melhor das hipóteses, será um legado filosófico e procedimental de jogar futebol com a beleza que nos acostumamos a ver ao longo dos últimos vinte e dois anos. E, no pior dos cenários, estaria o Arsenal rumando para se tornar mais um clube sedento meramente pelo resultado. Que talvez conquiste o troféu que lhe falta. Mas que corre o risco de cair na vala comum de tudo aquilo que é perecível. Coisa que uma ideologia jamais será. Pois esta é imortal. Assim como Wenger, a quem ofereço respeito e reverência.

E encerro com as palavras dele:
Para todos os que amam o Arsenal, tomem conta dos valores do clube. O meu amor e apoio para sempre.

Obrigado!
Busto de Arsène Wenger no estádio Emirates: toda homenagem é insuficiente para a histórica trajetória do francês no clube.

domingo, 8 de abril de 2018

Daria Um Filme: Nos Acréscimos E Nos Pênaltis, Botafogo Vence Vasco E É Campeão Estadual

Alan Ball, Cameron Crowe, Julian Fellowes, Pedro Almodóvar, Sofia Coppola, Charlie Kaufman, Paul Haggis, Bobby Moresco, Michael Arndt, Diablo Cody e Dustin Lance Black.

Vou parar a lista em onze nomes, que é a quantidade de elementos que formam  um time de futebol. Todos aqueles indivíduos mencionados são  roteiristas vencedores do Oscar, prêmio máximo conferido pela indústria cinematográfica.

Vasco e Botafogo, pela final  no Campeonato Estadual 2018, se fosse filmado sem qualquer edição, daria um Oscar de melhor roteiro original para o documentarista que se apropriasse da obra escrita por Deus e roteirizada pelos deuses da bola. Um final impecável: expulsão nos acréscimos, gol no último lance (não é força de expressão, foi  no último lance mesmo) e triunfo definitivo nas cobranças de pênaltis.

Curiosamente, os três personagens citados são os três estrangeiros do cinema. Digo, do Botafogo.

Primeiro, Leo Valencia, meio-campista chileno que recebeu o cartão vermelho aos quarenta e oito minutos do segundo tempo de um jogo que parecia seguir ao zero a zero mesmo que fosse jogado por mais duas horas. Mas mal poderíamos esperar pelos próximos dois minutos...

Depois, Joel Carli, zagueiro argentino que se aventurou de atacante na necessidade de sua equipe marcar um gol. A bola o encontrou e ele a direcionou para a rede. E foi comemorar com o grande público, uma platéia que não caberia em nenhuma sala de reprodução audiovisual e que fez o próprio Maracanã parecer pequeno - os botafoguenses aplaudiam de pé, gritavam a plenos pulmões e festejavam efusivamente o gol que levaria o confronto às penalidades.

Finalmente, Gatito Fernández, goleiro paraguaio que teve em 2017 momentos heróicos na campanha histórica na Copa Libertadores da América. E que reviveu o protagonismo nesse oito de abril de dois mil e dezoito, defendendo duas cobranças e ajudando de maneira decisiva o Botafogo de Futebol e Regatas a ser aquilo que ele é desde 1907: campeão.

E o Oscar de melhor ator vai para... a torcida botafoguense. Por acreditar, até o final, no mais improvável dos roteiros. E por incentivar, desde o início, um elenco que possui limitações. Um filme que muitos alvinegros irão querer assistir de novo.
Elenco do Botafogo posa para a foto antes do jogo derradeiro no Estadual 2018: um campeão que foi herói em cada jogo.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Palmeiras Pinta O Sete Em Taubaté

Num torneio com 128 equipes e que é disputado em cerca de três semanas, muita coisa acontece e muita coisa deixa de acontecer. A Copa São Paulo de Juniores 2018 está em ritmo frenético. Times que se classificaram anteontem jogam hoje para buscar o direito de voltar ao campo depois de amanhã.

