sexta-feira, 20 de abril de 2018

Arsène FC

Quantos treinadores o clube que você torce teve desde 1996?

Se você for torcedor do Arsenal, essa pergunta, mesmo sendo feita em pleno ano de 2018, oferta resposta fácil: um.

Arsène Wenger assumiu o comando técnico do Arsenal vinte e dois anos atrás e simplesmente revolucionou a maneira de se jogar futebol em toda a Inglaterra. Se hoje a Premier League é a liga mais prazerosa de se assistir (e muitos concordam que sim, é), parte significativa disso é legado desse francês nascido em 1949.

Particularmente, tornei-me fã do Arsenal numa época em que Bergkamp e Henry eram os atacantes da equipe. E meu deslumbramento não se limitava ao ilimitado talento da dupla. Fui me dar conta, mais tarde, que o que mais gostava no Arsenal transcendia a soma das partes: era o todo. Um todo que era rotineiramente elaborado, construído e treinado, sessão a sessão, dia a dia, pelo Wenger.

Nas mais de duas décadas que acompanho futebol, vi muitos timaços serem formados, mantidos e desfeitos. Nenhum que se compare aos Invencíveis de 2003-4. Lehmann, Lauren, Touré, Campbell, Cole, Vieira, Gilberto Silva, Ljungberg, Pirès, Bergkamp e Henry, juntos e misturados traduziam a essência da filosofia de jogo de Wenger. O Arsenal foi ali, mais do que nunca, Arsène. Um time de contra-ataques arrebatadores. Que, de qualquer lugar do campo - principalmente se o gramado fosse o de Highbury Park -, conseguia chegar dentro da área adversária em cerca de meia dúzia de toques na esfera. Com tal performance encantadora, não importaria (ou pelo menos não deveria importar) se o time era campeão ou não. Mas os deuses da bola premiaram aquele maravilhoso plantel com o título invicto na mais difícil competição no formato de pontos corridos. E marcou-se uma Era.

No esporte em geral e no futebol em particular, vitórias, empates e derrotas são ocorrências difíceis de prever. Veja por exemplo as páginas de apostas: a tendência é o indivíduo, por melhor informado que seja, perder dinheiro em vez de ganhar. A banca se favorece da imprevisibilidade. Do contrário, ser um apostador de favoritos equivaleria a um investimento em renda fixa. Não é. Longe de ser.

Infelizmente, muitos torcedores de diversos clubes (afirmo com segurança de que estejamos nos referindo à esmagadora maioria) preferem um time que "jogue feio para vencer" do que uma equipe treinada para "jogar bonito". Evidentemente, a feiúra ou a beleza de um estilo de jogo não são garantias de que o resultado será positivo ou negativo. E se o futebol tem algum valor enquanto entretenimento, é obrigação do fã de esporte valorizar a filosofia por trás de um trabalho técnico e tático. E a filosofia de jogo implementada por Wenger no Arsenal é uma bênção ao esporte mais popular deste planeta que orbita ao redor do sol.

Sem Wenger, o mundo da bola perderá bastante de sua luz. Espero e torço para que o anúncio de sua despedida do Arsenal não seja o sinônimo de uma aposentadoria precoce. Mas, independentemente de para onde irá o professor, já lamento pela seperação entre Arsène e Arsenal.

Tirando A R S È N E do A R S E N A L, restará ao clube somente A L. Algo que não sabemos exatamente o que é. Na melhor das hipóteses, será um legado filosófico e procedimental de jogar futebol com a beleza que nos acostumamos a ver ao longo dos últimos vinte e dois anos. E, no pior dos cenários, estaria o Arsenal rumando para se tornar mais um clube sedento meramente pelo resultado. Que talvez conquiste o troféu que lhe falta. Mas que corre o risco de cair na vala comum de tudo aquilo que é perecível. Coisa que uma ideologia jamais será. Pois esta é imortal. Assim como Wenger, a quem ofereço respeito e reverência.

E encerro com as palavras dele:
Para todos os que amam o Arsenal, tomem conta dos valores do clube. O meu amor e apoio para sempre.

Obrigado!
Busto de Arsène Wenger no estádio Emirates: toda homenagem é insuficiente para a histórica trajetória do francês no clube.

domingo, 8 de abril de 2018

Daria Um Filme: Nos Acréscimos E Nos Pênaltis, Botafogo Vence Vasco E É Campeão Estadual

Alan Ball, Cameron Crowe, Julian Fellowes, Pedro Almodóvar, Sofia Coppola, Charlie Kaufman, Paul Haggis, Bobby Moresco, Michael Arndt, Diablo Cody e Dustin Lance Black.

Vou parar a lista em onze nomes, que é a quantidade de elementos que formam  um time de futebol. Todos aqueles indivíduos mencionados são  roteiristas vencedores do Oscar, prêmio máximo conferido pela indústria cinematográfica.

Vasco e Botafogo, pela final  no Campeonato Estadual 2018, se fosse filmado sem qualquer edição, daria um Oscar de melhor roteiro original para o documentarista que se apropriasse da obra escrita por Deus e roteirizada pelos deuses da bola. Um final impecável: expulsão nos acréscimos, gol no último lance (não é força de expressão, foi  no último lance mesmo) e triunfo definitivo nas cobranças de pênaltis.

Curiosamente, os três personagens citados são os três estrangeiros do cinema. Digo, do Botafogo.

Primeiro, Leo Valencia, meio-campista chileno que recebeu o cartão vermelho aos quarenta e oito minutos do segundo tempo de um jogo que parecia seguir ao zero a zero mesmo que fosse jogado por mais duas horas. Mas mal poderíamos esperar pelos próximos dois minutos...

Depois, Joel Carli, zagueiro argentino que se aventurou de atacante na necessidade de sua equipe marcar um gol. A bola o encontrou e ele a direcionou para a rede. E foi comemorar com o grande público, uma platéia que não caberia em nenhuma sala de reprodução audiovisual e que fez o próprio Maracanã parecer pequeno - os botafoguenses aplaudiam de pé, gritavam a plenos pulmões e festejavam efusivamente o gol que levaria o confronto às penalidades.

Finalmente, Gatito Fernández, goleiro paraguaio que teve em 2017 momentos heróicos na campanha histórica na Copa Libertadores da América. E que reviveu o protagonismo nesse oito de abril de dois mil e dezoito, defendendo duas cobranças e ajudando de maneira decisiva o Botafogo de Futebol e Regatas a ser aquilo que ele é desde 1907: campeão.

