domingo, 26 de março de 2017

Schü-Schürrle Beleza

A atual campeã mundial foi a campo na cidade de Baku, capital do Azerbaijão, e não decepcionou: goleou a seleção da casa por 4a1 dando alguns lampejos daquele time que venceu a Copa do Mundo de 2014. Tudo bem que quatro não é sete, mas a superioridade alemã na tarde de hoje foi incontestável.

Se a equipe comandada pelo ótimo Joachim Löw não conta mais com Lahm, Schweinsteiger, Podolski, Klose e alguns outros grandes talentos, é fato que o elenco ainda possui muita qualidade. Prova disso é ver jogador da grandeza de Mesut Özil começar relacionado entre os suplentes. E foi exatamente um jogador habitualmente escalado na reserva que, de titular desde o início nesse domingo, foi o grande destaque na partida: André Schürrle. Aquele mesmo, autor dos dois últimos gols alemães naquela fatídica semifinal no Mineirão.

O camisa 9, que a bem da verdade jogava a maior parte do tempo como um segundo atacante - Mario Gómez era a referência mais centralizada -, esbanjou eficiência, visão de jogo e posicionamento para ajudar a construir a vitória dos visitantes. Vitória que começou com gol dele: após boa troca de passes (daquelas que a gente conhece também por causa deles), o participativo lateral-esquerdo Jonas Hector serviu Schürrle, que completou para a rede, aos dezoito.

A torcida do Azerbaijão, que celebrava desde antes de o apito inicial e parecia festejar o simples fato de estar recebendo os atuais campeões da Copa, dividindo o gramado do estádio Tofiq Bəhramov adına Respublika (sim, copiei e colei esse nome exótico), foi ao êxtase quando testemunharam o gol de empate: aos trinta, o versátil Ismaiylov passou para Nazarov, que chutou cruzado sem dar possibilidade de defesa para Leno. 1a1 no placar, uma euforia generalizada nas arquibancadas e um momento histórico: a Alemanha estava a onze horas sem ser vazada, tendo sofrido um gol pela última vez em julgo de 2016. De lá para cá, sete jogos inteiros sem ceder um tento sequer aos adversários. Dá-lhe, Azerbaijão! Aliás, quando alguém chegar até você dizendo que "futebol é apenas um jogo" (ou algo do gênero), mostre para esse indivíduo as imagens da comemoração de jogadores e torcedores do Azerbaijão após marcarem o gol de empate diante da Alemanha. Obrigado.

Cinco minutos depois, no entanto, os alemães retomavam a frente no marcador: após vacilo na saída de bola dos donos da casa - e da festa -, Schürrle passou sob medida para Thomas Müller, que concluiu o lance como manda o figurino: passou pelo goleiro com um drible curto e finalizou com um remate rasteiro. Ainda houve tempo e oportunidade para marcar o terceiro antes do intervalo: Joshua Kimmich cruzou e Mario Gómez anotou de cabeça.

No segundo tempo, a intensidade alemã foi menor. Provavelmente devido aos dois gols de margem no placar e, talvez principalmente, à intermitente dedicação do Azerbaijão em competir por todos os lances, em qualquer centímetro quadrado de gramado. O quarto gol saiu aos trinta e cinco: jogando como um nove de fato e de direito (até porque Löw havia trocado Gómez por Özil), Schürrle voltou a desfrutar de passe de Hector para chegar à rede. Uma linda finalização, por sinal.

A Alemanha é soberana em sua chave nas Eliminatórias Européias, e tudo leva a crer que a classificação ao Mundial-2018 seja mera questão de tempo. O Azerbaijão, autor do primeiro gol sofrido pelos alemães no torneio, conserva o sonho num grupo que tem Irlanda do Norte (próximo adversário, novamente em Baku), Noruega, San Marino e República Tcheca. Mas, verdade seja dita, com ou sem vaga na Copa, esses caras estão de parabéns. Na tarde de hoje, provaram que futebol é muito mais que um jogo.
Schürrle foi o nome do jogo: marcou duas vezes (em duas assistências de Hector) e ainda deu o passe para o gol de Müller. Foto: Kirill Kudryavtesv/AFP.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Com Dois Belos Gols E Um Belo Silêncio, Rennes Triunfa No Francês

Tudo começou com um eloqüente minuto de silêncio, em homenagem às vítimas do acidente com o avião que levava diversas pessoas e que virou comoção internacional sobretudo por envolver a delegação da Chapecoense. O estádio Roazhon Park, com milhares de torcedores nas arquibancadas, estava quieto. Dava para ouvir os ventos que iam de encontro aos microfones. Lembranças, lembranças, lembranças. De vidas únicas. E aquela lembrança do quanto a vida é frágil.

