domingo, 22 de junho de 2014

Em Jogaço E Com Direito A Recordes, Alemanha E Gana Empatam No Castelão

Já havíamos elogiado a estréia da Alemanha e também a de Gana no Mundial 2014. Só por essas atuações, a expectativa já era de um grande jogo no encontro entre elas. Além disso, estamos falando de duas equipes com força física (Gana mais), qualidade técnica (Alemanha mais) e velocidade (aqui chega a ser difícil comparar, já que ambas parecem voar). Resultado: um jogaço. Acabou empatado em 2a2, mas independente disso, um jogaço.

Já no primeiro tempo podia-se vislumbrar um confronto pra lá de interessante. A rotatividade ofensiva alemã com Kroos, Götze, Özil e Müller recebendo o apoio de Khedira e Lahm pelo centro, além de Boateng e Höwedes pelos flancos encontrava uma resistência vigorosa na proteção de Muntari e Rabiu à linha composta por Afful, Boye, Mensah e Asamoah. Incompreensíveis as vaias que foram ouvidas nas arquibancadas. Como pode um torcedor pagar pelo ingresso, comparecer ao estádio e hostilizar quem joga bola com qualidade? Será que torcer contra uma equipe por considerá-la "concorrente ao título" justifica esse tipo de comportamento?

Voltando ao gramado, a partida dinâmica foi para o intervalo sem gol. E a Alemanha voltou do intervalo diferente, com Mustafi no lugar de Boateng. Uma mexida na posição, mas não no sistema de jogo. Jogo que, finalmente, teria seu primeiro gol: cruzamento de Müller e cabeceio desajeitado de Götze, que acabou acertando o próprio joelho e marcando um gol meio que não calculado. Quer dizer, se foi calculado, tratou-se de uma equação complexa. De toda forma, bola na rede e 1a0 Alemanha, primeiro gol de Götze em e na Copa.

Appiah imediatamente mexeu no time e trocou Kevin-Prince (que também é Boateng, irmão do alemão) por Jordan Ayew. E, dois minutos após a alteração, justamente o seu irmão marcou o gol de empate de Gana: André Ayew aproveitou cruzamento de Afful e, diferentemente de Götze, cabeceou cheio de estilo, sem qualquer chance para Neuer.

Gana jogava bem demais para se satisfazer com o empate e pressionou os alemães na busca pela virada. Com bastante intensidade quando detinha a posse de bola, o time envolvia a defesa adversária trocando passes e impondo velocidade. Aos dezoito, virou o jogo: Muntari serviu Gyan e o atacante da camisa três se tornou o primeiro jogador nascido no continente africano a marcar gol em três edições de Copa do Mundo. 2a1 Gana em Fortaleza.

Löw via seu time em desvantagem no placar e sendo dominado pelo oponente. Mexeu na equipe para reverter esse cenário duplamente adverso, trocando Götze e Khedira por Klose e Schweinsteiger. E antes que alguém pudesse ousar reclamar da decisão de tirar o autor do gol alemão no jogo, o homem que entrou tratou de igualar o recorde de Ronaldo: após bola cruzada por Höwedes, Klose esticou a perna para empurrar a bola para a rede, anotando o gol de empate. Gol de empate da Alemanha no jogo: 2a2 com Gana. Gol de empate de Klose na história das Copas: 15a15 com Ronaldo.

Na seqüência, Appiah procurou fórmulas de retomar a vantagem no marcador. Primeiro, trocou Atsu por Wakaso Mubarak. Depois, colocou Agyemang-Badu no lugar de Rabiu. E viu seu time ter oportunidades de vencer a forte seleção alemã. Viu também a forte seleção alemã ter oportunidades de vencer seu time. Mas o empate de 2a2 persistiu. No final, houve tempo de um cartão amarelo pra lá de rigoroso suspender Muntari do confronto com Portugal, na última rodada. E, da continuação dessa jogada, surgiu uma imagem chocante: Müller chocou-se contra um adversário na disputa pelo alto e cortou o rosto. O camisa treze poderá dizer, literalmente, que deixou o sangue em campo. E todos que estavam presentes no Castelão poderão dizer que assistiram um dos melhores jogos dos últimos Mundiais. Mesmo os que soltaram vaias.
 