Acho a Copinha a dona de um dos calendários mais estúpidos do esporte mundial. Não "apenas" pelos jogos em curto intervalo de tempo, mas também por se tratarem de partidas realizadas sob o sol do meio-dia em pleno verão paulista.

Dito isso, partidas com nível técnico abaixo do potencial são plenamente justificáveis. Só que o Palmeiras passou por cima de tudo isso e deu um espetáculo diante do Taubaté. O placar de sete a zero (seis desses gols foram anotados após o intervalo) é mero reflexo da superioridade alviverde. Uma superioridade daquelas de quem supera adversário, sol, gramado, calendário. Um time com vocação ofensiva e muita facilidade de alternar os mecanismos de transição ao ataque. Equipe que envolve o oponente tocando a bola e impondo velocidade. Candidata ao título e, principalmente, a ofertar jovens de muita qualidade ao futebol profissional. Futebol profissional este que não apresenta um calendário dos mais humanos mas que, pelo menos, não é tão cruel quanto esse sub-20. Se me dissessem que o regulamento foi proposto pelo PSDB e sancionado pelo Michel Temer, eu acreditaria.
Alan Guimarães e Yan comemoram: Palmeiras pintou o 7 em Taubaté. Foto: Agência Palmeiras.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Cuidado, O Tubarão Vai Te Pegar!

Janeiro é um período especial não somente por marcar o início de um novo ano. No calendário futebolístico, este mês abraça a competição sub-20 mais atrativa do Brasil, que é a Copa São Paulo de Futebol Júnior.

Hoje, na cidade de Marília, Tubarão e Fluminense entraram em campo para partida válida pela segunda rodada na fase de grupos - o clube catarinense havia estreado com derrota (4a3 para o Marília) enquanto o Tricolor das Laranjeiras já somava três pontos na tabela de classificação (3a0 sobre o Mogi Mirim).

Considerando a tradição da camisa, a quantidade de jogadores revelados ao longo do tempo, a estrutura na base, e tantos outros fatores, o favorito ao jogo só poderia ser o Flu. E o Flu abriu o placar no início, dando a impressão de que encaminharia a vitória com relativa naturalidade.

Mas o time carioca não contava com a astúcia do Peixe. Bem distribuído pelo oceano, digo, pelo gramado, o Tubarão conseguia alcançar o último terço de campo em jogadas bem tramadas que exploravam os flancos e causavam dificuldades aos defensores oponentes. Israel Júnior esbanjava habilidade e era a figura mais ativa no campo de ataque catarinense. E eis que saiu o gol de empate: o próprio Israel Júnior recebeu em velocidade, arrumou com um toque de qualidade, avançou e chutou com categoria para desviar a bola da rota do goleiro Heitor.

O segundo tempo era promissor, pois ambos os times mostraram qualidades ofensivas que deixavam a partida bastante aberta. E se o tubarão é o senhor dos mares, o Tubarão se mostrou dono de Mar-ília: jogando pra cima, impondo velocidade e rodando a bola, a equipe virou o jogo em belíssima finalização de Luciano. Mais tarde, ficou com um jogador a mais quando Alex foi expulso (poderia e deveria ter sido expulso minutos antes, por cotovelada que passara impune).

E o Tubarão, tal qual um legítimo predador, sacramentou a vitória em cobrança de pênalti no canto esquerdo. Naquele momento, o time de Santa Catarina adentrava na zona de classificação para a próxima fase, mas um gol do Fluminense nos acréscimos colocou os cariocas em melhor situação no saldo. Definições somente na rodada derradeira. Quem andar na prancha, já sabe: cuidado, o Tubarão vai te pegar!
Bruce, do filme Procurando Nemo: "peixes são amigos, não comida". O Tubarão hoje devorou o Pó-de-arroz.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo D

Há três sextas-feiras, foi realizado o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Em postagens anteriores, versamos sobre o grupo A, o grupo B e o grupo C. Vamos, nessa publicação, analisar o grupo D. Para muitos, trata-se de uma das chaves mais fortes do torneio: são três seleções acostumadas ao Mundial e uma estreante que foi a sensação na última Eurocopa.