Com bola rolando, os donos da casa souberam construir a vitória. Podemos prestar muitos elogios à jogada de Ntep, que abriu a contagem aos oito minutos no segundo tempo: com pedalada estilo Robinho e objetividade estilo Robben, o francês que nasceu em Camarões ajoelhou-se para comemorar o golaço. Foi também de joelhos que muitos ao redor do mundo ficaram, em oração, pelo acidente com aquele avião. Somos seres de emoção.

Nos acréscimos, um golaço de Grosicki consolidou a vitória do Rennes diante do Saint Etienne: pegou bonito na bola e conseguiu dar a ela uma trajetória que passou caprichosamente sobre o goleiro Ruffier, beijando a trave antes de entrar. O camisa dez polonês, que começara o jogo entre os suplentes, não precisou de vinte minutos para mostrar seu talento. E nós, meros mortais, precisaremos de quanto tempo para esquecer a tragédia? Ou, se não esquecê-la, assimilá-la? Enfim, que tenhamos pela vida o carinho e o respeito que ela merece. A vida é um dos mais belos gols do Criador.


domingo, 10 de julho de 2016

Longe De Encantar, Portugal Fatura Inédita Eurocopa

O que seria de Portugal sem Cristiano Ronaldo?

O futebol respondeu essa pergunta hoje: campeão da Eurocopa.

Foi sem seu principal astro e capitão que a seleção portuguesa enfrentou a França durante mais de 80% do tempo de jogo na final em Paris. Esbanjando aplicação tática e força coletiva, os comandados de Fernando Santos foram bem-sucedidos na famigerada estratégia de "jogar por uma bola". Na covarde postura de reagir em vez de propôr, a bola do "golo" saiu no segundo tempo da prorrogação, em chute de Éder, de fora da área.
Éder, que entrou no lugar de Renato Sanches, comemora o gol do título. Foto: Christian Hartmann / Reuters.

Foi justo o título português?

O futebol enquanto esporte e o futebol enquanto arte oferecem respostas distintas para essa indagação.

No sentido da estrita competitividade, Portugal é campeão europeu com justiça. Jogou pelo regulamento. Já no sentido da qualidade do entretenimento, da diversão, do prazer em assistir um jogo desse tão antigo esporte bretão, o título português é de uma injustiça tremenda. Pelo futebol apresentado, poderia ter se despedido na fase de grupos, quando empatou três partidas numa chave onde era apontada como a maior força. Mas viu a Islândia e, principalmente, a Hungria encantarem naquela etapa da competição. A própria Áustria, que perdeu para aquelas seleções, conseguiu conter os lusitanos. Senhoras e senhores de todas as idades, se o primeiro critério de desempate fosse o número de vitórias, Portugal estaria eliminado com a campanha de três empates. Classificou-se com saldo zero. Graças, por exemplo, à goleada da seleção espanhola sobre a Turquia. Ou à vitória francesa sobre a Albânia. Coisas do futebol (e do regulamento).

Passou pela Croácia na prorrogação, em jogo onde viu o adversário criar as maiores chances de gol. Passou pela Polônia nos pênaltis. No tempo regulamentar, somente conseguiu superar o País de Gales, que sucumbiu na ausência de Aaron Ramsey. Mas pior que os placares em si, era o desenvolvimento dos jogos: a seleção portuguesa resumia sua produtividade a sair em velocidade e colocar a bola na área.

Talvez o grande mérito de Portugal tenha sido o de conseguir manter seu nível de jogo sem o seu jogador mais badalado - embora, diga-se, o nível de jogo português não é lá grandes coisas. Prima, isto sim, pela competitividade e pela capacidade de dar à partida uma feição que lhe ofereça condições favoráveis para "brigar" pelo resultado. Não duvido que possa haver uma "inspiração" na Grécia de 2004, um dos maiores traumas de Portugal, e seleção que teve recentemente como treinador o próprio Fernando Santos. Ao futebol, um presente de grego.