E o Oscar de melhor ator vai para... a torcida botafoguense. Por acreditar, até o final, no mais improvável dos roteiros. E por incentivar, desde o início, um elenco que possui limitações. Um filme que muitos alvinegros irão querer assistir de novo.
Elenco do Botafogo posa para a foto antes do jogo derradeiro no Estadual 2018: um campeão que foi herói em cada jogo.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Palmeiras Pinta O Sete Em Taubaté

Num torneio com 128 equipes e que é disputado em cerca de três semanas, muita coisa acontece e muita coisa deixa de acontecer. A Copa São Paulo de Juniores 2018 está em ritmo frenético. Times que se classificaram anteontem jogam hoje para buscar o direito de voltar ao campo depois de amanhã.

Acho a Copinha a dona de um dos calendários mais estúpidos do esporte mundial. Não "apenas" pelos jogos em curto intervalo de tempo, mas também por se tratarem de partidas realizadas sob o sol do meio-dia em pleno verão paulista.

Dito isso, partidas com nível técnico abaixo do potencial são plenamente justificáveis. Só que o Palmeiras passou por cima de tudo isso e deu um espetáculo diante do Taubaté. O placar de sete a zero (seis desses gols foram anotados após o intervalo) é mero reflexo da superioridade alviverde. Uma superioridade daquelas de quem supera adversário, sol, gramado, calendário. Um time com vocação ofensiva e muita facilidade de alternar os mecanismos de transição ao ataque. Equipe que envolve o oponente tocando a bola e impondo velocidade. Candidata ao título e, principalmente, a ofertar jovens de muita qualidade ao futebol profissional. Futebol profissional este que não apresenta um calendário dos mais humanos mas que, pelo menos, não é tão cruel quanto esse sub-20. Se me dissessem que o regulamento foi proposto pelo PSDB e sancionado pelo Michel Temer, eu acreditaria.
Alan Guimarães e Yan comemoram: Palmeiras pintou o 7 em Taubaté. Foto: Agência Palmeiras.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Cuidado, O Tubarão Vai Te Pegar!

Janeiro é um período especial não somente por marcar o início de um novo ano. No calendário futebolístico, este mês abraça a competição sub-20 mais atrativa do Brasil, que é a Copa São Paulo de Futebol Júnior.

Hoje, na cidade de Marília, Tubarão e Fluminense entraram em campo para partida válida pela segunda rodada na fase de grupos - o clube catarinense havia estreado com derrota (4a3 para o Marília) enquanto o Tricolor das Laranjeiras já somava três pontos na tabela de classificação (3a0 sobre o Mogi Mirim).

Considerando a tradição da camisa, a quantidade de jogadores revelados ao longo do tempo, a estrutura na base, e tantos outros fatores, o favorito ao jogo só poderia ser o Flu. E o Flu abriu o placar no início, dando a impressão de que encaminharia a vitória com relativa naturalidade.

Mas o time carioca não contava com a astúcia do Peixe. Bem distribuído pelo oceano, digo, pelo gramado, o Tubarão conseguia alcançar o último terço de campo em jogadas bem tramadas que exploravam os flancos e causavam dificuldades aos defensores oponentes. Israel Júnior esbanjava habilidade e era a figura mais ativa no campo de ataque catarinense. E eis que saiu o gol de empate: o próprio Israel Júnior recebeu em velocidade, arrumou com um toque de qualidade, avançou e chutou com categoria para desviar a bola da rota do goleiro Heitor.

O segundo tempo era promissor, pois ambos os times mostraram qualidades ofensivas que deixavam a partida bastante aberta. E se o tubarão é o senhor dos mares, o Tubarão se mostrou dono de Mar-ília: jogando pra cima, impondo velocidade e rodando a bola, a equipe virou o jogo em belíssima finalização de Luciano. Mais tarde, ficou com um jogador a mais quando Alex foi expulso (poderia e deveria ter sido expulso minutos antes, por cotovelada que passara impune).

E o Tubarão, tal qual um legítimo predador, sacramentou a vitória em cobrança de pênalti no canto esquerdo. Naquele momento, o time de Santa Catarina adentrava na zona de classificação para a próxima fase, mas um gol do Fluminense nos acréscimos colocou os cariocas em melhor situação no saldo. Definições somente na rodada derradeira. Quem andar na prancha, já sabe: cuidado, o Tubarão vai te pegar!
Bruce, do filme Procurando Nemo: "peixes são amigos, não comida". O Tubarão hoje devorou o Pó-de-arroz.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo D

Há três sextas-feiras, foi realizado o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Em postagens anteriores, versamos sobre o grupo A, o grupo B e o grupo C. Vamos, nessa publicação, analisar o grupo D. Para muitos, trata-se de uma das chaves mais fortes do torneio: são três seleções acostumadas ao Mundial e uma estreante que foi a sensação na última Eurocopa.

Grupo D: Argentina, Islândia, Croácia e Nigéria.

Argentina

Se por um lado é verdade que os argentinos quase ficaram de fora da Copa 2018 (contaram com a genialidade de Lionel Messi na rodada derradeira nas Eliminatórias Sul-Americanas para virarem o jogo diante do Equador, em Quito), por outro, é inegável que a seleção comandada por Jorge Sampaoli tem potencial para chegar a mais uma final de mundial.
Argentina: 4ª colocada no ranqueamento da FIFA.

Encontrar um padrão tático talvez seja o maior desafio do ótimo técnico argentino. É desejo de todo amante do futebol arte ver uma seleção dessa enorme qualidade jogando com a fluidez daquela Universidad de Chile que goleou o Flamengo e que encantou a América, ou daquela seleção chilena que rodava a bola de maneira envolvente, independentemente de quem fosse o adversário.

Messi e Javier Mascherano são os líderes de um grupo machucado com tantos "quases". Mas que podem ter, exatamente nessas feridas aparentemente cicatrizadas, um excepcional recurso profilático para novas quedas. Desde a estréia com a empolgada Islândia, a trajetória deverá ser caracterizada pelo esforço coletivo de conseguir jogar um futebol consistente.

O ponto de equilíbrio a ser encontrado talvez gire em torno da solidez dos tempos de Alejandro Sabella com a inventividade típica dos times de Sampaoli. Achando essa "fórmula mágica" e conseguindo manter a cabeça inabalável pelas frustrações recentes, é possível que o país do tango consiga uma trilha sonora mais alegre em solo russo.

Islândia

Líder da chave que tinha a Croácia (olha a coincidência), a Islândia chega embalada para a sua primeira Copa do Mundo, afinal, a menor nação da história das Copas vem de uma Euro-2016 memorável e de uma Eliminatória com campanha maiúscula: sete vitórias, um empate e duas derrotas, com direito a 100% de aproveitamento em seus domínios territoriais. Fora de casa, empatou com a Ucrânia, venceu Kosovo e goleou a Turquia, tendo sido superada somente por croatas e finlandeses.