Grupo D: Argentina, Islândia, Croácia e Nigéria.

Argentina

Se por um lado é verdade que os argentinos quase ficaram de fora da Copa 2018 (contaram com a genialidade de Lionel Messi na rodada derradeira nas Eliminatórias Sul-Americanas para virarem o jogo diante do Equador, em Quito), por outro, é inegável que a seleção comandada por Jorge Sampaoli tem potencial para chegar a mais uma final de mundial.
Argentina: 4ª colocada no ranqueamento da FIFA.

Encontrar um padrão tático talvez seja o maior desafio do ótimo técnico argentino. É desejo de todo amante do futebol arte ver uma seleção dessa enorme qualidade jogando com a fluidez daquela Universidad de Chile que goleou o Flamengo e que encantou a América, ou daquela seleção chilena que rodava a bola de maneira envolvente, independentemente de quem fosse o adversário.

Messi e Javier Mascherano são os líderes de um grupo machucado com tantos "quases". Mas que podem ter, exatamente nessas feridas aparentemente cicatrizadas, um excepcional recurso profilático para novas quedas. Desde a estréia com a empolgada Islândia, a trajetória deverá ser caracterizada pelo esforço coletivo de conseguir jogar um futebol consistente.

O ponto de equilíbrio a ser encontrado talvez gire em torno da solidez dos tempos de Alejandro Sabella com a inventividade típica dos times de Sampaoli. Achando essa "fórmula mágica" e conseguindo manter a cabeça inabalável pelas frustrações recentes, é possível que o país do tango consiga uma trilha sonora mais alegre em solo russo.

Islândia

Líder da chave que tinha a Croácia (olha a coincidência), a Islândia chega embalada para a sua primeira Copa do Mundo, afinal, a menor nação da história das Copas vem de uma Euro-2016 memorável e de uma Eliminatória com campanha maiúscula: sete vitórias, um empate e duas derrotas, com direito a 100% de aproveitamento em seus domínios territoriais. Fora de casa, empatou com a Ucrânia, venceu Kosovo e goleou a Turquia, tendo sido superada somente por croatas e finlandeses.

Islândia: 22ª colocada no ranqueamento da FIFA.
A contribuição de Sigurðsson é notável tanto pelo desenvolvimento do jogo quanto pelos números: autor de quatro gols e três assistências nas Eliminatórias Européias, o ótimo meia do Everton (com passagem marcante pelo Swansea City) participou diretamente de quase metade dos gols da equipe (sete de dezesseis). Na última rodada, quando a vitória por 2a0 sobre o Kosovo em Reykjavik selou a classificação direta, foi o camisa 10 quem marcou o primeiro gol e deu o passe para Guðmunds­son anotar o segundo.

Se Sigurðsson será personagem a atrair atenção dentro de campo, outra grande atração islandesa no Mundial será a presença de sua apaixonada e apaixonante torcida nas arquibancadas: as cidades de Moscou, Volgogrado e Rostov serão agraciadas com a presença desse pessoal barulhento e festeiro na primeira fase. E, se tudo der certo para a equipe e seus adeptos, os vikings poderão desembarcar em outras sedes na seqüência da competição.

Croácia

Se no passado não muito distante a Croácia encantou o mundo com jogadores como Zvonimir Boban (titular no meu time de botão) e Davor Suker (goleador naquela Copa de 1998), hoje a seleção do país também está muito bem servida no setor de criação e de ataque: Modric, Rakitic, Perisic e Mandzukic são jogadores de ponta no futebol mundial e capazes de resolver partidas em um lance individual.

Croácia: 17ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Então, com um time dessa qualidade ofensiva, podemos cravar a Croácia na próxima fase? Não. A qualidade técnica também existia em demasia no Mundial de 2014, mas a realidade é que os croatas caíram em plena fase de grupos naquela oportunidade, ficando atrás de Brasil e México, tendo vencido somente Camarões. A chave de 2018 é de uma força similar daquela. Talvez o maior ganho de lá para cá esteja nos quatro anos de entrosamento somado, pois a espinha dorsal do time comandado por Zlatko Dalic foi inteligentemente sustentada.