Torcedor consegue a proeza de driblar a segurança do estádio e a censura da transmissão da FIFA: ele entrou no campo e apareceu na televisão, interrompendo o empolgante jogo entre alemães e ganeses. Muito melhor festejar do que vaiar.

sábado, 21 de junho de 2014

Em Jogo Parelho Com O Irã, Messi Resolve No Final E Garante Argentina Nas Oitavas

A Argentina parece ter aprendido algumas lições de sua estréia diante da Bósnia & Herzegovina. Se naquela ocasião o time melhorou de rendimento após passar a jogar com um centroavante de ofício, dessa vez Alejandro Sabella já tratou de iniciar a partida com Higuaín à frente de Di María, Agüero e Messi.

Só que a mera modificação tática não tornou a vida argentina fácil no Mineirão. É que o Irã também tinha os seus recursos para se tornar competitivo no jogo: com um sistema tático retraído e compacto, os comandados de Carlos Queiróz conseguiram armar um muro vermelho que congestionou a intermediária defensiva e conteve na medida do possível as investidas sul-americanas. Foram poucas as oportunidades criadas via toque de bola, com os lances aéreos levando maior perigo para o gol defendido por Haghighi.

E a seleção iraniana não era apenas defesa, apostando em contra-ataques muito bem desenvolvidos, onde quase sempre conseguia encaixar alguma ocasião de dificuldade para a Argentina. O goleiro Romero interviu pelo menos três vezes com grande qualidade para salvar a equipe favorita.

A torcida apoiou. Sabella mexeu (Higuaín e Agüero por Palacio e Lavezzi). A Argentina tentou. E a salvação veio aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo. E quem mais poderia salvar a pátria albiceleste? Ele: Lionel Messi. No seu único chute no jogo que tomou a direção do gol, o camisa dez conseguiu colocar a bola com uma precisão e colocação que tornaram a finalização inalcançável, para delírio de um estádio que conhecia naquela tarde de sábado o seu novo recorde de público.

Essa é a Copa do Mundo 2014: um torneio onde o rótulo de favorito não dá nenhuma garantia de facilidade. Essa é a Argentina: uma seleção que não desiste de seus objetivos em momento algum. Esse é o Irã: determinado e muito competente na sua proposta de jogo. E esse é Lionel Messi: decisivo, diferenciado. Uma bênção para a Copa. Um orgulho para a Argentina.

Queijo Suíço Cortado À Francesa

Pra quem achou pouco os três gols da França na estréia diante de Honduras (ou "dois gol e meio", com o empurrãozinho centimétrico do chip), a partida dos Azuis diante da Suíça foi para não deixar nenhuma dúvida: a seleção francesa, mesmo sem Ribèry, é forte candidata ao título mundial no Brasil. Não apenas pelo expressivo resultado alcançado diante de uma seleção que tem qualidades, mas sobretudo pela maneira de jogar, pela capacidade de chegar com velocidade nos contra-ataques e pelo equilíbrio tático promovido pelo competente Didier Deschamps, treinador que tem na sua história futebolística a braçadeira de capitão no título de 1998. Parece ser o nome certo para conduzir os Bleus ao bi. Sobretudo com o ótimo desempenho de Benzema.

Um dos aspectos mais interessantes na análise do jogo entre França e Suíça é que, na construção dos 5a2 (que por um ou dois segundos não se tornou meia dúzia) é que os suíços são reconhecidamente bons na arte de se defenderem. Mas não houve o que fazer diante do rolo compressor francês. Em jogada de bola parada, o escanteio cobrado por Valbuena encontrou Giroud soberano para cabecear muito bem uma bola que até foi alcançada pelo bom goleiro Benaglio, mas que entrou assim mesmo.

No minuto seguinte - e não é força de expressão -, Benzema tirou proveito do erro de Behrami para servir Matuidi: a festa da torcida que ainda comemorava o gol anterior era ampliada no estádio Fonte Nova, em Salvador. E não havia quem pudesse salvar a defesa suíça do ataque francês: ainda no primeiro tempo, em contra-ataque avassalador, Giroud correu como nunca e deixou para Valbuena apenas concluir para a rede. Detalhe: entre o segundo e o terceiro gols franceses, ainda houve um pênalti desperdiçado por Benzema, com direito a rebote de Cabaye dentro da pequena área explodindo no travessão.