Faltou à França o futebol que apresentou em outros momentos no torneio. Os primeiros 45 minutos diante da Islândia, por exemplo, foram mais convincentes que a soma de cada segundo português na Eurocopa inteira. Mas o que fica registrado é o resultado. Brasileiros em geral (incluindo aí parcela majoritária e quase unânime da mídia) eram satisfeitíssimos com o "trabalho" de Dunga. Baseavam-se nos títulos na Copa América, Copa das Confederações e primeiro lugar também nas Eliminatórias. Até cair para a Holanda nas quartas do Mundial. A partir daí, Dunga já não mais prestava. Mas o mundo gira, e se Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari também não prestam mais, chamemos o Dunga de novo. Dessa vez, os resultados não "permitiram" que fosse mantido até uma eventual Copa do Mundo em 2018. Só que o que pouco se aborda é que, no jeito de jogar, a seleção de Dunga ficou na fronteira da mediocridade nas vitórias, nos empates e nas derrotas. Acontece que, nas vitórias, tá tudo bem quanto ao fato de ser medíocre... Enquanto essa cultura do resultado sentenciar que um treinador seja bom ou ruim em função de placares e posições, estaremos fadados a vermos gente afirmar que Portugal mereceu o título. Se mereceu, então, o futebol é que não merece Portugal. Com ou sem Cristiano Ronaldo.

domingo, 3 de julho de 2016

Resumão Das Quartas Na Eurocopa 2016

As quartas-de-final na UEFA Euro 2016 reservaram fortes emoções aos apaixonados por futebol. De surpresas a confirmações de favoritismo, de jogos definidos nos pênaltis a goleada, bastante coisa aconteceu de interessante entre quinta-feira e domingo. Vamos a alguns pitacos.

[1] Polônia 1(3)a(5)1 Portugal.
[1.1] Saiu o primeiro gol de Robert Lewandowski na Eurocopa 2016. Logo no início da partida, ele aproveitou passe de Grosicki em jogada pela esquerda e completou esbanjando aquele oportunismo habitual que é exibido temporada após temporada na Bundesliga.
[1.2] Renato Sanches, jovem talento que será parceiro de Lewandowski no Bayern de Munique, mostrou que está pronto e preparado para ajudar a seleção portuguesa. Marcou o gol de empate após tabela com Nani e, principalmente, se ofereceu à equipe. Demonstra mais senso de coletividade que alguns astros consagrados (sim, isso foi uma indireta - que com esses parênteses se torna direta - ao Cristiano Ronaldo).
[1.3] Desempate por pênaltis é uma coisa que foge completamente da análise pragmática: na definição da classificação portuguesa, eis que o único polonês a desperdiçar a cobrança foi exatamente aquele jogador que tem uma das melhores pontarias da equipe: Blaszczykowski. Grande defesa do goleiro Rui Patrício.
[1.4] Capricho dos deuses do futebol que a cobrança derradeira tenha cabido a Ricardo Quaresma. O tatuado camisa 20, que veio do banco para novamente contribuir, vem fazendo bela competição e dando uma força ofensiva muito útil para abrir a última linha de defesa adversária, principalmente pelos flancos.

[2] País de Gales 3a1 Bélgica.
[2.1] Considerando a diferença de nível técnico entre as equipes (com todo respeito aos galeses, que têm muitas qualidades) e a circunstância do jogo (leia-se o golaço de Nainggolan aos doze minutos para abrir a contagem), País de Gales conseguiu um resultado histórico ao conseguir virar a partida.
[2.2] Curiosamente, em nenhum dos três gols houve participação direta do sempre participativo Gareth Bale. Coube a Aaron Ramsey conduzir a classificação com duas assistências na partida. Sua suspensão a ser cumprida na semifinal terá, sem dúvida, um impacto no time. Será desafiador jogar sem o cerebral camisa 10.
[2.3] A excepcional geração belga merece os elogios que recebe e o que Marc Wilmots vem fazendo frente a esta seleção é algo que não pode ser jogador fora pura e simplesmente devido a uma ou outra eliminação. Deve, isto sim, ser exaltado o esforço de fazer um elenco talentoso jogar de maneira a evidenciar essa capacidade técnica acima da média. Os desfalques na última linha de defesa pesaram, mas talvez sejam os jovens que não funcionaram nesse jogo aqueles que irão suceder os mais experientes. E Wilmots mostra sensatez ao pedir que os garotos sejam poupados de críticas. Hoje, a Bélgica caminha no sentido certo.