Dona da melhor campanha como visitante em sua chave de Eliminatórias (nove pontos em cinco jogos, incluindo a vitória por 2a0 em Kiev no confronto direto com a Ucrânia na última rodada), a Croácia teve vida tranqüila na Repescagem, confirmando a vaga na Copa após golear em casa e empatar fora com a Grécia. Será, acredito, o setor de meio-campo o grande termômetro da seleção da camisa xadrez no Mundial: se as feras Modric e Rakitic renderem, meio caminho andado. Se Perisic estiver inspirado e o centroavante Mandzukic encontrar aquela eficiência do auge de sua carreira, aí bastará a defesa saber se postar para afirmar com todas as letras que o feito de 1998 poderá ser novamente alcançado.

Nigéria

Líder e invicta, com o ataque mais efetivo e a defesa menos vazada num grupo que tinha Zâmbia, Camarões e Argélia, a Nigéria chega a mais uma Copa do Mundo e a mais um "grupo da Argentina".

Nigéria: 50ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Podemos - e devemos - esperar boas coisas de uma seleção com Moses, Obi-Mikel, Iwobi, Iheanacho, Musa e companhia. Os 4a2 de virada sobre a Argentina em Krasnodar foram impactantes, mesmo se tratando de um amistoso.

Naquela partida, o alemão Gernot Rohr (passagens por Gabão, Níger e Burkina Fasso) escalou a equipe numa espécie de 5-3-2 (3-5-2, se consideramos o avanço dos extremos da última linha de defesa). Formação diferente, por exemplo, do 4-5-1 usado nas Eliminatórias durante a vitória por 1a0 sobre Zâmbia, que garantiu a classificação à Copa. Importante observar que, neste jogo, Moses atuou. Diante dos argentinos, não. E Moses, mesmo jogando na meia direita, foi o goleador das Super Águias nas Eliminatórias.

A Copa das Nações Africanas, que começa em janeiro, poderá mostrar se Rohr tem preferência por algum esquema tático específico ou se estuda trabalhar com alternâncias para surpreender os adversários. Com a sua boa rodagem no futebol africano, o treinador alemão deve ter em mente qual é o seu maior desafio: fortalecer e equilibrar a defesa. E isso deve ser feito, necessariamente, sem perder a essência do que há de melhor nas seleções daquele continente, que é a agilidade em encontrar os espaços seja com o drible, seja com a velocidade, seja com as duas coisas juntas e misturadas. E se tem uma seleção da África que mexe com o imaginário popular "esses podem aprontar", essa seleção é precisamente a Nigéria. Okocha, Ikpeba, Finidi, Amokachi, Amunike e companhia não me deixam mentir...

domingo, 17 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo C

Foi realizado no dia primeiro de dezembro o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Analisamos o grupo A e também o grupo B. Chegou a vez de dar alguns pitacos sobre o grupo C. Chave que reúne três seleções entre as doze primeiras do mundo na mais recente divulgação do ranqueamento da FIFA.

Grupo C: França, Austrália, Peru e Dinamarca.

França

Didier Deschamps, capitão da seleção campeã mundial em 1998, conta com uma geração especial. São muitos jogadores talentosos e que estão em ascensão nas suas carreiras. Além desse "material humano" qualificado, a França vai ao Mundial com a credencial de ter sido vice-campeã continental em 2016, numa campanha que, em alguns momentos, comprovou a qualidade técnica da equipe.

França: 9ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Talvez o maior desafio do treinador seja saber manejar a jovialidade do elenco. Mbappé (18 anos), Coman (21) e Martial (22) são alguns dos nomes mais badalados na atualidade. E pra quem acha pouco, o potente setor ofensivo dos Bleus conta também com atletas do nível de Giroud, Griezmann e Lacazette. Ou seja, dá para montar diversas combinações de respeito no ataque francês.