Analisando mais friamente o primeiro tempo, talvez pudéssemos elencar razões do elástico 3a0. Uma delas seria a saída de Von Bergen, que após levar um chute de Giroud no rosto, teve um corte que não cessava de sangrar, sendo imediatamente substituído por Senderos. Mas será que essa mudança traria tanto efeito adverso? Creio que não, ainda mais considerando a qualidade e a experiência do ex-zagueiro do Arsenal, atualmente no Valência. O erro de Behrami, este sim, foi responsável direto pelo segundo gol francês, mas há méritos na aparição de Benzema para recuperar a bola. Enfim, poderíamos tirar a dúvida de quanto mérito havia após assistir o segundo tempo. E tivemos a França igualmente forte, só que com jogadores diferentes: prova da força do elenco à disposição de Deschamps. Se Hitzfeld trocou Behrami por Dzemaili (numa mexida à napolitana no intervalo) e mais tarde colocou Drmic no lugar de Seferovic (lembrando que Seferovic marcou o gol da vitória sobre o Equador), Dechamps optou por mudar zagueiros (Sakho, machucado, por Koscielny) e também alterar taticamente a seleção francesa, com Pogba entrando no lugar de Giroud. E veio de Pogba o excepcional passe para o gol de Benzema - quarto da França no jogo, terceiro dele na Copa. Recebendo assistência de Benzema, Cissoko marcou o quinto.

A Suíça, que repito, tem qualidades, reagiu. Descontou com o primeiro gol de cobrança de falta na Copa do Mundo 2014: Dzemaili, rasteirinho, com a barreira "traindo" Lloris. Seis minutos depois, Inler acionou Xhaqa com ótima enfiada de bola pelo alto e o camisa dez emendou belíssimo chute, sem deixar a bola encostar no gramado, para anotar o segundo. No final, o cinco não virou seis porque o árbitro holandês Bjorn Kuipers preferiu dar o jogo por encerrado antes da conclusão fantástica de Benzema. Tudo bem. Já tinha ficado claro a força e capacidade dessa ótima seleção francesa. Dessa vez, com direito a hino nacional e sem precisar da tecnologia.

Que Rico, Costa Rica!

Algumas semanas antes de começar a Copa do Mundo 2014, havia um quase consenso sobre pelo menos uma coisa: a chave D era o "Grupo da Morte". Eu discordava, pois se por um lado havia um inédito encontro entre três campeões mundiais, por outro não havia uma quarta força. Quem era mesmo o integrante que se juntava a Itália, Inglaterra e Uruguai? A Austrália? Não, não... Acho que era Honduras! Não... Era outra... Talvez Argélia? Ah, sim! Era a Costa Rica! Enfim, um grupo com três campeões mundiais mais uma seleção sem tradição, candidata a sair da Copa zerada em pontos e com um recorde negativo no saldo de gols, certo?

Errado, errado, errado. Um milhão de vezes errado. A grande força do "Grupo da Morte" (sim, agora concordo com essa afirmação sobre o grupo D no Mundial 2014) é aquela ilha na América Central que faz fronteira com a Nicarágua e com o Panamá, sendo banhada pelos oceanos Atlântico e Pacífico, contando com uma legislação ambiental inspiradora. No futebol, suas glórias não podem ser comparadas às de italianos, ingleses e uruguaios. Diga rápido o nome de um time da liga nacional costarriquenha. Certo, dou-lhe o dia inteiro para trazer-me uma resposta.

Dentro de campo, uma equipe absolutamente sensacional. Disciplinada taticamente, valente, com vocação ofensiva. Envolvente, veloz, bem postada. Atenta, perspicaz, esbanjando forma física. Que sabe reagir (vide virada na estréia diante da Celeste). Que sabe administrar o resultado (vide vitória na segunda rodada diante da Azzurra). Amantes do futebol a grande sensação do torneio denominado Copa do Mundo 2014 é a Costa Rica. Ontem, em Pernambuco, os torcedores presentes foram agraciados por uma atuação maiúscula - tanto pela solidez, quanto pela desenvoltura. Que nem a arbitragem errônea de Enrique Osses foi capaz de estragar ao negar pênalti claro de Chiellini em Campbell. Cerca de um minuto depois do escândalo, um cruzamento que prefiro chamar de passe, ou melhor, assistência, de Júnior Enrique Díaz Campbell (xará de sobrenome do atacante Joel, aquele mesmo que arrebentou na partida inaugural e que instantes antes sofrera o pênalti não marcado), enfim, uma assistência de Díaz encontrou o capitão Bryan Ruiz González. O ótimo camisa dez concluiu de cabeça, conseguindo superar Buffon, arbitragem e tecnologia: a bola entrou, senhoras e senhores. A Costa Rica está na Copa, senhoras e senhores. A Costa Rica está classificada com uma rodada de antecedência, senhoras e senhores. É a equipe que joga com mais vida no "Grupo da Morte". Daquelas que dá vontade de torcer eternamente. Sinceramente? Preciso comprar uma camisa.