[3] Alemanha 1(6)a(5)1 Itália.
[3.1] Embora dominante territorialmente e sendo propositiva na maior parte do tempo, a Alemanha esbarrou na estratégia italiana. Uma estratégia que, diferentemente das oitavas diante da Espanha, zelou muito mais pelo anti-jogo do que por qualquer outra coisa. A Azzurra jogou por menos do que "uma bola". Se pudesse definir a classificação no cara-ou-coroa, provavelmente Antonio Conte se prontificaria a fazê-lo.
[3.2] Inegável que haja mais qualidade na equipe alemã, mas não justifica o excesso de defensivismo italiano na partida. De toda forma, fica evidente que os campeões mundiais, com toda a dificuldade que tiveram para obter a classificação, não são um time imbatível. Mas são o time a ser batido. Um time que dá gosto de ver jogar, mesmo quando o jogo é truncado.
[3.3] Seguindo o fluxo ilógico de um esporte onde vemos perderem pênaltis Lionel Messi e Arturo Vidal numa final de Copa América, a Alemanha viu Müller, Özil e Scweinsteiger desperdiçarem cobranças. Buffon estava pronto para sair como herói. Mas Neuer, com a frieza e a competência que lhe caracterizam, conseguiu ajudar os alemães a, finalmente, superarem os italianos em "jogo pra valer".
[3.4] Apenas para não deixar passar em branco: Boateng cometeu o pênalti convertido por Bonucci porque marcava corretamente o Chiellini. Curiosamente, seus braços esticados de modo a não cometer infrações no adversário, acabaram encontrando a bola naquela cobrança de escanteio. Faz grande Eurocopa o defensor alemão, que terá a missão de conduzir novamente o setor, dessa vez sem Hummels ao lado.

[4] França 5a2 Islândia.
[4.1] Possivelmente a melhor atuação de uma seleção nos primeiros quarenta e cinco minutos de partida nessa Euro. 4a0 com autoridade, naturalidade, intensidade. Tudo junto e misturado num liquidificador que triturou completamente a defesa e o sonho islandês em Paris. Deschamps conseguiu o ponto de equilíbrio num time marcado pela leveza e movimentação. Grandes atuações de Payet e Griezmann.
[4.2] A Islândia fez história nessa Eurocopa. Marcando gol em todos os jogos, não se intimidando em nenhum deles, procurando sair para o jogo quando via a possibilidade - conseguiu superar as próprias limitações e proporcionar um nível de competitividade de uma maneira a protagonizar jogos agradáveis de se assistir. Sair com uma goleada nas costas é doloroso. Mas a campanha viking na França é para ser lembrada com carinho por gerações. Sobretudo pela mobilização popular, desde as menos conhecidas cidades islandesas até as arquibancadas dos mais famosos estádios franceses. Engrandeceu o futebol. E merece os nossos aplausos.
Sinergia entre time, torcida e nação: a Islândia deu um espetáculo na França. Foto: Reuters / C. Hartmann.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Almer E Cristiano Garantem Segundo Zero A Zero Na Eurocopa

Há muita idolatria e alvoroço em torno da figura de Cristiano Ronaldo. A seleção portuguesa embarca em sua caravela navegando nessa onda. E o resultado disso é que, simplesmente, a embarcação não vai pra frente.

Longe de querer culpabilizar exclusivamente o camisa 7 pelo empate sem gol... Acontece, porém, que em jogos como o diante da Áustria, o rendimento do astro mais atrapalhou do que ajudou o seu time. A sensibilidade de entender qual o momento de soltar a bola mais depressa ou segurá-la é algo que ainda não amadureceu no atleta Cristiano. Sinceramente, não vejo perspectivas de se isso há de acontecer algum dia.

Cristiano Ronaldo esconde-se após falhar. Foto: Getty.
Portugal criou as maiores chances no jogo, que aconteceram, sobretudo, no segundo tempo. O goleiro
Almer, muito bem posicionado, interveio para manter a igualdade no resultado. Até que, aos trinta e três, veio a chance mais aguda de todas: um pênalti pros portugueses. Almer para um lado, bola para o outro - na trave. Cristiano falhou. Minutos depois, Cristiano foi à rede com cabeceio após cobrança de falta. Só que, dessa vez, falhou de maneira diferente: estava em posição de impedimento.