Islândia: 22ª colocada no ranqueamento da FIFA.
A contribuição de Sigurðsson é notável tanto pelo desenvolvimento do jogo quanto pelos números: autor de quatro gols e três assistências nas Eliminatórias Européias, o ótimo meia do Everton (com passagem marcante pelo Swansea City) participou diretamente de quase metade dos gols da equipe (sete de dezesseis). Na última rodada, quando a vitória por 2a0 sobre o Kosovo em Reykjavik selou a classificação direta, foi o camisa 10 quem marcou o primeiro gol e deu o passe para Guðmunds­son anotar o segundo.

Se Sigurðsson será personagem a atrair atenção dentro de campo, outra grande atração islandesa no Mundial será a presença de sua apaixonada e apaixonante torcida nas arquibancadas: as cidades de Moscou, Volgogrado e Rostov serão agraciadas com a presença desse pessoal barulhento e festeiro na primeira fase. E, se tudo der certo para a equipe e seus adeptos, os vikings poderão desembarcar em outras sedes na seqüência da competição.

Croácia

Se no passado não muito distante a Croácia encantou o mundo com jogadores como Zvonimir Boban (titular no meu time de botão) e Davor Suker (goleador naquela Copa de 1998), hoje a seleção do país também está muito bem servida no setor de criação e de ataque: Modric, Rakitic, Perisic e Mandzukic são jogadores de ponta no futebol mundial e capazes de resolver partidas em um lance individual.

Croácia: 17ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Então, com um time dessa qualidade ofensiva, podemos cravar a Croácia na próxima fase? Não. A qualidade técnica também existia em demasia no Mundial de 2014, mas a realidade é que os croatas caíram em plena fase de grupos naquela oportunidade, ficando atrás de Brasil e México, tendo vencido somente Camarões. A chave de 2018 é de uma força similar daquela. Talvez o maior ganho de lá para cá esteja nos quatro anos de entrosamento somado, pois a espinha dorsal do time comandado por Zlatko Dalic foi inteligentemente sustentada.

Dona da melhor campanha como visitante em sua chave de Eliminatórias (nove pontos em cinco jogos, incluindo a vitória por 2a0 em Kiev no confronto direto com a Ucrânia na última rodada), a Croácia teve vida tranqüila na Repescagem, confirmando a vaga na Copa após golear em casa e empatar fora com a Grécia. Será, acredito, o setor de meio-campo o grande termômetro da seleção da camisa xadrez no Mundial: se as feras Modric e Rakitic renderem, meio caminho andado. Se Perisic estiver inspirado e o centroavante Mandzukic encontrar aquela eficiência do auge de sua carreira, aí bastará a defesa saber se postar para afirmar com todas as letras que o feito de 1998 poderá ser novamente alcançado.

Nigéria

Líder e invicta, com o ataque mais efetivo e a defesa menos vazada num grupo que tinha Zâmbia, Camarões e Argélia, a Nigéria chega a mais uma Copa do Mundo e a mais um "grupo da Argentina".

Nigéria: 50ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Podemos - e devemos - esperar boas coisas de uma seleção com Moses, Obi-Mikel, Iwobi, Iheanacho, Musa e companhia. Os 4a2 de virada sobre a Argentina em Krasnodar foram impactantes, mesmo se tratando de um amistoso.

Naquela partida, o alemão Gernot Rohr (passagens por Gabão, Níger e Burkina Fasso) escalou a equipe numa espécie de 5-3-2 (3-5-2, se consideramos o avanço dos extremos da última linha de defesa). Formação diferente, por exemplo, do 4-5-1 usado nas Eliminatórias durante a vitória por 1a0 sobre Zâmbia, que garantiu a classificação à Copa. Importante observar que, neste jogo, Moses atuou. Diante dos argentinos, não. E Moses, mesmo jogando na meia direita, foi o goleador das Super Águias nas Eliminatórias.

A Copa das Nações Africanas, que começa em janeiro, poderá mostrar se Rohr tem preferência por algum esquema tático específico ou se estuda trabalhar com alternâncias para surpreender os adversários. Com a sua boa rodagem no futebol africano, o treinador alemão deve ter em mente qual é o seu maior desafio: fortalecer e equilibrar a defesa. E isso deve ser feito, necessariamente, sem perder a essência do que há de melhor nas seleções daquele continente, que é a agilidade em encontrar os espaços seja com o drible, seja com a velocidade, seja com as duas coisas juntas e misturadas. E se tem uma seleção da África que mexe com o imaginário popular "esses podem aprontar", essa seleção é precisamente a Nigéria. Okocha, Ikpeba, Finidi, Amokachi, Amunike e companhia não me deixam mentir...

domingo, 17 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo C

Foi realizado no dia primeiro de dezembro o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Analisamos o grupo A e também o grupo B. Chegou a vez de dar alguns pitacos sobre o grupo C. Chave que reúne três seleções entre as doze primeiras do mundo na mais recente divulgação do ranqueamento da FIFA.

Grupo C: França, Austrália, Peru e Dinamarca.

França

Didier Deschamps, capitão da seleção campeã mundial em 1998, conta com uma geração especial. São muitos jogadores talentosos e que estão em ascensão nas suas carreiras. Além desse "material humano" qualificado, a França vai ao Mundial com a credencial de ter sido vice-campeã continental em 2016, numa campanha que, em alguns momentos, comprovou a qualidade técnica da equipe.

França: 9ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Talvez o maior desafio do treinador seja saber manejar a jovialidade do elenco. Mbappé (18 anos), Coman (21) e Martial (22) são alguns dos nomes mais badalados na atualidade. E pra quem acha pouco, o potente setor ofensivo dos Bleus conta também com atletas do nível de Giroud, Griezmann e Lacazette. Ou seja, dá para montar diversas combinações de respeito no ataque francês.

A campanha nas Eliminatórias foi sólida: sete vitórias, dois empates e somente uma derrota num grupo que tinha a Suécia e a Holanda como principais rivais. Destaques para as vitórias sobre a Laranja: 1a0, em Amsterdã, e 4a0, em Paris.

Os dezoito gols azuis foram relativamente bem distribuídos: Giroud e Griezmann anotaram quatro; Gameiro, Lemar, Payet e Pogba marcaram duas vezes cada; Matuidi e Mbappé fizeram um. A defesa, aparentemente cada vez mais consistente, cedeu seis gols e foi a menos vazada na chave. Se Deschamps conseguir o ponto de equilíbrio (a meu ver, passa necessariamente pela interação de Matuidi e Pogba entre a marcação e a transição), não há limites para a França nessa Copa. É daquelas seleções que darão gosto de ver jogar.

Austrália

Do relativo amadorismo ao hábito de jogar mundiais: a Rússia-2018 será a quarta Copa do Mundo consecutiva da Austrália, que até então só havia participado em 1974. Nessa caminhada dos Socceros, o passo (leia-se salto de canguru) mais ousado foi possivelmente a filiação à Federação Asiática. Encontraram uma eliminatória mais difícil que a da Oceania mas de uma dificuldade acessível - e mais do que isso, capaz de impulsionar a seleção a um nível mais alto e que lhe trouxesse alguma perspectiva de competir diante de seleções mais tradicionais.