Dá-lhe Costa Rica!
 Acima, a festa no gramado após a histórica vitória sobre os italianos e a classificação assegurada num grupo com a presença de três campeões do mundo. Abaixo, celebração com a torcida: a Costa Rica é gigante!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Grécia E Japão Empatam: Decisão Fica Para Última Rodada

De um lado, a técnica e ofensividade de uma seleção japonesa que aceita se expor defensivamente em nome de um maior volume de jogo no campo de ataque.

De outro, o vigor e consistência de uma seleção grega que se coloca postada de tal maneira a tentar dar cada passo com o comprimento exato necessário a fim de atingir seus objetivos.

Para ilustrar as afirmações anteriores, vai aqui uma estatística auto-explicativa de dois momentos diferentes da partida. Com dezesseis minutos de jogo, o Japão havia trocado 132 passes no jogo, enquanto a Grécia havia realizado 26 trocas de passes. Aos quarenta e oito minutos do segundo tempo (isto é, instantes antes do apito final), a contagem acumulada era de 533 passes japoneses para 172 gregos.

É claro que são momentos diferentes e os números ilustram, mas não traduzem a totalidade de um jogo. Ainda por cima, houve a expulsão de Katsouranis aos trinta e sete do primeiro tempo. Só que dá tranqüilamente para girar a reflexão dessa partida em torno dessa estatística. Não vou fazê-lo, mas que dá, dá.

Fato é que o treinador português Fernando Santos conseguiu ser muito feliz na arte de mexer num time que passou a jogar com um homem a menos. Não um homem qualquer, mas o capitão da equipe, figura das mais experientes no elenco. Detalhe: minutos antes da expulsão do cabeça-de-área pelo segundo cartão amarelo, o atacante Mitroglou precisou sair de campo por sentir uma contusão. Naquele momento, Fernando Santos havia colocado Gekas em seu lugar. E não titubeou em realizar a segunda substituição ainda no primeiro tempo, trazendo para campo Karagounis no lugar de Fetfatzidis. Uma alteração magistral, de tão simples e funcional: Santos tratou de repôr no gramado de Natal não um jogador com características técnicas parecidas com a do atleta expulso, mas sim de realocar alguém experiente, para conduzir o time mentalmente dentro de campo. Karagounis era o cara para desempenhar esse papel e o que se viu foi uma Grécia valente, encarando de maneira heróica os Samurais, que estavam em maior número.

E se o Japão teve lá suas chances de vencer o jogo - principalmente após as entradas de Endo e Kagawa, o fato é que o goleiro Kawashima teve pelo menos duas participações relevantes para não permitir o gol grego. O 0a0 acabou se mantendo até o final e, mais do que a igualdade no placar, o que se mantém é a esperança de asiáticos e europeus em buscarem a segunda vaga num grupo que tem um sul-americano já classificado e um africano perto de conseguir avançar (mais cedo, a Colômbia venceu a Costa do Marfim por 2a1 por esse mesmo grupo C). Mas é bom não duvidar de heróis e samurais. Muito menos numa Copa do Mundo. Que venha a terceira rodada.

Um Autêntico Encontro De Campeões, Com As Bênçãos De Suárez

O Itaquerão sediou nesse feriado de Corpus Christi um jogo daqueles com cara, corpo e alma de Copa do Mundo. Duas seleções que estrearam com derrota no Mundial (o Uruguai sendo surpreendido pela irrepreensível Costa Rica e a Inglaterra caindo em pé no clássico com a Itália) protagonizaram uma partida daquelas pra serem separadas para serem assistidas novamente.

As alterações de Tabárez em relação à estréia deixaram os uruguaios mais incisivos no campo de ataque. Alterações essas que certamente ocorreram no campo tático, técnico e psicológico. Ótimo para o Uruguai, ótimo para a qualidade do jogo diante do ingleses.

A escalação e proposta de jogo de Hodgson possibilitaram à Inglaterra uma atuação tão boa ou melhor que aquela vista diante dos italianos. Modelo de jogo onde a alternância de posições entre Welbeck, Sterling e Sturridge, sob a batuta de Gerrard e o auxílio de Rooney, proporcionou uma intensidade ofensiva muito acima do que nos habituamos a ver dos ingleses. Ótimo para a Inglaterra, ótimo para a qualidade do jogo diante dos uruguaios.