A campanha nas Eliminatórias foi sólida: sete vitórias, dois empates e somente uma derrota num grupo que tinha a Suécia e a Holanda como principais rivais. Destaques para as vitórias sobre a Laranja: 1a0, em Amsterdã, e 4a0, em Paris.

Os dezoito gols azuis foram relativamente bem distribuídos: Giroud e Griezmann anotaram quatro; Gameiro, Lemar, Payet e Pogba marcaram duas vezes cada; Matuidi e Mbappé fizeram um. A defesa, aparentemente cada vez mais consistente, cedeu seis gols e foi a menos vazada na chave. Se Deschamps conseguir o ponto de equilíbrio (a meu ver, passa necessariamente pela interação de Matuidi e Pogba entre a marcação e a transição), não há limites para a França nessa Copa. É daquelas seleções que darão gosto de ver jogar.

Austrália

Do relativo amadorismo ao hábito de jogar mundiais: a Rússia-2018 será a quarta Copa do Mundo consecutiva da Austrália, que até então só havia participado em 1974. Nessa caminhada dos Socceros, o passo (leia-se salto de canguru) mais ousado foi possivelmente a filiação à Federação Asiática. Encontraram uma eliminatória mais difícil que a da Oceania mas de uma dificuldade acessível - e mais do que isso, capaz de impulsionar a seleção a um nível mais alto e que lhe trouxesse alguma perspectiva de competir diante de seleções mais tradicionais.

Austrália: 39ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Não havendo nenhum nome destacável na nova geração, a realidade é que os australianos têm suas esperanças majoritariamente depositadas nos veteranos Jedinak (meio-campista capitão da equipe aos 33 anos de idade) e Tim Cahill (atacante, 38, e maior goleador na história da seleção com 50 gols).

Tomi Juric, um dos goleadores nas Eliminatórias Asiáticas com cinco gols, atua no futebol suíço e foi campeão na Liga dos Campeões da Ásia em 2014, quando vestia a camisa do Western Sidney Wanderers. Mathew Leckie, meio-campista autor de três gols e duas assistências nas mesmas eliminatórias, atua no Hertha Berlin, estando em sua sétima temporada no futebol alemão. E aí você pergunta: "beleza, quem desses daí resolveu as coisas na repescagem com a seleção de Honduras"? Resposta: nenhum deles, mas o trintão Jedinak, que marcou todos os três gols nos 3a1 em Sydney (a partida de ida havia terminado 0a0).

Peru

36 anos depois, o Peru está de volta a uma Copa do Mundo. Com tantos personagens que compuseram esse roteiro cinematográfico que terá suas próximas locações em território russo, há um protagonista a ser enaltecido: o técnico argentino Ricardo Gareca.

Peru: 11ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Uma campanha consistente na Copa América. Uma surpreendente arrancada nas Eliminatórias Sul-Americanas. Uma partida fantástica no jogo de volta na Repescagem. Desde fevereiro de 2015, quando assumiu a seleção peruana após breve passagem pelo Palmeiras, o quatro vezes campeão argentino com o Vélez Sarsfield vem fazendo um trabalho excepcional com La Blanquirroja.

O cerebral Cueva, principal articulador de jogadas, tem sua tarefa facilitada graças às muitas opções de aproximação tanto pelo centro com Flores e Ruidíaz, quanto pelas beiradas - Advíncula e Polo pela direita, Trauco e Farfán pela esquerda. É um time que se movimenta bastante, que esbanja entrosamento e que "não aceita" a marcação adversária, sabendo dela se desvencilhar.