Austrália: 39ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Não havendo nenhum nome destacável na nova geração, a realidade é que os australianos têm suas esperanças majoritariamente depositadas nos veteranos Jedinak (meio-campista capitão da equipe aos 33 anos de idade) e Tim Cahill (atacante, 38, e maior goleador na história da seleção com 50 gols).

Tomi Juric, um dos goleadores nas Eliminatórias Asiáticas com cinco gols, atua no futebol suíço e foi campeão na Liga dos Campeões da Ásia em 2014, quando vestia a camisa do Western Sidney Wanderers. Mathew Leckie, meio-campista autor de três gols e duas assistências nas mesmas eliminatórias, atua no Hertha Berlin, estando em sua sétima temporada no futebol alemão. E aí você pergunta: "beleza, quem desses daí resolveu as coisas na repescagem com a seleção de Honduras"? Resposta: nenhum deles, mas o trintão Jedinak, que marcou todos os três gols nos 3a1 em Sydney (a partida de ida havia terminado 0a0).

Peru

36 anos depois, o Peru está de volta a uma Copa do Mundo. Com tantos os personagens que compuseram esse roteiro cinematográfico que terá suas próximas locações em território russo, há um protagonista a ser enaltecido: o técnico argentino Ricardo Gareca.

Peru: 11ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Uma campanha consistente na Copa América. Uma surpreendente arrancada nas Eliminatórias Sul-Americanas. Uma partida fantástica no jogo de volta na Repescagem. Desde fevereiro de 2015, quando assumiu a seleção peruana após breve passagem pelo Palmeiras, o quatro vezes campeão argentino com o Vélez Sarsfield vem fazendo um trabalho excepcional com La Blanquirroja.

O cerebral Cueva, principal articulador de jogadas, tem sua tarefa facilitada graças às muitas opções de aproximação tanto pelo centro com Flores e Ruidíaz, quanto pelas beiradas - Advíncula e Polo pela direita, Trauco e Farfán pela esquerda. É um time que se movimenta bastante, que esbanja entrosamento e que "não aceita" a marcação adversária, sabendo dela se desvencilhar.

O primeiro tempo de partida com a Nova Zelândia, no estádio Nacional de Lima, foi uma aula tática. Com um detalhe: estava ausente o principal nome do futebol peruano, Guerrero, suspenso por uso de substância proibida. O atacante se defende e mantém esperanças de ser inocentado a tempo de reverter a ausência no Mundial (a atual punição de banimento por um ano impede sua participação na próxima Copa). Mas, Gareca conseguiu montar um time que não dependerá de Guerrero para jogar com classe e estilo. A torcida pela presença de Guerrero é mais por uma questão de justiça (a dopagem foi provavelmente por contaminação) do que por necessidade técnica/tática da equipe. E teria, a meu ver, um efeito muito mais moral do que esportivo.

Invicta há dez partidas, a seleção do Peru terá no jogo de estréia um confronto fundamental em suas pretensões no Mundial: a Dinamarca, em dezesseis de junho. Considerando o favoritismo francês e o fato da Austrália ser o adversário menos qualificado no grupo, essa partida é chave. E tenho grandes expectativas de que será um jogaço.

Dinamarca

Se alguém tinha alguma dúvida sobre as capacidades da seleção dinamarquesas, elas foram
suprimidas no jogo derradeiro rumo à Copa: a partida de volta com a Irlanda, pela Repescagem Européia. Após o 0a0 em Copenhaguen, a equipe nórdica se viu atrás no marcador já no sexto minuto em Dublin. E, de virada, aplicou uma goleada de 5a1, com direito a três gols do craque Christian Eriksen.

Dinamarca: 12ª colocada no ranqueamento da FIFA.
E então, dá pra cravar que seja favorita à "segunda vaga" na chave? Não, não dá. Não dá porque fica difícil saber se veremos uma Dinamarca que perde dentro de casa para Montenegro ou uma Dinamarca que aplica 4a0 na Polônia (sim, a única derrota polonesa nas Eliminatórias Européias foi uma goleada de quatro a zero em Copenhaguen). A certeza que fica é que a Dinamarca tem condições de apresentar um bom futebol, restando observar se o equilibrado sistema 4-5-1 do norueguês Åge Fridtjof Hareide será mais ofensivo ou pragmático. Se Nicklas Bendtner será opção para o decorrer do jogo ou titular do time, também é questão incerta. Será dada preferência a um homem de referência dentro da área? A um jogador de mais mobilidade? Poderá se formar uma dupla de frente incluindo ambas as características e teoricamente diminuindo a necessidade de Eriksen se apresentar como finalizador?

Seja como for, por mais que Eriksen seja capaz de decidir partidas (ele marcou oito gols e deu três assistências na fase de grupos nas Eliminatórias Européias, participando diretamente de mais da metade dos vinte gols dinamarqueses), é importante ter em mente que, na Copa, é mais difícil uma andorinha sozinha fazer verão. Se bem que será verão na Rússia...

domingo, 3 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo B

Foi realizado anteontem o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Já fizemos uma análise referente ao grupo A. Vamos, agora, tratar do grupo B. É o grupo que vai proporcionar ao amante do futebol uma primeira rodada reunindo as melhores defesas da África e da Ásia e, ainda, o clássico ibérico (simplesmente os dois últimos campeões europeus).

Grupo B: Portugal, Espanha, Marrocos e Irã.

Portugal

Atual campeão europeu, o selecionado português fez uma eliminatória firme: venceu nove dos dez jogos disputados. Sua única derrota foi na primeira rodada, na Basiléia, para a Suíça, por 2a0. Resultado que foi devolvido na jornada derradeira, em Lisboa.

Portugal: 3ª no ranqueamento da FIFA.
Dos 32 gols anotados nas Eliminatórias Européias, 24 saíram da dupla Cristiano Ronaldo (vice-goleador no torneio, com 15 tentos) e André Silva (9 gols marcados). Mas a equipe de Fernando Santos oferece algo mais que esses dois decisivos jogadores. Principalmente no setor de meio-campo: o talento e a juventude de Bernardo Silva (23 anos) e João Mário (24) proporcionam uma transição eficiente ao ataque. A mobilidade e precisão de ambos permitirá mescladas táticas numa interação onde o próprio Cristiano poderia recuar e avançar para promover triangulações.

Na defesa, a experiência dos 34 anos de Pepe traz a certeza de muita combatividade e a dúvida se o ex-defensor do Real Madrid conseguirá manter um autocontrole psicológico para não desferir cenas tão rotineiras em sua carreira.