E se futebol muitas das vezes é decidido em detalhes, o detalhe desse jogo tem nome e sobrenome: Luis Suárez. Operado do menisco cerca de um mês atrás e com sua presença na Copa sendo colocada em xeque, Luisito não atuou na estréia mas foi miraculosamente escalado como titular na segunda rodada. Em pleno dia de Corpus Christi, Suárez foi o redentor da seleção uruguaia. Quase marcou um gol olímpico no primeiro tempo e quase marcou um gol olímpico no segundo tempo - em ambos os lances, o goleiro Joe Hart precisou intervir para salvar a meta inglesa. Só que alguém da qualidade e determinação - talvez até predestinação - de Luisito não costuma ficar no quase. Foi ele quem abriu o placar em Itaquera, cabeceando com precisão após excepcional passe de Cavani.

Melhor no jogo, a Inglaterra correu atrás e fez por merecer a conquista do gol de empate, através de Wayne Rooney, que anotou seu primeiro gol em Mundiais. Só que a tarde era do Uruguai. Era de Suárez. Após lançamento do goleiro Fernando Muslera, um cabeceio do companheiro de clube de Luisito (mas não de seleção) Steven Gerrard permitiu que o camisa nove da Celeste avançasse em liberdade. Era tudo e somente o que ele precisava para marcar o segundo e desabar em emoção no gramado. Emoção que contagia quem com ele joga, quem a ele assiste. A Copa já tem um personagem. Valeu, Suárez! Aliás, valeu mais uma vez, pois não esqueceremos do que fizeste na Copa passada, naquela épica quartas-de-final diante de Gana.

P.S.: Necessário também falar de Álvaro Pereira: após ser atingido por uma joelhada na cabeça, cair desacordado no gramado e ver o médico da seleção solicitar sua substituição, o lateral-esquerdo simplesmente se recusou a sair de campo. Atitude que contagia quem com ele joga, quem a ele assiste. Talvez seja coisa de maluco. Mas qual a loucura que não conserva um pingo de razão? Com tamanha alma colocada na ponta das chuteiras, é como se tudo estivesse escrito para que desse certo. Que venha a Itália.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Como Não Podia Deixar De Ser, Colômbia E Costa Do Marfim Fazem Jogaço Pelo Grupo C

 Se o Brasil é o país do futebol, Brasília é a capital da Copa do Mundo.

Após um jogo fantástico entre Suíça e Equador no último domingo, foi a vez de Colômbia e Costa do Marfim se enfrentarem no estádio Mané Garrincha, para delírio do público que coloriu as arquibancadas. Coloriu predominantemente de amarelo, amarelo vivo, de tom colombiano, num jogo de muitas nuances entre a forte seleção sul-americana e a marfinense, que também mostrou grande potencial e diversas qualidades.

O jogo é jogado, como diz o óbvio ditado, mas seu encanto começa antes de a bola rolar. Em caso de Copa do Mundo no Brasil, muito antes de a bola rolar. Desde a atmosfera no entorno do estádio até os hinos nacionais, cada momento carrega consigo um pedaço do eterno e faz perpetuar a magia de um esporte apaixonante, que resiste a qualquer intempérie que possa ousar atingí-lo.

Com bola rolando, tivemos uma partida de contrastes mais fortes que o amarelo e laranja das arquibancadas e o amarelo e verde no campo de jogo: se o primeiro tempo foi por vezes enfadonho, dada a previsibilidade das jogadas trabalhadas de ambas as partes, o segundo trouxe consigo uma bela transformação, com as duas seleções subindo de produção e promovendo um dinamismo que colocou o confronto entre as grandes partidas dessa Copa.

A reconhecida qualidade técnica de jogadores como James Rodríguez e Yaya Touré foram acompanhadas de atuações maiúsculas como as dos defensores Yepes e Zokora e também de dois jogadores que vieram do banco: Quintero (que marcou o segundo gol colombiano) e Drogba (que promoveu uma festa incrível nas arquibancadas, sendo ovacionado pelas múltiplas torcidas no estádio).

No final, a Colômbia viu a sorte lhe sorrir: abriu o placar em lance de bola parada com James Rodríguez e ampliou a diferença em contra-ataque num momento em que os Elefantes eram melhores em campo. Só que a Costa do Marfim descontou através de um golaço de Gervinho e chegou perto de alcançar o empate, esbarrando na defesa colombiana e nas decisões pra lá de esquisitas do árbitro da última final de Copa, o inglês "marombado" Howard Webb.