O primeiro tempo de partida com a Nova Zelândia, no estádio Nacional de Lima, foi uma aula tática. Com um detalhe: estava ausente o principal nome do futebol peruano, Guerrero, suspenso por uso de substância proibida. O atacante se defende e mantém esperanças de ser inocentado a tempo de reverter a ausência no Mundial (a atual punição de banimento por um ano impede sua participação na próxima Copa). Mas, Gareca conseguiu montar um time que não dependerá de Guerrero para jogar com classe e estilo. A torcida pela presença de Guerrero é mais por uma questão de justiça (a dopagem foi provavelmente por contaminação) do que por necessidade técnica/tática da equipe. E teria, a meu ver, um efeito muito mais moral do que esportivo.

Invicta há dez partidas, a seleção do Peru terá no jogo de estréia um confronto fundamental em suas pretensões no Mundial: a Dinamarca, em dezesseis de junho. Considerando o favoritismo francês e o fato da Austrália ser o adversário menos qualificado no grupo, essa partida é chave. E tenho grandes expectativas de que será um jogaço.

Dinamarca

Se alguém tinha alguma dúvida sobre as capacidades da seleção dinamarquesas, elas foram
suprimidas no jogo derradeiro rumo à Copa: a partida de volta com a Irlanda, pela Repescagem Européia. Após o 0a0 em Copenhaguen, a equipe nórdica se viu atrás no marcador já no sexto minuto em Dublin. E, de virada, aplicou uma goleada de 5a1, com direito a três gols do craque Christian Eriksen.

Dinamarca: 12ª colocada no ranqueamento da FIFA.
E então, dá pra cravar que seja favorita à "segunda vaga" na chave? Não, não dá. Não dá porque fica difícil saber se veremos uma Dinamarca que perde dentro de casa para Montenegro ou uma Dinamarca que aplica 4a0 na Polônia (sim, a única derrota polonesa nas Eliminatórias Européias foi uma goleada de quatro a zero em Copenhaguen). A certeza que fica é que a Dinamarca tem condições de apresentar um bom futebol, restando observar se o equilibrado sistema 4-5-1 do norueguês Åge Fridtjof Hareide será mais ofensivo ou pragmático. Se Nicklas Bendtner será opção para o decorrer do jogo ou titular do time, também é questão incerta. Será dada preferência a um homem de referência dentro da área? A um jogador de mais mobilidade? Poderá se formar uma dupla de frente incluindo ambas as características e teoricamente diminuindo a necessidade de Eriksen se apresentar como finalizador?

Seja como for, por mais que Eriksen seja capaz de decidir partidas (ele marcou oito gols e deu três assistências na fase de grupos nas Eliminatórias Européias, participando diretamente de mais da metade dos vinte gols dinamarqueses), é importante ter em mente que, na Copa, é mais difícil uma andorinha sozinha fazer verão. Se bem que será verão na Rússia...

domingo, 3 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo B

Foi realizado anteontem o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Já fizemos uma análise referente ao grupo A. Vamos, agora, tratar do grupo B. É o grupo que vai proporcionar ao amante do futebol uma primeira rodada reunindo as melhores defesas da África e da Ásia e, ainda, o clássico ibérico (simplesmente os dois últimos campeões europeus).

Grupo B: Portugal, Espanha, Marrocos e Irã.

Portugal

Atual campeão europeu, o selecionado português fez uma eliminatória firme: venceu nove dos dez jogos disputados. Sua única derrota foi na primeira rodada, na Basiléia, para a Suíça, por 2a0. Resultado que foi devolvido na jornada derradeira, em Lisboa.

Portugal: 3ª no ranqueamento da FIFA.
Dos 32 gols anotados nas Eliminatórias Européias, 24 saíram da dupla Cristiano Ronaldo (vice-goleador no torneio, com 15 tentos) e André Silva (9 gols marcados). Mas a equipe de Fernando Santos oferece algo mais que esses dois decisivos jogadores. Principalmente no setor de meio-campo: o talento e a juventude de Bernardo Silva (23 anos) e João Mário (24) proporcionam uma transição eficiente ao ataque. A mobilidade e precisão de ambos permitirá mescladas táticas numa interação onde o próprio Cristiano poderia recuar e avançar para promover triangulações.