A partida inaugural dos lusitanos será o clássico ibérico diante da Espanha. São duas seleções que se encontraram nas oitavas-de-final na Copa do Mundo 2010. De lá para cá, entre as diversas mudanças que aconteceram, pelo menos uma coisa conserva similaridade: a rivalidade. Tem tudo para ser um grande jogo. Na seqüência, Portugal enfrenta Marrocos e Irã. Fernando Santos precisará preparar sua equipe para pelo menos dois cenários opostos: o de saber vigiar a posse de bola adversária (provável desenho diante dos espanhóis) e o de saber impôr seu jogo (tudo leva a crer que marroquinos e iranianos tratarão, prioritariamente, de se defender).

Espanha

Seleção outrora rotulada (injustamente) de "amarelona", a Espanha conquistou o respeito dos críticos (e até dos "modinhas") de 2008 para cá, reforçando suas qualidades com a inserção curricular de dois títulos continentais e um mundial. Hoje, mesmo após cair na fase de grupos em 2014, é tida como uma das favoritas ao título na Rússia. E não é por menos: Julen Lopetegui Argote vem se mostrando um ótimo sucessor dos trabalhos implementados e desenvolvidos por José Luis Aragones Suárez Martínez e Vicente del Bosque Junior. A filosofia do toque de bola permanece forte e com algumas adaptações que a colocam bastante encaixadas nas mudanças que o futebol trouxe - algumas dessas mudanças foram desencadeadas exatamente na busca por um antídoto ao imponente e vitorioso jogo espanhol.
Espanha: 6ª colocada no ranqueamento da FIFA.

A exitosa campanha de nove vitórias e um empate (1a1 com a Itália, em Torino) teve os impressionantes números de trinta e seis gols marcados e três concedidos - a Espanha goleou todos os adversários de sua chave pelo menos uma vez.

Isco, Diego Costa, Álvaro Morata e David Silva anotaram cinco gols cada, sendo que este último ainda contribuiu com quatro assistências. Mas o motor, o cérebro, o ponto de equilíbrio dessa seleção chama-se Andrés Iniesta. Aos 33 anos de idade, o exímio meio-campista lidera o Barcelona e a seleção espanhola com sua visão e distribuição de jogo singulares. Teve a felicidade de marcar o gol histórico na final da Copa do Mundo de 2014 e felicita o amante do futebol com sua presença dentro de campo. Para quem não viu Zidane, aproveite cada oportunidade de assistir Iniesta. Não sabemos quando aparecerá outro que faça-nos lembrar esses dois.

A estréia com Portugal, a segunda rodada diante do Irã e a terceira com o Marrocos serão testes dos mais interessantes para a Espanha, pois estará enfrentando três seleções com ótimos números defensivos, cada qual em seu respectivo continente.

Marrocos

Com a credencial de quem não sofreu um único gol na fase final nas Eliminatórias Africanas, a seleção marroquina tem em sua defesa o que pode ser a chave para surpreender nesse grupo B. Nem a Costa do Marfim de Gervinho, nem o Gabão de Aubameyang, nem muito menos a seleção de Mali conseguiu vazá-los. Marrocos chegou ao Mundial com três vitórias e três empates (leia-se 0a0), com onze gols marcados - quatro deles por Khalid Boutaïb, atacante nascido na França que recentemente trocou o futebol francês pelo turco.

Marrocos: 40ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Para servir Boutaïb em particular e os marroquinos em geral estão Nordin Amrabat (atacante do espanhol Leganes) e Mbark Boussoufa (meio-campista holandês de nascimento e que atua no futebol dos Emirados Árabes Unidos) - cada um deles deu três assistências e participaram, portanto, de mais da metade dos gols de Marrocos na fase final.

Mas como explicar tamanho sucesso - principalmente defensivo - da equipe comandada pelo francês Hervé Renard? Um bom exemplo é olhar para o desenho tático na partida decisiva diante da Costa do Marfim de Marc Wilmots, vencida pelos visitantes por 2a0 e tendo permitido que os Elefantes acertassem somente um chute na direção do gol defendido por Munir. Nessa partida, cujos gols foram anotados pelo lateral-direito Dirar e pelo zagueiro Benatia, foi montado um 4-3-3 que espelhava a formação oponente. Hakim Ziyech, meio-campista nascido na Holanda 24 anos atrás, atuou pelo lado direito do ataque mesmo sendo canhoto, similar ao que a Holanda costuma fazer com Arjen Robben. Inclusive, foi dele o passe para o primeiro gol. Auxiliando por aquele setor, o "garçom" Boussoufa (assistente no lance do segundo gol), que coincidentemente é seu compatriota tanto de nascimento quanto de naturalização. Juntos, criaram duas oportunidades e finalizaram quatro vezes. No flanco oposto, Amrabat e Belhanda contribuíram com um total de sete desarmes no jogo, ajudando a conter as investidas de Aurier, Fofana, Cornet e Zaha.

Se esse sistema vai ser repetido e se vai funcionar diante de Irã, Portugal e Espanha, é preciso aguardar. O desempenho da equipe na Copa das Nações Africanas, que começa em janeiro e tem Marrocos no grupo A (com Mauritânia, Guiné e Sudão) poderá esboçar o que será da seleção de Renard na Rússia. Independentemente disso, é prudente, no mínimo, respeitá-los.

Irã

E por falar em defesas... A seleção iraniana "sobrou" nas Eliminatórias Asiáticas. Liderou com folga e garantiu antecipadamente uma vaga no Mundial 2018, mesmo dividindo grupo com a tradicional Coréia do Sul, que teve de se contentar com o segundo lugar. A campanha invicta iraniana foi de seis vitórias e quatro empates, com dez gols marcados e dois concedidos. Mas um detalhe: esses dois gols aconteceram na última rodada, diante da valente Síria, quando o Irã já era inalcançável na liderança.

Irã: 32ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Na campanha, Sardar Azmoun, atacante de 22 anos que conhece de perto o futebol russo (atua no Rubin Kazan e já vestiu também a camisa do Rostov), foi o goleador da equipe, com quatro gols anotados. Inclua-se aí o gol único na vitória por 1a0 sobre a Coréia do Sul, em Teerã, em 11.10.2016. Outro acostumado a balançar as redes é Mehdi Taremi, atacante do Persepolis que marcou três vezes nas Eliminatórias e "escolheu" momentos decisivos para deixar sua contribuição: na vitória por 1a0 sobre o Catar, fora de casa, e no triunfo sobre a China, também com gol solitário (além de sacramentar os três pontos com o segundo gol nos 2a0 sobre o Uzbequistão). Liderando as assistências quem aparece é o experiente Masoud Shojaei Soleimani, que aos 33 anos atua no grego Panionios, após passagens pela liga do Catar e pelo futebol espanhol, onde atuou por longa data no Osasuña antes de ir para o Las Palmas.