São duas seleções que vieram para o Mundial e que farão muito bem ao evento se nele permanecerem pelo máximo tempo possível. Seja pelo mar amarelo colombiano com enorme quantidade de adeptos nas arquibancadas, seja pela festa da torcida marfinense, seja pelo belo futebol que ambos os conjuntos mostraram ser capazes de apresentar. Sejamos apreciadores dessa arte que é o futebol. Sejamos cidadãos do mundo. Com muito orgulho e com muito amor.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Não Viu A Croácia De 1998? Veja Essa!

A Croácia mostrou força na estréia diante do Brasil. Mas, naquela ocasião, não tinha Mandzukic (suspenso) e ainda esbarrou no árbitro japonês (foi tenso).

Na segunda rodada, contando com a presença do atacante goleador e a ausência do cidadão que a roubou, a seleção da camisa quadriculada não tomou conhecimento de Camarões (Cama quem?) e aplicou uma goleada de 4a0 que traz grandes expectativas para o confronto direto diante dos mexicanos por vaga nas oitavas.

É fato que a situação croata foi facilitada pelos próprios erros camaroneses (o maior deles a agressão que justificou a expulsão do ótimo volante Song). Mas há muitos méritos no time comandado por Niko Kovac. O setor de meio-campo é particularmente muito interessante. A zaga é firme e séria até dizer chega. O ataque tem muitos recursos. E o bom time começa com um bom goleiro, no caso, Pletikosa.

Só que na qualificada seleção de Mandzukic, Modric e Rakitic, o destaque foi outro: Perisic. Com uma atuação fantástica, o meia-ponta (não confundir com o movimento do balé, embora tenha arte no jogo do camisa quatro) foi talvez aquele elemento-surpresa para sacramentar a vitória da equipe. Pela falta de empenho e irregularidade, Camarões também surpreendeu - só que negativamente. Houve até troca de agressões entre companheiros de time. O astro da companhia, machucado, assistiu tudo do banco. Mas, diante da forte zaga croata, provavelmente nem Eto'o teria sucesso.

Agora é aguardar para ver como o ótimo setor ofensivo croata encarará a muralha mexicana Ochoa na rodada derradeira.

Saiu Da Copa Mas Já Entrou Na História

Embora não tenha assistido o jogo entre Espanha e Chile (tá, acompanhei por uma tela de telefone celular o segundo tempo, em pleno horário de expediente no serviço público federal, o que sugere um envolvimento muito abaixo do que o jogo merecia), não poderia deixar passar em branco esse momento histórico que está atravessando o futebol mundial.

A vitória chilena por 2a0 combinada aos outros três resultados anteriores nesse grupo B (Holanda 5a1 Espanha, Chile 3a1 Austrália e Holanda 3a2 Austrália) selaram um fato inédito: pela primeira vez na história das Copas, uma atual campeã mundial é eliminada na segunda rodada. E não estamos falando de uma campeã qualquer, mas de uma campeã que antes e depois do título em 2010 ganhou as duas Eurocopas que disputou. De uma campeã que ofertou ao mundo um estilo de jogo encantador. De uma campeã que montou times e elencos com jogadores de altíssimo nível técnico e que traduziam suas aptidões em um volume de jogo como jamais visto na história. De uma campeã no campo e no conceito.

Com todos esses atributos, me recuso a dizer que essa eliminação seja o fim de uma Era. Essa eliminação é muito mais uma perda para a Copa 2014 e para o futebol do que para a própria Espanha. É evidente que a Espanha procurará se reconstruir, mas não há qualquer necessidade de uma reformulação conceitual. Há, sim, o desafio de trazer para o dia seguinte a essa derrota a renovação pontual para promover a proposta de jogo e continuar marcando época. Foi um trabalho de muitos anos até saborearmos 2008, 2010, 2012. E desejo de todo coração que outras gerações possam também assistir a Espanha com a cara dessa Espanha trazida por Aragonés e Del Bosque, em sintonia com Guardiola. Mas isso é assunto para o futuro. No presente, cabem duas colocações: obrigado, Espanha! E parabéns, Chile! Há que se respeitar essa talentosa seleção, que mostrou ótimo gosto ao trazer técnicos como Marcelo Bielsa e Jorge Sampaoli. Podemos estar vendo nascer uma potência na América do Sul. Mas isso é assunto para o futuro. No presente, cabe uma colocação: viva o futebol!