Na defesa, a experiência dos 34 anos de Pepe traz a certeza de muita combatividade e a dúvida se o ex-defensor do Real Madrid conseguirá manter um autocontrole psicológico para não desferir cenas tão rotineiras em sua carreira.

A partida inaugural dos lusitanos será o clássico ibérico diante da Espanha. São duas seleções que se encontraram nas oitavas-de-final na Copa do Mundo 2010. De lá para cá, entre as diversas mudanças que aconteceram, pelo menos uma coisa conserva similaridade: a rivalidade. Tem tudo para ser um grande jogo. Na seqüência, Portugal enfrenta Marrocos e Irã. Fernando Santos precisará preparar sua equipe para pelo menos dois cenários opostos: o de saber vigiar a posse de bola adversária (provável desenho diante dos espanhóis) e o de saber impôr seu jogo (tudo leva a crer que marroquinos e iranianos tratarão, prioritariamente, de se defender).

Espanha

Seleção outrora rotulada (injustamente) de "amarelona", a Espanha conquistou o respeito dos críticos (e até dos "modinhas") de 2008 para cá, reforçando suas qualidades com a inserção curricular de dois títulos continentais e um mundial. Hoje, mesmo após cair na fase de grupos em 2014, é tida como uma das favoritas ao título na Rússia. E não é por menos: Julen Lopetegui Argote vem se mostrando um ótimo sucessor dos trabalhos implementados e desenvolvidos por José Luis Aragones Suárez Martínez e Vicente del Bosque Junior. A filosofia do toque de bola permanece forte e com algumas adaptações que a colocam bastante encaixadas nas mudanças que o futebol trouxe - algumas dessas mudanças foram desencadeadas exatamente na busca por um antídoto ao imponente e vitorioso jogo espanhol.
Espanha: 6ª colocada no ranqueamento da FIFA.

A exitosa campanha de nove vitórias e um empate (1a1 com a Itália, em Torino) teve os impressionantes números de trinta e seis gols marcados e três concedidos - a Espanha goleou todos os adversários de sua chave pelo menos uma vez.

Isco, Diego Costa, Álvaro Morata e David Silva anotaram cinco gols cada, sendo que este último ainda contribuiu com quatro assistências. Mas o motor, o cérebro, o ponto de equilíbrio dessa seleção chama-se Andrés Iniesta. Aos 33 anos de idade, o exímio meio-campista lidera o Barcelona e a seleção espanhola com sua visão e distribuição de jogo singulares. Teve a felicidade de marcar o gol histórico na final da Copa do Mundo de 2014 e felicita o amante do futebol com sua presença dentro de campo. Para quem não viu Zidane, aproveite cada oportunidade de assistir Iniesta. Não sabemos quando aparecerá outro que faça-nos lembrar esses dois.

A estréia com Portugal, a segunda rodada diante do Irã e a terceira com o Marrocos serão testes dos mais interessantes para a Espanha, pois estará enfrentando três seleções com ótimos números defensivos, cada qual em seu respectivo continente.

Marrocos

Com a credencial de quem não sofreu um único gol na fase final nas Eliminatórias Africanas, a seleção marroquina tem em sua defesa o que pode ser a chave para surpreender nesse grupo B. Nem a Costa do Marfim de Gervinho, nem o Gabão de Aubameyang, nem muito menos a seleção de Mali conseguiu vazá-los. Marrocos chegou ao Mundial com três vitórias e três empates (leia-se 0a0), com onze gols marcados - quatro deles por Khalid Boutaïb, atacante nascido na França que recentemente trocou o futebol francês pelo turco.

Marrocos: 40ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Para servir Boutaïb em particular e os marroquinos em geral estão Nordin Amrabat (atacante do espanhol Leganes) e Mbark Boussoufa (meio-campista holandês de nascimento e que atua no futebol dos Emirados Árabes Unidos) - cada um deles deu três assistências e participaram, portanto, de mais da metade dos gols de Marrocos na fase final.