Em amistoso realizado com a Rússia, em outubro, Azmoun marcou o gol que abriu o placar em Kazan após assistência de Taremi. O jogo terminou 1a1 e, nessa oportunidade, Soleimani não foi relacionado pelo professor português Carlos Queiroz, moçambicano de nascimento e que já dirigiu os galácticos do Real Madrid e também a seleção portuguesa. Se contra a Rússia o esquema adotado foi o 4-1-4-1, é muito provável que os esquemas diante de espanhóis e portugueses esbanjem cautela. Mas, antes de enfrentá-los, há o jogo-chave diante de Marrocos. Se seguir essa linha sem buscar uma alternativa, temos aí um confronto condenado ao 0a0...

sábado, 2 de dezembro de 2017

Análise Da Copa Do Mundo 2018 - Grupo A

Foi realizado ontem o sorteio da fase de grupos para a Copa do Mundo 2018. Vamos iniciar agora uma análise de cada chave.

Nessa postagem, esmiuçaremos o grupo A, aquele que tem a anfitriã do Mundial como cabeça-de-chave e que, para muitos, é o grupo menos forte tecnicamente. Para se ter uma idéia, a partida de abertura da Copa será entre as duas seleções de pior ranqueamento no torneio. Seria coincidência? Tomara que sim. Basta de maracutaias no mundo do futebol...

Grupo A: Rússia, Arábia Saudita, Egito e Uruguai.

Rússia

Única seleção classificada para a Copa sem precisar jogar as repescagens (habitual privilégio do país-sede), a Rússia, apesar de todas as suas limitações, caiu numa chave que lhe dá o direito e o dever de sonhar com uma vaga nas oitavas.

Rússia: 65ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Com exceção do ataque, a seleção comandada por Stanislav Cherchesov possui jogadores com pelo menos trinta anos de idade em todos os setores do campo. E dois deles são nomes relevantes no cenário europeu: Igor Akinfeev (31), eterno goleiro do CSKA Moscou, e Yuri Zhirkov (34), jogador polivalente de vasta experiência, com direito a passagem pelo Chelsea de Roman Abramovich, e atualmente no Zenit Saint Petersburg.

A equipe conta em seu elenco com a presença do lateral brasileiro Mário Fernandes (27), que, antes de trocar o Grêmio pelo CSKA Moscou, recusou uma convocação para a seleção brasileira de Mano Menezes.

Mas é nos pés do ambidestro Alan Dzagoev (27) que residem as maiores esperanças da torcida russa. O meio-campista do CSKA Moscou, parceiro de longa data de Akinfeev, foi nomeado para a equipe do Campeonato Europeu Sub-21 de 2013, sendo premiado ao lado de nomes como o alemão Holtby, o italiano Verratti e os espanhóis Illarramendi, Isco, Koke e Thiago Alcântara.

É fato que trata-se de uma Rússia carente de um articulador mais hábil - Andrey Arshavin seria um nome encaixadíssimo para a função, mas questões diversas o afastaram do seu potencial. O ataque também não tem um personagem que imponha maior respeito às defesas adversárias. Mas o fator casa, a experiência de alguns jogadores e a "sorte" de cair numa chave acessível permitem vislumbrar uma classificação. Classificação essa que passa necessariamente por um resultado positivo na estréia diante da seleção saudita, adversária mais frágil do grupo. Na segunda rodada, o confronto será diante do sólido jogo coletivo egípcio, o que provavelmente trará complicações à seleção russa. E o fechamento é com o Uruguai, em tese a maior força da chave - seria bom não depender de uma vitória nesse jogo, a não ser que os cascudos sul-americanos já entrassem em campo com a vaga assegurada.

Em entrevista após o sorteio, Vicente del Bosque, técnico campeão do mundo com a Espanha em 2010, disse sobre a possibilidade de os espanhóis enfrentarem os russos nas oitavas: "a Rússia joga como anfitriã e isso imprime caráter".

Arábia Saudita

Classificada ao Mundial após conquistar o segundo lugar no hexagonal final pelas Eliminatórias Asiáticas (terminando atrás somente do Japão e a frente de Austrália, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Tailândia), a Arábia Saudita é uma incógnita. Não apenas para mim, que desconheço o futebol apresentado pela seleção, mas também para os adversários, que terão de estudar uma equipe cujos jogadores atuam basicamente em clubes longe dos holofotes hegemônicos. E as incertezas estão provavelmente a pairar sobre os próprios sauditas: afinal, o que esperar de uma seleção que era treinada pelo romeno Aurelian Cosmin Olăroiu na Copa da Ásia, passou aos cuidados do holandês Bert van Marwijk nas Eliminatórias Asiáticas e hoje está sob comando do argentino Juan Antonio Pizzi?

Arábia Saudita: 63ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Particularmente, me causa surpresa a não manutenção do vice-campeão mundial de 2010 no comando tático da equipe saudita. Mas se foi essa a escolha da federação de futebol do país, vida que segue, tanto para Bert quanto para a seleção.

Uma coisa é certa: Pizzi tem como local de nascimento a chave para a Arábia ir adiante: Santa Fé. Ser movido pelo verde da esperança que colore a bandeira da nação pode ser o ingrediente determinante para que os sauditas surpreendam o grupo e o mundo com a classificação. Pizzi, apesar de falhar na empreitada de levar o Chile à Copa, assina a vitoriosa campanha na Copa América Centenário de 2016, com direito a um memorável 7a0 sobre o México de Juan Carlos Osorio na fase quartas-de-final.

Nawaf Shaker Al Abid, meio-campista de 27 anos e multi-campeão com o Al Hilal, figura no topo da lista de goleadores nas Eliminatórias Asiáticas, tendo deixado sua marca cinco vezes (quatro delas cobrando pênaltis). E como nem só de gols e pênaltis convertidos vive o bom jogador de futebol, Nawaf é também o saudita com maior número de assistências naquele torneio, tendo servido por três vezes seus companheiros para chegarem às redes - mesmo número de passes para gol do também meio-campista Taisir Jabir Al Jassim, de 33 anos e igualmente acostumado aos títulos em sua trajetória no Al Ahli.

Agora, fica a expectativa da montagem do elenco que irá à Rússia enfrentar os anfitriões na partida inaugural. Será que Pizzi tentará preparar a equipe com uma formação ofensiva, a exemplo do que fizera com os chilenos? O jogo diante dos russos tem ares de fundamental, inclusive para se ter uma idéia do tamanho da responsabilidade pelo resultado na segunda rodada diante do Uruguai. Lembrando que o Uruguai vem há alguns anos mostrando dificuldades ao enfrentar sistemas fechados que se baseiam em contra-ataques de transição rápida. Na Copa de 2014, sucumbiu diante da Costa Rica mas conseguiu a classificação diante de ingleses e italianos. De lá para cá, a base e o comando tático da Celeste foram conservados. Potencial vantagem para a Arábia de Pizzi, que tem muito material para estudar este adversário. Se tudo der certo e for vontade de Alah, poderá haver bastante coisa em jogo na partida derradeira com o Egito.