Tudo Azul Para A Laranja

A Holanda avassaladora da estréia em Salvador diante da Espanha deu lugar a uma Holanda novamente eficiente, mas sem conseguir repetir aquela enorme quantidade de ocasiões de gol vista na partida anterior. Não que os comandados de Van Gaal tenham tido uma grande queda de rendimento, mas a maior dificuldade em confirmar a vitória se deu provavelmente porque a Austrália conseguiu mais uma boa atuação no Mundial. Por falta de sorte para a representante da Oceania (que disputa as eliminatórias asiáticas, é verdade), os australianos não conseguiram o resultado positivo, a exemplo do que ocorreu diante do Chile. Mas o futebol apresentado pelos Socceroos é digno de elogios, pois, com todas as limitações técnicas, apresentou algo mais que aquele estilo antigo de simplesmente alçar bolas para o alto e ver no que vai dar.

No primeiro tempo, dois gols em seqüência. Aliás, dois golaços um atrás do outro. Primeiro, Robben deu arrancada de quase cinqüenta metros e anotou seu terceiro gol na Copa do Mundo, confirmando a ótima fase técnica (o que não é novidade) e física (o que é uma ótima novidade). Craque. Depois, Cahill acertou um chute estupendo, anotando um dos mais belos gols nessa edição do Mundial, o segundo do camisa quatro.

Na etapa final, o jogo teve momentos maravilhosos, principalmente no período entre o pênalti inventado para a Austrália (segundo jogo seguido que a Holanda vê um árbitro anotar um pênalti pra lá de duvidoso a favor do adversário) e a virada holandesa.

Janmaat não aparentou qualquer intenção de tocar com a mão na bola, mas o árbitro argelino Djamel Haïmoudi deu um chega pra lá no bom senso e indicou penalidade (no susto, no grito, sem qualquer convicção, como sugere a imagem do lance). Talvez seja mais fraqueza de personalidade do que má-fé. De toda forma, um perfil perigoso para se apitar jogos.

Se a Austrália virou o jogo aos nove, a Holanda devolveria a virada pouco tempo depois. Aos treze, Van Persie recebeu de Memphis e finalizou ao seu estilo, com força e precisão. Dez minutos mais tarde, Memphis, que entrou no finalzinho do primeiro tempo no lugar do contundido Bruno Martins Indi (que infelizmente deixou o campo para passar a noite no hospital), marcou o terceiro em chute de fora da área. É importante frisar que o gol de Memphis foi uma jogada de contra-ataque após Leckie quase recolocar a Austrália em vantagem no placar.

Essa vitória combinada ao resultado da partida seguinte acabou classificando a Holanda para a fase oitavas-de-final e eliminando os australianos. São duas seleções que vêm fazendo um belo Mundial e colaborando para a alta média de gols na Copa. Para a Austrália, resta "cumprir tabela" com a atual campeã. Para os holandeses, o confronto diante do Chile vale a liderança numa das chaves mais fortes do torneio. Jogará sem Van Persie, que cumprirá suspensão. Talvez seja o momento certo para tentar alguma variação na formação e tentar resgatar o bom futebol de Sneijder, que pode vir a ser um ótimo diferencial para conduzir a Holanda ao sonho do título, afinal, Robben e Van Persie estão voando e o sistema de jogo parece encaixado principalmente para os contra-ataques.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Guillermo Ochoa: O Dono Da Bola, Senhor Da Baliza, Nome Do Jogo

Sabe quando o dia é do goleiro? Dezessete de junho de dois mil e catorze, em Fortaleza, o dia foi do goleiro. Guillermo Ochoa, que está em sua terceira Copa do Mundo, sendo a primeira na condição de titular no México, atuou magistralmente para proteger a baliza de sua pátria.

De perder a conta a quantidade de intervenções importantes. De defesas difíceis. E o que é melhor: fazendo tudo isso de maneira discreta, usufruindo de um ótimo posicionamento e agindo da maneira mais simples possível para cumprir o difícil ofício que é o de ser goleiro. Fez parecer fácil!

Seria um mundo muito melhor esse em que vivemos se houvessem vários Ochoas espalhados pelo planeta. Imagina só um presidente que, de maneira objetiva e direta, defendesse os interesses da população de seu país. Ou um juiz que agisse única e exclusivamente visando defender a aplicação da justiça. Ou que tal pensarmos num policial que, em vez de defender os interesses do capital, voltasse seus olhos para os oprimidos e reféns da ditadura empresarial? Daria para enumerar exemplos e mais exemplos, mas fiquemos com o de Ochoa, o goleiro. Foi um 0a0 com encanto, porque quando lembrarmos desse placar, lembraremos de sua performance. Não teria a mesma graça se a partida terminasse 1a1, por exemplo.