O treinador Fernando Santos procurou alternativas na partida. Começou o jogo com André Gomes, Quaresma e Nani; terminou com Éder, João Mário e Rafa Silva. Talvez, se tivesse trocado Cristiano por, digamos Renato Sanches, o impacto fosse muito maior do que as três trocas somadas. Teria o impacto de que o coletivo é maior que o indivíduo. E poderia fazer os portugueses acreditarem que eles dependem muito mais um do outro enquanto time, do que de um único jogador enquanto salvador. Salvador que ajudou a salvar a Áustria.

domingo, 19 de junho de 2016

Com Gol De Empate No Final, Hungria É Só Alegria

Considerada a seleção menos valiosa de acordo com as cotações de mercado dos jogadores, a Hungria é uma das seleções mais propositivas nessa Eurocopa-2016. Toque de bola de qualidade, intensidade na troca de passes, busca pelo gol. Se na estréia teve a experiência de abrir a contagem e definir a vitória em ótimo contra-ataque, dessa vez viu a adversária sair na frente. E verdade seja dita: penaltizinho mandraque o apitado por Karasev a favor da Islândia. Sigurdsson cobrou e marcou 1a0 aos trinta e oito.

No segundo tempo, a tônica foi da Hungria tomando a iniciativa. E de uma maneira muito interessante, sem confundir velocidade com pressa. Isto é, os comandados de Bernd Storck tinham a maturidade de construir as jogadas imprimindo um ritmo de jogo de maneira consciente a manter a posse consigo. A subida de produção de Dzsudzsák fortaleceu o setor de meio-campo. E numa jogada fantástica, a retraída Islândia foi colocada na roda e Savarsson marcou contra. Aos quarenta e dois no segundo tempo. Aliás, cerca de 30% dos gols na Euro-2016 saíram do minuto 87 em diante!

No final, um lance de bola parada quase deu a vitória aos islandeses. Mas os deuses do futebol protegeram a meta defendida por Király: seria um castigo desproporcional para uma seleção que teve um pênalti contestável marcado contra si e que buscou o empate jogando uma bola redondinha em Marselha. Não tenho dúvidas de que a alma de Puskas sorri. E já fico a torcer para que os húngaros tenham vida longa na França. Isso fará sorrir, também, o futebol.
Momento do gol de empate húngaro, que saiu após ótima troca de passes. Imagem extraída de VíveloHoy.

sábado, 18 de junho de 2016

Bélgica Voa Sobre O Campo De Bordeaux E Aplica 3a0 Na Irlanda

Vinda de uma derrota para a Itália na estréia, a Bélgica mostrou sua força diante da Irlanda. No primeiro tempo, contei pelo menos dez ocasiões de gol construídas pelos belgas no persistente zero a zero. Isso, senhoras e senhores, é mostrar sua força. Precisamos nos destituir da idéia de que ser forte no futebol é ganhar jogos ou títulos. Vamos passar a incorporar a noção de que a força está mais nos procedimentos que nos resultados. E a Bélgica procedeu muito bem, obrigado. Tudo bem que a adversária não era uma potência continental, mas valorizemos uma Irlanda que estreou com boa atuação no empate diante da Suécia.

Essa foi a segunda vez na história que a Bélgica atuou em Bordeaux. A anterior - e até então única - havia sido na Copa do Mundo de 1998. Cá está um vídeo com alguns lances do 2a2 com o México, na fase de grupos. Os dois gols belgas foram marcados por Marc Wilmots, hoje técnico da seleção.



De lá para cá, se passaram 18 anos. E Wilmots teve a sorte de ser o comandante de Hazard, De Bruyne e companhia, nessa que é provavelmente a mais talentosa geração futebolista do país em toda a história. Os 3a0 foram construídos com relativa naturalidade. Principalmente depois que o primeiro gol, marcado por Lukaku em finalização precisa, trouxe a Irlanda para o campo de ataque. Apareceram espaços que antes eram mais escassos e Witsel, de cabeça, marcou o segundo. A incrível capacidade de contra-atacar em alta velocidade rendeu momentos sensacionais no jogo, sendo o ápice o terceiro gol: Meunier recuperou a bola a alguns metros da bandeira de escanteio do lado direito de sua defesa, acionou Hazard e o camisa dez passou como um raio pela marcação adversária e também pelo auxiliar de arbitragem que acompanhava o lance. Depois, rolou caprichosamente para Lukaku marcar o segundo.