Egito

Mohamed é um dos nomes de Maomé, Aquele considerado no islamismo como o mais recente e último profeta do Deus de Abraão. Mohamed também é o nome dos dois maiores jogadores da atual geração egípcia: Elneny, do Arsenal, e Salah, do Liverpool, ambos com 25 anos de idade e que desfilam seus talentos na maior liga de clubes do mundo, dando à seleção um salto de qualidade que a coloca como forte candidata à classificação no acessível grupo A.

Egito: 33ª colocada no ranqueamento da FIFA.
Mohamed Salah foi o único jogador nas Eliminatórias Africanas a marcar cinco gols na fase final, incluindo aí os dois da vitória por 2a1 sobre o Congo (desempatando a partida nos últimos minutos e classificando os egípcios para a Copa). Contribuiu ainda com duas assistências, tendo participado, portanto, de sete dos oito gols do Egito na derradeira etapa das eliminatórias.

Estará em maus lençóis a seleção que se preocupar exclusivamente com Salah. Antes da bola chegar até ele, costuma passar pelos pés de Mohamed Elneny, meio-campista com bom passe e grande visão de jogo. São dois trunfos do argentino Héctor Raúl Cúper, treinador que fez história ao conduzir o Valencia a duas finais de Liga dos Campeões da Europa.

E para quem acredita que é importante contar com alguém de vasta experiência dentro de campo, o Egito tem em seu goleiro alguém que cumpre com louvor esse papel: aos 44 anos de idade (fará o próximo aniversário em janeiro), Essam Kamal Tawfik El Hadary carrega em sua bagagem pessoal um vice-campeonato (2017, no Gabão) e três títulos da Copa Africana de Nações (2010, em Angola; 2008, em Gana; e 2006, dentro de casa).

Há alguns anos, talvez mesmo antes de El Hadary ser goleiro da seleção, pode-se dizer que o Egito trata-se de uma das seleções mais equilibradas de seu continente, marcada pelo sólido jogo coletivo. Hoje, tem incorporado a isso a presença de pelo menos dois atletas acima da média e capazes de decidir partidas. Não há qualquer razão para julgar que essa seleção vá à Rússia apenas fazer número: será um adversário duríssimo tanto para os uruguaios na estréia quanto para os anfitriões na segunda rodada. Já dá para cravar como candidata a surpreender no Mundial.

Uruguai

Aquela camisa que você respeita. Aquela seleção que a história não dá brecha para que a subestimem. Aquela mística que complexifica a discussão da modalidade esportiva denominada futebol. Afinal, com explicar alguns dos sucessos uruguaios a não ser por algum aspecto que transcende o mundo visível?

Uruguai: 21ª no ranqueamento da FIFA.
Luís Suárez e Edinson Cavani formam uma das principais duplas de ataque do futebol mundial. Cada um nas suas características, mas ambos sendo retratados naquele autêntico espírito uruguaio, de se dedicar a cada lance e acreditar em cada situação que a partida lhes oferte.

Sinto falta de um homem de ligação na equipe de Óscar Tabárez. Esse homem seria Lodeiro em 2010. Não funcionou. E, via improvisação, "surgiu" Forlán, que se sagrou um dos destaques na campanha semifinalista da Celeste. Em 2014, Rodríguez não conseguiu nem de longe o mesmo impacto no último terço de gramado. E, de lá para cá, não houve um único nome que tenha emplacado para a função. De Arrascaeta pode vir a ser esse elemento, mas precisará ser desenvolvido por Tabárez. Será, provavelmente, o maior desafio do treinador, que conseguiu montar uma defesa firme (Diego Godín lidera o setor com maestria) e conta com um ataque potencialmente avassalador.

O sorteio acabou sendo generoso com a seleção uruguaia ao ponto de ser inegável haver um favoritismo sul-americano na chave e uma responsabilidade em, pelo menos, obter a classificação às oitavas. Talvez a parte negativa disso tudo seja o fato de que egípcios, sauditas e russos poderão especular o jogo uruguaio e adotar uma postura de contra-ataques, situação com a qual o Uruguai vem apresentando maior dificuldade. Caso conquiste de fato a classificação, é o típico adversário que nem Portugal, nem Espanha, nem ninguém quer enfrentar em uma partida eliminatória. Afinal, é aquela camisa que você respeita...

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Grêmio Vence Lanús Em La Fortaleza E Fatura O Tri Continental

Pela terceira vez na história, o Grêmio é campeão na Copa Libertadores da América.

E a página que se escreve em 2017 há de reservar letras garrafais para figuras como Marcelo Grohe (principalmente pelas duas grandes defesas no primeiro tempo no jogo de ida), Arthur (um gigante diante do Botafogo e nomeado o melhor em campo nessa partida final), Geromel (o "Capitão América") e Luan (o mais bem dotado tecnicamente e autor de um gol desconcertante na decisão).

Também não se pode esquecer do trabalho realizado por Renato Gaúcho. Embora o time tenha oscilado ao longo da temporada, é fato que, nos momentos mais inspirados, o Grêmio jogou a bola mais redonda entre todos os times da Série A nacional. Lembrando que trata-se de um elenco com diversos jogadores que atravessavam momentos de declínio em suas carreiras, mas que Renato abraçou motivacional e esportivamente, como Leonardo Moura (tratado por alguns como "ex-jogador em atividade"), Cortez (alguém lembra que ele já foi convocado para a seleção brasileira?), Fernandinho (de jogador emprestado pelo clube a autor do primeiro gol nessa final em Buenos Aires) e Lucas Barrios (ex-Borussia Dormund e atual campeão da Libertadores).

São muitos elementos que tornam a conquista justa, mostrando que o Tricolor Gaúcho tem força suficiente para voar alto. A meu ver, nem precisaria de um veículo aéreo não tripulado - vulgo drone - para alcançar as alturas. Próxima parada: Emirados Árabes Unidos.

O jogo

Fernandinho celebra o êxito de sua jogada individual. Foto: Reuters.
O primeiro tempo de jogo deu ao torcedor gremista uma realidade que poucos devem ter ousado sonhar em suas noites melhor dormidas. Num contra-ataque após erro do adversário na última linha de defesa, Fernandinho arrancou em velocidade impressionante e concluiu firme para estufar a rede argentina aos vinte e seis minutos e levar ao delírio cerca de cinco mil gremistas no lotado estádio La Fortaleza.

Conseguindo chegar ao campo de ataque com uma rotina e envolvimento maior do que no jogo em Porto Alegre, o Grêmio deixava os donos da casa desconfortáveis na partida. A saída de bola do Lanús, característica marcante no time de Jorge Almirón, mostrava-se falha e até mesmo perigosa para dar mais chances ao adversário recuperar a posse. Tudo isso fruto, também, da postura do Grêmio de não abdicar de uma marcação desde as proximidades da baliza adversária, ao ponto de em plena reposição de linha e fundo serem vistos pelo menos três jogadores cercando a grande área defendida por Esteban Andrada.