Mas como explicar tamanho sucesso - principalmente defensivo - da equipe comandada pelo francês Hervé Renard? Um bom exemplo é olhar para o desenho tático na partida decisiva diante da Costa do Marfim de Marc Wilmots, vencida pelos visitantes por 2a0 e tendo permitido que os Elefantes acertassem somente um chute na direção do gol defendido por Munir. Nessa partida, cujos gols foram anotados pelo lateral-direito Dirar e pelo zagueiro Benatia, foi montado um 4-3-3 que espelhava a formação oponente. Hakim Ziyech, meio-campista nascido na Holanda 24 anos atrás, atuou pelo lado direito do ataque mesmo sendo canhoto, similar ao que a Holanda costuma fazer com Arjen Robben. Inclusive, foi dele o passe para o primeiro gol. Auxiliando por aquele setor, o "garçom" Boussoufa (assistente no lance do segundo gol), que coincidentemente é seu compatriota tanto de nascimento quanto de naturalização. Juntos, criaram duas oportunidades e finalizaram quatro vezes. No flanco oposto, Amrabat e Belhanda contribuíram com um total de sete desarmes no jogo, ajudando a conter as investidas de Aurier, Fofana, Cornet e Zaha.

Se esse sistema vai ser repetido e se vai funcionar diante de Irã, Portugal e Espanha, é preciso aguardar. O desempenho da equipe na Copa das Nações Africanas, que começa em janeiro e tem Marrocos no grupo A (com Mauritânia, Guiné e Sudão) poderá esboçar o que será da seleção de Renard na Rússia. Independentemente disso, é prudente, no mínimo, respeitá-los.

Irã

E por falar em defesas... A seleção iraniana "sobrou" nas Eliminatórias Asiáticas. Liderou com folga e garantiu antecipadamente uma vaga no Mundial 2018, mesmo dividindo grupo com a tradicional Coréia do Sul, que teve de se contentar com o segundo lugar. A campanha invicta iraniana foi de seis vitórias e quatro empates, com dez gols marcados e dois concedidos. Mas um detalhe: esses dois gols aconteceram na última rodada, diante da valente Síria, quando o Irã já era inalcançável na liderança.

Irã: 32ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Na campanha, Sardar Azmoun, atacante de 22 anos que conhece de perto o futebol russo (atua no Rubin Kazan e já vestiu também a camisa do Rostov), foi o goleador da equipe, com quatro gols anotados. Inclua-se aí o gol único na vitória por 1a0 sobre a Coréia do Sul, em Teerã, em 11.10.2016. Outro acostumado a balançar as redes é Mehdi Taremi, atacante do Persepolis que marcou três vezes nas Eliminatórias e "escolheu" momentos decisivos para deixar sua contribuição: na vitória por 1a0 sobre o Catar, fora de casa, e no triunfo sobre a China, também com gol solitário (além de sacramentar os três pontos com o segundo gol nos 2a0 sobre o Uzbequistão). Liderando as assistências quem aparece é o experiente Masoud Shojaei Soleimani, que aos 33 anos atua no grego Panionios, após passagens pela liga do Catar e pelo futebol espanhol, onde atuou por longa data no Osasuña antes de ir para o Las Palmas.

Em amistoso realizado com a Rússia, em outubro, Azmoun marcou o gol que abriu o placar em Kazan após assistência de Taremi. O jogo terminou 1a1 e, nessa oportunidade, Soleimani não foi relacionado pelo professor português Carlos Queiroz, moçambicano de nascimento e que já dirigiu os galácticos do Real Madrid e também a seleção portuguesa. Se contra a Rússia o esquema adotado foi o 4-1-4-1, é muito provável que os esquemas diante de espanhóis e portugueses esbanjem cautela. Mas, antes de enfrentá-los, há o jogo-chave diante de Marrocos. Se seguir essa linha sem buscar uma alternativa, temos aí um confronto condenado ao 0a0...