Claro que houve um outro grande facilitador para o jogo terminar sem gol: Luiz Felipe Scolari, aquele indivíduo que comanda a seleção brasileira e que muitos acham apropriado chamar de "técnico". Eu sinceramente me sinto mais seguro de chamar Ochoa de goleiro do que Felipão de técnico. Goleiro é aquele que está lá para defender, e Ochoa sabe fazer isso. Técnico é aquele que está lá para organizar, dar padrão de jogo, transformar o time quando necessário. Não vejo nenhuma dessas características em Scolari. Não vi no ano do título de 2002, não vejo doze anos depois. Mas sigamos em frente, o futuro a Deus pertence. Quem diria que uma ex-guerrilheira se tornasse presidente para defender o grande capital em detrimento de gente? Pode ser que um dia Felipão vire técnico. Só acho que não dará tempo de fazê-lo nessa Copa. Enquanto isso, deixo os aplausos para Ochoa, goleiro.

Copa 2014: Seleção Da Primeira Rodada

A Copa do Mundo 2014 começou com bons jogos (destaques para as estréias de Holanda e Alemanha diante de Espanha e Portugal), boa média de gols (somente um 0a0, num total de dois empates em dezesseis jogos) e algumas agradáveis surpresas (a vitória da Costa Rica sobre o Uruguai talvez tenha sido a maior delas). Porém, há que se ressaltar que falta organização no acesso ao estádio, sobra repressão e covardia policial nas manifestações, muitos gramados estão abaixo do nível do aceitável e as arbitragens beiram o caos. Até a propagandeada tecnologia da linha do gol levanta suspeitas. Quem tem que entrar é a bola ou o chip? Sensores nos árbitros já!

Bora para a seleção da primeira rodada no Mundial 2014. Foram assistidos catorze jogos inteiros, além do segundo tempo de México e Camarões e quase nada de Irã e Nigéria.

Titulares
Goleiro: Pletikosa (Croácia)
Defensor direito: De Vrij (Holanda)
Defensor centro: Kolasinac (Bósnia & Herzegovina)
Defensor esquerdo: Rodríguez (Suíça)
Primeiro volante: Luiz Gustavo (Brasil)
Segundo volante: Inler (Suíça)
Meia: Müller (Alemanha)
Meia: Oscar (Brasil)
Meia: Messi (Argentina)
Meia: Robben (Holanda)
Atacante: Campbell (Costa Rica)
Técnico: Van Gaal (Holanda)

Suplentes
Goleiro: M'Bolhi (Argélia)
Defensor direito: Uchida (Japão)
Defensor central: Hummels (Alemanha)
Defensor esquerdo: Alba (Espanha)
Primeiro volante: Matuidi (França)
Segundo volante: Pirlo (Itália)
Meia: Cuadrado (Colômbia)
Meia: Dempsey (Estados Unidos)
Meia: Sturridge (Inglaterra)
Atacante: Benzema (França)
Atacante: Van Persie (Holanda)
Técnico: Löw (Alemanha)

Destaque: Arjen Robben.

Com muita velocidade, habilidade e perfeita noção de posicionamento em campo, o carequinha canhoto da Holanda bagunçou a defesa espanhola, sendo figura protagonista na construção da surpreendente goleada por 5a1 da seleção comandada por Louis Van Gaal diante dos atuais campeões do mundo, numa reedição da final jogada na África do Sul há quatro anos. O lance do gol em que arrancou a mais de 37 quilômetros por hora aos 35 minutos do segundo tempo e deixou Casillas esticado no gramado foi algo de antológico.

Mantendo esse nível, não há como duvidar das possibilidades de a Holanda levantar o troféu no Maracanã em julho. É muito difícil conseguir deter alguém com tamanha forma técnica e física, o que é particularmente comemorável em se tratando de Robben, pois sua brilhante carreira só não foi (ainda) mais longe por causa de seguidas lesões.
Arjen Robben comemora: com atuação de gala, camisa onze foi um dos destaques na goleada da Holanda sobre a Espanha, em Salvador, num dos melhores jogos de Copa do Mundo nos últimos tempos.