Ainda no primeiro tempo, a vantagem, que já era boa, ficou ainda melhor: Luan recebeu no comando de ataque, carregou a bola sem receber um combate mais ativo e esbanjou calma e categoria para concluir o lance numa cavadinha que caprichosamente rumou para o canto direito do gol. 2a0, aos quarenta e um.

Na volta do intervalo, o Lanús cresceu. Não era um crescimento grande o bastante para ameaçar a margem de gols construída pelo time visitante, mas pelo menos serviu para trazer alguma emoção ao jogo: aos vinte e cinco, Jaílson cometeu pênalti na condição de último homem, puxando o adversário que ficaria em totais condições de finalizar. O árbitro paraguaio Enrique Cáceres errou acertando e acertou errando: marcou a penalidade mas não expulsou o infrator, limitando-se a um cartão amarelo que recebeu protestos dos donos da casa. Na cobrança, Sand converteu e isolou-se na lista de goleadores na competição, com nove.

Houve algumas outras chegadas da equipe argentina, mas sem muita contundência. A expulsão de Ramiro aos trinta e sete reacendeu a esperança num novo milagre para um clube que, na semifinal, conseguiu uma virada épica sobre o River Plate, em um cenário similar ao da final com o Grêmio. Mas o Grêmio manteve-se firme. Resistiu, embora tenha se abdicado de atacar como outrora. Talvez estivesse faltando fôlego. Talvez fosse o componente emocional - Renato era visto às lágrimas abraçado com Léo Moura aos quarenta e oito de um jogo que iria até os cinquenta. Deve ser porque, no fundo, eles já sabiam que estavam além dos cinquenta. Estavam na eternidade de uma conquista histórica.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Grohe Salva, Cícero Marca E Grêmio Conquista Vantagem Sobre Lanús

As finais na Copa Libertadores da América 2017 começaram em Porto Alegre e terminarão em Buenos Aires. A julgar pelo equilíbrio visto nessa partida de ida, o título continental tem tudo para ser definido em detalhes no jogo de volta.

O Grêmio tentou ser dominante diante do adversário. Mas a única imponência vista no estádio estava nas arquibancadas, com a festa áudio-visual proporcionada pela fanática torcida tricolor. Dentro de campo, era o Lanús quem demonstrava maior equilíbrio tático e emocional para fazer a bola rodar.

E se o primeiro tempo terminou zero a zero, o maior responsável por isso tem nome e sobrenome: Marcelo Grohe. O goleiro gremista fez duas intervenções importantes, ambas de alto grau de dificuldade, sendo uma em chute cruzado rasteiro no canto direito e outra em cabeceio firme para o chão pelo lado esquerdo.

Na segunda etapa, o volume de jogo dos donos da casa até aumentou, mas a criação de jogadas era escassa. O Grêmio chegava a ser previsível. Até que, dois elementos vindos do banco de reservas, participaram do gol único na partida: após levantamento de Edílson, Jael (que entrara no lugar de um quase inoperante Lucas Barríos) desviou e Cícero (que substituíra Jaílson) conseguiu dar um toque antes da chegada do goleiro Esteban Andrada, encaminhando a redonda para o fundo da rede.

A vitória com gol aos trinta e sete minutos no segundo tempo se confirmou após os mais de cinco minutos de acréscimos. Com direito a reclamação gremista por um suposto pênalti em jogada aérea - pareceu, de fato, ter havido um deslocamento faltoso no lance.

Mas o fato é que o placar não reflete o que foi a partida - a igualdade soaria mais apropriada a julgar o desempenho de ambas as equipes. Bola por bola, achei que os dois finalistas ficaram devendo. Mas o Lanús, principalmente pelo primeiro tempo, mostrou maior organização e proposta de jogo.

Resta, agora, ver quais serão as posturas dos times para o encontro derradeiro, na Argentina. Entre planos de jogo, vôos de drones, palestras motivacionais e algo mais, há fortes indícios de que haverá emoção na decisão. Sem a regra do gol qualificado como critério de desempate, aumenta sensivelmente a probabilidade de uma disputa de pênaltis. Espiemos. Digo, aguardemos.
Sand e Kannemann, com Arthur próximo, disputam o lance: jogo teve muita intensidade. Imagem extraída de FourFourTwo.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

100.000 Visualizações - Valeu, Amantes Do Futebol Arte!

Saudações.

Na semana passada, este blógui alcançou a marca de 100.000 visualizações desde que foi inaugurado em 2010. Uma média de cerca de 14.000 visualizações por ano.

Esta postagem é um agradecimento a cada um que participou direta ou indiretamente desses números. Obrigado!

Daqui a menos de duas semanas, teremos o sorteio dos grupos para Copa do Mundo 2018 e a nossa idéia é elaborar algo relacionado a cada chave para irmos publicando durante o mês de dezembro.

Lembrando que as sugestões de vocês são sempre bem-vindas. Afinal, esse espaço é para os amantes do futebol arte. Cada troca de passe faz a diferença antes da finalização.

Abraços e fiquem com esse golaço de Otero, anotado ontem, no jogo entre Atlético Mineiro e Coritiba.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

36 Anos Depois, Peru Voltará A Jogar Um Mundial

A última vaga para a Copa do Mundo 2018 foi conquistada nessa noite. Noite que se tornou histórica e que decretou o feriado no dia seguinte no Peru. Sim, por decreto presidencial, a população peruana poderá comemorar de fato e de direito esse feito de retornar a um Mundial após 36 anos.

O selecionado de Ricardo Gareca, que já havia feito belas apresentações na Copa América e uma campanha de recuperação nas Eliminatórias Sul-Americanas, mostrou mais uma vez suas virtudes. Desde a escalação com vários jogadores de vocação ofensiva até a própria postura em campo, viu-se um time absolutamente determinado e comprometido a buscar a vitória.

E a vitória foi alcançada. Materializou-se com os gols de Farfán e Ramos, em assistências de Cueva. O primeiro, quando o Peru era soberano na partida. O segundo, em momento fundamental, pois a Nova Zelândia subia de produção e de confiança.

O futebol comemora junto a classificação peruana. Sempre bom ver uma equipe treinada para atacar, liberando os laterais, encostando os meias no ataque, rodando a bola e buscando o gol a todo momento. Um belo trabalho de Gareca que fica eternizado com essa vaga na Copa. Há muitas características no Peru que, infelizmente, não vemos na seleção brasileira. Mas a essência do jogo peruano nada mais é que o DNA dos bons tempos da maior campeã de Copas. O Peru nos representa.
Ramos e companheiros comemoram o segundo gol peruano. Imagem extraída de Diario Correo.