Vestindo vermelho como a Espanha, a Bélgica repetiu a Fúria: somente elas conseguiram marcar três vezes num mesmo jogo nessa Euro-2016. Somente Lukaku e Morata fizeram dois na mesma partida. E se somente a Espanha tem aquela beleza característica no seu toque de bola, a Bélgica mostra sua força a cada vez que tem espaço disponível no gramado. Sorte de quem estava hoje em Bordeaux. Seja comandando a Bélgica na beira do gramado, seja assistindo uma grande atuação.
Após receber de De Bruyne, Lukaku finaliza com precisão para abrir o placar em Bordeaux. Imagem extraída de Republica.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Uma Beleza Chamada Espanha

É ela. Eu juro que é ela.

Tão logo lancei olhares em sua direção, já pude reconhecê-la. Há uma beleza que lhe é típica. Podem até tentar copiá-la, por admiração. Ou evitá-la, por questão de opinião. Mas jamais podem desprezá-la. Depois que ela apareceu, deve ser levada em consideração. Por mais que "gosto não se discuta", ela carrega consigo algo que a torna referência, mesmo que fora do padrão.

Apareceu na década passada, lá pelo ano 2008, no trabalho de um saudoso senhor chamado Luis Aragonés. Naquela época, havia um brasileiro com sobrenome de piloto auxiliando no setor de meio-campo. Além de Marcos Senna, lá estavam Xavi e Iniesta. Além de David Silva, Cesc Fàbregas e tantos outros jogadores de talento. Com o casal vinte no ataque: Torres e Villa.

Já era, desde aquela época, muito bela. A consagração veio num 1a0 sobre a Alemanha. O tempo foi passando e ela parecia conter os segredos da eterna juventude. Em 2010, já com Del Bosque, título mundial. A partir daquela vitória sobre a Laranja, jamais voltou a ser chamada de "amarelona". Em 2012, o bi continental. Já era considerada a maior da história. Porém, repentinamente, dois resultados em 2014 levantaram dúvidas sobre a sua longevidade. Afetou, em muitos, a própria memória. Chegavam a pedir a saída do Vicente. Deprimente.

Hoje, ela está aí. Desfila sua beleza na França. Very nice, diria um anglo-saxão. Foi na cidade de Nice que ela voltou a mostrar um pouco da sua velha forma. Não há mais Senna, mas ela continua em cartaz. Xavi aposentou-se, assim como Villa. Nem a ausência de Torres pode colocar sua grandeza em xeque. Vieram Nolito e Morata, muito bem-vindos. Lá está Busquets, protegendo uma defesa que conta com Ramos, Piqué, Juanfran e Alba. Fosse o goleiro que fosse, já dava para se sentir seguro. Foi com Casillas e Valdés, o é com De Gea. E tudo mais belo fica com Iniesta a se apresentar. Um conselho posso dar? Se você não viu Zidane, mantenha os olhos abertos e saboreie o camisa meia dúzia espanhol. Evite, inclusive, piscar.

Busquets e Fàbregas comemoram com Nolito o 2º gol espanhol. Foto: AFP.
Os 3a0 foram construídos com uma naturalidade característica de quem marca época. Tem oito adversários
marcando cinco? Não tem problema, o lançamento de Nolito há de encontrar Morata na área turca.

O oponente mantém-se recuado para evitar jogadas de infiltração? Pois então eles que nos ajudem a ter a bola, Nolito estará no local exato para em seguida fazermos a comemoração.

E quando Iniesta tem a bola, cabe assistir. Até o auxiliar, possivelmente hipnotizado pela magia que sai dos pés do gênio, não viu impedimento. Como olhar para o último defensor quando se pode simplesmente contemplar Andrés? Alba recebeu e serviu Morata, primeiro jogador a marcar duas vezes num mesmo jogo nessa Euro-2016.

Cabiam mais gols. Só que a Turquia, entregue, e a Espanha, satisfeita, conduziram-se em campo como quem deixa o tempo passar. Bendito seja o tempo, que passa mas que conserva a beleza daquilo que é eternizado pela arte.

É ela, a Espanha, uma bênção para o futebol. Uma alegria. Um caso à parte. Seja qual for o desfecho dessa Euro, já valeu acompanhar pelo simples fato de ver essa seleção jogar. Que me desculpem as feias, mas a Espanha é fundamental.

Croácia Tem Boa Atuação, Abre 2a0, Mas Cede Empate Aos Tchecos No Fim

Após sair o primeiro 0a0 na Euro-2016 e termos o fraco 1a0 da Itália sobre a Suécia, o torneio continental conheceu sua partida de mais gols na tarde de hoje, em Saint-Ètienne. Tudo isso graças à iniciativa da ótima seleção croata e à reação dos tchecos, que não se entregaram em momento algum. O 2a2 coroa, mais do que uma ou outra equipe, o futebol como o esporte apaixonante que é.

Croatas comemoram e esbanjam união: Srna foi reverenciado. Foto: Getty.
E se paixão tem nome e sobrenome, hoje ela atende por Darijo Srna: o camisa 11 croata, que foi ao funeral
de seu pai nessa semana e voltou para a França determinado a ajudar a seleção de seu país, protagonizou das cenas mais lindas nessa Eurocopa, quando foi às lágrimas durante o hino nacional da Croácia. Com o jogo em andamento, foi homenageado pelos companheiros tanto na ocasião do gol de Perisic quando do de Rakitic, em dois lances de recuperação de posse de bola no campo de ataque.

Mas a República Tcheca atenuou as celebrações croatas: diminuiu a desvantagem para um gol aos vinte e nove minutos no segundo tempo, quando Skoda completou após passe de trivela de Rosický, e empatou a partida em cobrança de pênalti de Necid nos acréscimos. A mesma República Tcheca, que lamentara o gol espanhol nos últimos minutos na estréia, dessa vez comemorou o empate no fechar das cortinas. A prova de que o mundo da bola dá voltas está aí e também no camisa 10 Rosický: após seguidos erros de passe no primeiro tempo, é formidável ver sair de seus pés uma assistência genial. E por falar em genialidade, talvez se o outro camisa 10 não tivesse precisado sair de campo quando sua seleção vencia por 2a0 (aparentemente sentindo algo muscular), os croatas estariam nesse momento comemorando a classificação. Fica a expectativa de um Croácia e Espanha sensacional na última rodada. De preferência, com Modric em campo em tempo integral.

P.S.: o episódio dos rojões lançados sobre o gramado, forçando a paralisação do jogo quando a Croácia vencia por 2a1, é daqueles eventos que fazem a gente pensar, preocupado: até quando?

Gol Brasileiro Dá Vitória À Itália Sobre A Suécia

Itália e Suécia fizeram, em Toulouse, um jogo para destoar do padrão da Eurocopa-2016. Trocas de passes foram quase sempre de caráter defensivo. Jogadas de infiltração, escassas. Finalizações, poucas em quantidade e também aquém em qualidade. Caminhava para um 0a0. Só que, no futebol, é justamente quando um resultado parece óbvio que devemos dele desconfiar. Aos quarenta e dois minutos no segundo tempo, Éder Citadin Martins, cidadão italiano nascido no Brasil, recebeu de Simone Zaza, carregou a bola para a direita e chutou no canto esquerdo do goleiro Andreas Isaksson.

O resultado coloca a Itália com seis pontos e matematicamente classificada às oitavas. Nenhum gol sofrido pelo time que tem Buffon no gol, Barzagli, Bonucci e Chiellini na zaga e que deixa a dúvida se estamos falando da Azzurra ou da Vecchia Signora. Ainda mais porque o treinador é o outrora juventino Antonio Conte. Fato é que a seleção italiana tem no sistema defensivo a sua maior virtude. No entanto, falta talento nas linhas ofensivas. Pensar que a camisa 10, que já foi trajada por Roberto Baggio, Francesco Totti e Alessandro Del Piero, hoje é usada por Thiago Motta... De toda forma, é sem dúvida um plantel com espírito competitivo.

Os suecos, que haviam empatado na primeira partida, permanecem com um ponto. Zlatan Ibrahimovic, embora solícito, pouco produziu. Kim Källstrom (mais centralizado) e Martin Olsson (pelo flanco esquerdo) eram figuras que procuravam dar uma alternância de jogo a uma equipe que, de tão previsível, faz a gente pensar como é que conseguiu chegar a uma competição desse nível. Provavelmente, o fator Ibra. Fator esse que, de tão acostumado a jogar na França, parece que ainda não entendeu que acabou a Ligue 1 e começou a Eurocopa.
Éder escapa da marcação sueca e chuta da meia-lua para marcar o gol único na partida. Imagem extraída de Republica.

Polônia Resiste À Alemanha E Euro-2016 Conhece O Primeiro Zero A Zero

Não pense que tenha sido um jogo de ataque contra defesa, como tinha sido Polônia e Irlanda do Norte. A chance mais evidente de gol na partida, inclusive, foi polonesa. Longe da zona de conforto, a Alemanha teve bastante trabalho diante de um adversário firme na defesa, compacto entre as linhas e hábil em acionar seus homens de frente. Um ótimo teste para Löw buscar alternativas para quando este cenário vier a se repetir. Uma ótima motivação para Nawalka passar a seus jogadores sobre as chances de uma equipe longe de figurar entre as favoritas no torneio. Um jogo agradável de assistir, apesar de o gol não sair.

Alguns breves pitacos.

Grzegorz Krychowiak e Thomas Müller disputam a bola. Foto: Patrik Stollarz / France Press.
[1] Boateng vem se firmando como o maior defensor na competição, conseguindo novamente uma grande
atuação.
[2] Özil, embora irregular, mostra sua relevância para o esquema tático cada vez que dá um passe para os companheiros.
[3] Müller está devendo um futebol que corresponda ao seu nível técnico, mas desfila uma elegância contagiante.
[4] Krychowiak poderia ser chamado de 'balança de alta precisão'. O equilíbrio que esse sujeito dá ao setor de meio-campo é coisa de louco.
[5] Lewandowski é o típico atacante que, mesmo sem marcar gol, é importante para o time. Consciência tática do primeiro ao último minuto.
[6] São duas seleções que não foram vazadas nessa Euro e que somam 3 partidas inteiras com a meta inviolável. Uma boa "desculpa" para o 0a0.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Forte, Irlanda Do Norte Escreve Sua Própria História Em Lyon

Há alguma coisa melhor do que marcar seu primeiro gol na história da Eurocopa? Sim, há. É marcar o primeiro e o segundo gol na história da Eurocopa no mesmo jogo. E há algo melhor que isso? Sim, há. É conquistar a primeira vitória na história do torneio. Com a satisfação de quem superou as mais ousadas expectativas, a seleção da Irlanda do Norte superou a Ucrânia, em Lyon. Para isso precisou enfrentar um adversário que fizera jogo duro com a Alemanha, precisou enfrentar chuva, precisou enfrentar até granizo. Sempre com o apoio das alas esverdeadas das arquibancadas e a aplicação dos jogadores comandados por Michael O'Neill.

Não sei se por mais méritos norte-irlandeses ou por falhas ucranianas (acredito que uma miscelânia dos dois fatores), mas o fato é que a Ucrânia rendeu menos do que na rodada inaugural. O primeiro tempo sem gol foi justo pela falta de inspiração de ambos os lados. Mas a segunda etapa reservou uma Irlanda do Norte esbanjando coragem e dedicação de fazer chover pedras de gelo. Já aos três minutos, McAuley tirou proveito de lance de bola parada e abriu o placar com cabeceio certeiro. Sem jamais abdicar do ataque mas em alguns momentos passando maus bocados em jogadas que passavam pelo talentoso Konoplyanka, o Exército Verde resistia como podia. E deve agradecimentos ao goleiro McGovern, que salvou a pátria em pelo menos duas oportunidades.

O alívio, o momento em que a torcida pôde definitivamente explodir com o sentimento de "sim, nós vencemos um jogo de Eurocopa" deu-se no sexto e último minuto de acréscimo: linda jogada de Magennis pela direita, chute de Dallas, rebote de Pyatov e presença precisa de McGinn para completar o lance na rede. 2a0, eternizando o evento para um país cuja última participação numa grande competição internacional tinha sido na Copa de 1986, no México.
Em meio à chuva de granizo, norte-irlandeses do céu e da terra comemoram gol diante da Ucrânia. Foto: Clive Brunskill / Getty Images.